Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos

4. Japão: primazia da qualidade

JAPÃO: PRIMAZIA

 

DA QUALIDADE

 

Em viagem que fiz ao Japão, em outubro de 1988, participando de Missão Técnica para tomar contato com sistemas de administração baseados em estratégia de Qualidade, tive a oportunidade de observar o estilo japonês de administração, através de seminários e visitas a empresas, verificando, in loco, a operacionalização do tão falado modelo japonês.

Para compreender o funcionamento dos mecanismos da administração japonesa é preciso, antes de tudo, entender o sistema de valores e a cultura milenar daquela sociedade, o que nem sempre, é tão transparente. Por isso uma leitura acurada do que está por trás das estruturas sociais, dentro das empresas, nos faz encontrar o sentido das decisões e compreender o direcionamento do comportamento do trabalhador japonês.

Embora a juventude comece a questionar determinados valores, como por exemplo o emprego vitalício ou mesmo a senioridade, é o esquema tradicional que prevalece e caracteriza a cultura japonesa.

 

Qualidade Total: convergência de objetivos

 

O conceito de Qualidade, implantado a partir da década de 50, sofreu um processo constante de aperfeiçoamento, desenvolvendo uma verdadeira mentalidade voltada para a Qualidade, na qual a Qualidade Total representa o atual estágio de evolução.

A Qualidade Total é, pois, uma filosofia que envolve toda a Organização, transcendendo sua atuação aos fornecedores e ao mercado e chegando, inclusive, à área governamental, em uma abordagem holística, ou seja, do todo.

Nessa visão, não existe área menos ou mais importante; todas elas são convergentes, em prol dos objetivos da Organização.

Praticada com o envolvimento pleno e a partir da administração superior, o TQC-TOTAL QUALITY CONTROL é assumido por todos e, junto com o conceito de Market In, produz um grau elevado de sinergia na administração, fazendo com que cada área funcione como fornecedor e cliente ao mesmo tempo, diagnosticando e suprindo necessidades, seja através de produtos, seja de serviços.

Fazer perfeito da primeira vez é quase uma obsessão, um compromisso que é assumido, desde o mais simples empregado ao executivo principal da Organização.

O pragmatismo é exercitado de maneira efetiva, em todos os níveis, buscando-se sempre dados e fatos para fundamentar decisões. Há uma verdadeira ojeriza pelo “achismo”.

O uso da estatística é generalizado e sua aplicação no chão de fábrica é uma constante. Aliás, acredito ser a educação do povo japonês um dos pilares de seu desenvolvimento, visto que facilita a absorção de novas tecnologias, sem necessariamente provocar desemprego, considerando o alto grau de flexibilidade e mobilidade que possui a mão de obra.

Quando se fala de processo decisório, a utilização do consenso é uma prática habitual. Neste aspecto, os críticos ocidentais colocam a lentidão como grande desvantagem deste sistema. Entretanto, se o processo decisório é reconhecidamente lento, a implementação é rápida, já que o grau de comprometimento é efetivamente elevado.

Todos sabemos o quanto é importante o comprometimento para o sucesso das decisões.

As empresas investem, de forma maciça, na educação do homem e no seu crescimento. Crescendo, ele aumenta sua contribuição à Organização. Obviamente, esta é uma visão a longo prazo porém, com retorno garantido. O desenvolvimento de habilidades também é prioritário, dando-se ênfase ao treinamento no próprio local de trabalho, utilizando-se o mais habilitado como treinador; geralmente, o mais velho.

Aqui, cabe uma observação importante: o aproveitamento pleno dos empregados seniores, na tarefa de transmitir aos mais jovens toda sua bagagem de conhecimento e experiências. É a valorização do conhecimento adquirido através dos anos e, neste caso, a obsolescência é minimizada por essa postura pró-ativa, inteligente e dignificante.

Neste quadro, a figura do empregado polivalente aparece como elemento-chave na flexibilidade de que hoje dispõe a indústria japonesa, facilitando a sucessão, a carreira e o próprio desenvolvimento da empresa.

Por outro lado, a preocupação com a comunicação interna é muito grande, apesar do trabalho participativo colaborar para isso. O esforço que se faz para tornar a comunicação efetiva é representativo porém, com maior preocupação para o conteúdo do que para a forma e sem sofisticações.

Quanto à possibilidade de se aplicar o modelo japonês à realidade brasileira, isto me parece possível, desde que sejam considerados os valores e a cultura de nosso país, com a aculturação das técnicas e ferramentas gerenciais e considerando uma intervenção evolutiva, a longo prazo.

Tratar-se-ia de um processo de mudança planejada envolvendo, simultaneamente, a dimensão do comportamento e a estrutural, em uma abordagem sócio-técnica que oferecesse consistência e elasticidade às transformações esperadas.

Reconhecemos barreiras à operacionalização de um projeto desta magnitude, como por exemplo: discurso diferente da prática, manutenção do estabelecido, modismo, visão introspectiva, superficialidade, etc. Contudo, as técnicas e estratégias de qualidade, praticadas no Japão, quando introduzidas aqui, deveriam ser precedidas de um trabalho de base, elevando-se a educação básica do operariado, com a finalidade de propiciar a introdução destas técnicas que, mesmo assim, necessitariam ser adaptadas à realidade empresarial brasileira. Em minha visão, o grande conflito seria o de compatibilizar a expectativa de curto prazo, dos dirigentes brasileiros, aos resultados de médio e longo prazo que um modelo de Qualidade Total costuma oferecer.

Por outro lado, o salto qualitativo que nos exige o mundo, em acelerada transformação, para que nos coloquemos lado a lado com as empresas competitivas do primeiro mundo, por certo também exigiria um “redesenho” organizacional radical que criasse as condições básicas, para um posterior processo de evolução contínua, como o TQC.

Em síntese, optar pela primazia da qualidade representa adotar um estilo de administração voltada para a excelência de resultados, com foco no mercado e a prática de uma visão “holística” , onde a participação e o comprometimento dos empregados são exercitados em toda sua plenitude.