Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos

3. A descoberta da vocação

A DESCOBERTA DA

 

VOCAÇÃO

 

Fazer administração de empresas em 1978, embora como segunda opção, foi um grande desafio, pois sempre me imaginei arquiteto. Talvez influenciado pelos grandes arquitetos de Brasília, sonhava eu com traços originais e belas edificações. Mas, depois dos dois primeiros e duros anos básicos, comecei a me encontrar com a administração, provavelmente estimulado pelo trabalho que começava a desenvolver na Cia. Souza Cruz, como trainee de manufatura, onde cumpri treze meses de estágio em todas as áreas da companhia, antes de assumir meu primeiro cargo de supervisão na produção.

Minha experiência na área de manufatura foi bem sucedida, pois, com três anos de empresa, já havia galgado o cargo de superintendente de turno, uma espécie de gerente de produção à época. Aos 25 anos de idade me sentia no caminho da realização profissional, mas, lá dentro de mim, algo me dizia que aquela satisfação tinha a ver com outras coisas que eu vinha fazendo, muito mais do que com minha integração com a área de manufatura.

A proeza que eu havia conseguido de reverter resultados negativos em positivos, em um curto espaço de tempo, me levava a questionar o porquê. Eu queria uma resposta, mas como? Com certeza tinha eu muito “drive” e vontade de acertar, além de uma liderança aceita por todos os membros de minha seção, mais de 200 empregados, especialmente pelos mais antigos, não optantes que eu havia conquistado, pelo respeito com que os tratava. Mas, tinha consciência de que isso não era tudo, embora ainda não soubesse com precisão a resposta.

Lembro-me bem das noites mal dormidas e das horas de reflexão que investi, para descobrir se meu caminho profissional estava ligado à administração de pessoas e não com a administração da produção. Duro e gratificante ao mesmo tempo, foi perceber que, apesar de bem-sucedido em manufatura, o que de fato me atraía era gerir pessoas e conseguir resultados, através do trabalho organizado delas. E as máquinas? Tinha eu uma aptidão mecânica e só.

Muito mais difícil foi decidir por outro percurso e convencer minha família de que eu estava certo em minhas análises. Afinal, como poderia um jovem e promissor administrador de produção, morando em uma cidade do nordeste sem muitas alternativas de emprego, optar por outra carreira ainda sem grande expressão? Um sonho? Ou o encontro com sua verdadeira vocação? Começava eu a entender que a busca constante de nossa verdade pode nos levar a encontrar a realização nas mais diferentes dimensões da vida.

Devo ressaltar a aguçada sensibilidade de perceber o futuro desta função empresarial que tinha Frederico de Melo Guimarães, meu entusiasmado professor de Recursos Humanos na faculdade um dos mentores do meu novo plano de carreira e, também, um daqueles que me ajudou a transformar meu sonho em realidade, mostrando-me as imensas oportunidades daquela nova carreira.

A partir da compreensão de que recursos humanos era minha vocação, pude expandir minha atuação e contribuir para as empresas nas quais trabalhei e, por conseguinte, para a sociedade. É muito importante trabalhar no que se gosta, pois isto possibilita uma evolução constante que termina causando um impacto positivo na realização profissional e pessoal.

Em fevereiro de 1973, quando tomei a decisão de optar por outra carreira, no domingo que se seguiu àquela atitude, um anúncio de quase um quarto de página, no mais famoso jornal de Pernambuco, procurava por um “Gerente de Recursos Humanos”. Apresentava-se aí minha grande e difícil oportunidade, pois, possuindo apenas conhecimentos acadêmicos sobre a área, concorreria com profissionais já com experiência e assim, teria pela frente uma seleção muito difícil.

O que era uma aparente desvantagem, transformou-se em um fator diferenciador, pois não sendo um administrador de pessoal clássico, mas um entusiasta da gestão de Recursos Humanos, uma abordagem mais moderna, à época, isto me colocava em relativa vantagem com relação aos outros candidatos. Assim, após uma sessão de entrevistas, fui convidado a ocupar o cargo de “Gerente de Recursos Humanos”, em uma empresa com mais de 4.000 empregados.

Desta forma, começava minha nova trajetória profissional: em uma nova área e em uma empresa familiar, no início de seu processo de profissionalização. Dois grandes desafios.

Confesso que no início me senti um pouco perdido pois a empresa era grande e carecia de organização. Porém, após alguns poucos meses, a poeira já havia baixado e eu começava a enxergar oportunidades e a contribuir na minha missão de organizador. Com certeza, a pouca idade que tinha àquela época, ao mesmo tempo que me permitia não limitar a ousadia, por outro lado também me fazia sentir falta de experiência que o bom senso, às vezes, tentava suprir.

Com mais acertos que erros, fui me firmando como administrador da área de Recursos Humanos e conseguindo realizar trabalhos interessantes, alguns até pretensiosos para aquele momento, como, por exemplo, melhorar o nível do pessoal operacional com a introdução do part-time que possibilitaria que estudantes trabalhassem parte de seu tempo conosco. Como somos diferentes dos Estados Unidos, o preconceito prejudicou o projeto, embora tenha tido, como subproduto, uma boa repercussão no mercado de trabalho de Recife.

Após um ano e meio, a Souza Cruz me convidou para voltar, já agora, na área de Recursos Humanos e dentro de um novo e interessante contexto de mudanças. Assim, tive a oportunidade de vivenciar um dos melhores momentos da área na companhia, repleta de desenvolvimento de novos projetos e de trabalhos de impacto nos resultados empresariais. Poderia até afirmar que a década de 80 foi a década de ouro de Recursos Humanos na Souza Cruz, marcada por grandes realizações e por uma imensa projeção da área, dentro e fora da companhia.

Hoje, afirmo que a ousadia de questionar o estabelecido, vinte anos atrás e lutar para realizar um sonho, valeu a pena. Reconhecido como um profissional bem sucedido, posso dizer que encontrar a verdadeira vocação, muitas vezes, exige coragem de desafiar os paradigmas existentes e a perseverança em acreditar no que muitos consideram impossível.