Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 9 de 37

Páginas do PDF

Aguapés

Capítulo 2

 

No segundo ano do curso de doutorado, Subhash m orava sozinho, pois agora Richard tinha ido em bora, para trabalhar com o professor em Chicago.

No sem estre de prim avera, ele passou três sem anas a bordo de um navio de pesquisas, com um grupo de estudantes e professores. Enquanto o navio avançava, a água se abria num sulco espum arado que desaparecia enquanto ainda se estava form ando. A linha costeira recuou, descansando calm am ente com o um a delgada serpente castanha acim a da água. Ele observava enquanto a terra firm e se encolhia e se apagava.

À luz do sol, quando pegaram velocidade, ele sentiu o vento no rosto, a turbulência violenta da atm osfera. Atracaram inicialm ente na baía de Buzzards. Um a barcaça havia colidido contra as pedras na costa de Falm outh dois anos antes, encalhando num a noite de neblina, derram ando quase duzentos m il galões de com bustível. O vento im pelira o óleo até Wild Harbor. Os hidrocarbonetos tinham m atado a vegetação do m angue. Os uçás, não conseguindo se enterrar na lam a, congelaram ali m esm o.

Fazia um ano e m eio que não via a fam ília. Não se sentava com eles para a refeição ao final do dia. Em Tolly gunge, a fam ília não tinha telefone. Enviara um telegram a para avisar que tinha chegado. Estava aprendendo a viver sem ouvir suas vozes, a receber notícias deles apenas por escrito.

As cartas de Uday an não m encionavam m ais Naxalbari nem term inavam com palavras de ordem . Ele não com entava nada sobre política. Em vez disso, escrevia sobre partidas de futebol, sobre um a coisa ou outra no bairro — um a loj a que estava fechando, um a fam ília conhecida se m udando. O últim o film e de Mrinal Sem .

Perguntava a Subhash com o iam os estudos e com o passava os dias em Rhode Island. Queria saber quando Subhash voltaria a Calcutá e perguntou, num a das cartas, se pensava em se casar.

Subhash guardou algum as dessas cartas, pois j á não parecia necessário destruí-las. Mas o tom de am enidade delas o intrigava. A caligrafia era a m esm a, m as pareciam escritas por outra pessoa. Ele se perguntava o que estaria acontecendo em Calcutá, o que Uday an poderia estar dissim ulando. Perguntava-se com o estaria a relação entre ele e os pais.

As cartas dos pais se referiam a Gauri apenas indiretam ente e apenas com o exem plo do que não fazer. Esperamos, quando chegar a hora, que você confie em nós para acertarmos seu futuro, para escolhermos sua esposa e estarmos presentes a seu casamento. Esperamos que você não desconsidere nossos desejos, como fez seu irmão.

Ele respondia, assegurando à m ãe e ao pai que eles arranj ariam seu casam ento. Mandava um a parte de seus vencim entos para aj udar a pagar a reform a da casa, escrevia dizendo que ansiava em revê-los. No entanto, dia após dia, longe deles, ignorava-os.

Uday an não estava sozinho; tinha ficado em Tolly gunge, apegado ao lugar, ao m odo de vida que sem pre conhecera. Provocara os pais, m as continuava a ser protegido por eles. A única diferença era que estava casado e que Subhash não estava lá. E Subhash se perguntava se a m oça, Gauri, j á havia tom ado seu lugar.

Num dia nublado de verão, ele foi à praia no final do cam pus. De início, não viu ninguém , exceto um pescador apanhando pargos na ponta do píer. Nada além de ondas baixas batendo nas pedras cinzentas e am arelas. Então viu um a m ulher andando com um a criança e um cachorro bem preto.

A m ulher estava catando gravetos na areia e atirando ao cachorro. Usava tênis sem m eias, um a capa im perm eável. Um a saia de algodão se enfunava na altura dos j oelhos.

O m enino segurava um balde, e Subhash ficou a observar enquanto desam arravam os tênis e andavam pelas pedras, entrando nas poças de água da m aré. Procuravam estrelas-do-m ar. O m enino estava frustrado, reclam ando que não encontrava nenhum a.

Subhash enrolou a barra das calças. Tirou os sapatos e entrou na água, sabendo onde elas ficavam escondidas. Arrancou um a de um a das pedras e deixou que descansasse, rígida, m as viva, na m ão em concha. Virou a palm a para m ostrar o lado de baixo, apontando os ocelos nas extrem idades.

Sabe o que acontece se eu puser no seu braço por um instante?

O m enino abanou a cabeça.

Ela vai puxar seus pelinhos.

Dói?

Não, doer não dói. Deixa eu te m ostrar.

De onde você é?, perguntou a m ulher.

O rosto dela era sim ples, m as atraente, o azul-claro dos olhos com o a beirada da concha de um m exilhão. Parecia um pouco m ais velha do que Subhash. Tinha cabelo com prido, louro acastanhado, capim do brej o no inverno.

Da Índia. Calcutá.

Deve ser bem diferente.

É.

Você gosta daqui?

Ninguém lhe tinha perguntado até então. Ele fitou a água, as vigas de aço das duas pontes atravessando a baía: a parte central em cantiléver da prim eira, m ais baixa, e as torres altas de aço da segunda. A ondulação sim étrica da Newport Bridge, recém -concluída, tinha cabos e portais em arco que se acendiam à noite.

Um dos professores lhe contara sobre a construção da ponte. Se estendessem os fios de todos os cabos suspensos, daria treze m il quilôm etros de um a ponta a outra. Era a distância dos Estados Unidos até a Índia, a distância que agora o separava de sua fam ília.

Ele viu o pequeno farol de form ato quadrado, com três j anelas, com o três botões de um a cam iseta polo, que ficava no extrem o da Dutch Island. Havia um píer de m adeira que term inava num abrigo coberto, com barcos atracados se proj etando para um dos lados da praia. Havia alguns veleiros no m ar, pontos brancos no azul-m arinho da água.

Às vezes penso que encontrei o lugar m ais lindo do m undo, disse.

Ele não era dali, m as talvez não tivesse im portância. Queria dizer que esperara a vida toda encontrar Rhode Island. Que era ali, nesse cantinho pequeno m as m aj estoso do m undo, que podia respirar.

Ela se cham ava Holly. O m enino, Joshua, tinha nove anos e as férias de verão acabavam de com eçar. O cachorro se cham ava Chester. Moravam em Matunuck, perto de um dos lagos salinos. Costum avam vir à praia do cam pus para passear com o cão. Tinham conhecido o local porque ali perto m orava a m ulher que cuidava de Joshua nos dias em que Holly trabalhava com o enferm eira num pequeno hospital em East Greenwich.

Ela não com entou o que o m arido fazia. Mas Joshua se referiu a ele à tarde, perguntando a Holly se o pai viria buscá-lo naquele final de sem ana para pescar. Subhash im aginou que, naquele horário, ele estivesse trabalhando em algum escritório.

Na vez seguinte em que viu o carro de Holly estacionado no local, Subhash se arriscou a cum prim entá-la. Ela parecia contente em vê-lo, acenando à distância, Chester saltando à sua frente, Joshua se arrastando atrás.

Com eçaram a cam inhar j untos, devagar, enquanto conversavam , indo e voltando pela pequena extensão da praia. Havia algas espalhadas por toda parte, fucos com seus aerocistos que pareciam uvas alaranj adas de textura trançada, fragm entos solitários de alfaces-do-m ar, em aranhados de lam inariales cor de ferrugem entre as ondas. Um a água-viva tinha vogado desde o Caribe, aplastrada com o um crisântem o achatado na areia firm e.

Quando ele lhe perguntou sobre seu passado, ela contou que nascera em Massachusetts, que a fam ília era franco-canadense, que m orava em Rhode Island durante quase toda a vida. Era form ada em enferm agem . Ela lhe perguntou de seus estudos e ele contou que, depois dos trabalhos de curso, teria de fazer um exam e geral, desenvolver algum a pesquisa original, apresentar um a tese.

Quanto tem po tudo isso vai levar?

Uns três anos. Talvez m ais.

Holly conhecia tudo sobre as aves m arinhas. Mostrou-lhe com o diferenciar patos-de-touca-branca e rabij uncos, gaivotas e andorinhas-do-m ar. Apontou os m açaricos dando corridinhas até a praia e voltando ao m ar. Quando ele descreveu a garça que vira em seu prim eiro outono em Rhode Island, ela disse que era um a garça-azul-grande j ovem e não em plum ada.

Indo ao carro pegar um par de binóculos, ela lhe m ostrou com o aum entar o foco para ver um bando de m ergansos, batendo as asas em form ação constante por sobre a baía.

Você sabe o que os filhotes de taram bola fazem ?

Não.

Eles se j untam todos no céu porque os adultos ficam se cham ando entre si. Fazem todo o percurso da Nova Escócia até o Brasil, só descansando de vez em quando em cim a das ondas.

Eles dorm em no m ar?

Eles percorrem o m undo m elhor do que nós. Com o se tivessem um a bússola em butida no cérebro.

Ela quis saber sobre as aves da Índia, e ele descreveu as que provavelm ente lhe eram desconhecidas. Estorninhos nativosque faziam ninhos nas paredes, cucos indianos que gritavam por toda a cidade no com eço da prim avera. Coruj inhas pintadas piando ao anoitecer em Tolly gunge, estraçalhando gecos e cam undongos.

E você?, perguntou ela. Vai voltar para Calcutá quando term inar?

Se conseguir em prego por lá.

Pois ela tinha razão; o que supunham , seus parentes, ele m esm o, era que sua vida aqui era tem porária.

Do que você sente falta?

Foi lá que m e criei.

Contou-lhe que tinha pais, um irm ão um pouco m ais novo. Contou que agora tinha um a cunhada, um a m oça que ainda não conhecia.

Onde seu irm ão e a m ulher dele m oram , agora que estão casados?

Com m eus pais.

Explicou que as filhas, quando se casavam , iam m orar com os sogros e os filhos ficavam em casa. Que as gerações não se separavam , com o faziam aqui.

Ele sabia que, para Holly e provavelm ente para qualquer am ericana, era im possível im aginar aquela vida. Mas ela refletiu no que ele havia dito.

Em certo sentido, parece m elhor.

Um a tarde, Holly estendeu um a m anta, desem brulhando sanduíches de queij os, cenouras e pepinos cortados em palito, am êndoas e frutas fatiadas. Dividiu com ele essa refeição sim ples e, com o a luz foi dim inuindo, aquele foi o j antar dos dois. Durante a conversa, enquanto Joshua brincava a algum a distância, ela com entou que era separada do pai de Joshua. Fazia quase um ano.

Ela fitou a água, as pernas dobradas, os j oelhos curvados, enlaçando-os levem ente com os dedos. Naquele dia, usava o cabelo com o um a colegial, duas tranças descendo pelos om bros.

Ele não queria bisbilhotar. Mas, sem que perguntasse, ela disse: Agora ele está com outra.

Ele entendeu que ela estava deixando um a coisa m uito clara. Que era m ãe, m as não pertencia a m ais ninguém .

Era a presença de Joshua, sem pre com eles, sem pre entre eles, que continuava a m otivá-lo a procurar Holly. Mantinha a am izade dos dois sob controle. Sob o céu aberto, na praia com ela, ele esvaziava a m ente. Até então, vinha trabalhando à noite e nos finais de sem ana sem interrupção. Com o se os pais o vigiassem , m onitorando seus progressos, e ele lhes provando que não estava desperdiçando seu tem po.

Num dia especialm ente quente, quando ela estava apenas com um a cam isa, ele viu o contorno de um dos lados de seu corpo. A curva da axila.

Quando ela desabotoou e tirou a blusa, revelando a parte de cim a do biquíni que usava por baixo, ele notou a pele frouxa do ventre. Os seios redondos, m uito separados, eram levem ente voltados para fora. Os om bros eram pintalgados de sardas de m uitos verões ao sol.

Ela se estendeu na praia enquanto ele brincava com Joshua na beira do m ar. Joshua o cham ava de Subhash, com o Holly. Era um m enino m eigo, que só falava quando se dirigiam a ele, que se sentia atraído, m as tam bém desconfiado de Subhash.

Form aram um a aliança provisória, atirando pedras e brincando com Chester, que cabriolava na água para se lavar, sacudindo o pelo, voltando aos saltos com um a bola de tênis na boca. De óculos escuros, Holly os observava deitada de bruços, às vezes fechando os olhos, cochilando um pouco.

Quando Subhash voltou, para enxugar a pele que se bronzeava depressa, ela não ergueu os olhos do livro que estava lendo, nem se afastou quando ele se aj eitou a seu lado na toalha, tão perto dela que seus om bros quase se encostavam .

Ele percebia os grandes abism os que os separavam . Não era apenas o fato de ser am ericana e talvez uns dez anos m ais velha do que ele. Ele estava com vinte e sete anos e im aginava que ela teria uns trinta e cinco. Era que ela j á se apaixonara, fora casada, tinha um filho e sofrera um a decepção am orosa. Ele ainda não passara por nenhum a dessas coisas.

 

Então, um a tarde, indo encontrá-la, ele viu que Joshua não estava lá. Era um a sexta-feira e o m enino ia passar a noite com o pai. Era im portante que Joshua m antivesse o contato com ele, disse ela.

Subhash ficou perturbado ao pensar em Holly falando com o pai de Joshua, com binando esses planos. Com portando-se sensatam ente com um hom em que a ferira. Talvez até chegando a vê-lo, quando deixava Joshua com ele.

Quando com eçou a cair um a garoa fina logo depois de estenderem a toalha, Holly o convidou para j antar em sua casa. Disse que tinha um guisado na geladeira que daria para os dois. E ele aceitou, não querendo se separar dela.

Enquanto a chuva engrossava, ele seguiu atrás dela para Matunuck, no carro de Richard. Ainda pensava assim , em bora tivesse com prado o carro de Richard, quando ele se m udou para Chicago.

Depois da autoestrada, a paisagem ficava m ais plana e vazia. Seguiu por um a estrada de terra ladeada de j uncos. Então chegou a um cenário de poucas cores, areia, céu e m ar.

Manobrou na entrada de carros atrás dela, o cascalho de conchas estralando sob os pneus enquanto reduzia a m archa e parava o carro. Os fundos do chalé davam para um lago salino. Não havia gram a ou j ardim na frente, apenas um trecho de cerca enviesada, as estacas unidas por aram e enferruj ado. Havia algum as outras casas térreas por ali, de construção sim ples.

Por que as j anelas estão fechadas com tábuas?, ele perguntou observando a casa m ais próxim a da dela.

Por causa dos tem porais. Não tem ninguém m orando ali atualm ente.

Ele olhou as outras casas que estavam à vista, todas dando para o m ar. De quem são essas?

De gente rica. Eles vêm de Boston ou de Providence no final de sem ana, agora que é verão. Alguns passam um a ou duas sem anas. Quando chega o outono, todos j á foram em bora.

Ninguém aluga, quando estão vazias?

Às vezes alguns estudantes, porque são baratas. Na prim avera, eu era a única aqui.

O chalé de Holly era m inúsculo: um a cozinha e um a saleta na frente, um banheiro e dois quartos no fundo, teto baixo. Mesm o a casa de sua fam ília parecia m ais espaçosa. Ela não precisou de chave para abrir a porta.

O rádio estava ligado, transm itindo a previsão do tem po enquanto eles entravam . Fortes pancadas ocasionais de chuva à noite. Chester os recebeu aos latidos, abanando o rabo e se esfregando nas pernas deles.

Você se esqueceu de desligar?, ele perguntou enquanto ela abaixava o volum e do rádio.

Deixo ligado. Detesto voltar para um a casa em silêncio.

Ele lem brou o rádio de ondas curtas que tinha m ontado com Uday an, transm itindo notícias do m undo inteiro para outro local rem oto e isolado. Percebeu que, em certo sentido, Holly era m ais solitária do que ele. O isolam ento dela, sem m arido, sem vizinhos, parecia m uito grande.

O telhado do chalé era fino com o um a m em brana, o tam borilar da chuva parecendo um a saraivada de granizo. Havia areia por toda parte, entre as alm ofadas do sofá, no chão, no tapete redondo em frente à lareira, onde Chester gostava de ficar.

Ela deu um a varrida rápida, tal com o varriam a poeira duas vezes por dia em Calcutá, e fechou as j anelas. A cornij a da lareira estava coberta de pilhas de pedras e conchas, de destroços trazidos pelo m ar; a decoração da casa parecia se resum ir a isso.

Ele olhou pela j anela, vendo o oceano coberto por nuvens carregadas de tem pestade, a areia escura na beira do m ar.

Por que se dar ao trabalho de ir à praia do cam pus, se você tem tudo isso aqui?

Para variar. Adoro chegar até o pé daquele m onte.

Estava ocupada na cozinha. Ligando o forno, enchendo a pia de água, deixando as folhas de alface de m olho.

Você acende o fogo?

Ele foi até a lareira e olhou. Havia lenha de um lado, um j ogo de instrum entos de ferro. Algum as cinzas dentro. Ele retirou a proteção. Viu um a caixinha de fósforos na cornij a.

Vou te m ostrar, disse ela, j á a seu lado sem que ele precisasse se virar e perguntar.

Ela abriu a passagem do cano da cham iné, então aj eitou a lenha m ais grossa e os gravetos m ais finos. Estendendo-lhe um dos ferros, disse a ele para cutucá-los quando o fogo pegasse. Ele se sentou de prontidão, m as ela tinha acendido o fogo com toda a perfeição. A única coisa a fazer era deixar que as cham as lhe aquecessem o rosto e as m ãos enquanto Holly preparava a com ida.

Ele se perguntou se seria aqui que ela m orava com o pai de Joshua e se foi nesta casa que ele a abandonou. Algo lhe dizia que não. Só havia coisas de Holly e de Joshua. As duas capas de chuva e as j aquetas de verão nos ganchos atrás da porta, as botas e as sandálias alinhadas em baixo.

Você pode dar um a conferida na j anela em cim a da cam a de Joshua? Acho que deixei aberta.

O quarto do m enino parecia um a cabine de navio, baixo e apertado. Ele viu a cam a sob a j anela, coberta com um a m anta xadrez, o travesseiro encharcado de chuva.

No chão, em baixo de um a estante, estava um quebra-cabeça inacabado, com cavalos pastando num a cam pina, com o a m oldura de um a im agem faltante. Ele se agachou e enfiou a m ão dentro da caixa, revirando entre peças que pareciam idênticas e, no entanto, eram diferentes.

Ao levantar, notou um retrato em cim a da côm oda de Joshua. Subhash viu na hora que era o pai de Joshua, o m arido de Holly. Um hom em de calção, descalço, em algum a praia, com um a versão m enor de Joshua encarapitado nos om bros. Erguia o rosto para o filho, os dois rindo.

Holly o cham ou para j antar. Com eram frango ao m olho de vinho e cogum elos, tendo com o acom panham ento fatias de pão aquecido no forno, em vez de arroz. O sabor era com plexo, agradável, m as sem nada picante.

Ele retirou a folha de louro que ela colocara com o tem pero. Tem um loureiro atrás da casa de m inha fam ília, disse ele. Só que a folha tem o dobro do tam anho.

Quando for visitá-los, você m e traz algum as?

Ele disse que traria, m as, na com panhia dela, parecia irreal que algum dia voltasse a Tolly gunge e à fam ília. Ainda m ais irreal que Holly fosse se incom odar em passar algum tem po com ele, quando voltasse.

Ela lhe contou que m orava no chalé desde setem bro passado. O pai de Joshua se prontificara a sair da casa onde m oravam , perto da Ministerial Road, m as ela não quis ficar lá. O chalé era de seus avós. Quando m enina, passava algum tem po aqui.

Depois do ensopado, vieram fatias de um bolo de m açã e canecas de chá de lim ão. Enquanto a chuva caía m ais forte, açoitando as vidraças, Holly falou de Joshua. Sentia-se preocupada com os efeitos da separação sobre ele. Desde que o pai fora em bora, disse ela, Joshua tinha se fechado, com m edo de coisas que nunca o atem orizaram antes.

Que coisas?

Medo de dorm ir sozinho. Você vê com o nossos quartos ficam perto um do outro. Mas à noite ele vem para m inha cam a. Fazia anos que não se com portava assim . Ele sem pre adorou nadar, m as neste verão fica assustado na água, tem m edo das ondas. E não quer voltar para a escola no outono.

No outro dia, ele nadou na praia.

Talvez porque você estivesse lá.

Chester com eçou a latir e Holly se levantou e prendeu a guia na coleira. Cobriu-se rapidam ente com a capa de chuva e pegou um a som brinha na entrada.

Você fica aqui que está seco. Volto em um ou dois m inutos.

Enquanto esperava, ele foi até a pia e lavou os pratos. Estava adm irado com a vida independente de Holly. E tam bém levem ente aflito por causa dela, m orando sozinha num lugar tão afastado, sem se preocupar em trancar a porta. Não havia ninguém para aj udá-la, tirando a babá que cuidava de Joshua quando ela estava no trabalho. Em bora os pais estivessem vivos, em bora m orassem perto, em outro lugar de Rhode Island, não tinham vindo cuidar da filha.

Apesar disso, ele não se sentia totalm ente a sós aqui com ela. Havia Chester, havia as roupas e os brinquedos de Joshua. Havia até um a foto do hom em que ela am ara.

É a prim eira noite em m uito tem po que não preciso lavar a louça depois do j antar, disse ela voltando. Os pratos e copos tinham sido guardados, o pano de prato estava secando pendurado num gancho.

Não m e incom oda.

Não vai ter problem a, voltar para casa com esse tem po? Quer um a j aqueta?

Não, problem a nenhum .

Vou te acom panhar até o carro com um guarda-chuva.

Ele pegou a m açaneta. Mas não queria ir; ainda não queria deixá-la. Enquanto estava ali vacilando, sentiu que ela com prim ia o rosto de leve nas costas de sua cam isa. Então a m ão dela, em seu om bro. A voz dela, perguntando se queria ficar.

Seu quarto era igual ao de Joshua. Mas, com o a cam a era m aior, não havia espaço para praticam ente m ais nada. Dentro desse quarto, ele pôde esquecer o que seus pais pensariam e as consequências do que estava para fazer. Esqueceu tudo o que não fosse o corpo da m ulher na cam a com ele, passando os dedos pela concavidade do pescoço, pela saliência das clavículas, descendo à pele m ais m acia dos seios.

A superfície de sua pele o fascinava. Todas as pequeninas m arcas e im perfeições, os desenhos das sardas, pintas e sinais. A gam a de tons e nuances que ela possuía, não só as partes em contraste com o bronzeado do corpo que via pela prim eira vez, m as tam bém um a m escla intrínseca, m ais sutil, serenam ente variegada com o um a m ancheia de areia, que só podia discernir agora, à luz da lâm pada.

Ela deixou que tocasse o ventre flácido, a m oita áspera, m ais escura que os cabelos, entre suas pernas. Quando ele parou, inseguro, ela o fitou incrédula.

Sério?

Ele virou o rosto. Eu devia ter dito.

Subhash, não faz m al. Não m e im porto.

Ele sentiu os dedos dela pegando o m em bro ereto, colocando-o no lugar, puxando-o para si. Ele estava constrangido, excitado. Sentia e fazia o que, até então, apenas im aginara. Movia-se dentro dela, contra ela, inconsciente e tam bém consciente, com todos os nervos de seu ser, de suas origens.

A chuva tinha cessado. Ele ouviu o ruído da água, das folhas da árvore que se espraiava sobre o telhado da casa dela, um ruído que parecia um a sucessão salteada de aplausos. Estendeu-se ao lado dela, pretendendo voltar a seu apartam ento antes de raiar o dia, m as, depois de alguns instantes, percebeu que Holly não estava apenas em silêncio. Sem dizer nada, tinha adorm ecido.

Parecia errado despertá-la ou sair sem avisar. Então ele ficou. Na cam a aquecida com o calor dos corpos, de início não conseguiu dorm ir. A presença dela o distraía, apesar da intim idade que acabavam de partilhar.

De m anhã, ele acordou ao som da respiração de Chester, ao cheiro de sua pelagem , as patas estalando suavem ente ao redor dos três lados da cam a. O cão aguardava paciente, arfando ao lado de Holly . O quarto estava claro e m orno.

Ela tinha dorm ido de costas para Subhash, encaixando-se nele, nua. Levantou e pôs o j eans e a blusa que vestia na noite anterior.

Vou fazer café, disse ela.

Ele se vestiu às pressas. Saindo para ir ao banheiro, ele viu a porta aberta do quarto de Joshua. A ausência do m enino perm itira aquilo. Ele estava ali porque Joshua não estava.

Holly levou Chester lá para fora, voltou e sugeriu preparar um café da m anhã. Mas Subhash disse que estava atrasado para o trabalho.

Te aviso quando Joshua for outra vez para a casa do pai?

Ele ficou em dúvida; viu que o ocorrido na noite anterior podia ser um com eço, não um fim . Ao m esm o tem po, estava im paciente em vê-la novam ente.

Se quiser.

Abrindo a porta, viu que a m aré estava cheia. O céu lím pido, o oceano calm o. Exceto pelas algas que pareciam ninhos vazios na areia, nenhum sinal da tem pestade que caíra.