Aguapés
Capítulo 2
Chegaram no com eço das m onções. Em bengali, dizia-se barsha kaal. Todo ano, m ais ou m enos nessa época, disse-lhe o pai, a direção do vento m udava, soprando do m ar para a terra, e não da terra para o m ar. Ele lhe m ostrou num m apa com o as nuvens iam da baía de Bengala, passando pela terra quente até as m ontanhas ao norte. Subindo e esfriando, sem conseguir reter a um idade, presas na Índia por causa da altura dos Him alaias.
Quando vinham as chuvas, disse ele a Bela, os afluentes do delta m udavam o curso. Os rios transbordavam e as ruas da cidade se alagavam ; para a lavoura, podia ser bom ou um a calam idade. Apontando do terraço da casa de sua avó, ele lhe disse que os dois lagos lá adiante transbordavam e se j untavam num só. Além dos lagos, o excesso de chuva se acum ulava na baixada, durante algum tem po a água chegando a bater na altura do om bro de Bela.
De tarde, depois das m anhãs de sol forte, vinham as trovoadas, com o grandes folhas de alum ínio ondulado. Chegavam as nuvens de linhas escuras. Bela olhava enquanto elas baixavam depressa, com o um a im ensa cortina cinzenta, encobrindo a luz do dia. Às vezes, com o desafio, a luz do sol persistia, um disco pálido, de tal form a encerrado num contorno ardente que parecia sólido, fazendo lem brar um a lua cheia.
O interior da casa escurecia e as nuvens com eçavam a explodir. A água entrava, passando pelos parapeitos, pelas grades, encharcando os trapos sob as venezianas que tinham de fechar a toda a pressa. Um a criada cham ada Deepa entrava correndo para enxugar a água que escorria pelo chão.
Do terraço, Bela olhava os troncos finos das palm eiras que se curvavam sem se quebrar ao vento m arinho. As folhas pontiagudas batiam com o penas de aves gigantescas, com o velhas pás de m oinhos que revolviam o céu.
A avó não estava no aeroporto para recebê-los. Em Tolly gunge, no terraço onde se sentava, no andar de cim a da casa onde seu pai crescera, Bela ganhou um colarzinho. As bolinhas m inúsculas de ouro, com o enfeites de doces de festa, ficavam bem j untas e apertadas. A avó se inclinou até ela. Sem dizer nada, fechou o colar no pescoço de Bela e então o girou para que o fecho ficasse na parte de trás.
A avó tinha cabelos grisalhos, m as as m ãos tinham pele lisa e m acia. O sári enrolado no corpo, de algodão branco, era sim ples com o um lençol. Suas pupilas não eram negras, eram leitosas e de um azul-escuro. Os olhos da avó, pousando nela, iam de Bela para o pai, com o se seguissem um filam ento entre os dois.
Observando enquanto abriam as m alas, a avó ficou decepcionada que não tivessem trazido nenhum presente especial para Deepa. Deepa usava um sári e um a pedrinha preciosa na narina, e cham ava Bela de Memsahib. Seu rosto tinha o form ato de um coração. Apesar do corpo m agro, dos braços finos, tinha força suficiente para aj udar o pai de Bela a carregar as m alas pesadas ao segundo andar.
Deepa dorm ia no quarto pegado ao da avó. Um quarto que parecia um arm ário grande, subindo m eio lance de degraus, de teto tão baixo que não dava para ficar de pé. Era ali que Deepa desenrolava um colchão estreito no final do dia.
A avó deu as loções e sabonetes am ericanos que a m ãe de Bela escolhera, o j ogo de lençol e fronha de estam pa florida. Disse a Deepa que os usasse. Pôs de lado os carretéis de linhas coloridas, o bastidor de bordar, a alm ofadinha redonda para alfinetes, dizendo que agora era Deepa que costurava. A bolsa de couro negro em form ato de envelope grande, que fechava de um estalo só e que Bela aj udara a m ãe a escolher em Rhode Island, no Warwick Mall, tam bém foi para Deepa.
No dia posterior à chegada, seu pai esteve num a cerim ônia em honra ao avô dela, que tinha m orrido alguns m eses antes. Um sacerdote cuidava de um pequeno fogo que ardia no centro do aposento. Havia frutas em pilhadas ao lado, em bandej as e pratos de bronze.
No chão, apoiado contra a parede, havia um retrato grande do rosto do avô e, do lado, a foto de um m enino, um adolescente sorrindo, num a m oldura encardida de m adeira clara. Ardia incenso na frente dessas im agens, flores brancas perfum adas postas com o colares grossos na frente do vidro.
Antes da cerim ônia, veio um barbeiro à casa e raspou a cabeça e as faces de seu pai no pátio, que ficou com o rosto m iúdo e diferente. Bela recebeu instrução de estender as m ãos e, sem nenhum aviso, as unhas das m ãos e, depois, dos pés foram aparadas com um a lâm ina.
Ao anoitecer, Deepa acendia espirais para afastar os m osquitos. Lagartixas escam adas apareciam dentro de casa, ficando perto da linha onde a parede e o teto se encontravam . À noite, ela dorm ia no m esm o quarto, na m esm a cam a com o pai. Entre eles ficava um travesseiro com prido, de rolo. O travesseiro para a cabeça parecia um saco de farinha. A tela do m osquiteiro era azul.
Toda noite, m ontada a fina barricada em torno deles, vedada a entrada de qualquer outro ser vivo, ela sentia alívio. Quando seu pai ficava de costas para ela, dorm indo, sem cabelo, sem cam isa, ele parecia quase outra pessoa. Acordava antes dela, o m osquiteiro erguido e enrolado com o um enorm e ninho suspenso num dos cantos do quarto. O pai j á tinha tom ado banho e se vestido, e com ia um a m anga, m ordendo diretam ente a fruta. Nada daquilo era novidade para ele.
Com o desj ej um , davam -lhe pão tostado diretam ente no fogo, iogurte doce, um a banana pequena de casca verde. A avó recom endava a Deepa, antes de sair para o m ercado, que não com prasse um certo tipo de peixe, dizendo que as espinhas eram trabalhosas dem ais para tirar.
Observando Bela, que tentava pegar o arroz e a lentilha com os dedos, a avó disse a Deepa que trouxesse um a colher. Quando Deepa serviu a Bela um pouco de água da bilha que ficava num a pequena banqueta, no canto da sala, a avó lhe cham ou a atenção.
Dessa água não. Dê água fervida. Ela não é acostum ada a viver aqui.
Depois da prim eira sem ana, o pai com eçou a sair durante o dia. Explicou que ia dar algum as palestras em universidades próxim as e se encontrar com cientistas que o estavam aj udando num proj eto. No com eço, ela se aborreceu, por ficar na casa com a avó e Deepa. Pela grade do terraço, observava-o ao sair, levando um a som brinha para proteger a cabeça raspada dos raios de sol.
Ficava nervosa até ele voltar, até ele apertar a cam painha, e então baixavam um a chave, ele destrancava o portão e ali estava diante dela outra vez. Preocupava-se com ele, tragado pela cidade, grande e confusa, que tinha visto pela j anela do táxi que os trouxera a Tolly gunge. Não gostava de im aginá-lo tendo de lidar com a cidade, de cair de certa form a com o presa sua.
Um dia, Deepa cham ou Bela para irem j untas ao m ercado e passearem um pouco pelas ruas estreitas do bairro. Passaram por j anelas pequenas com barras verticais. Pedaços de pano, estendidos em aram es, serviam de cortina. Passaram pelos lagos, rodeados de lixo, entupidos de folhas verdes reluzentes.
Nas ruas calm as, com paredes dando logo na calçada, davam alguns passos e logo alguém as detinha, perguntando a Deepa quem era Bela, por que estava ali.
A neta da fam ília Mitra.
A m enina do irm ão m ais velho?
Sim .
A m ãe veio?
Não.
Você entende o que estam os dizendo? Fala bengali?, um a m ulher perguntou a Bela. Ela perscrutou seu rosto. Tinha um olhar duro, os dentes m anchados e irregulares.
Um pouco.
Está gostando daqui?
Naquele dia, Bela estava doida para sair de casa, para ir com Deepa ao m ercado, explorar o lugar que viera de tão longe para conhecer. Mas agora queria voltar para dentro. Não estava gostando, enquanto refaziam o cam inho de volta, do j eito com o alguns vizinhos puxavam as cortinas para olhá-la.
Além da água que ferviam e resfriavam para ela tom ar, todos os dias de m anhã aqueciam água para seu banho. A avó dizia que, do contrário, Bela podia pegar um resfriado, apesar do tem po tão quente. A água quente do banho era m isturada com água fresca que, em certas horas do dia, vinha por um a m angueira fina de borracha, bom beada até um tanque no pátio ao lado da cozinha.
Deepa a levava ao pátio, estendia-lhe um a caneca de m etal, dizendo o que devia fazer. Devia am ornar a seu gosto a água quente com a água fria da m angueira, despej ar sobre o corpo, então se ensaboar com um pedaço de sabão escuro e depois se enxaguar. Não se podia desperdiçar a água corrente. Era coletada num balde e o que sobrasse ia para o tanque.
Bela bem que queria ficar dentro do tanque, que parecia um a banheira de bordas altas, m as era proibido. E assim tom ava banho ao ar livre em vez de ter a privacidade de um banheiro ou sequer a proteção da um a banheira, entre os pratos e panelas que tam bém precisavam ser lavados. Supervisionada por Deepa, cercada por palm eiras e bananeiras, observada por corvos.
Vocês deviam ter vindo m ais tarde, não agora, disse Deepa enxugando as pernas de Bela com um a toalha xadrez fina. Era áspera, com o um pano de prato.
Por quê?
É quando vem Durga Puj o. Agora só chove.
Estou aqui por causa do m eu aniversário, disse Bela.
Deepa falou que tinha dezesseis ou dezessete anos. Quando Bela perguntou quando fazia aniversário, ela respondeu que não sabia direito.
Você não sabe quando nasceu?
Em Basanta Kal.
E quando é isso?
Quando o kokil com eça a cantar.
Mas em que dia você com em ora?
Nunca com em orei.
Num trecho ensolarado do terraço, a avó passou um óleo de perfum e adocicado, que ficava num vidro, pelas pernas, braços e cabeça de Bela. Bela estava de calcinha, com o se ainda fosse m enina pequena. Os braços m oles, as pernas abertas.
A avó penteou Bela, às vezes usando os dedos quando os nós estavam m uito em baraçados. Segurava e exam inava seus cabelos.
Sua m ãe não lhe ensinou a usar o cabelo preso?
Ela abanou a cabeça.
Não há um a regra na escola para isso?
Não.
Você tem de usar trança. Principalm ente de noite. Agora duas, um a de cada lado. Quando for m ais velha, um a só, no m eio, atrás.
Sua m ãe nunca lhe tinha dito aquilo. Sua m ãe usava cabelo curto, com o hom em .
O cabelo de seu pai era a m esm a coisa. Nunca ficava assentado nesse clim a. Nunca m e deixava encostar num fio. Mesm o no retrato você pode ver com o ficava descabelado.
Bela alm oçava no quarto onde dorm ia a avó. Estava acostum ada a com er arroz, m as aqui o cheiro era penetrante, os grãos não tão brancos. Às vezes m ordia um a pedrinha que sobrara depois de Deepa escolher o arroz, e o barulho, ao ser triturada nos m olares, parecia explodir nos ouvidos.
Não havia m esa de j antar. No chão ficava um tecido bordado, com o um a espécie de toalhinha de j ogo am ericano, m as grande, para se sentar. A avó se acocorava nas plantas dos pés, com os om bros curvados, os braços rodeando os j oelhos, a observá-la.
No alto da parede estavam as duas fotografias perante as quais seu pai se sentara durante a cerim ônia. Os retratos do avô m orto e do adolescente que era seu pai, pelo que disse a avó, sorrindo, o rosto ligeiram ente inclinado de lado. Bela nunca tinha visto um a im agem do pai tão j ovem . Era tão j ovem , no retrato, que podia ser um irm ão m ais velho. Nunca tinha visto nada dele antes de seu nascim ento.
Em baixo dessas im agens, sem pre farfalhando de leve à brisa do ventilador, havia um m aço de recibos dom ésticos e fichas de rações, perfurado e fixado num prego. Por cim a desses pedaços de papel em palados, o rosto de seu pai adolescente ficava a observá-la com endo arroz de colher, com ar divertido, enquanto o avô, fitando em frente com o olhar cansado, as sobrancelhas ralas, parecia não notar que ela estava ali.
Exceto pelas duas fotos e o m aço de recibos, não havia nada para olhar nas paredes. Nenhum livro, nenhum a lem brança de viagem , nada que indicasse com o a avó gostava de passar o tem po. Ela ficava horas sentada no terraço, de costas para o resto da casa, olhando pela grade.
Todo dia, a certa hora, Deepa levava a avó até o pátio, onde ela arrancava as corolas de algum as das flores nos vasos e ao longo das trepadeiras que subiam pelo m uro, colocando-as dentro de um a pequena urna de bronze.
Saía de casa, j unto com Deepa, passando pelos lagos até o com eço da baixada inundada. Ia até um local determ inado, ficava ali e depois de alguns m inutos voltava. Quando a avó entrava no pátio, a urna das flores estava vazia.
O que você faz lá?, um dia Bela perguntou.
A avó estava sentada na espreguiçadeira, as m ãos dobradas, sem chegar a se fechar, inspecionando a superfície sulcada das unhas. Sem erguer os olhos, ela disse: Converso um pouco com seu pai.
Meu pai está em casa.
A avó olhou para ela, arregalando os olhos azuis. Está?
Ele voltou agora há pouco.
Onde?
Em nosso quarto, Dida.
O que ele está fazendo?
Está deitado. Falou que ficou cansado depois de ir à agência do Am erican Express.
Oh. A avó desviou o olhar.
A luz dim inuiu. Ia chover outra vez. Deepa foi correndo ao topo da casa, para recolher as roupas do varal. Bela foi atrás, querendo aj udar.
Tem chuva assim lá em Rhode Island?, perguntou Deepa.
Era difícil explicar em bengali. Mas um a de suas prim eiras lem branças era um furacão em Rhode Island. Não lem brava o tem poral em si, só a preparação e o resultado. Lem brava a banheira cheia de água. O superm ercado lotado, as prateleiras vazias. Tinha aj udado o pai a pôr fita adesiva nas j anelas, cuj as m arcas ficaram por m uito tem po depois de tirarem a fita.
No dia seguinte, foi com o pai ao cam pus, vendo galhos arrancados e espalhados na praça, as ruas forradas de folhas verdes. Encontraram um a árvore de tronco grosso que tinha caído, as raízes entrelaçadas expostas. Viram o terreno encharcado que havia cedido. A árvore parecia m ais im ponente estendida ali no chão. De proporções assustadoras, agora que estava m orta.
O pai tinha trazido fotos para m ostrar à avó. A m aioria era da casa onde agora Bela e os pais m oravam . Tinham se m udado para lá dois verões antes, o verão em que Bela fez dez anos de idade. Ficava m ais perto da baía, não m uito longe da faculdade de oceanografia onde seu pai tinha estudado. Era conveniente, perto do laboratório onde seu pai trabalhava. Mas ficava m ais longe do cam pus m aior onde Bela crescera, aonde agora a m ãe ia duas vezes por sem ana, para dar um curso de filosofia.
Bela ficara decepcionada pois, em bora a casa ficasse a um quilôm etro e m eio da praia, não dava para ver o m ar pelas j anelas. Só de vez em quando, ao ficar lá fora, vinha um leve cheiro, a m aresia perceptível no ar.
Havia fotos da m esa de j antar, da lareira, da vista no terraço onde tom avam sol. Coisas que ela conhecia. As pedras grandes form ando um a divisa com o terreno atrás do deles, que às vezes Bela escalava. Fotos da frente da casa no outono, quando as folhas ficavam verm elhas e douradas, e fotos no inverno, os galhos nus cobertos de gelo. Um a foto de Bela ao lado de um pequeno bordo j aponês que o pai plantara na prim avera.
Viu a si m esm a na pequena praia em quarto crescente em Jam estown, aonde gostavam de ir nas m anhãs de dom ingo, o pai levando café e bolinhos. Era onde as duas pontas da ilha se encontravam , onde ele a ensinou a nadar, onde ela podia ver os rebanhos pastando num a cam pina enquanto boiava no m ar.
Notou que a avó observava as fotos com o se todas fossem iguais.
Onde está Gauri?
Ela não gosta de tirar retrato, disse o pai. Anda ocupada, dando seu prim eiro curso. E está term inando a tese. Vai entregar logo.
A m ãe passava os dias, m esm o os sábados e dom ingos, no quarto de hóspedes que lhe servia de escritório, trabalhando de porta fechada. Era seu escritório, disse-lhe a m ãe, e quando estivesse lá Bela devia se com portar com o se ela não estivesse em casa.
Bela não se incom odava. Estava contente que a m ãe ficasse em casa em vez de passar um a parte da sem ana em Boston. Durante três anos, a m ãe ia até um a universidade de lá, para assistir às aulas do curso que estava fazendo. Saindo de m anhã cedo, voltando quando Bela j á estava dorm indo.
Mas agora, tirando as noites em que dava aulas, a m ãe quase não saía de casa. Passavam -se horas, a porta sem se abrir, a m ãe sem aparecer. De vez em quando um a tosse, um a cadeira rangendo, um livro caindo no chão.
Às vezes, a m ãe perguntava se Bela ouvia a m áquina de escrever à noite, se o barulho incom odava, e Bela dizia que não, em bora ouvisse m uito bem . Às vezes, Bela brincava de apostar consigo m esm a quanto tem po duraria o silêncio até ser novam ente rom pido pelo som das teclas.
Era com a m ãe que ela passava a m aior parte do tem po durante a sem ana, m as não havia nenhum a foto só das duas j untas. Nenhum sinal de Bela assistindo à tevê na parte da tarde ou fazendo um trabalho da escola à m esa da cozinha, enquanto a m ãe preparava o j antar ou lia um a pilha de exam es com um a caneta na m ão. Nenhum sinal das duas indo de vez em quando à grande biblioteca da universidade, para devolver os livros em prestados, deixando-os num a caixa.
Não havia nada docum entando as viagens a Boston que ela e a m ãe faziam vez por outra, durante as férias na escola. Pegavam o ônibus, depois um trólebus, até um cam pus no m eio da cidade, esprem ido entre o rio Charles e um a estrada com prida e m ovim entada. Nenhum sinal dos dias em que Bela seguira a m ãe em vários prédios onde ia encontrar alguns professores ou da vez em que Bela foi levada ao Quincy Market com o form a de agrado.
Olhe ela ali, disse Bela quando a avó passou para a foto seguinte.
A m ãe aparecia ali sem querer. Era um retrato de Bela de m uitos anos atrás, posando para a câm era no apartam ento antigo, com linóleo no chão. Estava fantasiada de Chapeuzinho Verm elho para o Halloween, segurando um a vasilha cheia de doces para distribuir.
Mais no fundo estava a m ãe, levem ente inclinada sobre a m esa da cozinha, tirando os pratos do j antar, de calças e túnica m arrom .
Tão elegante, disse Deepa, olhando por cim a do om bro da avó.
A avó entregou as fotos ao pai.
Fique com elas, m ãe. Tirei para você.
Mas a avó devolveu, afrouxando a m ão a ponto de caírem algum as fotos no chão.
Já vi, disse ela.
Nos últim os anos, Bela tinha ouvido a palavra tese e não fazia ideia do que era. Então um dia, na casa nova, a m ãe lhe disse: Estou escrevendo um trabalho. Com o os que você escreve para a escola, só que m ais com prido. Algum dia pode virar um livro.
A explicação deixou Bela desapontada. Até então, achava que era um a espécie de segredo, um a experiência que a m ãe estava fazendo enquanto Bela dorm ia, com o as experiências que o pai m onitorava nos m angues. Aonde às vezes ele a levava para ver os lím ulos na lam a, sum indo nos buracos, desovando na m aré cheia. Em vez disso, soube que a m ãe, que passava os dias fechada num quarto cheio de livros, estava apenas escrevendo m ais um trabalho.
Às vezes, quando sabia que a m ãe não estava em casa ou estava no banho, Bela entrava no escritório para dar um a espiada. Os óculos da m ãe estavam ali abandonados na escrivaninha. Quando Bela pegou e olhou por eles, as lentes em baçadas deixaram as coisas borradas.
Xícaras com restos de chá ou café frio, algum as criando delicados desenhos de bolor, se espalhavam aqui e ali, esquecidas nas prateleiras. Encontrou folhas am assadas no cesto, cobertas de coisas ilegíveis. Todos os livros eram encapados com papel pardo, com títulos que a m ãe tinha anotado nas lom badas, para identificá-los: A natureza da existência, Eclipse da razão, Lições para uma fenomenologia da consciência interna do tempo.
Pouco tem po atrás, a m ãe tinha com eçado a se referir à tese com o um m anuscrito. Um a noite, ao j antar, falou dela com o falaria de um bebê, dizendo ao pai que estava preocupada que as páginas voassem por algum a j anela aberta ou fossem consum idas por algum incêndio. Disse que às vezes ficava preocupada em deixá-las sozinhas em casa.
Num final de sem ana, parando num a liquidação que estavam fazendo no j ardim de um a casa, Bela e o pai encontraram um arquivo de m etal pintado de m arrom entre as coisas à venda. O pai conferiu se as gavetas abriam e fechavam sem problem as e então com prou a peça. Carregou do porta-m alas do carro até o escritório da m ãe, batendo à porta para lhe dar o presente de surpresa.
Ela estava à m áquina de escrever, olhando para eles com o rosto apoiado na m ão com o sem pre fazia quando estava concentrada. Os cotovelos na m esa, o queixo apoiado na palm a da m ão, o dedo m édio e o indicador em V, pressionando a m açã do rosto e form ando um triângulo parcial a em oldurar o olho.
O pai lhe estendeu um a chavinha m iúda que balançava de um aro com o se fosse um brinco.
A m ãe se levantou, tirando as coisas do chão para que Bela e o pai pudessem entrar com m ais facilidade. Onde você quer que ele fique?, perguntou o pai, e a m ãe respondeu que o m elhor seria no canto.
Para surpresa de Bela, naquele dia a m ãe não ficou brava com a interrupção. Perguntou se estavam com fom e, saiu do escritório e preparou um alm oço para eles.
Todos os dias, Bela ouvia as gavetas abrindo e fechando, guardando as páginas que a m ãe datilografava. Um a noite, sonhou que tinha voltado da escola e encontrara a casa totalm ente queim ada, restando som ente o esqueleto da estrutura, com o as casas que ela construía com palitos de picolé quando era m enor, e apenas o arquivo incólum e na gram a.
***
Um dia em Tolly gunge, brincando de subir e descer as escadas, ela notou duas pequenas argolas aparafusadas nos dois lados do patam ar. Argolas de ferro negro. Deepa estava lavando a escada. Torcendo um trapo num balde de água, trabalhando aj oelhada.
O que é isso?, perguntou Bela puxando com os dedos um a das argolas.
É para ela não sair quando não estou aqui.
Quem ?
Sua avó.
Com o funciona?
Passo um a corrente.
Por quê?
Senão ela pode se perder.
Tal com o a avó, Bela não podia sair sozinha da casa em Tolly gunge. Não podia nem andar pela casa à vontade, ir ao pátio ou subir à cobertura sem perm issão.
Não podia ir brincar com as crianças que às vezes via brincando na rua nem entrar na cozinha para pegar algum a coisa para com er. Se quisesse tom ar um copo da água fervida e resfriada em sua m oringa, precisava pedir.
Mas em Rhode Island, desde o terceiro ano escolar, a m ãe deixava que ela passeasse pelo cam pus à tarde. Ia com Alice, outra m enina de sua idade, que tam bém m orava no conj unto deles. A recom endação era que ficassem no cam pus, e só. Mas para ela o cam pus era enorm e, tendo de atravessar ruas, prestar atenção nos carros. Ela e Alice podiam se perder facilm ente.
As duas brincavam no cam pus com o outras crianças fariam num parque, entretendo-se em subir e descer degraus, em apostar corrida na praça diante do prédio de belas-artes, em brincar de pega-pega na área verde. Paravam na biblioteca, onde a m ãe de Alice trabalhava.
Iam até a m esa dela, sentavam nos cubículos vazios. Girando nas cadeiras, com endo m iudezas que a m ãe de Alice guardava na gaveta da m esa. Tom avam água gelada no bebedouro e se escondiam entre as estantes dos livros.
Alguns m inutos depois j á estavam lá fora outra vez. Gostavam de ir à estufa ao lado do prédio de botânica, rodeada por um j ardim florido cheio de borboletas. Nos dias de chuva, brincavam no centro acadêm ico.
Bela sentia orgulho de não ser supervisionada, de encontrar o cam inho para casa sem precisar perguntar. Deviam ouvir o toque do relógio, para voltar às quatro e m eia no inverno.
Ela não com entara nada sobre esses passeios ao pai. Sabendo que ele ficaria preocupado, guardava-os em segredo. E assim , até a época em que se m udaram de lá, essas tardes foram um vínculo entre Bela e a m ãe, um a intim idade baseada no fato de que passavam aquele tem po separadas. Dera à m ãe aquelas horas para si m esm a, sem querer estragar, sem querer am eaçar esse vínculo.
Agora Bela tinha idade suficiente para se levantar sozinha, para pegar de m anhã a caixa de flocos de cereal na bancada, as m ãos firm es o suficiente para se servir de leite. Quando estava pronta para sair, ia sozinha até o ponto de ônibus. O pai saía cedo. A m ãe, ficando acordada em seu escritório à noite, gostava de dorm ir até tarde.
Não havia ninguém para ver se com ia torradas ou flocos de cereais, se term inava tudo ou não, em bora sem pre term inasse, tom ando até a últim a colherada do leite adoçado, pondo a tigela usada dentro da pia, deixando correr um pouco de água para ficar m ais fácil de lavar. Depois da escola, se a m ãe estava fora, na universidade, tinha agora idade suficiente para pegar um a chave que o pai deixava num com edouro vazio e entrava.
Toda m anhã ela subia a escada, ia até o final do pequeno corredor, batia à porta do quarto dos pais para avisar à m ãe que estava indo, sem querer incom odá-la, m as tam bém esperando que ela ouvisse.
Então, num dia de m anhã, precisando de um clipe para prender duas páginas de resum o de um livro, ela entrou no escritório da m ãe. Viu a m ãe virada de costas para a porta, dorm indo no sofá, um braço acim a da cabeça. Com eçou a entender que o quarto que a m ãe cham ava de escritório era tam bém seu dorm itório. E que o pai dorm ia no outro quarto, sozinho.
Que idade você tinha naquele retrato?, perguntou ao pai quando estavam deitados j untos na cam a, sob o m osquiteiro, antes de se iniciar um novo dia.
Que retrato?
O do quarto da Dida, onde com em os. O retrato ao lado do de Dadu, que ela fica olhando o tem po inteiro.
O pai estava deitado de costas. Ela o viu fechar os olhos. Era m eu irm ão, disse ele.
Você tem irm ão?
Tinha. Morreu.
Quando?
Antes de você nascer.
Por quê?
Ficou doente.
Do quê?
Um a infecção. Os m édicos não conseguiram curar.
Era m eu tio?
Era, Bela.
Você se lem bra dele?
Ele se virou para fitá-la. Acariciou sua cabeça. Ele faz parte de m im . Cresci com ele.
Sente falta dele?
Sinto.
Dida diz que é você no retrato.
Ela está ficando velha, Bela. Às vezes confunde as coisas.
Ele com eçou a levá-la quando saía. Iam até a m esquita na esquina para pegar um táxi ou um riquixá. Às vezes iam a pé até o term inal e pegavam um bonde. Se tinha algum encontro com um colega, levava-a j unto, deixando-a sentada num a cadeira num corredor com pé-direito alto, dando-lhe gibis indianos para ler.
Levava-a para alm oçar em restaurantes chineses im ersos na penum bra, onde com iam chow mein. A bancas onde ela podia com prar braceletes de vidro colorido, papel de desenho, fitas para o cabelo. Cadernos bonitos para escrever e desenhar, borrachas translúcidas com cheiro de fruta.
Levou-a ao zoológico para ver os tigres brancos que cochilavam nas pedras. Nas calçadas cheias de gente, ele parava na frente dos m endigos que apontavam o estôm ago e punha algum as m oedas no prato.
Um dia, foram a um a loj a de roupas para com prar sáris para a avó e Deepa. Brancos para a avó, coloridos para Deepa. Eram de algodão, enrolados nas prateleiras com o bobinas grossas de papel que o vendedor sacudia e desdobrava para lhes m ostrar. Na vitrine da loj a havia outros m ais bonitos, de seda, enrolados em m anequins.
Podem os com prar um para a m am ãe?, perguntou Bela.
Ela nunca usa, Bela.
Mas podia.
O vendedor com eçou a m ostrar o sári de tecido m ais fino, m as o pai abanou a cabeça. Vam os achar outra coisa para sua m ãe.
Foram até um a j oalheria, onde Bela escolheu um colar de contas de olho de tigre. E com praram a única coisa que a m ãe tinha pedido, um par de chinelas de couro verm elho-claro, o pai dizendo ao vendedor, no últim o m inuto, que ia levar dois pares em vez de um .
Nos táxis enfrentavam o trânsito, a poluição entupindo seu peito, cobrindo a pele de seus braços com um a fina fuligem escura. Ela ouvia o estrépito dos bondes e a buzina dos carros, as sinetas dos riquixás coloridos puxados à m ão. Ônibus barulhentos com os m otoristas batendo na lataria, anunciando o itinerário, gritando para os passageiros subirem .
Às vezes ela e o pai ficavam presos no congestionam ento um tem po enorm e, que pareciam horas. O pai se irritava, com vontade de parar o taxím etro, descer e ir a pé. Mas Bela ainda preferia isso a ficar enfiada na casa da avó.
Passando num a rua com várias bancas de livros enfileiradas, o pai com entou que foi ali que a m ãe tinha frequentado a faculdade. Bela ficou im aginando se ela se pareceria com as estudantes que via na calçada, entrando e saindo pelo portão. Moças de sári, o cabelo longo enrolado em trança, com um lenço na frente do rosto, sacolas de pano cheias de livros.
Notou nas ruas alguns prédios enfeitados, que se destacavam dos dem ais. Era agosto, m as estavam decorados com luzes de Natal, as fachadas cobertas com panos coloridos. Um dia, de táxi, pararam perto de um desses prédios, atrás de um a fila de carros. Havia um tapete verm elho fino na entrada, para receber os convidados. Havia m úsica tocando, gente de roupas bonitas entrando.
O que está acontecendo ali?
Um casam ento. Vê aquele carro ali na frente, coberto de flores?
Vej o.
O noivo vai sair dali.
E a noiva?
Está esperando lá dentro.
Você e a m ãe se casaram assim ?
Não, Bela.
Por que não?
Eu tinha de voltar para Rhode Island. Não havia tem po para grandes com em orações.
Tam bém não quero grandes com em orações.
Você ainda tem m uito tem po pela frente antes de pensar nisso.
A m ãe m e disse um dia que vocês não se conheciam quando casaram .
Esse casal tam bém talvez não se conheça m uito bem .
E se um não gostar do outro?
Vão tentar.
Quem decide os casam entos?
Às vezes são os pais. Às vezes os próprios noivos.
Vocês m esm os é que decidiram ?
Foi. Nós é que decidim os.
Passaram a tarde de seu aniversário de doze anos num clube não m uito longe da casa dos avós. Um conhecido do pai dela, am igo do tem po de faculdade, era sócio e convidou para irem lá.
Havia um a piscina para nadar. Um m aiô que apareceu por m ágica, pois a m ãe não tinha posto nenhum na bagagem . Mesas com com es e bebes, dando para a área aberta.
Havia outras crianças para brincar na piscina e no parquinho, para conversar em inglês. Havia m uitas crianças indianas, na m aioria vindas de fora em visita ao país, com o Bela, e algum as europeias. Sentiu-se anim ada em falar com elas, e se apresentou. Ganhou um passeio a cavalo. Para com er depois, havia sanduíches de queij o e pepino e sopa de tom ate condim entado. Um bloco de sorvete se derretendo num prato.
O pai e o am igo ficaram conversando, tom ando chá e depois cervej a a um a das m esas ao ar livre, e então ela e o pai foram cam inhar por trilhas que cobriam os sapatos de poeira verm elha, ao longo de um cam po de golfe, passando por vasos de flores, entre árvores cheias de passarinhos cantando.
O pai parou para olhar os j ogadores. Detiveram -se sob um enorm e fícus indiano. O pai explicou que era um a árvore que nascia presa a outra, brotando na copa. A m assa de tentáculos retorcidos, descendo com o cordas, eram raízes aéreas cercando a árvore hospedeira. Com o tem po, elas se j untavam , form ando troncos adicionais, contornando um centro vazio caso a hospedeira m orresse.
Postando-a na frente da árvore, o pai tirou seu retrato. Quando se sentaram num banco, o pai tirou do bolso da cam isa um pacotinho em brulhado em j ornal. Era um par de pulseiras de espelhinhos que um dia ela adm irara no m ercado e que ele voltou para com prar.
Está se divertindo?
Ela assentiu. Viu que ele se inclinava e lhe dava um beij o no alto da cabeça.
Estou contente por term os vindo hoj e. A chuva parou. Diferente do dia em que você nasceu.
Continuaram a andar, afastando-se da sede do clube, passando por clareiras onde descansavam bandos de chacais. Com eçou a sentir os m osquitos lhe picando os tornozelos e as pernas.
Aonde estam os indo?
Havia um a área m ais adiante onde eu brincava com m eu irm ão.
Vocês vinham aqui quando eram m eninos?
Ele hesitou e então adm itiu que um a ou duas vezes ele e o irm ão tinham entrado escondidos, pelos fundos do terreno.
Por que tiveram de entrar escondidos?
Não podíam os.
Por que não?
As coisas naquela época eram diferentes.
Ele percebeu algum a coisa um pouco afastada, no gram ado, e foi até lá pegar. Era um a bola de golfe. Continuaram a andar.
Quem teve a ideia de entrar escondido?
Uday an. Era ele o coraj oso.
Pegaram vocês?
Acabaram pegando.
O pai parou. Atirou a bola longe. Olhava para os dois lados e então para cim a, para as árvores. Parecia confuso.
Vam os voltar, Baba?
Vam os, é m elhor.
Ela queria ficar no clube, correr pelo gram ado e apanhar os pirilam pos que as outras crianças de lá diziam que apareciam à noite. Queria dorm ir num dos quartos de hóspedes, tom ar um banho quente de banheira e passar o dia seguinte com o passara o de hoj e, nadando na piscina e visitando a sala de leitura cheia de livros e revistas em inglês.
Mas o pai falou que era hora de ir. O m aiô foi devolvido, foi cham ado um riquixá a bicicleta com o coche de m etal e um banco azul safira, para levá-los de volta à casa da avó.
Não conseguia im aginar a avó no clube de onde acabavam de vir, entre as pessoas sentadas à m esa, rindo, com cigarros e copos de cervej a. Hom ens pedindo coquetéis, as esposas bem vestidas. Não conseguia im aginar a avó em nenhum lugar que não fosse o terraço da casa em Tolly gunge, com um a corrente na escada quando Deepa não estava, ou fazendo seu curto passeio até a beira da baixada, onde só havia lixo e água suj a.
Bela sentiu um a saudade súbita da m ãe. Nunca tinha passado um aniversário longe dela. De m anhã, ficou na esperança de receber um telefonem a, m as o pai falou que estavam sem linha.
Podem os tentar agora?
A linha ainda não voltou, Bela. Logo você vai revê-la.
Bela visualizou a m ãe deitada no sofá de seu escritório. Livros e papéis espalhados pelo tapete, o zum bido de um ventilador em butido na j anela. A luz do dia com eçando a se infiltrar.
Em Rhode Island, no dia do aniversário, Bela acordava com o arom a do leite esquentando devagar no fogão. Lá, sem ser m olestado, ia se adensando. A m ãe saía do escritório para conferir, para acrescentar o açúcar e o arroz.
À tarde, depois que era vertido num a travessa e esfriava um pouco, a m ãe cham ava Bela para provar o arroz-doce crem oso, cor de pêssego. Deixava que ela raspasse a parte m ais gostosa, o leite condensado que ficava no fundo da panela.
Baba?
Diga, Bela.
Podem os voltar ao clube outro dia?
Talvez na próxim a vinda, disse o pai.
Falou que ela devia descansar, que era um a longa viagem de volta para Rhode Island. Tinham -se passado cinco das seis sem anas na Índia. O cabelo do pai j á com eçava a crescer outra vez.
O riquixá acelerou, passando pelas choças e bancas que se alinhavam na estrada, vendendo flores, vendendo doces, vendendo cigarros e refrigerantes. Quando se aproxim avam da m esquita, o riquixá reduziu a velocidade. Tocavam um chifre de sopro, anunciando o com eço da noite.
Pare aqui, disse o pai ao condutor, procurando a carteira, dizendo que fariam o resto do cam inho a pé.