Aguapés
Capítulo 3
Desde pequeno, Subhash era m uito com portado. A m ãe nunca precisava correr atrás dele. Ficava ao lado dela, olhando-a enquanto cozinhava no fogão a lenha ou bordava corpetes e sáris encom endados por um alfaiate fem inino do bairro. Aj udava o pai a plantar dálias em vasos no quintal. As corolas, desabrochadas em violeta, laranj a e rosa, às vezes tinham a ponta branca. As cores vibrantes contrastavam com os m uros pardacentos do quintal.
Nos j ogos tum ultuados, esperava até acabarem . Os gritos, cessarem . Do que m ais gostava era de ficar sozinho ou de se sentir sozinho. Deitado na cam a de m anhã, olhando a luz do sol esvoaçando com o um pássaro incansável na parede.
Punha insetos sob um a redom a de tela para observá-los. Na beira dos lagos da vizinhança, onde a m ãe às vezes lavava os pratos quando a em pregada não aparecia, ele m ergulhava as m ãos em concha na água turva, procurando rãs. Ele vive em seu próprio m undo, às vezes diziam os parentes nas festas num erosas, sem conseguir lhe despertar nenhum a reação.
Enquanto Subhash sem pre estava à vista, Uday an vivia desaparecendo: m esm o na casa de dois côm odos, quando m enino, tinha m ania de se esconder, debaixo da cam a, atrás das portas, na canastra onde guardavam as m antas de inverno.
Fazia essa brincadeira sem avisar, sum indo de um a hora para outra, esgueirando-se para o j ardim dos fundos, subindo num a árvore, obrigando a m ãe, quando ela cham ava e ele não respondia, a parar o que estava fazendo. Enquanto o procurava, enquanto entrava na brincadeira e o cham ava, Subhash via o pânico m om entâneo no rosto da m ãe, o m edo de talvez não o encontrar.
Quando atingiram idade suficiente, quando tiveram perm issão de sair de casa, receberam a recom endação de não se perderem de vista. Juntos desciam pelas ruas sinuosas do enclave, passavam os lagos e atravessavam a baixada, até o cam pinho onde às vezes se encontravam com outros m eninos. Iam até a m esquita na esquina, sentando-se no m árm ore frio dos degraus, às vezes ouvindo um a partida de futebol no rádio de alguém , e o vigia da m esquita nunca se im portava.
Mais tarde tiveram perm issão de sair do enclave e entrar na cidade. De andar aonde os pés os levassem , a tom ar bonde e ônibus sozinhos. A m esquita na esquina, local de culto para os que tinham um a religião à parte, continuava a ser o ponto de referência de suas andanças diárias.
A certa altura, por sugestão de Uday an, com eçaram a ficar na frente do Technicians Studio, onde Saty aj it Ray tinha film ado Pather Panchali, onde os artistas bengalis passavam seus dias. De vez em quando, algum conhecido que estivesse trabalhando no set de film agem deixava-os entrar e lá ficavam em m eio ao em aranhado de fios e cabos, aos refletores ofuscantes. Depois que se pedia silêncio, depois que se batia a plaqueta, eles observavam o diretor e a equipe film ando e refilm ando a m esm a cena, aperfeiçoando algum as falas. Um dia inteiro de trabalho, dedicado a um m om ento de entretenim ento.
Viam de relance as belas atrizes que saíam do cam arim , protegidas por óculos escuros, entrando nos carros à espera. Era Uday an que tinha coragem de lhes pedir autógrafos. Era cego a certas inibições, com o aqueles anim ais incapazes de enxergar certas cores. Mas Subhash se esforçava em reduzir a própria existência, com o outros anim ais que se cam uflam em troncos ou m atos.
Apesar de suas diferenças, os dois sem pre se fundiam e assim , quando cham avam o nom e de um , os dois respondiam . E às vezes era difícil saber quem havia respondido, pois as vozes eram praticam ente iguais. Sentados na frente do tabuleiro de xadrez, pareciam im agens no espelho: um a perna dobrada, a outra esticada, o queixo apoiado no j oelho.
Eram m uito parecidos fisicam ente, podendo usar as m esm as roupas. A cor da pele, de um leve acobreado que puxaram aos pais, era idêntica. Os dedos flexíveis, os traços definidos, o cabelo ondulado.
Subhash se perguntava se seus pais viam seu tem peram ento pacato com o falta de criatividade, talvez até com o defeito. Seus pais não precisavam se preocupar com ele, m as nem por isso era o preferido. Tom ou com o m issão obedecê-los, j á que surpreendê-los ou im pressioná-los não era possível. Isso quem fazia era Uday an.
No quintal da casa da fam ília ficava a m arca m ais perm anente das transgressões de Uday an. Um a trilha de pegadas, criada no dia em que cim entaram o chão de terra. Dia em que tinham ordens de ficar dentro de casa até secar.
Passaram a m anhã a olhar o pedreiro preparando o cim ento num carrinho de m ão, espalhando e alisando a m assa úm ida com suas ferram entas. Esperem vinte e quatro horas antes de sair, avisou-lhes o pedreiro.
Subhash ouviu. Ficou olhando pela j anela, sem sair. Mas, quando a m ãe deu as costas, Uday an desceu correndo pela tábua com prida posta ali tem porariam ente, com o passagem da porta até a rua.
No m eio da tábua ele se desequilibrou, e as provas de que saíra ficaram im pressas com as solas dos pés, afinando-se no centro com o am pulhetas, em separado as m arcas dos artelhos.
No dia seguinte, cham aram o pedreiro outra vez. O piso j á tinha secado e as m arcas dos pés de Uday an eram perm anentes. A única m aneira de consertar a falha seria passando outra m ão de cim ento. Subhash se perguntou se, dessa vez, o irm ão não tinha ido longe dem ais.
Mas o pai disse ao pedreiro: Deixe estar. Não por causa da despesa ou do trabalho, m as porque ele acreditava que seria errado apagar os passos dados pelo filho.
E assim a im perfeição se tornou um a m arca de distinção da casa deles. Algo que as visitas notavam , a prim eira anedota fam iliar que se contava.
Subhash podia ter com eçado a escola um ano antes. Mas, por um a questão de conveniência — e tam bém porque Uday an protestou à ideia de Subhash ir sem ele —, os dois foram postos na m esm a turm a ao m esm o tem po. Um a escola m édia bengali para m eninos de fam ílias com uns, além do term inal do bonde, passando o Cem itério Cristão.
Em cadernos iguais, resum iam a história da Índia, a fundação de Calcutá. Desenhavam m apas para aprender a geografia do m undo.
Aprenderam que Tolly gunge fora construída sobre terras recuperadas. Séculos antes, quando a corrente da baía de Bengala era m ais forte, a região era um m anguezal. Os lagos, os cam pos alagadiços e a baixada eram seus rem anescentes.
Com o parte das aulas de ciências naturais, eles desenhavam a vegetação dos m angues. As raízes entrelaçadas acim a da linha da água, os poros especiais para obter ar. Seus talos de m ultiplicação, cham ados propágulos, tinham form ato de charuto.
Aprenderam que os propágulos, quando desciam na m aré baixa, se reproduziam j unto com os pais, criando raízes no charco salobro. Mas, na m aré alta, eles se afastavam da origem por até um ano, e iam am adurecer num am biente propício.
Os ingleses com eçaram a lim par os m anguezais, abrindo ruas. Em 1770, além dos lim ites m eridionais de Calcutá, criaram um a área residencial cuj os prim eiros m oradores eram m ais europeus do que indianos. Um lugar por onde vagueavam cervos m alhados e m artins-pescadores atravessavam com o flechas a linha do horizonte.
O m aj or William Tolly, de quem a área recebeu o nom e, cavou e assoreou um a parte do Adi Ganga, que tam bém veio a ser conhecida com o Tolly ’s Nullah. Possibilitou o tráfego fluvial entre Calcutá e Bengala Oriental.
O terreno do Tolly Club pertencia originalm ente a Richard Johnson, um diretor do General Bank of India. Em 1785, construiu um a m ansão em estilo paladiano. Im portou árvores estrangeiras para o Tolly gunge, vindas de todo o m undo subtropical.
No com eço do século xix, a Com panhia Britânica das Índias Orientais aprisionou na propriedade de Johnson as esposas e filhos do sultão Tipu, governante de My sore, que fora m orto na Quarta Guerra Anglo-My sore.
Os m em bros da fam ília deposta vieram transferidos de Srirangapatna, no distante sudoeste da Índia. Depois que foram libertados, receberam lotes no Tolly gunge para m orar. E, com o os ingleses com eçaram a voltar para o centro de Calcutá, Tolly gunge passou a ser um a cidade m aj oritariam ente m uçulm ana.
Em bora os m uçulm anos voltassem a ser m inoria depois da Partilha, m uitas ruas traziam nom es herdados da dinastia deposta de Tipu: Sultan Alam Road, Prince Bakhtiar Shah Road, Prince Golam Moham m ad Shah Road, Prince Rahim uddin Lane.
Golam Moham m ad construíra a grande m esquita de Dharm atala em m em ória do pai. Por algum tem po, teve autorização de m orar na m ansão de Johnson. Mas em 1895, quando William Cruickshank, um escocês que estava procurando a cavalo um cão que se perdera, passou por ali, o casarão estava abandonado, habitado por algálias, tom ado pela hera.
Graças a Cruickshank, a m ansão foi restaurada e ali se fundou um clube cam pestre. Cruickshank foi nom eado com o prim eiro presidente. Foi por causa dos britânicos que, no com eço dos anos 1930, a linha do bonde foi estendida tão ao sul da cidade. Era para facilitar a ida até o Tolly Club, onde podiam escapar à agitação urbana e estar entre seus iguais.
No colégio, os irm ãos estudavam ótica e física, a tabela periódica, as propriedades da luz e do som . Vieram a conhecer a descoberta de Hertz sobre as ondas eletrom agnéticas e as experiências de Marconi com as transm issões sem fio. Jagadish Chandra Bose, um bengali, num a dem onstração na prefeitura de Calcutá, m ostrara que as ondas eletrom agnéticas podiam servir de ignição para a pólvora e faziam um sino tocar à distância.
Todas as noites, os dois se sentavam um diante do outro a um a escrivaninha de m etal, com seus livros, cadernos, lápis e borrachas, e um tabuleiro de xadrez com um a partida em andam ento, que iam j ogando enquanto estudavam . Ficavam acordados até tarde, lidando com fórm ulas e equações. No silêncio da noite podiam ouvir os uivos dos chacais no Tolly Club. Às vezes ainda estavam acordados quando os corvos com eçavam a se altercar quase em uníssono, assinalando o com eço de um novo dia.
Uday an não tem ia contradizer os professores a respeito de placas tectônicas e hidráulica. Gesticulava para ilustrar o que queria dizer, para frisar suas opiniões, o m ovim ento das m ãos sugerindo que dom inava m oléculas e partículas. Às vezes, os professores m andavam que saísse da classe, diziam que estava atrasando os colegas, quando na verdade ele é que estava m ais adiantado.
A certa altura, os pais contrataram um professor particular para prepará-los para os exam es de ingresso na universidade, a m ãe tendo pegado serviços adicionais de costura para cobrir as despesas. Era um hom em apático, de pálpebras paralisadas, que ficavam abertas com gram pos nos óculos. De outra m aneira não conseguia abri-las. Ia até a casa deles todos os serões, para rever a dualidade onda-partícula, as leis de refração e reflexão. Decoraram o princípio de Ferm at: A trajetória percorrida pela luz ao se propagar de um ponto ao outro é a que toma o menor tempo possível.
Depois de estudar circuitos básicos, Uday an se fam iliarizou com o sistem a elétrico da casa. Com prando um j ogo de ferram entas, descobriu com o consertar fios e interruptores com defeito, m ontar um a fiação elétrica, rem over a ferrugem que com prom etia os contatos do ventilador de m esa. Arreliava a m ãe, que sem pre envolvia o dedo no pano do sári, de pavor de encostar num a tom ada com a pele desprotegida.
Quando um fusível queim ava, Uday an, usando chinelos de borracha, intim orato, verificava os resistores e desaparafusava os fusíveis, enquanto Subhash, segurando a lanterna, ficava ao lado.
Um dia, chegando em casa com alguns m etros de fiação, Uday an decidiu instalar um a cam painha, para a com odidade das visitas. Montou um transform ador na caixa de fusíveis e um botão preto de apertar j unto à porta de entrada. Com um m artelo, abriu um orifício na parede por onde passou a nova fiação.
Depois de instalar a cam painha, Uday an disse que deviam usá-la para praticar o código Morse. Encontrando um livro sobre telegrafia num a biblioteca, ele copiou os pontos e traços correspondentes às letras do alfabeto em duas vias, um a para cada.
Um traço tinha a duração de três pontos. A cada ponto ou traço seguia-se um a pausa. Havia três pontos entre as letras e sete pontos entre as palavras. Os dois se identificavam apenas pelas iniciais. A letra s, que Marconi recebera do outro lado do oceano Atlântico, consistia em três pontos breves. O u consistia em dois pontos e um traço.
Ia cada um por vez, um j unto à porta, outro dentro, trocando sinais, decifrando palavras. Adquiriram prática suficiente para enviar m ensagens codificadas que os pais não entendessem . Cinema, sugeria um . Não, terminal bonde, cigarros.
Inventavam histórias, fazendo de conta que eram soldados ou espiões em apuros. Com unicando-se secretam ente de um desfiladeiro na China, de um a floresta na Rússia, de um canavial em Cuba.
Pronto?
Livre.
Coordenadas?
Desconhecidas.
Sobreviventes?
Dois.
Baixas?
Apertando a cam painha, diziam que estavam com fom e, que deviam ir j ogar futebol, que um a m enina bonita acabava de passar na frente da casa. Era a dobradinha pessoal deles, com o dois j ogadores passando a bola um para o outro enquanto avançavam até o gol. Se um via o professor chegando, apertava sos. Três pontos, três traços, três pontos.
Foram adm itidos em duas das m elhores faculdades da cidade. Uday an foi cursar física em Presidency. Subhash foi fazer engenharia quím ica em Jadavpur. Eram os únicos m eninos do bairro, os únicos alunos do colégio m edíocre do bairro a se saírem tão bem .
Para com em orar, o pai deles foi ao m ercado e voltou com castanhas de caj u e água de rosas para o pulao, m eio quilo do cam arão m ais caro. O pai tinha com eçado a trabalhar aos dezenove anos, para aj udar no sustento da fam ília. Seu único pesar era não ter feito faculdade. Trabalhava no escritório da Indian Railway s. Espalhando-se a notícia do sucesso dos filhos, ele disse que não podia m ais dar um passo fora de casa sem que o parassem e lhe dessem parabéns.
Respondia às pessoas que não era ele. Os filhos tinham se esforçado e se distinguiram por m érito próprio. O que conquistaram , conquistaram por si m esm os.
Quando lhes perguntaram o que queriam de presente, Subhash sugeriu um j ogo de xadrez de m árm ore para substituir as peças velhas de m adeira que tinham desde sem pre. Mas Uday an quis um rádio de ondas curtas. Queria receber m ais notícias do m undo do que as que chegavam pelo rádio de válvulas antiquado dos pais, em butido no m óvel de m adeira, ou do que as que eram publicadas pelo j ornal diário de Bengali, que todas as m anhãs, enrolado na finura de um graveto, o entregador atirava por cim a do m uro do quintal.
Eles m esm os m ontaram o aparelho, procurando no Mercado Novo, em loj as de m ateriais usados, encontrando partes dos excedentes do Exército Indiano. Seguiram um conj unto de instruções com plicadas, um diagram a velho dos circuitos. Estenderam as peças na cam a: a caixa, os capacitores, os vários resistores, o alto-falante. Soldando os fios, trabalhando j untos na m esm a tarefa. Quando ficou pronto, parecia um a pequena m aleta de m ão, com um a alça de form ato quadrado. Feito de m etal, revestido de preto.
A recepção costum ava ser m elhor no inverno do que no verão. Geralm ente m elhor à noite. Era quando os fótons do sol não rom piam as m oléculas na ionosfera. Quando as partículas positivas e negativas no ar se recom binavam rapidam ente.
Eles se alternavam à j anela, segurando o receptor na m ão, em várias posições, aj ustando a antena, m anej ando dois controles ao m esm o tem po. Girando o sintonizador o m ais devagar possível, fam iliarizaram -se com as faixas de frequência.
Procuravam qualquer sinal estrangeiro. Noticiários da Rádio Moscou, da Voz da Am érica, da Rádio Pequim , da bbc. Ouviam inform ações aleatórias, fragm entos a m ilhares de quilôm etros de distância, em ergindo de nuvens densas de interferências que j ogavam com o as águas de um oceano, que se agitavam com o vendavais. Condições clim áticas na Europa Central, m úsicas populares de Atenas, um discurso de Abdel Nasser. Notícias em línguas que m al conseguiam adivinhar: finlandês, turco, coreano, português.
Era 1964. A Resolução do Golfo de Tonquim autorizou os Estados Unidos a em pregar força m ilitar contra o Vietnã do Norte. Houve um golpe m ilitar no Brasil.
Em Calcutá, Charulata foi lançado nos cinem as. Outra onda de distúrbios entre m uçulm anos e hindus resultou na m orte de m ais de cem pessoas, depois do roubo de um a relíquia num a m esquita em Srinagar. Houve um racha entre os com unistas na Índia, por causa da guerra de fronteiras com a China, dois anos antes. Os dissidentes, sim páticos à China, adotaram o nom e de Partido Com unista da Índia, Marxista: o pci(m ).
O Congresso ainda ocupava o governo central em Délhi. Depois que Nehru m orreu de um ataque cardíaco naquela prim avera, sua filha Indira entrou no gabinete m inisterial. Em dois anos iria se tornar a prim eira-m inistra.
Agora que Subhash e Uday an tinham com eçado a se barbear, um segurava para o outro, de m anhã no quintal, um espelho de m ão e um a vasilha com água quente. Depois de com erem um prato fum egante de arroz com dal e batatas-palito, iam à m esquita da esquina, deixando o enclave para trás. Continuavam j untos pela estrada principal, até o term inal de bonde, e então tom avam ônibus diferentes para suas faculdades.
Em lados separados da cidade, fizeram diferentes am izades, conhecendo rapazes que tinham feito o curso m édio em escolas inglesas. Em bora alguns dos cursos de ciências fossem parecidos, eles faziam as provas em datas diferentes, estudando com professores diferentes, realizando experiências diferentes no laboratório.
Com o o cam pus de Uday an ficava m ais longe, ele dem orava m ais para chegar em casa. Com o com eçou a fazer am izade com estudantes de Calcutá do Norte, o tabuleiro de xadrez ficava esquecido na m esa de estudos, e assim Subhash com eçou a j ogar contra si m esm o. Ainda assim , cada dia da sua vida com eçava e term inava com Uday an a seu lado.
Num a noite de verão em 1966, no rádio de ondas curtas, eles acom panharam a partida da Inglaterra contra a Alem anha na Copa do Mundo em Wem bley. Era a fam osa final, o gol polêm ico que seria tem a de discussão por m uitos anos. Eles anotaram a form ação que foi anunciada, desenhando um diagram a num a folha de papel. Moviam o indicador im itando os passes e j ogadas, com o se a cam a fosse o cam po.
O prim eiro gol foi da Alem anha, aos dezoito m inutos veio o em pate de Geoff Hurst. Quase no final do segundo tem po, a Inglaterra ganhando de dois a um , Uday an desligou o rádio.
O que você está fazendo?
Melhorando a transm issão.
Está bom assim . Vam os perder o final da partida.
Ainda não acabou.
Uday an procurou em baixo do colchão, que era onde guardavam seus cacarecos. Cadernos, réguas e com passos, lâm inas para afiar os lápis, revistas de esportes. As instruções para m ontar o rádio. Algum as porcas e parafusos de reserva, a chave de fenda e o alicate de que precisavam para a tarefa.
Usando a chave de fenda, ele com eçou a desm ontar o rádio.
Deve ser algum fio solto num a das bobinas ou das chaves, disse ele.
Precisa arrum ar j usto agora?
Ele não parou para responder. Já tinha tirado a caixa, os dedos ágeis soltando os parafusos.
A gente levou dias para m ontar, falou Subhash.
Sei o que estou fazendo.
Uday an isolou o chassi, endireitou alguns fios. Então rem ontou o aparelho.
O j ogo ainda continuava, a interferência atrapalhava m enos. Enquanto Uday an estava lidando com o rádio, a Alem anha tinha m arcado um gol no final do segundo tem po, forçando a prorrogação.
Então eles ouviram Hurst m arcando m ais um a vez pela Inglaterra. A bola bateu no travessão e se chocou com o chão da m eta. Quando o j uiz validou o gol, a equipe alem ã contestou na hora. Pararam tudo, enquanto o árbitro consultava o bandeirinha soviético. O gol ficou valendo.
A Inglaterra ganhou, disse Uday an.
Ainda restavam alguns m inutos, a Alem anha desesperada para em patar. Mas Uday an tinha razão, Hurst ainda m arcou um quarto gol no final da partida. E então a torcida inglesa, delirando antes m esm o do apito final, j á invadia o cam po.