Aguapés
Capítulo 2
Nunca tinham entrado no Tolly Club. Com o a m aioria dos vizinhos, passavam e repassavam pelo portão de m adeira e pelos m uros de tij olos, centenas de vezes.
Até m eados dos anos 1940, o pai deles costum ava assistir às corridas de cavalos na pista, pelo lado de fora do m uro. Assistia da rua, entre os apostadores e outros espectadores que não tinham com o com prar ingresso nem podiam entrar na área do clube. Mas depois da Segunda Guerra Mundial, m ais ou m enos na época em que Subhash e Uday an nasceram , o pessoal do clube aum entou a altura do m uro e não dava m ais para assistir de fora.
Bism illah, um vizinho, trabalhava com o caddy no clube. Era um m uçulm ano que ficou em Tolly gunge depois da Partilha. Por algum as paisas, vendia-lhes bolas de golfe que se tinham perdido ou ficaram abandonadas no cam po. Algum as tinham cortes com o se fossem talhos na carne, m ostrando por dentro a borracha cor-de-rosa.
No com eço, usavam um bastão para bater nas bolas am olgadas, lançando de um lado e do outro. Então Bism illah tam bém lhes vendeu um taco de finalização com a haste levem ente torta. Tinha sido um j ogador irritado que estragou o taco, batendo com ele num a árvore.
Bism illah lhes m ostrou com o deviam se inclinar, onde deviam pôr as m ãos. Determ inando vagam ente o obj etivo do j ogo, cavavam buracos no barro e tentavam acertar as bolas. Precisariam de outro taco para lançar a bola a distâncias m aiores, m as usavam aquele de finalização m esm o. Só que golfe não era futebol nem críquete. A im provisação dos irm ãos não saía m uito a contento.
Bism illah desenhou um m apa do Tolly Club no barro da várzea. Contou-lhes que, m ais perto da sede, havia um a piscina, estábulos, um a quadra de tênis. Restaurantes onde serviam chá em bules de prata, salas especiais para bilhar e bridge. Gram ofones tocando m úsica. Barm en de paletó branco que preparavam drinques cham ados pink lady e gin fizz.
Pouco tem po antes, a gerência do clube tinha erguido m ais m uros cercando o terreno, para afastar os intrusos. Mas Bism illah disse que ainda havia algum as partes com cerca de aram e no lado oeste, por onde dava para entrar.
Esperaram até quase anoitecer, quando os j ogadores de golfe deixavam o cam po para fugir dos m osquitos e iam tom ar seus coquetéis na sede. Mantiveram o plano em segredo e não contaram a nenhum m enino do bairro. Foram até a m esquita na esquina de casa, seus m odestos m inaretes verm elhos e brancos destacando-se das construções próxim as. Viraram na estrada principal levando o taco e duas latas de querosene.
Atravessaram na frente do Technicians Studio. Tom aram a direção dos arrozais por onde antigam ente corria o Adi Ganga. Um estuário do Ganges, ram ificando-se na direção sudeste até a baía de Bengala.
Nesses dias era um a água estagnada, que seguia os assentam entos dos hindus que tinham fugido de Dhaka, de Raj shashi, de Chittagong. Um a população desenraizada que Calcutá recebia, m as ignorava. Desde a Partilha, dez anos antes, eles tinham se espraiado em algum as áreas de Tolly gunge, com o as chuvas da m onção que escureciam a baixada.
Alguns funcionários do governo haviam recebido m oradia no program a de intercâm bio. Mas na m aioria eram refugiados, chegando em ondas, despej ados de suas terras ancestrais. Antes um rápido fio d’água, depois um a enxurrada. Subhash e Uday an se lem bravam deles. Um a procissão sinistra, um a m anada hum ana. Bebês am arrados no peito dos pais, trouxas na cabeça.
Faziam abrigos de lona ou de palha, paredes de bam bu trançado. Viviam sem banheiro, sem eletricidade. Em choupanas ao lado de m ontes de lixo, em qualquer espaço vago.
Era por isso que agora o Adi Ganga, a cuj as m argens ficava o Tolly Club, era um esgoto do sudoeste de Calcutá. Era por isso que o clube tinha erguido m ais m uros.
Subhash e Uday an não encontraram nenhum a cerca de aram e. Pararam num lugar onde o m uro não era tão alto e dava para escalar. Estavam de calção. Os bolsos cheios de bolas de golfe. Bism illah disse que encontrariam m uitas m ais dentro do clube, onde elas ficavam no chão, j unto com as vagens que caíam dos tam arindeiros.
Uday an atirou o taco por cim a do m uro. Depois um a das latas de querosene. Subindo na outra lata, Subhash conseguiria im pulso suficiente para trepar. Mas, naqueles dias, Uday an era alguns centím etros m ais baixo.
Trance os dedos, disse Uday an.
Subhash j untou as m ãos. Sentiu o peso do pé do irm ão, a sola gasta da sandália, então o corpo todo, agachando-se por um instante. Uday an logo pegou im pulso. Encavalou-se no m uro.
Subhash perguntou:
Fico aqui de guarda enquanto você explora?
Que graça teria?
O que você está vendo?
Venha você m esm o ver.
Subhash em purrou a lata de querosene para m ais perto do m uro. Subiu em cim a, sentindo a estrutura vazia oscilar por baixo dele.
Vam os, Subhash.
Uday an se endireitou e desceu, deixando visíveis apenas as pontas dos dedos. Então soltou as m ãos e caiu. Subhash o ouviu, arfando pelo esforço.
Você está bem ?
Claro. Agora você.
Subhash se agarrou ao m uro, colando o peito, esfolando os j oelhos. Com o sem pre, não sabia se estava m ais irritado com Uday an e sua ousadia ou consigo m esm o por falta dela. Subhash tinha treze anos, quinze m eses a m ais. Mas não conseguia se im aginar sem Uday an. Desde suas prim eiras lem branças, em todos os m om entos, o irm ão estava ali.
De repente não estavam m ais em Tolly gunge. Ouviam , m as não viam m ais o trânsito na rua. Estavam rodeados por enorm es m aracarecuias e eucaliptos, calistem os e j asm ins-m anga.
Subhash nunca tinha visto um gram ado daqueles, que parecia um tapete liso, acom panhando os contornos e as elevações do terreno. Ondulando com o dunas no deserto ou os suaves altos e baixos no m ar. Era tão bem aparada no putting green que, quando ele pressionava, parecia m usgo. O terreno por baixo era liso com o um crânio, a gram a ali um pouquinho m ais clara.
Nunca tinha visto tantas garças j untas, que levantaram voo quando ele se aproxim ou. As árvores lançavam som bras vespertinas no relvado. Olhando para cim a, os troncos lisos se dividiam , com o as zonas proibidas de um corpo de m ulher.
Am bos estavam atordoados pela em oção de invadir, pelo m edo de ser apanhados. Mas nenhum guarda a pé ou a cavalo, nenhum j ardineiro os viu. Ninguém veio expulsá-los.
Com eçaram a relaxar, descobrindo um a sucessão de bandeirolas fincadas no cam po. Os buracos pareciam um bigos na terra, enfeitada de orifícios, indicando onde as bolas deviam chegar. Aqui e ali havia covas rasas de areia. Poças na área central, de form atos estranhos, com o gotas vistas a um m icroscópio.
Mantiveram -se longe da entrada principal, sem se arriscar para os lados da sede, por onde cam inhavam casais estrangeiros de braços dados ou se sentavam em cadeiras de vim e debaixo das árvores. Bism illah tinha dito que, de tem pos em tem pos, havia um a festa de aniversário para algum filho de um a fam ília britânica ainda residente na Índia, com sorvetes e passeios a cavalo, um bolo com velinhas acesas. Nehru era o prim eiro-m inistro, m as era o retrato da nova rainha da Inglaterra, Elizabeth ii, que decorava o salão principal.
Naquele canto esquecido, em com panhia de um búfalo perdido por ali, Uday an se balançava vigorosam ente. Erguendo os braços acim a da cabeça, adotando poses, brandindo o taco com o um a espada. Dilacerou a gram a im pecável, perdendo algum as bolas num a das poças d’água. Procuraram outras no m ato em torno.
Subhash ficou de vigia, para escutar quando se aproxim assem os cascos dos cavalos nas trilhas largas de terra verm elha. Ouviu as batidinhas de um pica-pau. O som leve de um a foice aparando um a área do gram ado em algum outro lugar do clube.
Bandos de chacais se sentavam retos, a pelagem fulva m osqueada de cinzento. Dim inuindo a luz, alguns com eçaram a procurar alim ento, as silhuetas m agras trotando em linha reta. Seus uivos tresloucados, ecoando dentro do clube, indicavam que era tarde, hora de voltarem para casa.
Os irm ãos deixaram as duas latas de querosene, um a do lado de fora para m arcar o local. Esconderam a outra dentro do clube, atrás de um a m oita.
Nas visitas seguintes, Subhash catou penas e colheu am êndoas silvestres. Viu abutres se banhando nas poças, estendendo as asas para secar.
Um a vez encontrou um ovo que caíra, intacto, do ninho de um passarinho. Levou para casa com todo o cuidado, pondo num pote de doces feito de argila, cobrindo-o com gravetinhos. Cavando um buraco no j ardim atrás de casa, ao pé da m angueira, onde o ovo não chocou.
Então num a noitinha, atirando o taco de golfe de dentro do clube, escalando o m uro de volta, eles notaram que a lata de querosene do lado de fora não estava m ais lá.
Alguém pegou, disse Uday an. Com eçou a procurar. Havia pouca luz.
É isso que vocês estavam procurando?
Era um policial, aparecendo do nada, patrulhando a área ao redor do clube.
Conseguiam enxergar sua altura, seu uniform e. Estava segurando a lata.
Avançou alguns passos até eles. Vendo o taco no chão, pegou-o, inspecionando. Pousou a lata e ligou um farolete, dirigindo a luz para o rosto deles e depois descendo pelo corpo.
Irm ãos?
Subhash assentiu.
O que vocês têm nos bolsos?
Tiraram as bolas de golfe e lhe entregaram . Viram o policial colocá-las no bolso. Ficou com um a na m ão, atirando para o alto e pegando de novo.
Com o conseguiram estas?
Ficaram quietos.
Alguém convidou vocês para vir j ogar no clube?
Abanaram a cabeça.
Nem preciso dizer que essa área é restrita, disse o policial. Encostou de leve a haste do taco no braço de Subhash.
Hoj e foi a prim eira visita de vocês?
Não.
Foi ideia sua? Não tem idade suficiente para saber que não podia?
Foi m inha ideia, disse Uday an.
Você tem um irm ão leal, disse o policial a Subhash. Querendo protegê-lo. Disposto a levar a culpa.
Desta vez, vou lhes fazer um favor, continuou ele. Não vou contar ao clube. Desde que vocês não tentem outra vez.
Não voltarem os, disse Subhash.
Muito bem . Vou precisar levá-los até a casa de vocês, ou encerram os nossa conversa por aqui?
Por aqui.
Então se vire. Só você.
Subhash ficou de frente para o m uro.
Dê m ais um passo.
Sentiu a haste de aço golpeando os quadris, então as pernas. A força da segunda pancada, um rápido instante de contato, o deixou de quatro. Levou alguns dias até os vergões sum irem .
Os pais nunca tinham batido neles. No com eço, não sentiu nada, só um entorpecim ento. Depois um a sensação que parecia água fervendo que lhe j ogavam de um a panela.
Pare, Uday an gritou ao policial. Agachou-se ao lado de Subhash, passando um braço pelos om bros, tentando protegê-lo.
Juntos, apertados um no outro, firm aram -se. Estavam com a cabeça baixa, os olhos fechados, Subhash ainda cam baleando de dor. Mas não aconteceu m ais nada. Ouviram o som do taco de golfe passando por cim a do m uro, aterrissando um a últim a vez dentro do clube. Então o policial, que não queria m ais nada com eles, indo em bora.