Aguapés
Capítulo 2
Ele com eçara o novo sem estre com duas sem anas de atraso, pondo-se em dia com as aulas, m udando para um apartam ento m obiliado reservado para os estudantes casados e suas fam ílias. Com prara lençóis para o colchão de casal e, ligando para pessoas que anunciavam obj etos à venda nos quadros de avisos, m ontara um lar para Gauri. Com prou m ais alguns pratos e panelas, um vaso de árvore da am izade, um a televisão em branco e preto num a m esinha de rodas m eio bam ba.
A única coisa que ele via do corpo de Gauri eram rápidos relances quando ela saía do banheiro após a ducha. Depois de Richard, ele se acostum ara a dividir o espaço com outra pessoa sem m aiores problem as. Ao anoitecer ele pegava nas gavetas do quarto as roupas que ia usar no dia seguinte, para não precisar incom odá-la de m anhã cedo.
De noite, às vezes ele ouvia a porta do quarto se abrindo. Ela ia ao banheiro, pegava um copo de água. Ele se m antinha im óvel enquanto o fluxo de urina corria. À luz do am anhecer, via seu cabelo solto, sem o coque usual, flexível, com o um a serpente pendendo do galho de um a árvore. Ela atravessava a sala com o se estivesse vazia, com o se ele não estivesse ali.
Ele acreditava que as coisas m udariam depois do nascim ento do bebê. Que a criança os aproxim aria, prim eiro com o pais, depois com o m arido e m ulher.
Um a vez, no m eio da noite, ele ouviu que ela se debatia num pesadelo. Seu gem ido anim al o surpreendeu; era o som de um grito abafado entre os m axilares cerrados, a boca fechada. Um a fúria enunciada, m as sem palavras. Ele ficou deitado no sofá, ouvindo-a sofrer, ouvindo-a reviver a m orte do irm ão dele, talvez. Esperando o terror passar.
Por acaso encontrou Narasim han e, visto que Narasim han perguntou, ele contou as novidades. Que j á tinha praticam ente acabado o trabalho de curso, que nos próxim os m eses faria o exam e de qualificação. Que o irm ão m orrera na Índia. Que agora estava casado e a esposa estava grávida. Não m encionou a ligação, não contou que havia se casado com a esposa do irm ão.
Ele estava doente?
Ele foi m orto.
Com o?
Os param ilitares o m ataram . Ele era um naxalista.
Meus pêsam es. É um a perda terrível. Mas agora você vai ser pai.
É.
Ouça, j á faz tem po. Por que você e sua esposa não vêm j antar conosco um dia desses?
Tinha o endereço escrito no verso de um envelope. Ficou um pouco perdido pelas estradas pouco conhecidas. A casa ficava num bosque, descendo por um cam inho de terra som breado, sem um gram ado propriam ente dito, sem nenhum a outra casa ao alcance da vista.
Havia vários outros casais indianos da universidade, que tinham sido convidados por Narasim han e Kate. Alguns j á tinham filhos, que saíram para brincar com os m eninos de Narasim han, correndo por um passadiço que rodeava dois lados da casa. Subhash e Gauri foram apresentados a outros casais, na m aioria estudantes de pós-graduação em engenharia e m atem ática com suas esposas. Várias m ulheres tinham trazido algum prato preparado por elas, dals, legum es, samosas, acom panham entos saborosos para a lasanha e a salada que Kate servira.
Os convidados ocupavam um a am pla sala com lam bris de m adeira, de pé e sentados, conversando, segurando o prato na m ão. As prateleiras estavam cheias de livros, do teto pendiam vasos de plantas em fios de sustentação trançados, havia pilhas de discos ao lado da vitrola. Nas j anelas não havia cortinas, apenas a vista das árvores lá fora. Nas paredes havia quadros de pinturas abstratas, m anchas de cores vivas feitas por Kate.
Ele ficou aliviado em ver Gauri se relacionando com as outras m ulheres. Estava com um belo sári. A criança com eçava a pesar. Ele viu algum as m ulheres pondo a m ão em sua barriga. Ouviu enquanto falavam de filhos, receitas, de um festival Diwali que organizariam no ano seguinte no cam pus. Ficou satisfeito em ter vindo com ela e em saber que iria em bora com ela. Que eram recebidos e considerados com o um a unidade.
Ninguém perguntou se Gauri era sua esposa ou se logo se tornaria pai. O grupo lhes desej ou felicidades e saíram com vários obj etos que tinham sido usados pelos filhos de Narasim han e que Kate havia guardado: um cercadinho dobrável, toalhas e cobertores, gorrinhos e pij am as que pareciam de boneca.
No carro, Gauri m anteve silêncio enquanto Subhash refazia o cam inho de volta. Na vinda, ela viera lendo um de seus livros. Mas, agora que estava escuro, não tinha nada para se distrair.
As m ulheres pareciam sim páticas. Quem eram elas?
Não m e lem bro dos nom es, respondeu Gauri.
O entusiasm o que m ostrara na com panhia de terceiros desaparecera. Ela parecia cansada, talvez aborrecida. Ele se perguntou se ela teria m esm o se divertido ou se estivera apenas fingindo. Mas persistiu.
Vam os convidar algum as delas para nossa casa, algum a hora?
Você é que sabe.
Podem aj udar, depois que o bebê nascer.
Não preciso do conselho delas.
Eu quis dizer com o com panhia.
Não quero passar m eu tem po com elas.
Por que não, Gauri?
Não tenho nada em com um com elas.
Alguns dias depois, ele chegou ao apartam ento e não a viu sentada na sala de estar, com o geralm ente estava naquele horário, lendo um livro no sofá, fazendo anotações, tom ando um a xícara de chá.
Ele bateu à porta do quarto, abrindo-a parcialm ente quando não houve resposta. O quarto estava escuro, m as não a viu descansando na cam a. Cham ou por ela, perguntando-se se teria saído para um passeio, em bora j á fosse quase a hora do j antar, escurecendo, e ela não tivesse com entado nada quando ele telefonou algum as horas antes, para verificar se estava tudo bem .
Foi até o fogão para esquentar água para o chá. Perguntou-se se teria deixado um bilhete em algum lugar. Por um instante sentiu um leve pânico, perguntando-se se teria acontecido algum a coisa com o bebê. Verificou o banheiro. Voltou ao quarto, desta vez acendendo a luz.
Na penteadeira estava um a tesoura que ele costum ava guardar na gaveta da cozinha, j unto com m echas de cabelo. Num canto do quarto, todos os seus sáris, saias e blusas, estavam no chão em faixas e retalhos de vários form atos e tam anhos, com o se um anim al tivesse dilacerado o tecido com suas garras e presas. Ele abriu as gavetas e viu que estavam vazias. Ela tinha destruído tudo.
Alguns m inutos depois, ele ouviu o barulho da chave na porta. O cabelo dela agora term inava de repente na altura do queixo, alterando drasticam ente seu rosto. Estava de calça com prida e um suéter cinzento. As roupas cobriam o corpo, m as acentuavam o contorno dos seios, o volum e firm e do ventre. O feitio das coxas. Ele afastou os olhos, em bora j á tivesse se im prim ido na retina a visão dos seios expostos.
Onde você estava?
Peguei um ônibus no centro acadêm ico para a cidade. Com prei algum as coisas.
Por que cortou o cabelo?
Me cansei dele.
E as roupas?
Me cansei delas tam bém .
Ele observou enquanto ela entrava no quarto, sem se desculpar pela trem enda bagunça que tinha feito, apenas deixando ali as roupas novas que havia com prado e depois enfiando as coisas velhas em sacos de lixo. Pela prim eira vez, ele se zangou com ela. Mas não se atreveu a lhe dizer que havia feito algo devastador ou que considerava indesej ável. Que esse com portam ento destrutivo não podia ser bom para a criança.
Aquela noite, no sofá, foi a prim eira vez que sonhou com Gauri. Estava de cabelo curto. Usava apenas saia e blusa. Estava com ela debaixo da m esa de j antar. Estava por cim a dela, nu, fazendo am or com o costum ava fazer com Holly. Unindo seu corpo ao corpo dela no chão duro de piso cerâm ico.
Ele acordou, confuso, ainda excitado. Estava sozinho no sofá da sala, Gauri dorm indo no quarto fechado. Eram casados, ela agora era sua esposa, m as m esm o assim ficou com sentim ento de culpa.
Sabia que ainda era cedo dem ais. Que era errado se aproxim ar dela enquanto o bebê não nascesse. Ele herdara a esposa do irm ão; no verão herdaria seu filho. Mas a necessidade física que sentia por ela — despertando do sonho, no apartam ento onde viviam j untos e separados, isso ele não podia m ais negar que tam bém herdara.