Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 37 de 37

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Aguapés

Capítulo 2

 

Ele não ouviu o furgão entrando no enclave. Viu apenas quando chegou. Estava no telhado. A casa agora era de altura suficiente. Enquanto ficasse no fundo, ninguém o enxergaria.

Era com o ficar longe do parapeito. Desde a explosão, o m undo exterior perdera a estabilidade. As plantas dos pés não lhe davam m ais apoio. Se olhasse para baixo, o chão ora o atraía, ora o am eaçava.

Viu que eram m uito, que só no pátio havia três policiais m ilitares. Deu um a olhada nos telhados vizinhos. Em algum as partes de Calcutá do Norte, daria para saltar, para transpor o espaço entre as construções. Mas a vertigem im pedia; não conseguia m ais calcular um a distância sim ples. De todo m odo, as casas em Tolly gunge eram bastante afastadas um as das outras.

Antes que o pai fosse abrir o portão para deixá-los entrar, desceu correndo a escada. Agachando-se na virada dos degraus, tom ando cuidado para que não o vissem pela grade do terraço. Atravessando a parte nova da casa, indo para a antiga. Havia um a porta no fundo do quarto que antigam ente ele divida com Subhash, de folha dupla estreita, dando para o j ardim .

Trepou pelo m uro traseiro do pátio, com o fazia quando era m enino para escapar de casa sem que a m ãe visse.

Andava rápido, cortando os lagos, indo até a baixada. Entrou na parte onde os aguapés eram m ais densos, um passo por vez, a água acolhendo seu corpo até ocultá-lo.

Tom ou fôlego, fechou a boca, afundou-se na água. Tentou ficar im óvel. Tam pou o nariz com os dedos da m ão sadia.

Depois de alguns segundos, a pressão aum entou e ardeu nos pulm ões, com o se o peso de todo o corpo se concentrasse neles. A respiração presa estava ficando sólida, enchendo o peito. Era norm al, não por falta de oxigênio, m as pelo gás carbônico aum entando no sangue.

Se a pessoa com batesse o instinto de respirar naquele instante, o corpo podia subsistir por até seis m inutos. O sangue dim inuiria sua circulação no fígado e nos intestinos e iria para o coração e o cérebro. Foi o m édico que tratou de sua m ão, a quem perguntou a respeito, que lhe explicou isso.

Verificou o pulso, checando por si m esm o. Teria sido m elhor se não tivesse corrido. Se o pulso estivesse m ais lento quando entrou na água. Com eçou a contar. Contou dez segundos. Com batendo a vontade de vir à superfície, obrigando-se a aguentar m ais alguns segundos.

Debaixo d’água havia a liberdade de não precisar lutar para ouvir qualquer coisa. Poupava-lhe a frustração de não entender direito, de pedir que repetissem as coisas. O m édico falou que a audição podia m elhorar, que a distorção e o zunido nos ouvidos podiam dim inuir com o tem po. Precisava esperar para ver.

O silêncio debaixo d’água não era com pleto. Havia um a exalação sem sonoridade que penetrava o crânio. Era diferente da surdez parcial que sentia desde a explosão. Água, condutor sonoro m elhor do que o ar.

Perguntou-se se essa surdez seria com o visitar um país de língua desconhecida. Não absorver nada do que se dizia. Nunca tinha estado em outro país. Nunca estivera na China nem em Cuba. Lem brava algo que lera pouco tem po antes, as últim as palavras que Che escrevera aos filhos: Lembrem-se de que a Revolução é o importante e cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Mas, neste caso, não se corrigira nada, não se aj udara ninguém . Neste caso, não haveria revolução nenhum a. Agora sabia.

Se ele não valia nada, então por que tanto desespero em se salvar? Por que, afinal, o corpo não obedecia ao cérebro?

De repente o corpo prevaleceu e ele subiu à superfície, expondo cabeça e peito, narinas queim ando, pulm ões lutando por ar.

Dois policiais m ilitares estavam ali a encará-lo, com os fuzis erguidos. Um deles gritava num m egafone e assim Uday an não teve dificuldade em ouvir o que dizia.

Tinham cercado a baixada. Viu que atrás de si havia um soldado a algum a distância, e dois de cada lado. Tinham capturado sua fam ília. Iam com eçar a atirar neles caso não se rendesse, anunciou a voz. Am eaça feita a um a altura para que não só ele, m as todos os vizinhos ouvissem .

Aprum ou-se cuidadosam ente na água densa de vegetação que batia pela cintura. Estava cuspindo o que engolira, tossindo com tanta força que até engasgava. Estavam dizendo para se aproxim ar, para erguer as m ãos.

De novo a instabilidade, a tontura. A superfície da água inclinada, o céu m ais baixo do que deveria, o horizonte frouxo. Queria um xale nos om bros. O castanho m acio que Gauri sem pre deixava pendurado num a vareta no quarto deles, que o envolvia no perfum e dela quando, em algum as m anhãs, punha-o nas costas para ir fum ar o prim eiro cigarro do dia na laj e da cobertura.

Sua esperança era que ela e a m ãe ainda estivessem fora, nas com pras. Mas, quando saiu da água, viu que tinham voltado em tem po para ver aquilo.

A coisa com eçou na faculdade, no bairro de Gauri, no cam pus logo adiante na rua do apartam ento onde ela m orava. Eram constantes as conversas durante as aulas, durante as refeições na cantina, sobre o país e tudo o que havia de errado nele. A econom ia estagnada, a deterioração dos padrões de vida. A últim a escassez de arroz, levando dezenas de m ilhares quase a m orrer de fom e. O arrem edo de um a independência, m etade da Índia ainda agrilhoada. Só que agora eram os próprios indianos que se agrilhoavam .

Então conheceu alguns m em bros do m ovim ento estudantil da ala m arxista. Falavam do exem plo do Vietnã. Com eçou a faltar às aulas, a andar com eles por Calcutá. A visitar fábricas, a visitar favelas.

E m 1966, organizaram um a greve na Presidency, por causa da m á adm inistração dos aloj am entos. Exigiram a renúncia do superintendente. Arriscaram -se a ser expulsos. Fecharam a Universidade de Calcutá inteira durante sessenta e nove dias.

Foi para o cam po para se doutrinar m elhor. Recebeu instruções de ir de um lugar a outro, de andar diariam ente vinte e cinco quilôm etros antes de anoitecer. Conheceu a vida desesperada dos rendeiros. Gente que precisava com er a ração dos anim ais. Crianças que com iam um a vez só por dia.

Os m ais despossuídos às vezes m atavam a fam ília antes de tirar a própria vida, pelo que lhe disseram .

A sobrevivência deles dependia dos latifundiários, dos agiotas. De gente que se aproveitava deles. De forças que escapavam a seu controle. Viu com o o sistem a os oprim ia, com o os hum ilhava. Com o lhes tirava a dignidade.

Com ia o que lhe davam . Arroz rústico, lentilha m irrada. Água que nunca saciava sua sede. Em alguns vilarej os não havia chá. Raram ente tom ava banho, tinha de defecar no cam po. Nenhum lugar onde pudesse sofrer reservadam ente as câim bras violentas que lhe rasgavam os intestinos, que lhe rasgavam a abertura ardida da pele. Para ele, a privação era tem porária. Mas m uitos, m uitíssim os, não conheciam outra coisa.

À noite, ele e os com panheiros se escondiam em cam as de palha trançada, em sacos de cereais. Eram torturados por m osquitos, por enxam es vagarosos que os sugavam até o osso. Alguns dos rapazes eram de fam ílias ricas. Um ou dois desistiram em poucos dias. À noite, naquele silêncio coletivo, transtornado pelas coisas que vira e ouvira, Uday an se perm itia pensar num único consolo: Gauri. Revia-a na im aginação, conversava com ela. Perguntava-se se ela aceitaria se casar com ele.

Um dia, visitando um a clínica, deparou-se com o cadáver de um a m oça. Tinha m ais ou m enos a idade de Gauri, j á m ãe de m uitos filhos. A causa da m orte não era aparente. Ninguém do grupo deu a resposta certa quando o m édico pediu que tentassem adivinhar. Tentando conseguir um pouco de arroz barato para a fam ília, fora pisoteada num tropel de gente em correria. Os pulm ões foram esm agados.

Ironicam ente, tinha o rosto cheio, o ventre frouxo. Ele visualizou os outros vindo por trás, em purrando, decididos a derrubá-la. Talvez os conhecesse, talvez fossem do m esm o povoado, talvez os cham asse de vizinhos e am igos. Mais um a prova de que o sistem a estava falido, de que tal pobreza era um crim e.

Disseram -lhe que havia um a alternativa. Ainda assim , no com eço, fora basicam ente um a questão de opinião. De ir a reuniões e com ícios, continuar a se instruir. De colar cartazes, pichar slogans no m eio da noite. De ler os panfletos de Charu Maj um dar, confiar em Kanu Sany al. De acreditar que havia um a solução à m ão.

Em Calcutá, logo após a form ação do partido, Subhash partiu, indo para os Estados Unidos. Criticava os obj etivos do partido, na verdade desaprovava. A desaprovação de Subhash tinha enfurecido Uday an, m as a separação lhe trouxera o pressentim ento, em bora tentasse afastá-lo, de que nunca m ais voltariam a se ver. Poucos m eses depois, casou-se com Gauri.

Com a partida de Subhash, os únicos am igos de Uday an eram os cam aradas do partido. Aos poucos, as m issões se tornaram m ais prem editadas. Gasolina espalhada no escritório de arquivos de um a universidade pública. Estudo das instruções para fabricar bom bas, roubo de ingredientes nos laboratórios. Entre os m em bros do bairro, um a discussão sobre os possíveis alvos. O Tolly Club, pelo que representava. Um policial, pela autoridade que encarnava e tam bém por sua arm a.

Depois que o partido entrou na clandestinidade, ele com eçou a levar duas vidas diferentes. Ocupando duas dim ensões, seguindo dois conj untos de leis. Num m undo, ele era casado com Gauri, m orando com os pais, indo e vindo de m aneira que não despertasse suspeitas, dando aulas, ensinando os alunos a fazer experiências sim ples na escola. Escrevendo cartas anim adas a Subhash nos Estados Unidos, fingindo que deixara o m ovim ento, fingindo que seu engaj am ento esfriara. Mentindo para o irm ão, esperando que assim se reaproxim assem . Mentindo para os pais, por não querer lhes dar preocupações.

Mas, no m undo do partido, tam bém se esperava dele que aj udasse a m atar um policial. Eram sím bolos da brutalidade, treinados por estrangeiros. Não são indianos, não pertencem à Índia, dizia Charu Maj um dar. Cada elim inação difundia a revolução. Cada liquidação era um avanço.

Ele aparecera na hora m arcada, vigiando a viela onde ocorreria a ação. O ataque se deu no com eço da tarde, quando o policial estava indo buscar o filho na escola. Um dia em que estava de folga. Um dia em que, graças a Gauri, sabiam que não estava arm ado.

Nas reuniões, Uday an e os com panheiros de célula tinham avaliado em que lugar do abdôm en deviam cravar a lâm ina, em que ponto abaixo das costelas. Lem bravam o que Sinha lhes dissera antes de ser preso: que a violência revolucionária ia contra a opressão. Que era um a força hum ana, libertadora.

Na viela, sentira-se calm o e confiante. Vira a roupa do policial se tingir de escuro, o ar de perplexidade, os olhos saltados, o esgar de dor no rosto. E então o inim igo deixou de ser um policial. Deixou de ser um m arido ou um pai. Deixou de ser a versão de alguém que espancara Subhash com um taco quebrado na frente do Tolly Club. Deixou de existir.

Um a sim ples faca foi suficiente para m atá-lo. Um instrum ento próprio para cortar frutas. Não a arm a carregada que agora estava apontada para a nuca de Uday an.

Não fora ele a em punhar a lâm ina, ficou apenas de vigia. Mas sua participação foi essencial. Aproxim ou-se o quanto pôde, m ergulhou a m ão no sangue fresco daquele inim igo, escrevendo as iniciais do partido no m uro enquanto o sangue lhe escorria pelo pulso, até a dobra do cotovelo, antes de sair correndo do local.

Agora estava na beira de um a baixada, no enclave onde m orara durante toda a sua vida. Era um final de tarde em outubro, Tolly gunge no lusco-fusco, na sem ana antes de Durga Puj o.

Os pais rogavam aos policiais, insistindo que ele era inocente. Mas eles é que eram inocentes das coisas que havia feito.

Estava com as m ãos am arradas às costas, a corda esfolando a pele. O incôm odo lhe ocupava o espírito. Disseram -lhe para se virar.

Era tarde dem ais para fugir ou lutar. Por isso ficou parado e aguardou de costas, visualizando a fam ília sem a ver.

A últim a coisa que viu dos pais foram os pés, quando se curvara para lhes pedir perdão. Os chinelos de borracha m acia que o pai usava em casa. A barra m arrom -escura do sári da m ãe, a ponta cobrindo o rosto e dando a volta no om bro, com seus dedos segurando o tecido j unto à garganta.

Foi apenas o rosto de Gauri que ele conseguiu olhar, no m om ento em que lhe am arravam as m ãos. Não conseguiria se virar se não o fizesse.

Sabia que não era um herói para ela. Mentira-lhe, usara-a. Mas a am ara. Um a m ocinha que gostava de livros, desatenta à própria beleza, inconsciente da im pressão que produzia. Estava preparada para viver sozinha, m as, desde o instante em que a conheceu, ele precisou dela. E agora estava prestes a abandoná-la.

Ou era ela que o abandonava? Pois olhava-o com o nunca o olhara antes. Era um olhar de desilusão. Um a revisão de tudo o que tinham vivido j untos.

Em purraram -no para a traseira do furgão e ligaram o m otor. Ele sentiu a vibração da porta bruscam ente fechada. Iam levá-lo para algum lugar, fora da cidade, para interrogá-lo e depois liquidá-lo. Ou isso ou a prisão. Mas não, j á haviam desligado o m otor, o furgão tinha parado. A porta se abriu. Puxaram -no para fora.

Estavam no cam po aonde viera tantas vezes com Subhash.

Não disseram nada. Desam arraram suas m ãos e então apontaram , indicando que agora devia andar em certa direção, com as m ãos outra vez erguidas.

Ouviu dizerem lentam ente. Dê um a pausa depois de cada passo.

Fez com o m andaram . Passo a passo, foi se afastando deles. Volte para sua fam ília, disseram . Mas ele sabia que estavam apenas esperando que chegasse à distância ideal.

Um passo, depois outro. Com eçou a contar. Quantos m ais?

Desde o com eço, ele conhecia os riscos do que estava fazendo. Mas som ente o sangue do policial o preparara para aquilo. Aquele sangue não pertencia apenas ao policial, tornara-se parte dele tam bém . E assim Uday an sentiu que sua própria vida com eçava a se esvair, irreversivelm ente, com o o policial agonizando na viela. Desde então, esperava seu próprio sangue se derram ar.

Por um a fração de segundo, ouviu a explosão dilacerando os pulm ões. Um som com o j orro ou ventania. Um som que fazia parte das forças elem entares do m undo que então o levou deste m undo. Agora o silêncio era absoluto. Nenhum a interferência.

Não estava sozinho. Gauri estava diante dele com um sári cor de pêssego. Ofegava um pouco, o suor das axilas atravessando o tecido. Era a tarde lum inosa do lado de fora do cinem a, durante o intervalo. Tinham perdido a prim eira parte do film e.

Ela viera encontrá-lo em pleno dia, ainda não esposa, ainda quase estranha, prestes a se sentar com ele no escuro do cinem a.

Seus cabelos cintilavam . Ele queria erguê-los da nuca, sentir entre os dedos o peso dos cabelos soltos. A luz reverberava, transform ando-os em espelho, lançando um espectro que era frágil, m as com pleto.

Esforçou-se em ouvir o que ela dizia. Avançou outro passo em sua direção, deixando o cigarro cair dos dedos.

Alinhou o corpo ao dela. Abaixou a cabeça, a m ão form ando um dossel entre am bos para lhe proteger o rosto contra o sol. Foi um gesto inútil. Silêncio, apenas. O sol nos cabelos dela.

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