Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 5 de 37

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Aguapés

Capítulo 4

 

Em 1967, nos j ornais e na All India Radio, eles com eçaram a ouvir falar de Naxalbari. Nunca tinham ouvido falar daquele lugar.

Era um a entre várias aldeias no distrito de Darj eeling, um corredor estreito no extrem o norte de Bengala Ocidental. Encravada no sopé dos Him alaias, a m ais de seiscentos quilôm etros de Calcutá, m ais perto do Tibete do que de Tolly gunge.

Os habitantes eram , em sua m aioria, cam poneses tribais que trabalhavam em latifúndios e plantações de chá. Fazia m uitas gerações que eles viviam num sistem a feudal que não sofrera nenhum a grande m udança.

Eram m anipulados pelos fazendeiros ricos. Eram expulsos dos cam pos que cultivavam , não recebiam pagam ento pelo que plantavam . Caíam nas garras dos agiotas. Sem m eios de subsistência, alguns m orriam de fom e.

Naquele m ês de m arço, quando um m eeiro em Naxalbari tentou arar um a terra de onde fora ilegalm ente expulso, o fazendeiro m andou alguns capangas lhe darem um a surra. Pegaram o boi e o arado. A polícia não quis intervir.

Depois disso, vários m eeiros passaram à retaliação. Com eçaram a queim ar escrituras e docum entos que os ludibriavam . Ocuparam terras à força.

Não era a prim eira vez que os cam poneses do distrito de Darj eeling se revoltavam . Mas agora agiam com o m ilitantes. Portando arm as prim itivas, carregando bandeiras verm elhas, gritando Viva Mao Tsé-Tung.

Dois com unistas bengalis, Charu Maj um dar e Kanu Sany al, estavam aj udando a organizar as coisas. Tinham sido criados em vilas que ficavam perto de Naxalbari. Conheceram -se na prisão. Eram m ais j ovens do que a m aioria dos líderes com unistas da Índia, nascidos no final do século xix. Maj um dar e Sany al desprezavam esses líderes. Eram dissidentes do pci(m ).

Estavam exigindo direitos de propriedade para os m eeiros. Estavam dizendo aos cam poneses para plantarem por conta própria.

Charu Maj um dar era de um a fam ília de fazendeiros, filho de advogado, e largara a faculdade. Nos j ornais apareciam fotos de um hom em frágil, com rosto m agro, nariz adunco, cabelo basto. Era asm ático, um teórico m arxista-leninista. Alguns dos com unistas m ais antigos diziam que era um lunático. Na época da revolta, estava com um a doença cardíaca, preso ao leito, em bora não tivesse nem cinquenta anos.

Kanu Sany al, na casa dos trinta, era discípulo de Maj um dar. Era um brâm ane que conhecia os dialetos tribais. Recusava ter qualquer propriedade privada. Dedicava-se ao cam pesinato pobre.

Quando a rebelião se espraiou, a polícia com eçou a patrulhar a área. Im pondo toques de recolher sem aviso, fazendo prisões arbitrárias.

O governo estadual em Calcutá apelou a Sany al. Esperava que ele conseguisse a rendição dos cam poneses. De início, com a garantia de que não o prenderiam , ele se reuniu com o m inistro da Fazenda Agrária. Prom eteu um a negociação. No últim o m inuto, ele deu para trás.

Em m aio, saiu a notícia de que um grupo de cam poneses, hom ens e m ulheres, atacou e m atou um inspetor da polícia com arcos e flechas. No dia seguinte, a polícia local enfrentou na rua um a m ultidão revoltada. Um dos policiais foi atingido por um a flecha no braço e a m ultidão recebeu ordens de se dispersar. Não se dispersou e a polícia com eçou a atirar. Onze pessoas foram m ortas. Oito eram m ulheres.

De noite, depois de ouvirem a rádio, Subhash e Uday an conversaram sobre os acontecim entos. Fum ando escondidos, depois que os pais foram se deitar, sentados à m esa de estudos, com um cinzeiro entre eles.

Você acha que valeu a pena?, perguntou Subhash. O que os cam poneses fizeram ?

Claro que valeu. Eles se revoltaram . Arriscaram tudo. Gente que não tem nada. Gente que o poder não faz nada para proteger.

Mas vai fazer diferença? Do que adiantam arcos e flechas contra um estado m oderno?

Uday an j untou as pontas dos dedos, com o se pegasse alguns grãos de arroz. Se você nascesse e levasse um a vida assim , o que faria?

Com o m uitos, Uday an culpava a Frente Unida, a aliança de esquerda liderada por Aj oy Mukherj ee, que agora governava Bengala Ocidental. No m esm o ano, m eses antes, ele e Subhash haviam com em orado aquela vitória. Com ela, alguns com unistas tinham entrado no governo. A aliança prom etera criar um governo de bases operárias e cam ponesas. Com prom etera-se a abolir os latifúndios. Em Bengala Ocidental, pusera fim a quase vinte anos de liderança do Congresso.

Mas a Frente Unida não havia apoiado a rebelião. Pelo contrário, diante da dissidência, o m inistro do Interior Jy oti Basu cham ara a polícia. E agora Aj oy Mukherj ee m anchara as m ãos de sangue.

O Diário do Povo de Pequim acusou o governo de Bengala Ocidental de repressão sangrenta aos cam poneses revolucionários. Trovão da Primavera sobre a Índia, dizia a m anchete. Em Calcutá, todos os j ornais publicaram a m atéria. Explodiram m anifestações nas ruas e nas universidades, defendendo os cam poneses, protestando contra o m assacre. Na Faculdade Presidency e em Jadavpur, Subhash e Uday an viram bandeiras em apoio a Naxalbari nas j anelas de alguns edifícios. Ouviram discursos exigindo a renúncia de autoridades do governo.

Em Naxalbari, o conflito se acirrou. Havia notícias de saques e banditism os. Cam poneses m ontando governos paralelos. Fazendeiros sendo sequestrados e m ortos.

Em j ulho, o Governo Central proibiu o porte de arco e flecha em Naxalbari. Na m esm a sem ana, com a autorização do gabinete m inisterial de Bengala Ocidental, quinhentos soldados e oficiais deram um a batida na região. Revistaram as choças de barro dos aldeões m ais pobres. Capturaram revoltosos desarm ados, m atando-os se não se rendessem . Im piedosam ente, sistem aticam ente, liquidaram a rebelião.

Uday an saltou da cadeira onde estava sentado, em purrando desgostoso a pilha de livros e papéis que tinha diante de si. Desligou o rádio. Com eçou a percorrer o quarto, olhando o chão, passando os dedos pelo cabelo.

Você está bem ?, perguntou Subhash.

Uday an parou. Abanando a cabeça, apoiando um a das m ãos na cintura. Por um instante ficou sem fala. Os dois tinham ficado chocados com a notícia, m as Uday an estava reagindo com o se fosse um a afronta pessoal, um golpe físico.

O povo está m orrendo de fom e, e esta é a solução deles, disse por fim . Convertem as vítim as em crim inosos. Apontam arm as para gente que não tem com o se defender.

Destrancou a porta do quarto.

Aonde você vai?

Não sei. Preciso dar um a volta. Com o as coisas chegaram a esse ponto?

Em todo caso, parece que acabou, disse Subhash.

Uday an parou. Pode ser apenas o com eço, disse ele.

O com eço do quê?

De algo m aior. De outra coisa.

Uday an citou a previsão da im prensa chinesa: A fagulha em Darjeeling ateará fogo ao campo e certamente incendiará as vastas extensões da Índia.

 

No outono, Sany al e Maj um dar foram para a clandestinidade. No m esm o outono, Che Guevara foi executado na Bolívia, as m ãos decepadas para provar que estava m orto.

Na Índia, j ornalistas com eçaram a publicar seus próprios periódicos. Liberation em inglês, De shabrati em bengali. Reproduziam m atérias de revistas com unistas chinesas. Uday an com eçou a levá-las para casa.

Essa retórica não é novidade nenhum a, disse o pai deles, folheando um exem plar. Nossa geração tam bém lia Marx.

A geração de vocês não resolveu nada, disse Uday an.

Construím os um a nação. Som os independentes. O país é nosso.

Não basta. Aonde isso nos trouxe? A quem favoreceu?

Essas coisas dem oram .

O pai deles não dava im portância a Naxalbari. Disse que os j ovens estavam se agitando por nada. Que a coisa toda tinha sido um a questão de cinquenta e dois dias.

Não, Baba. A Frente Unida pensa que ganhou, m as falhou. Vej a o que está acontecendo.

O que está acontecendo?

O povo está reagindo. Naxalbari é um a inspiração. É um im pulso para a transform ação.

Já vivi a transform ação neste país, disse o pai. Sei o quanto custa substituir um sistem a por outro. Você não.

Mas Uday an insistiu. Com eçou a contestar o pai com o costum ava contestar os professores na escola. Se sentia tanto orgulho pela independência da Índia, por que não tinha protestado contra os britânicos na época? Por que nunca tinha se filiado a um sindicato? Já que votava nos com unistas nas eleições, por que nunca tinha tom ado posição?

Subhash e Uday an sabiam a resposta. Por ser funcionário público, o pai deles não podia atuar num partido ou num sindicato. Durante a Independência, fora proibido de se m anifestar; tais eram as condições do serviço. Em bora alguns ignorassem as regras, o pai deles nunca correra esses riscos.

Foi por nossa causa. Estava sendo responsável, disse Subhash.

Mas Uday an não via as coisas dessa m aneira.

Entre os textos de física de Uday an, agora havia outros livros que ele estudava. Estavam m arcados com pedacinhos de papel entre as páginas. Os condenados da terra. O que fazer? Um livrinho encapado com plástico verm elho, pouco m aior que um m aço de baralho, com aforism os de Mao.

Quando Subhash perguntou onde ele andava arranj ando dinheiro para com prar esses m ateriais, Uday an respondeu que eram de propriedade com unitária e circulavam entre um grupo de rapazes na Presidency , com os quais tinha feito am izade.

Uday an guardava debaixo do colchão alguns folhetos que conseguira, escritos por Charu Maj um dar. Tinham sido escritos, na m aioria, antes da revolta de Naxalbari, quando Maj um dar estava na prisão. Nossas tarefas na situação atual. Aproveitem a oportunidade. Quais as possibilidades indicadas pelo ano de 1965?

Um dia, precisando dar um a pausa nos estudos, Subhash foi ao colchão. Os artigos eram breves, bom básticos. Maj um dar dizia que a Índia se transform ara num a nação de m endigos e estrangeiros. O governo reacionário da Índia adota a tática de matar as massas; mata-as de fome, mata-as a tiros.

Acusava a Índia de recorrer aos Estados Unidos para resolver seus problem as. Acusava os Estados Unidos de converter a Índia num títere seu. Acusava a União Soviética de dar apoio à classe dom inante da Índia.

Convocava a form ação de um partido secreto. Convocava quadros nas aldeias. Com parava o m étodo da resistência ativa à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Ao longo dos ensaios, invocava o exem plo da China. Se entendemos a verdade de que a revolução indiana adotará invariavelmente a forma de guerra civil, a única tática viável pode ser a da tomada de poder por áreas.

Você acha que pode funcionar?, um dia Subhash perguntou a Uday an. Isso que Maj um dar está propondo?

Tinham acabado de fazer o últim o exam e na faculdade. Estavam atravessando o bairro para ir j ogar futebol com alguns dos velhos am igos de escola.

Antes de tom arem a direção do cam po, foram até a esquina, para Uday an com prar um j ornal. Ele o dobrou na página de um artigo sobre Naxalbari, absorvendo-se na leitura enquanto andavam .

Seguiram pelos m uros das ruelas sinuosas, passando por pessoas que os tinham visto crescer. A água dos dois lagos era estagnada e esverdeada. A baixada ainda estava inundada e então tiveram de contorná-la, em vez de atravessá-la.

A certo ponto Uday an parou, abarcando com a vista as choças m iseráveis que rodeavam a baixada, os aguapés luzidios que proliferavam na superfície.

Já funcionou, respondeu ele. Mao transform ou a China.

A Índia não é a China.

Não. Mas poderia ser, disse Uday an.

Agora, se passavam j untos pelo Tolly Club, indo ou voltando do term inal, Uday an dizia que era um a afronta. Havia favelas superpovoadas por toda a cidade; crianças nasciam e cresciam nas ruas. Por que cem acres cercados de m uros para a diversão de um a pequena m inoria?

Subhash lem brava as árvores im portadas, os chacais, os alaridos das aves. As bolas de golfe pesando nos bolsos deles, o verde ondulante do cam po. Lem brava Uday an sendo o prim eiro a pular o m uro, desafiando-o a vir tam bém . Agachando-se no chão na últim a vez em que estiveram lá, tentando protegê-lo.

Mas Uday an dizia que golfe era passatem po da burguesia a serviço dos estrangeiros. Dizia que o Tolly Club era a prova de que a Índia ainda era um país sem icolonial, agindo com o se os britânicos nunca tivessem ido em bora.

Com entava que Che, o qual fora caddy num cam po de golfe na Argentina, chegara à m esm a conclusão. Que, depois da revolução cubana, um a das prim eiras coisas que Fidel fez, foi acabar com os cam pos de golfe.