Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 18 de 37

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Aguapés

Capítulo 4

 

Aos quatro anos, Bela estava desenvolvendo um a m em ória. A palavra ontem entrou em seu vocabulário, em bora com significado elástico, sinônim o de qualquer coisa que não fosse m ais o caso. O passado se desfazia, sem nenhum a ordem , encerrado num a única palavra.

Ela usava a palavra em inglês, yesterday. Era em inglês que o passado era unilateral; em bengali, a palavra para ontem , kal, era a m esm a para am anhã. Em bengali, era preciso um adj etivo ou um tem po verbal para distinguir entre o que j á acontecera e o que viria a acontecer.

Para Bela, o tem po corria em sentido contrário. Às vezes dizia o dia depois de ontem.

Com um a pronúncia levem ente diferente, o nom e de Bela, nom e de um a flor, tam bém significava um período de tem po, um a parte do dia. Shakal bela significava m anhã; bikel bela, tarde. Ratrir bela era noite.

O ontem de Bela era um receptáculo para qualquer coisa arm azenada em sua cabeça. Qualquer experiência ou im pressão que ocorrera antes. Tinha m em ória curta, de conteúdo lim itado. Sem cronologia, reorganizada aleatoriam ente.

Foi assim que um dia ela disse a Gauri, que estava desem baraçando com o pente um nó teim oso no cabelo denso de Bela:

Quero cabelo curto, com o ontem .

O cabelo dela tinha estado curto m uitos m eses antes. E a princípio foi isso o que Gauri lhe disse. Explicou que o cabelo levava tem po para crescer, m ais que um dia. Disse a Bela que seu cabelo estivera curto uns cem ontens atrás, não um ontem só.

Mas, para Bela, três m eses atrás e o dia anterior eram a m esm a coisa.

Ficou aborrecida que Gauri a contradissesse. A decepção passou com o um a nuvem escura pelo rosto. Não tinha nenhum traço de Gauri nem de Uday an. De onde vinha sua testa levem ente abaulada, os cantos internos dos olhos afundados? A posição dos olhos era distinta. Gauri percebia o contraste entre sua pele cor de caram elo e a pele m ais clara de Bela, um a alvura crem osa que recebera da sogra de Gauri.

Onde está m inha outra j aqueta?, Bela perguntou um dia, quando Gauri lhe estendeu um a nova. Estavam indo para a escola.

Qual?

A am arela de ontem .

De fato, havia um a am arela na prim avera anterior, com um capuz com acabam ento de pele. Pequena dem ais para ela agora, doada a um a igrej a no cam pus que aceitava roupas usadas.

Aquela era a j aqueta do ano passado. Servia quando você tinha três anos.

Eu tinha três anos ontem .

Estava esperando que Bela parasse de andar de um lado e outro no corredor. Que ficasse quieta para que Gauri lhe vestisse a j aqueta, para poderem sair. Quando Bela resistiu, agarrou-a pelos om bros.

Machuca. Você m e m achuca.

Bela, estam os com pressa.

Agora estava de j aqueta, aberta. Bela queria fechar o zíper. A tentativa atrapalhada estava atrasando ainda m ais as duas e, depois de um instante, Gauri não aguentou e afastou os dedos de Bela.

Baba m e deixa fazer sozinha.

Seu pai não está aqui.

Ela puxou o zíper até o alto, j unto à garganta de Bela, talvez com força um pouco excessiva, quase beliscando a pele. Repreendeu-se por ser im paciente. Perguntou-se quando a filha entenderia o pleno significado do que Gauri acabara de dizer.

Depois de deixar Bela na escola, com prou um café no grêm io. A cada verão e depois a cada inverno, no com eço do sem estre, centenas de estudantes faziam longas filas, m atriculando-se nos cursos. De vez em quando, Gauri pegava um catálogo largado no chão. Olhava as disciplinas oferecidas pelo departam ento de filosofia, fazendo um círculo nos cursos que a interessavam . Lem brava que frequentara secretam ente o curso de filosofia antiga, pouco depois de chegar a Rhode Island.

Naquele sem estre não havia nenhum curso durante o horário que Bela ficava na escola. Gauri foi até a biblioteca, para se sentar e ler. O esforço para concentrar-se elim inava, m esm o que apenas por um a ou duas horas, a obrigação de qualquer outra coisa. Elim inava sua percepção do transcurso daquelas horas.

Ela enxergava o tem po; agora procurava entendê-lo. Enchia cadernos com perguntas e observações. Ele existia de m aneira independente, no m undo físico, ou apenas na apreensão da m ente? Som ente os seres hum anos o percebiam ? O que fazia com que certos m om entos se avolum assem com o horas e certos anos m inguassem em poucos dias? Os anim ais tinham o senso de passagem do tem po, quando perdiam um com panheiro ou m atavam a presa?

Na filosofia hinduísta, dizia-se que os três tem pos — passado, presente, futuro — existiam sim ultaneam ente em Deus. Deus era atem poral, m as o tem po se personificava com o o deus da m orte.

Descartes, em sua Meditação Terceira, dizia que Deus recriava o corpo a cada instante sucessivo. Assim o tem po era um a form a de sustento.

Na terra, o tem po era m arcado pelo sol e pela lua, pelas rotações que criavam a diferença entre dia e noite e haviam levado a relógios e calendários. O presente era um pontinho que ficava faiscando, brilhando e dim inuindo, às vezes nem vivo nem m orto. Quanto durava? Um segundo? Menos? Estava sem pre em fluxo constante; ao se pensar nele, j á havia passado.

Num de seus cadernos de Calcutá havia anotações na letra de Uday an, sobre as leis da física clássica. A teoria de Newton dizia que o tem po era um a entidade absoluta, um fluxo que corria em velocidade uniform e, por si só. A contribuição de Einstein dizia que o tem po e o espaço estavam inter-relacionados.

Ele descrevera em term os de partículas, velocidades. Um sistem a de relações entre eventos instantâneos. Algo cham ado invariância por reversão tem poral, em que não havia nenhum a distinção fundam ental entre frente e atrás, quando os m ovim entos das partículas eram definidos com precisão.

O futuro assom brava, m as m antinha-a viva; dava-lhe sustento e era tam bém seu predador. Cada ano com eçava com um diário em branco. A versão de um relógio, im presso e encadernado. Ela nunca registrava suas im pressões em seus diários. Usava-os para escrever rascunhos de textos ou para fazer contas. Mesm o quando criança, cada página do diário ainda por virar, com acontecim entos ainda por viver, enchia-a de apreensão. Com o subir um a escada no escuro. Que provas existiam de que viria outro dezem bro?

As pessoas em geral confiavam no futuro, supondo que ele viria em sua versão preferida. Fazendo planos às cegas, enxergando coisas que não eram o caso. Era a vontade operando. Era o que dava sentido e rum o ao m undo. Não o que existia, m as o que não existia.

Os gregos não tinham um a noção clara a respeito. Para eles, o futuro era indeterm inável. Segundo Aristóteles, um hom em nunca poderia afirm ar com certeza se haveria um a batalha m arítim a no dia seguinte.

Antecipando deliberadam ente, na ignorância e na esperança — era assim que as pessoas em geral viviam . Seus sogros tinham esperado que Subhash e Uday an vivessem na casa que haviam construído para eles. Tinham desej ado que Subhash voltasse a Tolly gunge e se casasse com outra pessoa. Uday an dera a vida pelo futuro, esperando que a própria sociedade m udasse. Gauri esperara ficar casada com ele, não por m enos de dois anos, m as pela vida toda. Em Rhode Island, Subhash esperava viver com Gauri e Bela com o um a fam ília. Gauri com o m ãe de Bela e esposa dele.

Às vezes, Gauri extraía algum reconforto da versão da história de Bela. Segundo Bela, Uday an ainda podia estar vivo ontem e Gauri ainda podia estar casada com ele até ontem , quando na verdade haviam se passado quase cinco anos desde que fora m orto. Fazia quase cinco anos que estava casada com Subhash.

O que ela vira do terraço, naquele final de tarde quando a polícia foi procurar Uday an, agora ocupava um vazio em sua visão. O espaço a protegia m elhor do que o tem po: a grande distância entre Rhode Island e Tolly gunge. Com o se, para enxergar, o olhar tivesse de cobrir um oceano e se estender entre os continentes. Com isso, aqueles m om entos haviam recuado, fizeram -se cada vez m enos visíveis e depois invisíveis. Mas ela sabia que estavam lá. O que estava guardado na m em ória era diferente do que era deliberadam ente relem brado, dizia santo Agostinho.

Por outro lado, para Gauri, o nascim ento de Bela continuava a ser seu próprio ontem . Aquela noite de verão form ava um quadro nítido que parecia ter acabado de acontecer. Lem brava a chuva a cam inho do hospital, o rosto da enferm eira que estava a seu lado, a vista da paisagem m arinha pela j anela. A sensação da cam isola do hospital sobre a pele, a agulha inserida no alto da m ão. Parecia que tinha sido ontem que segurara e olhara Bela pela prim eira vez. Lem brava o peso da gravidez, que desaparecera de súbito. Lem brava o assom bro ao ver que surgira um ser específico, que passara tanto tem po encerrado dentro dela.

Ao m eio-dia, voltou à escola m aternal para pegar Bela, obrigação que era sem pre sua, nunca de Subhash. Ele estava num pós-doutorado em New Bedford, a quase oitenta quilôm etros dali. Estava tacitam ente estabelecido que ele saía de casa a certa hora e voltava a certa hora, e que nesse m eio-tem po Gauri era responsável por Bela em todas as horas.

Encontrava Bela sentada em seu cantinho, um cubículo que, a Gauri, parecia um caixãozinho posto na vertical. De j aqueta, esperando, em fila com os colegas. Não corria para os braços de Gauri com o algum as das outras crianças, querendo elogios pelos desenhos ondulados que tinham feito, as folhas que tinham catado e colado em folhas de papel. Ela se aproxim ava, com passos m edidos, perguntando o que Gauri lhe ia preparar para o alm oço, às vezes perguntando por que Subhash não tinha vindo. As notícias sobre o que tinha feito na escola, os detalhes que transbordavam nos relatos dos coleguinhas tão logo viam os pais, ela guardava para si.

Juntas, voltavam ao prédio de apartam entos. No saguão, Gauri abria a caixa de correio em nom e de Mitra, que ela e Subhash dividiam .

Em Calcutá, os nom es eram pintados em caixas de m adeira com um pincel fino em toques cuidadosos. Mas aqui eram escritos às pressas, um a ou duas das caixinhas gastas de m etal em branco. Ela pegou as contas, o exem plar de um a revista científica que Subhash assinava. Cupons de um a m ercearia.

Raram ente havia algum a coisa para ela. Apenas um a carta ocasional de Manash. Ela sentia resistência em ler, em vista do que tais cartas lhe recordavam . Manash e Uday an, estudando j untos no apartam ento dos avós; Uday an e Gauri vindo a se conhecer por causa disso. Um tem po que esm agara entre os dedos, sem deixar restos, apenas um resíduo protetor na pele.

Por Manash e tam bém pelos j ornais internacionais que chegavam à biblioteca, ela recebia algum as notícias. No com eço, tentava im aginar o que podia estar acontecendo. Mas os elem entos eram fragm entários dem ais. Sangue de gente dem ais, cuj a m ancha se perdia.

Kanu Sany al estava vivo, m as na prisão. Charu Maj um dar fora detido em seu esconderij o, encarcerado em Lal Bazar. Morrera sob a custódia da polícia em Calcutá, no m esm o verão em que Bela nasceu.

Muitos cam aradas de Uday an ainda estavam sendo torturados nas prisões. Siddharta Shankar Ray, o atual m inistro chefe em Calcutá, tinha o apoio do Congresso. Recusava-se a instaurar inquéritos sobre a m orte dos desaparecidos.

As notícias do m ovim ento agora haviam atraído a atenção de alguns intelectuais im portantes do Ocidente. Sim one de Beauvoir e Noam Chom sky tinham enviado um a carta à filha de Nehru, exigindo a libertação dos prisioneiros. Mas, diante dos protestos crescentes contra a corrupção e contra as políticas fracassadas do governo, Indira Gandhi decretara estado de em ergência. Censurando a im prensa, e assim não se noticiava o que estava acontecendo.

Ainda agora, um a parte de Gauri continuava a esperar algum a notícia de Uday an. Que conhecesse Bela e a fam ília que podiam ter sido. No m ínim o que soubesse que, cientes ou inscientes dele, tinham seguido suas vidas.