Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 28 de 37

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Aguapés

Capítulo 3

 

As folhas da nogueira-do-j apão, am arelas poucos dias atrás, agora estão de um verde brilhante. São as únicas coisas que reluzem esta m anhã. A chuva de ontem à noite derrubou m ais um a leva de folhas nas laj otas de arenito da calçada. As laj otas estão desniveladas, aqui e ali soerguidas pelas raízes das árvores. Não dá para ver a copa das árvores pelas j anelas do quarto de Bela, dois andares acim a do térreo. Apenas quando sai da república, abrindo um portão de ferro batido, para ingressar no dia.

O quarteirão tem filas de casas, dos dois lados da rua. Na m aioria desocupadas, algum as lacradas com tábuas. Está aqui no bairro faz alguns m eses, pois surgiu a oportunidade. Estava m orando no interior, a leste de Albany. Indo todos os sábados à feira dos produtores na cidade, descarregando o cam inhão, arm ando as barracas. Alguém falou de um quarto num a casa.

Era um a oportunidade de viver barato no Brookly n por algum tem po. Tinha um em prego ao qual podia ir a pé, lim pando um parque infantil dilapidado, convertendo-o num a horta com vários canteiros. Ela ensina o trabalho a adolescentes que vão até lá depois da escola, m ostrando com o carpir o m ato, com o plantar girassóis ao longo do alam brado. Ensina a diferença entre plantio em linha e plantio de cobertura. Supervisiona os m oradores m ais velhos que se oferecem com o voluntários.

Mora com m ais dez pessoas num a casa dim ensionada para um a fam ília só. É gente que escreve rom ances e roteiros, que desenha j oias, que faliu em algum a nova em presa de com putação. Gente que acabou de se form ar na faculdade e gente de m ais idade com um passado que nem com entam . Cada um fica na sua, m antendo horários diferentes, m as, em rodízio, todos preparam a com ida de todos. As despesas são coletivas, há um a cozinha só, um a televisão só, um a escala de distribuição das tarefas. De m anhã, dividem o horário para usar os banheiros. Um a vez por sem ana, aos dom ingos, os que podem se reúnem para com er j untos.

O pessoal ainda com enta o tiroteio de alguns anos atrás, em pleno dia, na frente da drogaria na esquina. Falam de um garoto de catorze anos, cuj os pais m oram atravessando a rua, que foi m orto. As pessoas em geral fazem as com pras em bodegas ou m ercadinhos decadentes. Mas agora há um a cafeteria com m áquina de café expresso, esprem ida entre as outras loj as. Há pais de terno, crianças indo a pé para a escola.

Um a das casas no final da quadra está coberta por um a rede de tapum e. Estão raspando a pintura j á um tanto descascada, revelando a cam ada por baixo, um a m assa rústica de cor cinzenta. As roseiras de trepadeira, um a com binação de laranj a e verm elho, florescem no pequeno j ardinzinho dentro do portão. O nom e do em preiteiro, segundo a placa afixada na frente, é italiano, m as os pedreiros vêm de Bangladesh. Fala na língua que os pais de Bela usavam entre eles. Língua que na infância ela entendia, m as não falava m uito. Língua que deixou de ouvir desde que a m ãe foi em bora.

A ausência da m ãe era com o outra língua que ela teve de aprender, cuj a com plexidade e sutileza só vieram a se m ostrar plenam ente depois de anos de estudo e, m esm o então, sendo um a língua estrangeira, nunca chegou a absorvê-la por com pleto.

Ela não entende o que aqueles hom ens estão dizendo. Apenas um a ou outra palavra. A pronúncia é diferente. Apesar disso, ela dim inui o passo ao cruzar por eles. Não sente saudades da infância, m as este aspecto, ao m esm o tem po fam iliar e estranho, lhe traz um a pausa. Um a parte de si se indaga se algum dia o conhecim ento adorm ecido em sua m ente voltará a despertar. Se algum dia lem brará com o se diz tal ou tal coisa.

Em alguns dias, ela vê os operários sentados em cim a do alpendre, num intervalo, brincando, fum ando. Um deles tem m ais idade, um a barba branca arrepiada que dá quase pelo peito. Ela se pergunta há quanto tem po vivem nos Estados Unidos, se há e qual seria o parentesco entre eles. Pergunta-se se gostam daqui. Se voltarão a Bangladesh ou ficarão por aqui em caráter perm anente. Im agina-os m orando num a república, com o ela. Vê-os sentados, j antando j untos ao final da longa j ornada, com endo arroz com a m ão. Rezando num a m esquita em Queens.

O que pensam dela? Do j eans cinzento desbotado, das botas desam arradas? Cabelo com prido que depois vai prender, agora enfiado na cam iseta com capuz. Rosto sem pintura, m ochila presa no peito. Ancestrais de um país outrora unido, um a terra com um .

Tirando o vocabulário e a cor, nenhum deles se parece com seu pai. Mas de algum a m aneira trazem -no à sua lem brança. Fazem -na pensar no pai em Rhode Island, em pensar com o vai ele.

Noel tam bém lhe faz lem brar o pai, m as de outra m aneira. Ele m ora na casa com a nam orada, Ursula, e a filha deles, Violet, em dois quartos no últim o andar que Bela nunca viu. Noel passa seus dias com Violet; Ursula, cozinheira num restaurante, bonita, cabelinho curto, é quem trabalha.

Bela vê Noel levando Violet ao j ardim de infância de m anhã e, algum as horas depois, trazendo-a para casa. Vê levando-a ao parque, ensinando-a a andar de bicicleta. Vê-o correndo atrás da filha enquanto ela tenta ganhar equilíbrio, segurando um cachecol de lã que ele am arrou no peito da m enina. Vê-o preparando o j antar de Violet, grelhando um ham búrguer para ela na churrasqueira no fundo da casa.

Violet não reclam a da ausência de Ursula. Nem Noel. Despedem -se dela de m anhã, com um beij o, dão-lhe um grande abraço quando volta, às vezes com algum a sobrem esa do restaurante. Com o ela é a exceção, e não a regra, Violet m antém com Ursula outro relacionam ento. Contato m enos frequente, m as m ais intenso. Adapta suas expectativas, com o Bela fazia antigam ente.

Às vezes Noel e Ursula batem à porta de Bela enquanto preparam o j antar, m ais à noite, depois que Violet j á foi se deitar. Tem bastante com ida, é sem pre bem -vinda, dizem eles. Pão e queij o, um a grande salada que Ursula m istura com os dedos. Ursula está sem pre um pouco elétrica quando volta de seu expediente no restaurante. Gosta de enrolar um baseado para os três, ouvir m úsica, contar com o foi o dia.

Bela gosta de ficar com eles e tenta retribuir a generosidade. Cuida de Violet quando Ursula e Noel querem ir ao cinem a. Leva Ursula à horta com unitária, dando-lhe ervas arom áticas e girassóis para o restaurante. Mas não quer depender deles. Declina o convite quando Noel e Ursula resolvem fazer um piquenique em Fire Island no aniversário de Ursula. Já teve m uitas am izades com outros casais com o Noel e Ursula. Casais que se dão à gentileza de incluí-la, de lhe oferecer a com panhia que ela não tem , o que apenas lhe lem bra que ainda continua sozinha.

Costum a fazer am igos em todos os lugares a que vai, depois se m udando e nunca m ais tornando a vê-los. Não se consegue im aginar com o parte de um casal ou de qualquer outra fam ília. Nunca teve nenhum relacionam ento am oroso que durasse m uito.

Não sente am argura ao ver Noel, Violet e Ursula j untos. A intim idade deles lhe parece fascinante, e tam bém reconfortante. Mesm o antes que a m ãe fosse em bora, nunca foram realm ente um a fam ília. A m ãe nunca quis estar ali. Agora Bela sabe disso.

Ao visitar o pai no últim o verão, soube que ele estava com alguém . Não um alguém qualquer, m as alguém que ela conhecia. A sra. Silva tinha sido sua professora de história. Mas pediu a Bela, no dia em que os três saíram para tom ar o desj ej um , que a cham asse de Elise.

Ela ficou assom brada ao saber da relação entre os dois; a figura m ais im portante de sua form ação, j unto com um a figura secundária. No com eço se sentiu secretam ente irritada. Mas sabia que era inj usto de sua parte, j á que m al via o pai, j á que continuava a restringir o contato com ele, fosse para negar a si m esm a ou para negar a ele, não sabia bem .

Notou que ele ficava nervoso ao lhe contar. Notou que ele receava que ela levasse a m al, que talvez usasse o fato com o razão adicional para se m anter afastada. Percebendo a hesitação dele, não querendo intim idá-lo, ela o tranquilizou, dizendo que ficava feliz por ter encontrado com panheira e que, claro, desej ava-lhe tudo de bom .

A verdade é que Bela sem pre gostou de Elise Silva. Tinha-se esquecido dela, m as lem brou com o ansiava por suas aulas. No verão passado, vira o afeto entre Elise e seu pai. O j eito com o exam inavam j untos o cardápio ao desj ej um , o pai olhando por cim a do om bro de Elise, enquanto podia ter pegado seu próprio cardápio. O j eito com o Elise o incentivava a deixar de lado o m ingau de aveia e se perm itir alguns waffles com geleia. Notou a tranquilidade no rosto de am bos. Viu com o, tim idam ente, em contraste com seu pai e sua m ãe, os dois j á estavam unidos.

Pergunta-se se o pai e Elise acabarão se casando. Mas isso significaria que antes ele teria de se divorciar de sua m ãe. Bela nunca vai se casar, isso ela sabe. A infelicidade dos pais: este foi o fato m ais fundam ental de sua vida.

Quando era m ais nova, sentira raiva do pai, m ais do que da m ãe. Culpava-o por ter feito a m ãe ir em bora e não im aginar algum a m aneira de trazê-la de volta. Talvez sej a por algum resto dessa raiva que nem se dá ao trabalho de lhe contar que agora está m orando a apenas três horas de distância de Nova York. Mas tem sido esta sua linha de ação: vê-lo quando quer, nunca dizendo onde está no m om ento.

A essa altura, j á viveu quase m etade de sua existência longe dele. Dezoito anos em Rhode Island, quinze anos sozinha. Vai fazer 34 anos. Às vezes sonha com outro ritm o, com outra vida, diferente desta. Mas não sabe o que m ais poderia fazer.

Gostaria que fosse m ais fácil, o tem po que passa com o pai. Gostaria que Rhode Island, que adorava quando criança, não lhe recordasse a m ãe, que detestava o lugar. Quando Bela está em Rhode Island, percebe que é indesej ada, que a m ãe nunca vai voltar para ela. Sente que tudo o que há de sólido dentro de si se desfaz. E assim , em bora continue a ir até lá, em bora em certa m edida tenha feito as pazes com o pai, em bora ele sej a a única fam ília que tem , ela nunca consegue ficar lá por m uito tem po.

Anos atrás, a dra. Grant a aj udara a expressar em palavras o que sentia por dentro. Disse a Bela que o sentim ento dim inuiria, m as nunca desapareceria com pletam ente. Faria parte de sua paisagem pessoal, onde quer que estivesse. Falou que a ausência da m ãe teria presença constante em seus pensam entos. Disse-lhe que nunca saberia por que ela tinha ido em bora.

A dra. Grant tinha razão, o sentim ento não a devora m ais. Bela vive a suas m argens, observa-o à distância. Tal com o a avó, sentada num terraço em Tolly gunge, passava os dias olhando um a baixada, olhando dois lagos.

Aproxim a-se dos operários. Mais um a vez absorve a conversa deles, estranha e ao m esm o tem po fam iliar. Eles não fazem ideia que a conversa a afeta. Continua a andar, cum prim entando-os, indagando-se para onde irá depois do Brookly n. Eles a veem e acenam .

Na próxim a vez que for visitar o pai, vai falar com ele em inglês. Se algum dia a m ãe reaparecesse diante dela, e m esm o que Bela pudesse escolher qualquer língua do m undo para falar, não teria nada a dizer.

Mas não, não é verdade. Continua em com unicação constante com ela. Tudo na vida de Bela tem sido um a reação. Sou com o sou, ela diria, vivo com o vivo por sua causa.