Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 24 de 37

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Aguapés

Capítulo 3

 

Tom aram um ônibus do Aeroporto Logan para Providence, e então um táxi até a casa. Bela estava com as pulseiras de espelhinho no pulso. Tinha o rosto e os braços bronzeados. As tranças apertadas que a avó tinha feito na noite da partida chegavam pelo m eio das costas.

Estava tudo com o tinham deixado. O azul intenso do céu, as ruas e as casas. A baía à distância, cheia de veleiros. As praias cheias de gente. O som de um cortador de gram a. O ar salino, as folhas nas árvores.

Ao se aproxim arem de casa, ela viu que a gram a tinha crescido quase até a altura do om bro. O m ato, de espécies variadas, despontava com o trigo, com o palha. Chegava a bater na caixa de correspondência, a esconder os arbustos nas laterais da porta de entrada. Daquele tam anho, nem era m ais verde, algum as partes se averm elhando por falta de água. As plum as pálidas na ponta pareciam soltas, presas a nada. Com o bandos de insetos m inúsculos que não se m oviam .

Pelo j eito vocês ficaram fora um bom tem po, disse o m otorista de táxi.

Manobrou até a entrada, aj udando o pai a tirar a bagagem do porta-m alas, a levar até a porta.

Bela m ergulhou entre o m ato com o se fosse m ar, o corpo sum indo alguns instantes. Abrindo cam inho, os braços bem abertos. As pontas em plum adas do capim cintilavam ao sol. Roçavam de leve o rosto, a parte de trás das pernas. Ela tocou a cam painha, esperando a m ãe abrir a porta.

A porta não se abriu e o pai teve de usar sua chave para destrancar. Dentro de casa, cham aram em voz alta. Não havia com ida na geladeira. Apesar do dia quente, as j anelas estavam fechadas e trancadas. Os aposentos no escuro, as cortinas puxadas, a terra dos vasos de casa seca.

No com eço, Bela reagiu com o se fosse um j ogo, um a brincadeira. Pois era a única brincadeira que a m ãe gostava de fazer com ela, quando pequena. Esconder-se atrás da cortina do chuveiro, agachar-se dentro de um arm ário, ocultar-se atrás de um a porta. Nunca cedendo, nunca dando um a tossidela se passassem alguns m inutos e Bela não a encontrasse, nunca lhe oferecendo pista nenhum a.

Ela andou com o detetive pela casa. Desceu até a sala e a cozinha, subiu até os quartos, onde o corredor era acarpetado com o m esm o m aterial verde-oliva de tram a cerrada, unindo os quartos com o um m usgo que se alastrava de um a porta a outra.

Abriu as portas e encontrou algum as coisas: gram pos de bobs no banheiro, um gram peador na escrivaninha da m ãe, sandália baixa no arm ário. Uns poucos livros nas prateleiras.

O pai estava sentado no sofá, sem notar quando Bela se aproxim ou, nem m esm o quando ela parou a alguns passos dele. Seu rosto parecia diferente, com o se os ossos tivessem m udado de lugar. Com o se alguns tivessem desaparecido.

Baba?

Na m esa ao lado havia um a folha de papel. Um a carta.

Ele estendeu a m ão, procurando a dela.

 

Não tomei essa decisão às pressas. Na verdade, demorei tempo demais pensando nisso. Você se empenhou ao máximo. Eu também, mas nem tanto. Tentamos acreditar que seríamos companheiros.

Com Bela, sinto-me apenas lembrada como falhei com ela, de todas as maneiras.

Em certo sentido, gostaria que ela fosse bem novinha para simplesmente me esquecer. Agora ela vai me odiar. Se ela quiser falar comigo ou me ver alguma hora, tentarei ao máximo combinar alguma coisa.

Diga a ela o que lhe parecer menos doloroso para ouvir, mas espero que você lhe

conte a verdade. Que não morri nem desapareci, mas me mudei para a Califórnia, pois fui contratada por uma faculdade para dar aulas. Embora não seja de nenhum consolo para ela, diga-lhe que vou sentir saudades.

Quanto a Udayan, como você sabe, por muitos anos fiquei pensando como e quando

poderíamos contar a ela, qual seria a idade adequada, mas agora não tem mais importância. Você é o pai dela. Como você disse muito tempo atrás e vim a aceitar faz tempo, você se demonstrou um pai melhor do que sou como mãe. E acredito que é um pai melhor do que Udayan teria sido. Em vista de minha decisão, não faz nenhum sentido que a ligação entre vocês sofra alguma alteração.

Não tenho endereço certo, mas você pode me contatar por meio da universidade.

Não vou lhe pedir mais nada; o pagamento que me oferecem é suficiente. Certamente você está furioso comigo. Entenderei se não quiser se comunicar. Espero que, com o tempo, minha ausência torne as coisas mais fáceis, não mais difíceis, para você e Bela. Acredito nisso. Boa sorte, Subhash, e adeus. Em troca de tudo o que você fez por mim, deixo Bela para você.

 

A carta tinha sido escrita em bengali, e assim não havia o risco de que Bela decifrasse o conteúdo. Ele lhe passou um a versão da notícia, conseguindo de algum a m aneira fitar seu rostinho confuso.

Ela j á tinha idade para saber a que distância ficava a Califórnia. Quando perguntou quando Gauri voltaria, ele respondeu que não sabia.

Ele estava preparado para acalm á-la, para am ortecer o choque. Mas foi ela que o reconfortou naquele m om ento, abraçando-o, abraçando o corpo esbelto e forte que transpirava preocupação. Apertando-o forte, com o se do contrário ele fosse boiar à deriva, para longe dela. Nunca vou m e afastar de você, Baba.

Ele sabia que o casam ento, o qual fora escolha de am bos, havia se transform ado num arranj o forçado, dia após dia. Mas nunca houve nenhum a conversa em que ela m anifestasse o desej o de ir em bora.

Algum as vezes, lá no fundo, chegara a pensar que, depois que Bela entrasse na faculdade, depois que saísse de casa, ele e Gauri poderiam com eçar a viver separados. Que um a nova fase poderia se iniciar quando Bela fosse m ais independente, quando não fosse m ais precisar tanto deles.

Tinha im aginado que Gauri, por causa de Bela, iria por ora aguentar o casam ento, com o ele vinha aguentando. Nunca pensou que faltaria a ela a paciência de esperar.

Das três m ulheres na vida de Subhash — a m ãe, Gauri, Bela —, só restava um a. A m ãe agora estava com a m ente desarranj ada. Um a selva, sem form a, sem clareira. Tinha sido tom ada pelo m ato, crescendo descontrolado. A m orte de Uday an a transform ara para sem pre.

Aquela selva era sua única liberdade. Vivia trancada dentro de casa, podendo sair apenas um a vez por dia. Deepa im pedia que ela se pusesse em risco, que se atrapalhasse, que fizesse m ais cenas.

Mas a m ente de Gauri a salvara. Perm itira-lhe se recom por. Abrira-lhe um cam inho. Preparara-a para partir.

O que m ais a m ãe tinha deixado? No braço direito de Bela, logo acim a do cotovelo, num lugar que, para enxergar, precisava virar o braço, um a constelação pintalgada com a cor m ais escura da m ãe, um a m ancha quase sólida ao m esm o tem po discreta e evidente. Um vestígio da outra cor que ela podia ter tido. No anular da m ão direita, logo abaixo da articulação, havia só um ponto daquela m esm a cor.

Na casa em Rhode Island, em seu quarto, com eçou a se revelar outro resquício da m ãe: um a som bra que logo ocupou um a parte da parede, num dos cantos, relem brando a Bela o perfil da m ãe. Foi um a associação que ela notou som ente depois que a m ãe foi em bora, e a partir daí não conseguiu m ais desfazer.

Nessa som bra, ela via a testa e a linha do nariz da m ãe. A boca e o queixo. Não sabia de onde vinha. Algum ram o, algum a saliência do telhado que refratava a luz, não sabia bem .

A cada dia, a im agem desaparecia conform e o sol percorria a casa; a cada m anhã, voltava ao lugar que a m ãe abandonara. Ela nunca viu quando se form ava ou se desfazia.

Nessa aparição, todas as m anhãs, Bela reconhecia a m ãe e se sentia visitada por ela. Era o tipo de associação espontânea que se pode fazer olhando um a nuvem que passa. Mas, nesse caso, nunca se rom pendo, nunca se transform ando em outra coisa.