Aguapés
Capítulo 4
Era um a hora de carro até Providence, afinal nem isso. Ela registrou o código postal no gps do carro, m as logo viu que não precisaria do itinerário. Os nom es das saídas para os vários subúrbios e povoados lhe voltaram à lem brança: Foxborough, Attleboro, Pawtucket. Casas de m adeira, revestidas de placas de m adeira ou de pvc, um relance da cúpula do palácio do governo. Lem brou, depois de atravessar Providence e Cranston, que a saída para a cidade ficava à esquerda — se não saísse, a interestadual levava a Nova York.
Tinha pegado um avião até Boston e alugou um carro no aeroporto para fazer o restante do traj eto. Foi com o Subhash a trouxera para cá pela prim eira vez, pela m esm a parte da estrada. Com o costum ava ir duas vezes por sem ana para seu curso de doutorado. Era outono na Nova Inglaterra, o ar revigorante, as folhas com eçando a m udar de cor.
Logo depois da saída, outra à esquerda no conj unto de sem áforos a levaria até ele. Lá estava a torre de m adeira entre os pinheiros altos que dava vista para a baía. Um a foto na gaveta de Gauri na Califórnia m ostrava Bela de pé no alto da torre, apertando os olhos no frio refulgente, usando um casaco acolchoado am arelo com capuz de borda forrada de pele. Antes de ir em bora, Gauri tirara depressa a foto de um álbum de retratos.
De início, tentara escrever para Subhash. Para conceder o que ele pedira, para enviar um a carta de resposta. Trabalhou na carta durante alguns dias, insatisfeita com os resultados.
Sabia que o divórcio não fazia nenhum a diferença; o casam ento deles acabara m uito tem po atrás. No entanto, ao pedido dele, sensato, racional, ela se reaprum ou. Sentiu necessidade de vê-lo.
Mesm o longe, m esm o agora, sentia-se presa a ele, em tácito conluio com ele. Subhash a tirara de Tolly gunge. Continuava a ser a única ligação com Uday an. Seu am or constante por Bela, sua estabilidade afetiva tinham com pensado seus extravios.
O m om ento da carta parecia um sinal. Pois im aginava que ele poderia querer o divórcio dez anos antes ou dois anos depois, tanto fazia. Ela j á havia program ado ir até a Costa Leste e a Londres, para assistir a um a conferência. Conseguiu um a conexão, parando um a noite em Rhode Island. Ela lhe daria o que ele pedia. Queria apenas se postar diante dele e rom per a ligação frente a frente. Na carta, ele dissera que estava disposto a isso.
Mas não tinha sido um convite. E sem o consultar, sem o avisar, m esm o agora incapaz de agir com decoro, ela viera.
As folhas ainda não haviam caído, não dava para ver a baía. Ela virou na longa estrada ondulante de duas pistas que fora aberta entre as m atas, levando ao cam pus principal da universidade. Casas no fundo dos terrenos, azáleas gigantescas, m uros de pedra lisa.
Encostou num a faixa cascalhada. Terrenos cobertos de hera. Dois ganchos sustentavam um a placa de m adeira pintada, balançando à aragem , com o nom e da pousada, o ano em que foi construída. Era aqui que ela reservara um quarto.
Levou a m aleta até a porta da frente e bateu a aldraba. Ninguém atendeu e então ela girou a m açaneta e viu que a porta estava destrancada. Depois de se adaptar à penum bra do interior, viu um a sala de estar logo após a entrada, um a m esa com um a cam painha e um aviso pedindo aos visitantes para tocar.
Um a m ulher m ais ou m enos de sua idade veio recebê-la. Cabelo prateado, solto, repartido no lado. Rosto corado. Estava de j eans e j aqueta de pelo de carneiro, um avental de lona m anchado de tinta. Usando tam ancos.
É a sra. Mitra?
Eu m esm a.
Eu estava no ateliê, disse a m ulher, enxugando a m ão num trapo antes de estendê-la. Cham ava-se Nan.
A sala de estar estava repleta de coisas, j arras esm altadas em travessas com binando, arm ários com portas envidraçadas cheios de livros e porcelanas. Num a m esa à parte havia trabalhos de cerâm ica, travessas e canecos, vasilhas fundas vitrificadas em cores foscas.
Estão todos à venda, disse Nan. Do ateliê lá fora nos fundos. Mais coisas lá, se estiver interessada. Feliz em m e desfazer.
Gauri lhe estendeu o cartão de crédito, o cartão da universidade. Observou enquanto Nan anotava as inform ações num livro de registros.
Talvez chova à noite. Mas talvez não. Prim eira vez aqui?
Eu m orava em Rhode Island?
Em que parte?
Alguns quilôm etros adiante.
Ah, então você conhece.
Nan não perguntou por que estava voltando. Guiou-a pela escada, até um corredor com várias portas. Gauri recebeu um a chave do quarto, outra da entrada, caso voltasse depois das onze da noite.
A cam a era alta, a cabeceira baixa, o colchão de casal coberto com um a colcha branca de algodão. Um a tevê pequena no aparador, cortinas de renda na j anela, filtrando um a luz serena. Olhou a estante ao lado da cam a. Tirou um volum e de Montaigne e o colocou na m esinha de cabeceira.
Eram os livros de m eu pai. Ele dava aulas na universidade. Morou nesta casa até m orrer, aos 95 anos. Recusava-se a sair. Precisei arranj ar um a cadeira de rodas de tam anho infantil no final, porque a passagem das portas é m uito estreita.
Quando Gauri perguntou o nom e do professor, pareceu-lhe conhecido, m as apenas vagam ente. Talvez tivesse feito algum curso com ele, não lem brava.
Ela se trocou, vestindo o suéter que levara. No quarto passava um vento encanado, a lareira era apenas decorativa. No térreo ardia o fogo num a lareira de verdade, e um casal de j ovens estava lá, de costas para ela. Na m esa de café havia um a bandej a com um bule de chá e xícaras, biscoitos e uvas. O casal estava olhando as peças de cerâm ica de Nan, decidindo qual travessa queriam com prar. Gauri ouviu a conversa, notou com o avaliavam cuidadosam ente a escolha.
O casal se virou e se apresentou. Vinham de Montreal. Ela se inclinou para lhes apertar a m ão, os nom es entrando por um ouvido e logo saindo pelo outro. Não eram alunos seus, não tinha im portância. E não eram quem tinha vindo ver.
Acom odaram -se num sofá cor de cham panhe. O m arido serviu m ais chá.
Quer vir conosco?
Não, obrigada. Aproveitem bem .
Você tam bém .
Ela saiu e foi até o carro. A tarde caía, o céu j á em palidecia. Pegou o celular, desceu até o núm ero de Subhash. Fora catapultada de volta por algum a coisa, por um im pulso tão irresistível e tam bém tão grandioso quanto aquele que m otivara sua partida.
Estava transgredindo, quebrando a regra a que obedeciam fazia m uito tem po. Ele podia estar ocupado nesse final de sem ana. Podia ter ido a algum lugar. A carta tinha sido am istosa, m as era evidente que não queria vê-la de m aneira nenhum a.
Então se sentiu perpassada pelo absurdo, pela enorm e im prudência do que havia feito. Sem pre se sentira com o um a im posição, um a invasão na vida dele.
Disse a si m esm a que não precisava fazer nada agora, que havia tem po. O avião para Londres só saía no dia seguinte, à noite. Iria vê-lo am anhã, à luz do dia, e então iria direto para o aeroporto. Agora ao anoitecer apenas confirm aria que ele estava lá.
Dirigiu até o cam pus, passando pelos edifícios onde assistira às aulas, pelas trilhas por onde andara com Bela no carrinho. Passou pelas construções de pedra m isturadas com prédios de arquitetura dos anos 1960, construções que tinham surgido desde aquela época. Passou pelo conj unto residencial onde haviam m orado no com eço, para onde haviam trazido Bela da m aternidade. Contornou o pequeno anexo onde aprendera a usar a m áquina de lavar. Então seguiu para a cidade.
O superm ercado onde Subhash gostava de fazer as com pras agora era um a am pla agência de correio. Havia m ais locais para com prar m ais coisas com m ais frequência: um a farm ácia que ficava aberta 24 horas, um a variedade m aior de lugares para com er.
Escolheu um restaurante de que se lem brava, um a sorveteria onde Bela gostava de pegar um a casquinha pela j anela de atendim ento. Seu doce predileto eram as bengalinhas de açúcar, com j uj ubas verdes e verm elhas. No interior havia um balcão e algum as banquetas, alguns quiosques no fundo. Era sábado, e ela se sentou entre os grupos de colegiais passeando sem os pais, tom ando m ilk-shakes, brincando entre eles. Algum as pessoas m ais velhas estavam sentadas sozinhas, com endo frango frito e purê de batata.
De novo o desconforto que sem pre sentira em Rhode Island, sem pre que saía da área da universidade. Onde se sentia ignorada e, ao m esm o tem po, dando na vista, catalogada, intrusa. Com eu depressa, queim ando a língua ao tom ar o ensopado, engolindo rápido um a porçãozinha de sorvete. Im aginou-se topando com Subhash. Teria se tornado alguém que vai a restaurantes?
Depois do j antar foi até a baía, passando por um a aleia onde havia gente correndo e cam inhando ao anoitecer. Atravessou um a arcada de pedras, ladeada por duas torres, com o o portão de entrada de um castelo j unto ao m ar. Continuou até chegar à casa.
As luzes estavam acesas. Reduziu a m archa, nervosa dem ais para parar. Havia dois carros na entrada; não estava preparada para isso. Haveria um terceiro na garagem ? Quem estava lá? Quem eram seus am igos agora? Suas am antes? Era final de sem ana; estava recebendo visitas?
Voltou para a hospedaria, exausta, em bora ainda fosse cedo para ela, m al com eçando a anoitecer na Costa Oeste. O casal de Montreal tinha saído, Nan estava enfurnada em algum a parte da casa que ocupava, fora de vista.
Subiu ao quarto e viu que havia dois biscoitinhos de gengibre num prato ao lado da cam a e um a caneca com um saquinho de chá de ervas no pires j unto à chaleira elétrica.
A hospitalidade de Nan era calculada, m as m esm o assim Gauri se sentiu agradecida pela gentileza, por im pessoal que fosse. Um a desconhecida a recebera, a acolhera. Gauri não tinha com o saber se, am anhã, Subhash faria a m esm a coisa.
Na m anhã seguinte, depois do desj ej um , ela refez a m ala e pagou a conta. Já findara, estava indo em bora e, no entanto, o obj etivo da viagem perm anecia. Elim inou seus vestígios tem porários no quarto, afofando as m arcas que deixara no travesseiro, aj eitando a toalhinha rendada na m esa de cabeceira.
Ao entregar a chave, sentiu-se ansiosa em ir, m as tam bém relutante, sabendo que a única coisa a seu dispor era o carro alugado. Nada para fazer, a não ser cum prir o que viera fazer.
Retornou à estrada. O sem áforo era sua últim a chance de virar e voltar para Boston. Sentiu um breve pânico e ligou o pisca-pisca. O m otorista de trás ficou irritado quando m udou de ideia outra vez e continuou reto.
Hoj e havia apenas um carro na entrada. Um carro pequeno, de porta-m alas traseiro, que devia ser dele, em bora ela tenha ficado surpresa ao ver com o era velho, e que nessa altura da vida ele ainda tivesse o m esm o tipo de carro que usava quando fazia o doutorado. Placa de Rhode Island, adesivo de Obam a no para-choque. E outro que dizia Seja um herói local, compre produtos locais.
Ela viu o bordo j aponês, um graveto tão tenro que facilm ente se partiria em dois quando Subhash o plantou; agora tinha três vezes a altura dela, os ram os copados quase perto do chão, o tronco de casca cinzenta lisa com o cerâm ica vitrificada. Havia m ais flores, m argaridas-am arelas e lírios-de-um -dia, desafiando a aproxim ação do inverno, crescendo em tufos densos na frente da casa. Vasos de crisântem os enfeitavam os degraus.
Devia ter trazido algum a coisa? Algum presente da Califórnia, um saco de lim ões ou de pistaches, que testem unhasse sua existência lá?
Já assinara os papéis do divórcio, dera seu consentim ento. Ia lhe entregar pessoalm ente os docum entos. Ia dizer que estava passando ali por acaso.
Concordaria que deviam form alizar o fim do casam ento, que, claro, a casa de Tolly gunge e a de Rhode Island eram dele e podia vendê-las à vontade. Im aginava um a conversa forçada na sala, um a troca superficial de notícias, um a xícara de chá que ele talvez se prontificasse a preparar.
Era essa a cena que ela desenhara no avião, que repassara na cam a, na noite anterior, e outra vez no carro, agora de m anhã.
Ficou sentada no carro, olhando a casa, sabendo que ele estava lá dentro, sabendo com o certam ente ia ficar contrariado ao vê-la aparecer sem ser convidada. Sabendo que não estava em condições de esperar que ele lhe abrisse a porta.
Lem brou quando procurava a caixa de correspondência do policial em Jadavpur. Apavorada com o que estava procurando, um a parte sua j á sabendo o que ia encontrar.
Sentiu vontade de não o incom odar. De deixar os papéis na caixa de correio e ir em bora. Mesm o assim , desprendeu o cinto de segurança e tirou a chave da ignição. Não esperava que ele a perdoasse, m as queria lhe agradecer por ser um pai para Bela. Por trazer Gauri para os Estados Unidos, por deixá-la ir em bora.
A vergonha que percorria suas veias era perm anente. Nunca se libertaria disso.
No fundo, viera em busca de Bela. Viera perguntar sobre a vida de Bela, perguntar a Subhash se agora podia contatá-la. Perguntar se havia um núm ero de telefone, um endereço para o qual pudesse escrever. Perguntar se Bela poderia estar aberta a isso, antes que fosse tarde dem ais.
O ar frio lhe picou o rosto ao sair do carro, o vento do m ar m ais forte do que no continente. Procurou dentro da bolsa e vestiu um par de luvas.
Não era m uito cedo, dez e m eia. Subhash devia estar lendo o j ornal, o Providence Journal, que, com o via, j á fora recolhido da caixa de correio ao pé da calçada.
Além de Subhash, ela estaria vendo um a versão idosa de Uday an. Ouvindo outra vez sua voz. Subhash continuava a ser seu substituto, ao m esm o tem po próxim o e distante. Foi à porta e tocou a cam painha.