Aguapés
Capítulo IV
1.
Ele estava lá, esperando por ela atrás do cordão de desem barque no aeroporto. Seu cunhado, seu m arido. O segundo hom em com quem se casara em dois anos.
A m esm a altura, um físico parecido. Parceiros, com panheiros, em bora ela nunca os tivesse visto j untos. Subhash era um a versão m ais tênue. Seu rosto, com parado ao de Uday an, era com o a im pressão levem ente falha do carim bo que o hom em da Im igração acabava de bater em seu passaporte, m arcando a chegada, carim bando por cim a outra vez para reforçar.
Ele estava com calça de veludo cotelê, cam isa xadrez, j aqueta de zíper, tênis esportivo. Os olhos que a saudaram eram bondosos, m as fracos; a fraqueza, desconfiava ela, que o levara a se casar com ela e a lhe fazer o favor que havia feito.
Ali estava ele para recebê-la, para acom panhá-la a partir daquele m om ento. Ele não havia m udado em nada; no fim da viagem , não havia nada para acolhê-la, a não ser a realidade da decisão que havia tom ado.
Mas ela viu que ele notava a m udança evidente em seu corpo. Agora no quinto m ês de gravidez, o rosto e os quadris m ais cheios, a cintura grossa, a presença da criança evidente sob o xale turquesa que ele lhe dera, que usava para se aquecer.
Ela entrou no carro e se sentou ao lado dele, à sua direita, as duas m alas com capas de lona no banco de trás. Esperou enquanto ele ligava o m otor e deixava esquentar. Ele descascou um a banana e serviu chá de um a garrafa térm ica. Ao lhe oferecer, ela pôs os lábios no outro lado do recipiente, engolindo um líquido quente e insosso, com o m adeira m olhada.
Com o você está?
Cansada.
De novo a voz, tam bém de Uday an. Quase o m esm o tom e m aneira de falar. Esta era a prova m ais cabal e surpreendente da irm andade dos dois. Por um instante, ela se perm itiu rem em orar o aspecto isolado de Uday an, preservado e reproduzido nas cordas vocais de Subhash.
Com o vão m eus pais?
Com o sem pre.
Já está quente em Calcutá?
Mais ou m enos.
E a situação geral?
Alguns diriam que está m elhor. Outros, pior.
Esta era Boston, disse a ela. Rhode Island ficava ao sul. Saíram de um túnel que passava por baixo de um rio, costearam um porto e então a cidade ficou para trás. Ele dirigia m ais rápido do que ela estava acostum ada, m ais constante do que os carros conseguiam andar nas ruas de Calcutá. O m ovim ento contínuo lhe causava enj oos. Ela preferia estar no avião, acim a da terra, a ilusão de estar im óvel.
A estrada era ladeada por árvores de tronco cinza e branco que pareciam incapazes de dar folhas ou frutos. Os ram os eram num erosos, m as finos, form ando redes densas pelas quais podia enxergar. Algum as árvores ainda tinham algum as folhas. Ela se perguntou por que não haviam caído com o as outras.
Entre as árvores, havia m arcas esparsas de neve. Sem pre lem braria o asfalto liso das estradas, os carros de form ato quadrado e plano. E todo o espaço entre e ao redor das coisas — os carros andando nas duas m ãos, as construções escassas. As árvores estéreis, m as de crescim ento denso.
Ele a olhou de relance. É o que você esperava?
Não sabia o que esperar.
A criança estava de novo se m exendo e se m ovendo. Não tinha consciência do novo am biente nem da distância assom brosa que percorrera. Seu m undo continuava a ser o corpo de Gauri. Ela se perguntou se o novo am biente afetaria o bebê de algum a m aneira. Se podia sentir o frio.
Era com o se ela contivesse um fantasm a, com o era Uday an. O bebê era um a versão dele, tanto na presença quanto na ausência. Os dois dentro dela, e distantes. Via-o com um a espécie de incredulidade, assim com o ainda não acreditava de fato que Uday an se fora, não só de Calcutá, m as de todos os outros lugares da terra que ela acabava de sobrevoar.
Quando o avião aterrissou em Boston, teve um m edo súbito de que a criança se dissolvesse e a abandonasse. Teve m edo de que percebesse, de algum a m aneira, que era o pai errado que estava ali à espera para recebê-las. Que protestasse e parasse de se form ar.
Depois de entrar em Rhode Island, im aginou que veria o oceano, m as a autopista sim plesm ente continuou. Aproxim aram -se de um a cidadezinha cham ada Providence. Viu a ladeira das ruas, a proxim idade entre as casas, os telhados pontiagudos, um a cúpula branca enfeitada.
Era m eio-dia, o sol a pino. Um céu azul brilhante, nuvens transparentes. Um a hora do dia a que faltava m istério, apenas um a afirm ação do próprio dia. Com o se o céu não fosse escurecer, o dia não fosse term inar.
Durante o voo, o tem po não fazia diferença, m as era tam bém a única coisa que im portava; era o tem po, não o espaço, que ela sentia percorrer. Sentara-se entre m uitos passageiros, ali presos aguardando a chegada. Que, em sua m aioria e com o Gauri, seriam libertados num a atm osfera que não era a deles.
Subhash deixou o rádio ligado durante alguns m inutos, ouvindo o noticiário local, a previsão do tem po. Ela recebera sua educação em inglês, estudara na Presidency, m as m esm o assim não conseguia entender quase nada do que dizia o locutor.
Por fim , viu cavalos pastando, vacas im óveis. Casas com as vidraças fechadas para não deixar o frio entrar. Muros baixos que dava para passar por cim a, form ando as divisas, feitos de pedras grandes e pequenas.
Chegaram a um sem áforo suspenso num fio. Enquanto estavam parados, ele pôs o pisca-pisca para a esquerda. Ela viu um a torre de m adeira, erguendo-se com o um a escada interna de um a construção inexistente. À distância, por sobre o cim o dos pinheiros, por fim , havia um a linha fina e escura. O m ar.
Meu cam pus fica para lá, disse ele.
Ela olhou a estrada cinza plana, com duas faixas contínuas no m eio. Era ali que ela deixaria as coisas para trás. Ali nasceria o bebê, na ignorância e em segurança.
Ela achava que Subhash ia virar à esquerda, onde disse que ficava o cam pus. Mas, quando o sinal abriu e ele engatou a prim eira, viraram à direita.
O apartam ento ficava no térreo, dando para a frente: um pequeno gram ado, um a trilha de entrada, um a faixa de asfalto. Do outro lado do asfalto, havia um a fila de prédios iguais, baixos, com pridos, com fachada de tij olos à vista. Am bos pareciam dispostos com o quartéis. No final da rua ficava a área onde Subhash estacionava o carro e deixava o lixo. Havia um a construção m enor no terreno, que era a lavanderia.
As portas principais ficavam quase sem pre abertas, presas com pedras grandes. As fechaduras nas portas dos apartam entos eram frágeis, botõezinhos nas m açanetas em vez de travas e cadeados. Mas ela estava num lugar onde ninguém tinha m edo de sair, onde estudantes bêbados desciam a colina entre risadas e tropeções, voltando ao dorm itório a qualquer hora da noite. No alto da colina ficava a delegacia do cam pus. Mas não havia toque de recolher nem bloqueios. Os estudantes iam e vinham , e faziam o que queriam .
Os vizinhos eram outros casais da pós-graduação, algum as fam ílias com filhos pequenos. Não deram sinal de notá-la. Ela ouviu apenas um a porta que se fechava, o toque abafado de um telefone, passos subindo as escadas.
Subhash lhe deu o quarto e disse que dorm iria no sofá, que se desdobrava e virava um a cam a. Pela porta fechada, ela ouvia sua rotina m atinal. Os bips do despertador, o exaustor no banheiro. Quando o exaustor estava desligado, ela ouvia a água correndo suavem ente, a lâm ina da navalha no rosto dele.
Ninguém vinha preparar o chá, arrum ar as cam as, varrer ou tirar o pó dos côm odos. No fogão, ele preparava o café da m anhã num a resistência que se averm elhava ao toque de um botão. Aveia em flocos e leite quente.
Quando term inava, ela ouvia a colher raspando m etodicam ente o fundo da panela, e então a água com que ele prontam ente enxaguava para ficar m ais fácil de lavar. O tinido da colher na tigela e ao m esm o tem po, num a panela separada, o chacoalhar do ovo que punha para ferver e levava para com er na hora do alm oço.
Ela se sentia agradecida pela independência dele e, ao m esm o tem po, ficava perplexa. Uday an queria um a revolução, m as em casa esperava que o servissem ; sua única contribuição para as refeições era sentar e aguardar que Gauri ou a m ãe pusesse um prato diante dele.
Subhash tam bém se sentia reconhecido pela independência dela. Deixava-lhe alguns dólares, o núm ero do telefone de seu departam ento anotado num a papeleta. Um a chave para a caixa de correio e um a segunda chave da porta. Alguns m inutos depois, vinha o som que ela esperava antes de se levantar: a corrente do lado de dentro do apartam ento, com o um pedacinho feio de um colar quebrado, deslizando para abrir, e então a porta se fechando com firm eza.
Em certo sentido, tinha sido outro acordo, ainda m ais bom bástico, algo que talvez Uday an pudesse adm irar. Quando fugiu com Uday an, ela se sentira audaciosa. Ao concordar em se casar com Subhash, ir para os Estados Unidos com ele, decisão refletida e ao m esm o tem po im pulsiva, sentiu-se ainda m ais radical.
No entanto, depois que Uday an se foi, qualquer coisa parecia possível. Os ligam entos que davam unidade à sua vida não existiam m ais. A ausência deles perm itiu que se casasse com Subhash, po r m ais prem aturo, por m ais desesperado que fosse. Ela queria sair de Tolly gunge. Esquecer tudo o que tinha sido sua vida. E ele lhe oferecera a possibilidade. No fundo da m ente, ela se dizia que algum dia poderia vir a am á-lo, quando m enos por gratidão.
Os sogros acusaram Gauri, com o sabia que fariam , de desgraçar a fam ília. A sogra vociferou, dizendo que nunca fora digna de Uday an. Que talvez ele ainda estivesse vivo, se se tivesse casado com outro tipo de m oça.
Tam bém tinham acusado Subhash de tom ar indevidam ente o lugar de Uday an. Mas no final, depois de criticá-los, os sogros não tinham proibido. Não disseram não. Talvez lhes agradasse, com o agradava a Gauri, o fato de não precisarem m ais ser responsáveis por ela, de poderem se libertar m utuam ente. E assim , em bora em certo sentido tivesse se incrustado ainda m ais dentro da fam ília, em outro sentido ela obtivera a libertação.
Foi de novo um casam ento no cartório, de novo no inverno. Manash com pareceu. Seus sogros e o resto de sua fam ília se negaram a ir. O partido tam bém foi contrário. Tal com o os sogros, os m ilitantes esperavam que ela honrasse a m em ória, o m artírio de Uday an. Sem saberem que estava gestando o filho de Uday an, Gauri não querendo que ninguém soubesse, tinham cortado os laços com ela. Consideraram o segundo casam ento im puro.
Ela se casou com Subhash com o form a de se m anter ligada a Uday an. Mas, m esm o na ocasião, ela sabia que era inútil, assim com o era inútil guardar um brinco quando se perdia o outro brinco que form ava o par.
Usou um sári com um de seda estam pada, tendo apenas o relógio de pulso e um a corrente sim ples. Ela m esm a fez o penteado. Era a prim eira vez que saía do bairro, a prim eira vez desde que fora com a sogra às com pras, que se sentia rodeada, revigorada pela energia da cidade.
Na segunda vez, não houve nenhum alm oço depois. Nenhum a colcha de algodão com o aquela sob a qual Uday an e ela tinham se deitado pela prim eira vez com o m arido e m ulher, na casa em Chetla, o frio da noite levando a se estreitarem entre si, o recato que refreara seu desej o cedendo rapidam ente.
Depois do registro no cartório, Subhash a levou para tirar o passaporte e, depois, ao consulado am ericano para o visto. O encarregado que recebeu a solicitação deu os parabéns, im aginando que estavam felizes.
Quando m enino, eu passava o verão em Rhode Island, disse ele, depois de saber onde Subhash m orava. Seu avô tinha sido professor de literatura na Universidade Brown, que tam bém ficava em Rhode Island. Conversou com Subhash sobre as praias.
Você vai gostar m uito de lá, disse a Gauri. Tentaria acelerar o pedido de Gauri. Desej ou tudo de bom aos dois.
Poucos dias depois, Subhash partiu. Estava novam ente sozinha com os sogros. Novam ente m oravam com ela sem lhe dirigir a palavra, j á agindo com o se ela não estivesse ali.
No dia da partida, ao anoitecer, Manash foi acom panhá-la ao aeroporto. Ela se curvou diante dos sogros e tirou o pó de seus sapatos. Estavam esperando que fosse em bora. Saiu pelas portas de vaivém do pátio, passou pela valeta a céu aberto, entrou num táxi que Manash cham ara na esquina.
Deixou Tolly gunge, onde nunca se sentira bem recebida, para onde fora apenas por causa de Uday an. Os m óveis, o conj unto de dorm itório em teca, ficariam sem uso no pequeno quarto quadrado tão insolado de m anhã, o quarto onde haviam involuntariam ente gerado o filho.
Sua últim a vista de Calcutá foi a cidade tarde da noite. Passaram depressa pelo cam pus escuro onde ela estudara, as bancas de livros fechadas, as fam ílias que dorm iam agasalhadas nas ruas naquelas horas. Deixou para trás o cruzam ento deserto sob o apartam ento de seus avós.
Enquanto se aproxim avam do aeroporto, o nevoeiro com eçou a se adensar na vip Road, tornando-se im penetrável. O m otorista dim inuiu a m archa e então parou, incapaz de prosseguir. Pareciam envoltos no fum o denso de um incêndio, m as sem calor, apenas o vapor condensado que os cercava.
Isso era a m orte, pensou Gauri; esse vapor, im aterial, m as inflexível, obrigando tudo a parar. Tinha certeza de que era isso o que Uday an via e sentia agora.
Com eçou a entrar em pânico, pensando que nunca sairia. Avançavam centím etro a centím etro, o m otorista com a m ão na buzina para evitar um a batida, até que finalm ente as luzes do aeroporto se fizeram visíveis. Ela abraçou e beij ou Manash, dizendo que sentiria saudades dele, só dele, j untou suas coisas, apresentou seus docum entos e em barcou no avião.
Nenhum policial ou soldado a deteve. Ninguém lhe perguntou sobre Uday an. Ninguém a incom odou por ter sido sua esposa. O nevoeiro se dissipou, o avião recebeu liberação para decolar. Ninguém a im pediu de se erguer acim a da cidade, num céu negro sem estrelas.
O calendário na parede da cozinha tinha a foto de um a ilha rochosa, com lugar para um farol e m ais nada. Ela viu algo que se cham ava Saint Patrick’s Day. O dia 20 de m arço, data em que Uday an teria feito vinte e sete anos, era o início oficial da prim avera.
Mas de m anhã ainda fazia um frio rigoroso em Rhode Island, as vidraças parecendo placas de gelo quando tocava nelas, esbranquiçadas de geada.
Num sábado, Subhash a levou para fazer com pras. Havia m úsica tocando num a loj a grande e m uito ilum inada. Ninguém se ofereceu para aj udá-los, ninguém parecia se im portar se gastavam ou não. Ele lhe com prou um casaco, um par de botas. Meias grossas, cachecol de lã, gorro e luvas.
Mas essas coisas não foram usadas. Tirando aquele único dia em que foi à loj a de departam ento, ela não se arriscava a sair. Ficava dentro de casa, descansando, lendo o j ornal do cam pus que Subhash trazia diariam ente, às vezes ligando a televisão para assistir a seus program as insípidos. Moças entrevistando solteiros que queriam nam orar. Marido e m ulher fingindo brigar e depois cantando m úsicas rom ânticas.
Ele sugeria coisas que podia fazer ali por perto: um film e no cinem a do cam pus, um a palestra de um antropólogo fam oso, um a feira internacional de artes e ofícios no centro acadêm ico. Citou os m elhores j ornais que podia ler na biblioteca, os vários itens à venda na livraria. O núm ero de indianos no cam pus aum entara um pouco desde sua prim eira chegada. Algum as m ulheres, esposas de outros estudantes, com quem podia fazer am izade. Quando se sentir pronta para isso, ele dizia.
Ao contrário de Uday an, as chegadas e saídas de Subhash eram previsíveis. Chegava todos os dias na m esm a hora, ao final da tarde. Nas vezes em que ela ligava para o laboratório, para dizer que o leite ou o pão tinha acabado, era ele que atendia o telefone. Ele aprendera a preparar o j antar, e assim ela não interferia. De m anhã, tirava os ingredientes do congelador, pacotes que descongelavam devagar e revelavam seu conteúdo no decorrer do dia.
Enquanto a com ida era preparada, os cheiros não a incom odavam m ais com o em Calcutá, m as ela dizia que sim , pois era um a desculpa para ficar no quarto. Pois, em bora esperasse o dia inteiro pela volta de Subhash, sentindo-se pouco à vontade quando ele não estava, quando chegava, ela o evitava. Com m edo, agora que estavam casados, de vir a conhecê-lo, de que suas vidas se aproxim assem , se j untassem .
Por fim ele batia à porta, dizendo seu nom e para cham á-la à m esa. Estava tudo pronto: dois pratos, dois copos de água, duas porções de arroz m acio acom panhado pelo que ele tivesse feito.
Enquanto com iam , assistiam ao j ornal noturno de Walter Cronkite. Eram sem pre notícias dos Estados Unidos, das preocupações e atividades dos Estados Unidos. As bom bas que estavam soltando sobre Hanói, a nave que iam lançar no espaço. Cam panhas para a eleição presidencial daquele ano.
Ela aprendeu os nom es dos candidatos: Muskie, McCloskey, McGovern. Os dois partidos, o Dem ocrata e o Republicano. Havia o noticiário sobre Richard Nixon, que fora em visita à China no m ês anterior, trocando um aperto de m ãos com Mao para que o m undo inteiro visse. Nada sobre Calcutá. Aqui não se noticiava o que consum ira a cidade, o que estraçalhara e alterara o curso de sua vida.
Um a m anhã, pousando o livro que lia e virando a cabeça para a j anela, ela viu o céu, cinzento e opaco. Chovia. A chuva caía m onótona e constante. Ela passava o dia inteiro dentro de casa, m as era a prim eira vez que se sentia confinada.
À tarde, depois de parar a chuva, vestiu o casaco de frio por cim a do sári, calçou as botas, pôs gorro e luvas. Percorreu a calçada m olhada, subindo a ladeira, virando na altura do centro acadêm ico. Viu o m ovim ento dos estudantes entrando e saindo, hom ens de j eans e j aqueta, m ulheres de calças escuras j ustas e casacos curtos de lã, fum ando, conversando.
Ela atravessou a área verde do cam pus, passando pelos postes de luz com suas lâm padas brancas arredondadas em hastes de ferro. Não estava tão frio quanto esperava, sem necessidade de gorro e luvas, o ar fresco depois da chuva.
No outro lado do cam pus, ela entrou num a pequena m ercearia ao lado da agência de correio. Entre os pacotes de m anteiga e as caixas de ovos, encontrou algo cham ado cream cheese, que vinha em balado num papel prateado, parecendo um sabonete. Com prou, achando que talvez fosse chocolate, dando a nota de cinco dólares que Subhash lhe deixava todos os dias, enchendo com o troco o bolso fundo do casaco.
Dentro da em balagem estava algo denso, frio, levem ente ácido. Quebrou em pedacinhos e com eu puro, de pé no estacionam ento da m ercearia. Ignorando que se com ia espalhado num biscoito ou num a fatia de pão, saboreando a textura e o gosto inesperado, lam bendo o papel.
Com eçou a explorar outras partes do cam pus, passeando pelos vários edifícios dos departam entos reunidos em volta da praça central: as faculdades de farm ácia, de línguas estrangeiras, de ciência política e história. Os prédios tinham nom es: Washburn, Roosevelt, Edwards. Qualquer um podia entrar.
Viu as salas de aulas e as salas dos professores ao longo dos corredores. Quadros de avisos anunciando palestras e conferências, m ostruários com livros publicados por docentes da universidade. Não havia nenhum guarda a im pedi-la, a interrogá-la. Nenhum soldado arm ado sentado num saco de areia, com o houve por m eses na frente do edifício central da Presidency .
No dia em que Robert McNam ara fora visitar Calcutá, um ano depois da revolta de Naxalbari, m anifestantes com unistas no aeroporto o obrigaram a ir de helicóptero até o centro da cidade. Não deixavam o carro passar. Naquele dia ela estava no cam pus. Quando o helicóptero sobrevoava a College Street, alguns estudantes haviam atirado pedras do alto de um dos prédios do cam pus. Tinham trancado o vice-reitor da Universidade de Calcutá em seu gabinete. Ela viu incendiarem bondes.
Um dia, encontrou o departam ento de filosofia. Deparou-se com um a am pla sala de aulas, com os assentos em filas descendentes. As portas ainda estavam abertas, enquanto os estudantes continuavam a entrar. Ela se sentou bem no fundo, na fila m ais alta, de onde via o topo da cabeça do professor. Perto da porta, caso precisasse sair de fininho. Mas depois da longa cam inhada, sentindo o corpo pesado, ficou contente em poder se sentar.
Espiando o program a do estudante ao lado, viu que era um curso de graduação, um a introdução à filosofia ocidental da antiguidade. Heráclito, Parm ênides, Platão, Aristóteles. Em bora conhecesse a m aior parte do assunto, ela acom panhou a aula inteira. Ouviu um a apresentação da doutrina da rem iniscência de Platão, segundo a qual o aprendizado era um a redescoberta, o conhecim ento um a form a de lem brança.
O professor usava roupas inform ais, j eans e suéter. Fum ava enquanto falava. Tinha um grande bigode castanho, cabelo com prido com o m uitos dos rapazes na sala. Não se incom odou em fazer a cham ada.
Os estudantes ao redor tam bém fum avam ou tricotavam . Alguns estavam de olhos fechados. Havia um casal no fundo, de pernas encostadas, o rapaz abraçando a cintura da m oça, afagando seu suéter. Mas Gauri se viu prestando atenção. A certa altura, querendo anotar, procurou papel e caneta dentro da bolsa. Não encontrando papel, fez suas anotações nas m argens do j ornal do cam pus que tinha consigo. Mais tarde, num bloco que encontrou no apartam ento, transcreveu o que anotara.
Sub-repticiam ente, ela com eçou a assistir às aulas duas vezes por sem ana. Anotava os títulos dos textos da bibliografia do curso e ia à biblioteca, pegando em prestado o cartão de Subhash para consultar alguns livros.
Queria continuar anônim a, passar despercebida. Mas um dia, quando ouvia atenta a aula, ergueu a m ão de repente. O professor estava falando sobre as regras de lógica form al de Aristóteles, sobre os silogism os utilizados para diferenciar afirm ações válidas e inválidas.
E o raciocínio dialético? Que reconhecia a m udança e a contradição, em oposição a um a realidade dada? Aristóteles adm itia?
Adm itia. Mas ninguém prestou m uita atenção a esses conceitos antes de Hegel, disse o professor.
Ele respondeu com o se Gauri fosse um a aluna legítim a do curso. E alterou espontaneam ente o rum o da aula, explorando a questão que ela levantara, encaixando o aspecto que apontara.
Ela m ontou um a pequena rotina, seguindo a onda dos estudantes saindo ao final da aula, para com er na cantina do centro acadêm ico, pedindo batatas fritas, pão com m anteiga e chá, às vezes perm itindo-se um a taça de sorvete.
Num dos lados da cantina, dom inando o espaço, havia um relógio im enso em butido na parede de tij olo. Sem núm eros, sem ponteiro dos segundos, apenas peças de m etal sobrepostas na superfície, os ponteiros enorm es das horas e dos m inutos se j untando e se separando ao longo do dia.
Ela se m antinha reservada. Era esposa de Subhash, não de Uday an. Mesm o em Rhode Island, m esm o no cam pus onde ninguém a conhecia, estava preparada caso alguém viesse questioná-la, condená-la pelo que tinha feito.
Mesm o assim , gostava de passar o tem po com pessoas que a ignoravam , m as estavam a seu redor. Que iam ao terraço para esticar as pernas, conversar, fum ar ao sol, ou que se reuniam nas salas de j ogos e de descanso, vendo televisão ou j ogando sinuca. Era quase com o estar de novo num a cidade.
A área de descanso no banheiro fem inino era um oásis: um enorm e espaço privado acarpetado de branco, com colunas de espelhos e sofás para sentar ou até deitar, com cinzeiros de pé entre eles. Era com o um a sala de espera num a estação de trem ou a recepção de um hotel, m aior e m ais confortável do que o apartam ento onde m orava com Subhash. Ali ia se sentar às vezes, descansando, folheando o j ornal do cam pus, observando as am ericanas que vinham retocar o batom ou passar um a escova no cabelo.
Às vezes o j ornal saía em edições especiais, dedicando-se a tem as com o o que significava ser negro, m ulher ou hom ossexual nos Estados Unidos. Artigos extensos abordavam form as de exploração, identidades individuais. Ela se perguntava se Uday an não zom baria deles por serem indulgentes consigo m esm os. Por se interessarem m enos em m udar a vida dos outros e m ais em afirm ar e m elhorar a própria vida.
Para quando é o bebê?, perguntou-lhe um dia um a estudante sentada a seu lado, fum ando na área de descanso.
Para logo, daqui a alguns m eses.
Você está na m inha turm a de filosofia antiga, não é?
Ela assentiu.
Eu devia largar. É dem ais para m im .
A m oça parecia tão à vontade, com longos brincos de prata, um a blusa de gaze, um a saia pelos j oelhos. Não tinha no corpo, a estorvá-lo, os m etros de seda que Gauri, todos os dias de m anhã, enrolava, dobrava e prendia form ando sua roupa. Eram os sáris que ela usava desde que deixara de usar túnica, aos quinze anos. Que usara quando estava casada com Uday an e continuava a usar agora.
Gosto da sua roupa, disse a m oça, levantando para sair.
Obrigada.
Mas, olhando a m oça se afastar, Gauri se sentiu desaj eitada. Com eçou a ter vontade de parecer com as outras m ulheres que via no cam pus, com um a m ulher que Uday an nunca vira. Chegou o m ês de abril, os estudantes acolhendo o sol, reunindo-se na área verde do cam pus e no patam ar de entrada do centro acadêm ico, flores brancas cobrindo as árvores. Nas sextas à tarde, ela via os estudantes em fila na frente do centro acadêm ico, com m aletas ou m ochilas, sacos de roupa suj a. Entravam em enorm es ônibus prateados que partiam para o final de sem ana. Iam para Boston, Hartford, Nova York. Ela im aginou que iam para casa ver os pais ou visitar nam orados e nam oradas, e ficavam fora até dom ingo à noite.
Em bora não tivesse ninguém para se despedir, ela gostava de observar esse ritual de saída, olhando o m otorista que guardava os volum es dos passageiros no bagageiro do ônibus, olhando os estudantes tom arem seus assentos. Perguntava-se com o seriam os lugares para onde iam .
Vai subir?, um deles perguntou um dia, oferecendo-se para aj udá-la.
Ela abanou a cabeça, afastando-se da m ultidão.
O posto de saúde da universidade a encam inhou a um obstetra na cidade. Subhash a levou até lá, aguardando na sala de espera enquanto um hom em de cabelo prateado cham ado dr. Fly nn a exam inava. Tinha um a pele rosada, parecendo m acia apesar da idade. Enquanto um a enferm eira se colocava no canto do consultório, ele exam inou delicadam ente seu interior.
Com o se sente?
Bem .
Dorm e à noite?
Sim .
Com e por dois? Sente pontapés durante o dia?
Ela assentiu.
É só o com eço do trabalho que darão, disse ele sorrindo, dizendo para voltar dali a um m ês.
O que ele disse?, perguntou Subhash quando a consulta term inou e estavam de volta ao carro.
Ela repetiu o que dr. Fly nn havia dito, que agora o bebê estava com trinta centím etros e pesava cerca de um quilo. As m ãos tinham atividade, os olhos reagiam à luz. Os órgãos continuariam a se desenvolver: o cérebro, o coração, os pulm ões, preparando-se para a vida fora do ventre.
Subhash dirigiu até o superm ercado, dizendo que precisavam de algum as coisas. Perguntou se viria j unto, m as ela disse que esperaria no carro. Ele deixou a chave na ignição, para que pudesse ouvir o rádio. Ela abriu o porta-luvas, curiosa em saber o que havia dentro.
Encontrou um m apa da Nova Inglaterra, um a lanterna, um raspador de gelo, um m anual de instruções do carro. Então algo lhe prendeu a atenção. Era um elástico de cabelo de m ulher, um anel flexível verm elho salpicado de dourado. Um elástico que não reconheceu com o seu.
Entendeu que houvera alguém antes dela, um a am ericana. Um a m ulher que ocupara o banco onde estava sentada agora.
Talvez não tivesse dado certo por algum a razão qualquer. Ou talvez Subhash continuasse a vê-la, a obter dela o que Gauri não lhe dava.
Deixou o elástico onde o encontrara. Não sentiu nenhum ím peto de perguntar a ele.
Ficou aliviada por não ser a única m ulher em sua vida. Por ser, ela tam bém , um a substituição. Em bora curiosa, não sentiu ciúm es. Pelo contrário, sentiu-se grata que ele fosse capaz de ocultar algum a coisa.
Isso validava o passo que ela havia dado ao se casar com ele. Era com o um a nota alta depois de um exam e difícil. Justificava a distância que continuava a m anter em relação ao novo m arido. Sugeria que, afinal, talvez não tivesse de am á-lo.
***
Num final de sem ana, ele a levou ao oceano, para lhe m ostrar o que dera o eixo para sua vida aqui. Areia cinzenta, m ais fina do que açúcar. Quando se curvou para tocá-la, a areia lhe escorreu im ediatam ente dos dedos. Parecia água, banhando áspera sua pele. Nas dunas cresciam alguns capins esparsos. Aves cinzentas e brancas andavam ao longo da praia rígidas com o velhos ou saltitavam bam boleantes dentro do m ar.
As ondas eram baixas, a água averm elhada onde se quebravam . Ela tirou os sapatos, com o Subhash, andando em pedras duras e pisando em algas. Ele falou que a m aré estava subindo. Apontou as pedras que se sobressaíam , as quais estariam subm ersas dali a um a hora.
Vam os andar um pouco, sugeriu ele.
Mas o vento se levantou soprando contra os dois, e ela parou depois de alguns passos, sentindo peso dem ais, frio dem ais para continuar.
Havia crianças espalhadas pela praia, em brulhadas em capotes, escalando as pedras, correndo na areia. Ainda fazia frio dem ais para nadar, m as elas cavavam trincheiras e crateras, deitadas de bruços, as pernas estendidas. Enfeitavam m ontes de lam a com seixos. Ao olhá-las, ela se perguntava se o filho brincaria assim , faria essas coisas.
Já pensou em algum nom e?, ele perguntou. Era com o se lesse seus pensam entos.
Ela abanou a cabeça.
Gosta de Bela?
Ela se sentiu aborrecida não por causa do nom e, m as pelo fato de sugerir. Mas era verdade, não tinha pensado em nenhum .
Pode ser, respondeu.
Não m e ocorre nenhum nom e de m enino.
Não creio que sej a m enino.
Por que não?
Não consigo im aginar.
Isso aj uda, Gauri?
O quê?
Estar aqui. Tudo isso.
No com eço ela não respondeu. Depois disse: Aj uda, estar longe aj uda.
Era seu irm ão que devia estar aqui, acrescentou. Essa criança devia ser responsabilidade dele, quisesse ou não.
Vou adotar, Gauri. Já te prom eti.
Ela era incapaz de expressar sua gratidão pelo que ele havia feito. Era incapaz de expor com o ele era um a pessoa m elhor do que Uday an em vários aspectos. Era incapaz de lhe dizer que ele a protegia, por razões que o levariam a olhá-la de outra m aneira.
Ela se virou para olhar as pegadas que haviam deixado na areia úm ida. Ao contrário das pegadas de Uday an na infância, que perm aneciam no pátio em Tolly gunge, as deles j á estavam desaparecendo, lavadas pela m aré que avançava.