Aguapés
Capítulo 3
Meghna estava com quatro anos. Idade suficiente para passar algum tem po longe de Bela. Estava frequentando um program a de verão na escola onde com eçaria o j ardim de infância no outono. Ficava além da estação ferroviária, num acam pam ento perto de um lago.
Algum as vezes por sem ana, passava a m anhã na com panhia de outras crianças, aprendendo a brincar com elas num bosque, a se sentar j unto com elas a um a m esa de piquenique, a dividir a com ida. Assavam pãezinhos integrais que trazia para casa, cada um em brulhado num pacotinho. Quando chovia, ficava dentro de um a tenda, descansando em tapetes de pele de carneiro. Moldando figurinhas com cera de abelha, assistindo a um teatrinho de fantoches que encenava algum a história lida em voz alta.
Com o Bela tinha de sair m uito cedo de casa, era Subhash quem levava Meghna nessas m anhãs. Bela ia pegá-la quando term inava seu turno. Era bom estar trabalhando outra vez. Acordar antes de nascer o sol, suar debaixo do sol quando j á se erguera no céu, sentir pernas e braços rij os ao final do dia.
Ela conhecera aquele sítio quando criança, em excursões da escola, para assistir à tosquia dos carneiros. Tinha ido lá com o pai para colher abóboras em outubro, para sem ear plantas na prim avera. Agora plantava as sem entes no solo ácido e pedregoso, usando um a enxada para tirar os m atos.
Cavava canteiros fundos e com pridos para as batatas. Abria passagens estreitas entre as leiras para que os m icro-organism os se m ultiplicassem . Com eçava o plantio em torrões e sem enteiras e depois transferia as m udas a terreno aberto.
Um a tarde, aproveitando o sol depois de um a m anhã nublada, precisando refrescar o corpo, foi com Meghna até a enseada em Jam estown aonde o pai costum ava levá-la, onde tinha aprendido a nadar. Voltando da praia, ela viu m ilho à venda e parou o carro.
Na banca havia um a lata de café com um a fenda na tam pa de plástico, pedindo um dólar por três espigas. Havia um a lista de preços para alguns outros produtos. Maços de rabanete e m anj ericão. Um a caixa de isopor com folhas de carvalho. Pés de alface am ericana, sem queim adura nas bordas.
Ela pegou a lata, ouviu o barulho de algum as m oedas. Com prou algum as espigas, alguns rabanetes, enfiando as notas pela fenda. Voltou na sem ana seguinte, pegando o atalho pela ponte que vinha da casa paterna. Tam bém desta vez não havia ninguém . Com eçou a se perguntar quem plantaria essas coisas, quem seria tão confiante. Quem deixava os produtos ali, sem ficar de guarda, para um a gaivota pegar e levar, para um estranho com prar ou roubar.
Então, no sábado, havia alguém ali. Tinha m ais verduras e legum es na traseira de um a picape, cebolas e cenouras em cestos, m ostardas de folha redonda. Dois carneirinhos pretos estavam num gradeado, num m onte de palha, com coleirinhas verm elhas iguais. Quando Meghna se aproxim ou, ele lhe m ostrou com o dar de com er na m ão e deixou que passasse a m ão na pelagem deles.
Você planta essas coisas na ilha?, perguntou Bela.
Não, aqui eu venho pescar. Um am igo m e deixa m ontar a banca na área dele, pois há m uitos turistas passando por aqui nessa época do ano.
Ela pegou um pepino-lim ão. Cheirou a casca.
Tentam os plantar nessa tem porada.
Onde?
No sítio dos Keenans, no 138.
Conheço os Keenans. Você é nova aqui em Rhode Island?
Ela abanou a cabeça. Am bos haviam nascido lá. Haviam frequentado escolas diferentes, não m uito distantes.
Ele tinha olhos verdes, algum as rugas, cabelo grisalho que a brisa agitava. Era gentil, m as não se abstinha de observá-la.
Da próxim a vez, eu trago os coelhos. Sou Drew.
Ele se agachou e estendeu a m ão, não para Bela, m as para Meghna. Com o você se cham a?
Mas Meghna não respondeu e Bela precisou responder por ela.
Bonito. O que significa?
Era um dos rios que desaguavam na baía de Bengala, disse-lhe Bela. Nom e escolhido, dado por Subhash.
Alguém te cham a de Meg?
Não.
Posso te cham ar assim ? Da próxim a vez que a m am ãe passar por aqui?
Ele com eçou a trazer outros anim ais, frangos, filhotes de cães e gatos, de m odo que Meghna com eçou a falar de Drew durante a sem ana, perguntando quando iriam visitá-lo outra vez. Dava produtos de presente a Bela, enfiando-os na sacola e recusando pagam ento. Vagens roxas que ficavam verdes ao cozinhar. Cabeças de alho roxo, ervilhas ainda na casca.
A chácara era de sua fam ília. Toda a vida m orou lá. Agora tinha apenas uns dois hectares, que dava para abarcar num a vista de olhos. Antes era m aior, terra usada para a subsistência de várias gerações. Mas seus pais precisaram vender um a grande parte a im obiliárias. Ele teve o apoio de alguns acionistas da com unidade para tocar o negócio.
Um dia, ele se propôs a lhes m ostrar a propriedade. Ficava do outro lado da baía, perto da divisa de Massachusetts. Era onde ficavam os outros anim ais — um pavão, galinhas-d’angola, carneiros pastando num a várzea salobra que m argeava a propriedade.
A gente te segue?
Poupe a gasolina. Venham com igo.
Mas aí você vai ter de nos trazer de volta.
Vou precisar m esm o passar por aqui.
E assim Bela entrou na cabine espaçosa e ensolarada da picape de Drew, pondo Meghna no m eio, fechando a porta.
Com eçou a vê-los nos finais de sem ana. Nunca se perm itira ser cortej ada. Ele era atencioso, nunca agressivo. Com eçou a aparecer quando ela estava trabalhando em algum a leira, perguntando que horas parava, sugerindo irem nadar.
Com eçou a lhe fazer com panhia em alguns sábados, de pé a seu lado sob um toldo branco num a feira ao ar livre em Bristol, fatiando tom ates para os fregueses provarem . Ia com ele fazer entregas em restaurantes, descarregando caixas de produtos para sua carteira de clientes. Cam inhava pela praia com ele, aj udando a colher as algas que Drew usava com o cobertura do plantio. Mesm o quando parava e se sentava, continuava ocupado, trabalhando com m adeira. Com eçou a fazer coisas para Meghna. Móveis para a casinha de bonecas, um j ogo de peças de m ontar.
Ela estivera em m uitos lugares; ele vivera sem pre aqui. Tinha alguns em pregados que saíam no final do dia. Morava sozinho. Os pais tinham m orrido. Fora casado com um a garota que conhecera no colegial. Nunca tiveram filhos e estavam divorciados fazia m uito tem po.
Depois de um m ês, Bela o apresentou ao pai e a Elise. Ele apareceu no dia do aniversário dela, de m anhã, para que todos pudessem se encontrar. Tirou as botas na picape e descalço atravessou o gram ado e entrou na casa. Levou um a m elancia que dividiram e adm irou as abobrinhas que o pai dela plantava no quintal, prom etendo que voltaria outra vez para experim entar as flores de abobrinha m aceradas e fritas que o pai fazia. O pai gostou dele, o suficiente para incentivar Bela a passar m ais tem po com ele, cuidando de Meghna quando ela saía.
Bela disse a Drew que a m ãe m orrera. Era o que ela sem pre dizia quando as pessoas perguntavam . Em sua im aginação, devolvia Gauri à Índia, dizendo que ela fora até lá em visita e contraíra um a doença. Com o passar dos anos, a própria Bela veio a acreditar nisso. Im aginava o corpo ardendo num a pira, as cinzas esvoaçando.
Drew com eçou a querer que ela passasse as noites com ele. Que acordassem j untos nas m anhãs de dom ingo e com essem o desj ej um no celeiro que reform ara. Onde, num leito m acio, às vezes faziam am or de tarde. Do últim o degrau de um a escada que ia até a cúpula do celeiro, dava para enxergar um pequeno trecho de m ar.
Ela disse que era cedo dem ais. No com eço falou que era por causa de Meghna — não queria dar esse passo levianam ente, queria ter certeza.
Drew disse que havia um quarto para Meghna; que queria que ela tam bém ficasse lá. Construiria um a cam a alta, com espaço em baixo para brincar, um a casinha de árvore lá fora. No final do verão, disse a Bela que estava apaixonado. Disse que não precisava de m ais tem po, que tinha idade suficiente para saber o que sentia. Queria aj udar a criar Meghna. E ser um pai para ela, se Bela perm itisse.
Foi nesse dia que ela contou a Drew a verdade sobre sua m ãe. Que tinha ido em bora e nunca m ais voltou.
Falou que era por isso que sem pre evitara estar com um a pessoa só ou ficar num lugar só. Era por isso que quis ter Meghna sozinha. Era por isso, em bora gostasse de Drew, em bora estivesse com quase quarenta anos, que não sabia se podia lhe dar as coisas que ele queria.
Contou que costum ava ficar dentro do arm ário onde a m ãe guardava suas coisas. Atrás dos casacos que não levara, dos cintos e bolsas nos ganchos que o pai ainda não dera. Tam pava a boca com um travesseiro, caso o pai chegasse cedo em casa e a ouvisse chorar. Lem brava ter chorado tanto que as pálpebras de baixo incharam , dando-lhe por algum tem po dois sorrisos tum efatos que eram m ais pálidos do que o resto do rosto.
Por fim contou sobre Uday an. Que, em bora tivesse sido gerada por duas pessoas que se am avam , fora criada por duas pessoas que nunca se am aram .
Ele a abraçava enquanto ouvia. Não vou a lugar nenhum , disse.