Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 26 de 37

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Aguapés

Capítulo VI

1.

 

No quarto que ocupam em Tolly gunge, ela solta e penteia o cabelo antes de deitar. A trava da porta está puxada, as venezianas fechadas. Uday an está deitado sob o m osquiteiro, com o rádio de ondas curtas sobre o peito. Um a perna dobrada, o tornozelo apoiado no outro j oelho. Na colcha, ao lado, um cinzeirinho de m etal, um a caixa de fósforos, um m aço de Wills.

É 1971, o segundo ano de casam ento deles. Quase dois anos desde a declaração do partido. Um ano desde as batidas policiais nas redações do Deshabrati e Liberation. Os núm eros que Uday an continua a ler são publicados e distribuídos clandestinam ente. Esconde-os em baixo do colchão. O conteúdo é considerado subversivo e agora ter algum exem plar pode ser usado com o prova de crim e.

Ranj it Gupta é o novo chefe de polícia e as prisões estão aum entando. A polícia pega os cam aradas em casa, na universidade, nos esconderij os. Isolam -nos em cárceres espalhados por toda a cidade, arrancando confissões. Alguns saem depois de alguns dias. Outros ficam detidos por tem po indeterm inado. Queim am as costas deles com tocos de cigarro, despej am cera quente dentro dos ouvidos. Enfiam varas de m etal pelo ânus. Quem m ora perto das prisões de Calcutá não consegue dorm ir.

Um dia, em poucas horas, quatro estudantes são baleados e m ortos perto da College Street. Um deles não tinha nada a ver com o partido. Estava entrando pelo portão da universidade, para assistir a um a aula.

Uday an desliga o rádio. Você se arrepende?, pergunta.

Do quê?

De se casar?

Ela para de se pentear por um instante, olhando o reflexo dele no espelho, sem conseguir enxergar bem o rosto por causa do m osquiteiro. Não.

De se casar com igo?

Ela se levanta e suspende o m osquiteiro, sentando-se na beirada da cam a. Estende-se ao lado dele.

Não, diz m ais um a vez.

Prenderam Sinha.

Quando?

Poucos dias atrás.

Diz isso sem desalento. Com o se não tivesse nada a ver com ele.

E o que isso significa?

Significa que ou vão fazê-lo falar ou vão m atá-lo.

Ela volta a se sentar. Com eça a trançar o cabelo para dorm ir.

Mas ele afasta seus dedos. Desprende o sári, deixando o tecido escorregar dos seios, revelando a pele entre a blusa e a com binação. Espalha seus cabelos pelos om bros.

Deixe assim esta noite.

O cabelo se assenta entre as m ãos dele. Então o peso desaparece, fica curto outra vez, de textura m ais áspera, entrem eado de fios brancos.

Mas no sonho Uday an continua um rapaz de vinte e poucos anos. Três décadas a m enos do que a idade de Gauri agora, quase dez anos m ais novo do que Bela. O cabelo ondulado penteado para trás, deixando a testa livre, a cintura estreita em com paração aos om bros. Mas ela tem 56 anos, que se fazem presentes, pois o tem po lhe tirou a flexibilidade.

Uday an não percebe esse descom passo. Puxa-a para si, abrindo a blusa, procurando o prazer em seu corpo adorm ecido, em seus seios descuidados. Ela tenta resistir, dizendo-lhe que não devia estar ali com ela. Conta-lhe que se casou com Subhash.

A notícia não faz nenhum a diferença. Ele acaba de despi-la, o toque do m arido traz um a sensação de proibido. Pois está nua com um garoto que teria idade para ser seu filho.

Quando estava casada com Uday an, seu pesadelo constante era que não se tivessem conhecido, que ele não tivesse entrado em sua vida. Naqueles m om entos voltava a convicção que tinha antes de conhecê-lo, a de que devia viver sua vida sozinha. Odiara aqueles prim eiros m om entos desconcertantes, depois de acordar na cam a em Tolly gunge, distante dele, ainda enclausurada em outro m undo onde não m antinham nenhum contato, m esm o quando ele a abraçava.

Conheceu-o por poucos anos. Apenas com eçando a descobrir quem ele era. Mas, em outro sentido, ela o conhecera praticam ente a vida inteira. Depois que m orreu, iniciou-se aquele conhecim ento interior que nascia por recordá-lo, por tentar ainda entendê-lo. Por sentir saudade e ressentim ento. Afora isso, não haveria nada a assom brá-la. Nenhum pesar.

Ela se pergunta com o ele seria agora. Com o envelheceria, que enferm idades teria, a que doença sucum biria. Tenta im aginar o estôm ago liso, agora flácido. Fios grisalhos no peito.

Em toda a vida, exceto quando Subhash perguntou e no dia em que contou a Otto Weiss, ela nunca com entou a ninguém o que acontecera a ele. Ninguém m ais sabe perguntar. O que acontecera em Calcutá nos últim os anos da vida dele. O que ela vira do terraço em Tolly gunge. O que fizera por ele, a pedido seu.

Na Califórnia, no com eço, eram os vivos que a assom bravam , não os m ortos. Tem ia que Bela ou Subhash se m aterializasse, sentando-se num a sala de aula ou entrando num a reunião. No estrado, ela perscrutava a sala no prim eiro dia de cada curso que dava, m eio na expectativa de ver um deles ali.

Tem ia que a encontrassem no cam pus ensolarado, num a das calçadas que levavam de um edifício a outro. Confrontando-a, desm ascarando-a. Apreendendo-a, com o a polícia tinha apreendido Uday an.

Mas em vinte anos ninguém aparecera. Não fora cham ada de volta. Recebera o que pedira, ganhara exatam ente a liberdade que buscara.

Quando Bela estava com dez anos, Gauri conseguia de algum a m aneira im aginá-la aos vinte. Na época, Bela passava a m aior parte do tem po na escola, às vezes passava o final de sem ana na casa de algum a am iga. Não se opôs a passar quinze dias num acam pam ento de bandeirantes no verão. Sentava-se entre Gauri e Subhash ao j antar, colocava o prato usado dentro da pia depois de term inar e subia para seu quarto.

Mesm o assim , Gauri esperou até que lhe oferecessem um em prego, até a ocasião em que Subhash foi a Calcutá. Ela sabia que não tinha com o voltar no tem po e corrigir os erros que com etera durante os prim eiros anos da vida de Bela. Suas tentativas continuavam a falhar, pois não havia o alicerce de um a base. Com o tem po, esse sentim ento foi consum indo Gauri, expondo apenas seu interesse pessoal, sua inaptidão. Sua incapacidade de se conform ar.

Convencera-se de que Subhash era seu rival e que estava num a com petição com ele por causa de Bela, com petição que parecia ofensiva, inj usta. Mas claro que não houvera nenhum a com petição, fora ela m esm a a estragar as coisas. Ela e seu retraim ento, encoberto, inelutável. Ela m esm a se pusera num canto e depois abandonara toda a cena.

Naquele prim eiro voo cruzando o país, havia tanta luz no avião que ela pôs seus óculos escuros. Durante boa parte da viagem , ela enxergava o solo, com prim indo a testa na j anela oval. Abaixo, um rio sinuoso coruscava com o um aram e grosseiram ente torcido. A terra m arrom e dourada era sulcada de fendas. Precipícios se recortavam com o ilhas, rom pidos pelo calor do sol.

Havia m ontanhas negras que pareciam despidas de qualquer vegetação, sem árvores nem capins. Linhas finas que se curvavam de m odo im previsível, com afluentes que não levavam a lugar nenhum . Não rios, m as estradas.

Havia um a seção geom étrica, com o um tapete estam pado em tons de rosa, verde e castanho-claro. Com posto de form as circulares em tam anhos variados, j untas, algum as se sobrepondo levem ente, algum as com um trecho claram ente faltante. Soube pelo vizinho de assento que eram lavouras. Mas, aos olhos de Gauri, pareciam m oedas sem rosto.

Cruzaram o deserto vazio, plano, sem atrativos, e finalm ente chegaram ao extrem o oposto dos Estados Unidos e ao lento espraiam ento de Los Angeles, denso e contínuo. Um lugar que a receberia, um lugar onde se perderia convenientem ente. Dentro de si sentia culpa e adrenalina gerada pelo que havia feito, um a exaustão pura e sim ples. Com o se, para escapar a Rhode Island, tivesse feito todo o cam inho a pé.

Entrou num a nova dim ensão, num lugar onde lhe era oferecida um a vida nova. As três horas de fuso horário que a separavam de Bela e Subhash eram com o um a barreira física, enorm e com o as m ontanhas que sobrevoara para chegar até ali. Tinha feito aquilo, tinha feito a pior coisa que podia pensar em fazer.

Depois do prim eiro em prego, ela se m udou m ais ao norte por algum tem po, dando aulas em Santa Cruz e então em São Francisco. Mas voltara ao sul da Califórnia para levar sua vida lá, num a pequena cidade universitária flanqueada por m ontanhas ocres do outro lado da via expressa. Um cam pus basicam ente de graduação, num a escola pequena, m as bem organizada, construída depois da Segunda Guerra Mundial.

Num a instituição tão íntim a, era im possível levar um a vida anônim a. Seu trabalho não era apenas dar aulas, m as orientar, conhecer os alunos. Devia estar disponível em sua sala e m anter um generoso horário de atendim ento.

Na classe, ela coordenava grupos de dez ou dozes estudantes, apresentando-os às grandes obras de filosofia, às questões irrespondíveis, aos séculos de disputas e debates. Dava um a introdução à filosofia política, um curso de m etafísica, um sem inário avançado sobre a herm enêutica do tem po. Estabelecera suas áreas de especialização, o idealism o alem ão e a filosofia da escola de Frankfurt.

Dividia as turm as m aiores em grupos de discussão, às vezes convidando alguns estudantes a seu apartam ento, preparando-lhes chá nos dom ingos à tarde. Nas horas de atendim ento na faculdade, ela conversava com eles em sua sala com as paredes forradas de livros, à luz suave de um a lâm pada que levara de casa. Ouvia-os enquanto confessavam que não tinham conseguido entregar um trabalho devido a um a crise pessoal que os assoberbava. Quando necessário, ela lhes estendia um lenço de papel de um a caixa que guardava na gaveta, dizendo para não se preocuparem , para entregarem incom pleto, dizendo que entendia.

A obrigação de ser aberta aos outros, de criar essas alianças, fora de início um a tensão inesperada. Queria que a Califórnia a engolisse, queria desaparecer. Mas, com o tem po, essas relações tem porárias vieram a preencher um certo espaço. Os colegas a acolheram bem . Seus alunos a adm iravam , eram leais. Durante três ou quatro m eses, dependiam dela, acom panhavam -na, afeiçoavam -se e então iam em bora. Ela passou a sentir falta daquele contato restrito, quando term inava o curso. Tornou-se um a espécie de guardiã de alguns.

Devido a suas origens, ficou com a responsabilidade específica de supervisionar os estudantes que vinham da Índia. Um a vez por ano, convidava-os para j antar, servindo biriyani e kebabs. Os estudantes costum avam ser ricos, satisfeitos em estar nos Estados Unidos, sem se sentirem intim idados. Tinham sido criados num a outra Índia. Ao que parecia, estariam à vontade em qualquer lugar do m undo.

Alguns ex-alunos enviavam cum prim entos nos feriados, convidavam -na para ir a seus casam entos. Ela tinha tem po para eles, pois viera a ter tem po, pois não atendia às necessidades de m ais ninguém .

Além da docência, sua produção era contínua, respeitada por alguns pares. Publicara três livros: um a avaliação fem inista de Hegel, um a análise dos m étodos interpretativos em Horkheim er e o livro baseado em sua tese, que derivara do ensaio cheio de erros que escrevera para o professor Weiss: A epistemologia da expectativa em Schopenhauer.

Ela lem brava o lento nascim ento da tese, a portas fechadas em Rhode Island. Ciente de que as exigências de seu trabalho m ascaravam as exigências de ser m ãe. Lem brava com o se afligira, com o passar dos anos, enquanto o processo de redação da tese se aprofundava, pensando que nunca ficaria pronto, que talvez ela tam bém falhasse nessa m eta. Mas o professor Weiss telefonou depois de ler e disse que estava orgulhoso dela.

Agora poderia falar com o professor Weiss em alem ão, tendo estudado a língua por tanto tem po e tendo passado um ano, aos quarenta, com o professora visitante na Universidade de Heidelberg. Ele ainda vivia. Ela soubera que tinha se m udado para a Flórida na aposentadoria. Aj udara Gauri a entrar no curso de doutorado em Boston e, depois, a conseguir seu prim eiro em prego com o docente, na Califórnia. Foi ele que m encionou a possibilidade, querendo prestar-lhe um favor, sem pre pensando nela, sem perceber que ela preferiria esse trabalho ao trabalho de criar a filha.

Não m anteve contato com ele. Im aginava que a notícia correra e que as pessoas em Rhode Island, na universidade, ficaram sabendo o que ela havia feito. E ela sabia que Weiss, que a orientara, que acreditara nela, que sem pre perguntava de Bela, deixaria de respeitá-la.

Sua ideologia era separada da prática, neutralizada pelo longo tem po na academ ia. Muito tem po atrás, quisera que seu trabalho fosse um a hom enagem a Uday an, m as agora era um a traição de tudo em que ele tinha acreditado. Todos os aspectos com o ele a influenciara e inspirara, astuciosam ente cultivados para seu proveito intelectual próprio.

Algum as vezes por ano, ia a conferências em vários lugares do país ou no estrangeiro. Eram as únicas viagens longas que fazia. Às vezes gostava da breve m udança de ares, a alteração da rotina. Às vezes gostava de partilhar o infrequente fruto de seu trabalho solitário.

O xale turquesa bordado, que gostava de ter à m ão durante os voos, ficava sem pre dobrado em sua m aleta de rodinhas. A única coisa que Subhash lhe dera que ela havia guardado. Voltara à Costa Leste, m as evitava Providence, m esm o Boston e New Haven. Era perto dem ais. Ilícito dem ais transpor aquela linha.

Não era m uito prático, m as continuara com o cidadã de sua terra natal. Ainda usava visto de perm anência, renovando o passaporte indiano quando expirava. Mas nunca voltara à Índia. Isso significava ficar em filas separadas no aeroporto, significava perguntas adicionais nos tem pos que corriam , im pressões digitais ao voltar do estrangeiro para os Estados Unidos. Mas era sem pre bem recebida, acolhida de volta.

Para a aposentadoria, para sim plificar o final da vida, ela precisava se naturalizar am ericana. E logo Uday an tam bém seria traído dessa m aneira.

Em todo caso, a Califórnia era seu único lar. Adaptara-se prontam ente ao clim a, estranho e ao m esm o tem po reconfortante, quente, m as raram ente sufocante. Árido em vez de úm ido, exceto pelo denso m orm aço de algum as tardes.

Agradava-lhe a ausência de inverno, a escassez de chuvas, os ventos causticantes do deserto.

Conhecera outros refugiados da Costa Leste que tinham vindo por suas razões pessoais, que haviam abandonado suas peles anteriores, sem saber o que iam encontrar, m as im pelidos à j ornada. Com o Gauri, tinham -se prendido à Califórnia, sem voltar m ais. Havia tanta gente nessas condições que seu lugar de origem ou a razão que a trouxera aqui deixava de ter im portância. Pelo contrário, nas reuniões sociais, falando de am enidades, ela podia participar daquele sentim ento coletivo de descoberta, de gratidão pelo lugar.

Algum as plantas lhe eram fam iliares. Bananeiras m irradas com folhas de pontas cor de ferrugem , com as flores roxas perfurantes que sua sogra em Tolly gunge lhe ensinara a deixar de m olho, a cortar e cozinhar. A casca esbranquiçada dos eucaliptos. Tam areiras rústicas, com o tronco de escam as pontudas.

Em bora estivesse em outra costa, o im enso oceano deste lado do país era contido; nunca parecia invasivo, corrosivo com o o m ar bravo em Rhode Island que desnudava as coisas, que sem pre lhe parecia tão turbulento e, ao m esm o tem po, carente de cor e de vida. O novo senso das dim ensões, as distâncias enorm es entre um lugar e outro tam bém tinham sido um a revelação. As centenas de quilôm etros de estrada que as pessoas percorriam de carro.

Ela explorara pouco, m as se sentia protegida por aquele espaço im pessoal contínuo. A vegetação espinhosa, o ar quente, as pequenas casas de concreto arm ado com telhados verm elhos — tudo lhe dera boas-vindas. As pessoas com quem cruzava pareciam m enos reservadas, m enos críticas, oferecendo um sorriso, m as depois seguindo em frente. Dizendo-lhe, nessa terra de luz intensa e som bras fortes, para recom eçar.

E apesar de tudo, apesar das roupas ocidentais, dos interesses acadêm icos ocidentais, ela continuava a ser um a m ulher que falava inglês com sotaque estrangeiro, cuj a aparência física e a cor da pele eram inalteráveis e, tendo com o pano de fundo a m aior parte dos Estados Unidos, ainda pouco convencionais. Continuava a se apresentar com um nom e incom um , o prim eiro dado pelos pais, o últim o pelos dois irm ãos que desposara.

Por causa da aparência e do sotaque, as pessoas continuavam a perguntar de onde ela era, e algum as faziam certas suposições. Um a vez, convidada a dar um a palestra em San Diego, a universidade enviou um m otorista que a pegaria em casa, para não precisar dirigir. Quando ele tocou a cam painha, ela o recebeu à porta. Mas o m otorista não percebeu, ao ser cum prim entado, que era ela a passageira. Tom ou-a com o a pessoa contratada para abrir a porta da casa de outra pessoa. Avise-a quando ela estiver pronta, disse ele.

No com eço, ela se recolhera de bom grado ao celibato puro e adequado da viuvez que, por causa de Bela e Subhash, fora-lhe inicialm ente negado. Evitava situações em que pudesse ser apresentada a alguém , adotando o costum e ocidental de usar aliança durante o dia.

Declinava convites para j antar, propostas para alm oçar. Ficava sozinha nas conferências, sem pre se recolhendo ao quarto, sem se im portar se os outros a consideravam antipática. Em vista do que havia feito a Subhash e Bela, parecia errado procurar a com panhia de qualquer outra pessoa.

O isolam ento oferecia seu próprio tipo de com panhia: o silêncio confiável dos aposentos, a tranquilidade constante das noites. A segurança de encontrar as coisas onde deixava, a prom essa de não haver interrupções nem surpresas. O isolam ento a acolhia ao final de cada dia e se deitava im óvel a seu lado à noite. Não tinha a m enor vontade de vencê-lo. Pelo contrário, m antinha um relacionam ento com ele, m ais satisfatório e resistente do que os relacionam entos que tivera nos dois casam entos.

Quando o desej o por fim com eçou a pressionar, o padrão era arbitrário, casual. E em vista de sua vida, dos j antares na casa de colegas, das conferências, oportunidades não faltavam .

Em geral, eram acadêm icos tam bém , m as nem sem pre. Houve aquele hom em cuj o nom e esqueceu, o qual tinha m ontado as prateleiras de livros em seu apartam ento. Houve o m arido desocupado de um a m usicóloga da Academ ia Am ericana em Berlim .

Às vezes ela saltava de um para outro em sequência; às vezes, por longos períodos, não havia nenhum . Tinha criado apreço por alguns desses hom ens, m antendo a am izade com eles. Mas nunca se perm itiu chegar àquele ponto onde poderiam com plicar sua vida.

Apenas com Lorna se envolvera. Um dia, ela bateu à porta de Gauri durante o horário de atendim ento, um a desconhecida se apresentando, apoiando a cabeça no batente da porta. Um a m ulher alta, no final dos trinta, o cabelo repartido no m eio, preso num pequeno coque. Bem vestida, em calças bem talhadas, um a cam isa branca. A princípio, Gauri até pensou que era outra professora da faculdade, vindo de algum outro departam ento para perguntar algum a coisa.

Mas não, era um a estudante de pós-graduação na ucla, tinha pegado o carro para encontrar Gauri, tinha lido tudo o que ela escrevera. Havia trabalhado vários anos em publicidade, m orando em Nova York, Londres, Tóquio, antes de deixar o em prego e voltar à universidade. Estava procurando um leitor externo para sua tese, um estudo sobre a autonom ia relacional, tendo na m ão o rascunho de um a parte. Dispunha-se a aj udar Gauri em qualquer pesquisa ou correção de provas em troca do privilégio.

Por favor, aceite.

Tinha um a beleza sóbria, em seu auge. Pescoço longo, olhos cinzentos claros, sobrancelhas depiladas. Lóbulos tão m iúdos que pareciam quase inexistentes. Poros levem ente visíveis no rosto.

Assisti à sua palestra no m ês passado em Davis, disse Lorna. Fiz um a pergunta.

Não lem bro.

Não lem bra a pergunta?

Não lem bro que você tenha perguntado.

Lorna procurou na sacola e tirou um PowerBar.

Era sobre Althusser. Desculpe, não alm ocei. Incom oda-se?

Gauri abanou a cabeça. Observou enquanto Lorna desem brulhava, partia um pedaço da barrinha e m astigava, explicando entre um a m ordida e outra a gênese de seu proj eto, o ângulo específico que queria explorar. As m ãos pareciam pequenas para sua altura, os pulsos delicados. Disse a Gauri que fazia quase um ano que vinha tom ando coragem para abordá-la.

Gauri se sentiu desorientada na salinha que lhe era tão fam iliar. Ao m esm o tem po lisonj eada e vítim a de um a em boscada. Com o teria se esquecido de um rosto daqueles?

O tem a a interessou e elas m ontaram um cronogram a, trocando e-m ails, encontrando-se em restaurantes e lanchonetes. Lorna trabalhava aos surtos, passando dias distraída e então, de repente, desovando capítulos inteiros, todos coerentes. Ligava para Gauri quando se sentia travada, sem pre que duvidava de si m esm a, sem pre que o trabalho em pacava.

A atração m otivava Gauri a atender o telefone, a perm itir que as conversas se estendessem além do razoável. Im agens de Lorna, fragm entos de suas conversas com eçaram a distraí-la. Com eçou a se vestir com cuidado quando iam se encontrar ao vivo. Não guardava nenhum a lem brança de ter transposto um a linha que a levasse a desej ar um corpo fem inino. Com Lorna, j á se encontrou do outro lado.

Algum as vezes, sentadas j untas à m esa, exam inando um a página do m anuscrito, suas m ãos, cada qual segurando um a caneta para m arcar o texto, se roçavam de lado. Vezes em que os rostos ficavam próxim os. Vezes em que, Lorna falando e Gauri ouvindo, as duas sozinhas num a sala, talvez a um m etro de distância, Gauri sentia lhe faltar o equilíbrio. Receava não conseguir vencer a tentação de se aproxim ar m ais um passo, depois outro, até anular o espaço entre elas.

Não seguiu nenhum desses im pulsos. O que quer que os despertasse, o que quer que continuasse a provocá-los, ela não sabia se Lorna sentia da m esm a m aneira.

Num dia, ao anoitecer, Lorna apareceu em sua sala sem avisar. Fazia isso com frequência. Acabara de term inar o últim o capítulo, as páginas enfiadas num envelope de papel pardo que aninhava num dos braços.

O andar do departam ento estava em silêncio, os estudantes em seus aloj am entos, apenas os bedéis e alguns professores dispersos estavam àquela hora no edifício.

Lorna estendeu o envelope a Gauri. Parecia exausta, exultante. Pela prim eira vez estava com roupas inform ais, j eans e cam iseta. Não se preocupara em prender o cabelo. Passara por um a m ercearia. Na sacola que pôs em cim a da m esa, havia queij o em pedaços, uvas, um pacote de bolachas. Dois copos de papel, um a garrafa de vinho.

O que é isso?

Achei que podíam os celebrar.

Aqui?

Gauri se levantou da m esa e fechou a porta, trancando com chave, sabendo que devia ficar aberta. Quando se virou, deu de frente com Lorna, olhando-a, perto até dem ais.

Pegou a m ão de Gauri, pondo-a por baixo da cam iseta, em cim a de um dos seios, sob o tecido m aleável do sutiã. Gauri sentiu o m am ilo sob o sutiã engrossando, endurecendo, com os dela tam bém .

A m aciez dos beij os era nova. Seu cheiro, a sim plicidade escultural do corpo quando as roupas foram despidas, quando os m ontes de papéis foram em purrados de lado, para abrir espaço no sofá-cam a atrás da m esa. A lisura da pele, a distribuição concentrada dos pelos. A sensação dos lábios de Lorna entre suas pernas.

Gauri nunca tinha tido am ante m ais j ovem do que ela. Estava com quarenta e cinco anos, o corpo com eçando a ceder em pequenos detalhes: m olares que precisavam de coroa, um vaso sanguíneo definitivam ente rom pido que se bifurcava com o um relâm pago rubro no canto do olho. Ciente de suas im perfeições cada vez m aiores, estava preparada para recuar, não para se lançar de cabeça, com o fez.

Tecnicam ente, Lorna não era sua aluna — pelo m enos não na instituição que a contratara —, m as ainda assim era um a quebra das regras de conduta. Seria um escândalo se alguém percebesse o que se estava passando. Não só naquela noite em sua sala, m as várias outras vezes, esporádicas, m as relativam ente frequentes, na cam a de Gauri ou na de Lorna, no quarto de um hotel para onde foram num final de sem ana, no litoral.

Quando a tese ficou pronta, Gauri esteve na banca de defesa, entre os outros exam inadores, fazendo perguntas. Com o se não tivessem passado j untas aquelas ocasiões, aquelas noites.

Então Lorna recebeu um a proposta de trabalho em Toronto e se m udou. Nunca tinham conversado em desenvolver seus encontros em algo m ais profundo. O caso term inou, sem rancor, m as em caráter definitivo. No entanto, Gauri se sentiu hum ilhada, por não ser algo tão fácil para si.

De algum a m aneira, ela e Lorna tinham se m antido em term os am istosos, tom ando um café j untas se se encontrassem em algum a conferência. Gauri viu com o a relação m udara: com o de am ante voltara a ser colega, m ais nada.

Não era m uito diferente de suas m udanças de papel em m uitas outras ocasiões do passado. De esposa para viúva, de cunhada para esposa, de m ãe para m ulher sem filhos. Exceto na perda de Uday an, ela escolhera ativam ente tom ar tais rum os.

Casara-se com Subhash, abandonara Bela. Criara outras versões de si, insistira nessas conversões a um preço brutal. Sobrepondo cam adas em sua vida apenas para rem ovê-las, apenas para ficar sozinha no final.

 

Agora, m esm o Lorna se acabara dez anos atrás, tem po suficiente para se destacar do caule de sua existência. Recuando, apagando-se, j unto com os outros elem entos avulsos do passado.

Sua vida fora reduzida a seus com ponentes isolados, a seu código de independência. Sem pre com seu uniform e de túnica e calça preta, os livros e o laptop necessários para o trabalho. O carro que usava para ir de um lugar a outro.

Ainda usava o cabelo curto, estilo paj em repartido no m eio. Os óculos ovais ficavam presos num a correntinha no pescoço. Agora havia um a som bra azulada sob os olhos. A voz rascante de anos de aulas. A pele m ais seca depois de absorver esse sol m ais forte do sul.

Seus hábitos de trabalho deixaram de ser noturnos; por conta própria, ela seguia antigos hábitos e costum es, deitando às dez, levantando ao am anhecer. Perm itia-se poucas frivolidades. Um conj unto de vasos de plantas que cultivava no pátio. Jasm ins que se abriam ao anoitecer, hibiscos verm elhos com o fogo, gardênias cor de crem e com folhas reluzentes.

No pátio, com suas treliças de m adeira no alto, laj otas no piso, ela gostava de se sentar após o longo dia no gabinete, para tom ar um a xícara de chá e folhear as contas, para sentir a luz da tarde no rosto. Exam inar um m aço de páginas im pressas em que estava trabalhando, às vezes j antar.

No carro, quando se cansava da estação de rádio, ouvia um a biografia ou algum outro livro publicado que pretendia ler, m as nunca tinha tem po. Mas m esm o estes ela tirava da biblioteca.

Além desses elem entos, ela não cedia a outras indulgências consigo m esm a. Sua vida durante todos esses anos, depois de Uday an, sem Bela nem Subhash, j á era indulgência suficiente. A vida de Uday an fora tirada num átim o. Mas a dela continuara.

Seu corpo, apesar dos anos, continuava teim osam ente intato com o o bule de chá verde-m usgo, num form ato que fazia lem brar um a lâm pada de Aladim , um a cunha de cortiça na tam pa, que com prara por um dólar num saldo de coisas usadas num a casa em Rhode Island. Continuava a lhe fazer com panhia enquanto escrevia. Sobrevivera à viagem para a Califórnia, em brulhado num casaco, e ainda lhe servia.

Um dia, parando para folhear um dos catálogos que entupiam sua caixa de correspondência, viu a im agem de um a m esinha de m adeira redonda própria para am bientes externos. Não era nada de essencial, m as m esm o assim ela pegou o telefone e fez o pedido, pois fazia m uito tem po que queria trocar a m esa de vim e encardida, com tam po de vidro, que estava no pátio fazia anos, coberta por um a sucessão de toalhas estam padas.

Cerca de um a sem ana depois de ter feito o pedido, um cam inhão de entregas parou na frente de sua casa. Ela esperava um a caixa baixa e pesada, um dia inteiro consultando um m anual de instruções, com um saquinho de porcas e parafusos que teria de m ontar sozinha. Em vez disso, a m esa foi entregue j á m ontada, que dois hom ens descarregaram do cam inhão e transportaram para dentro de casa.

Ela m ostrou onde deviam colocá-la, assinou um papel acusando o recebim ento, deu um a gorj eta a eles e se sentou. Estendeu as m ãos sobre a m esa e sentiu o cheiro forte da m adeira. Teca.

Apoiou um a das faces na superfície da m esa, inspirando fundo, sentindo as ripas. Era o cheiro da m obília de quarto que deixara em Tolly gunge, o guarda-roupa e a penteadeira, a cam a de colunas finas onde ela e Uday an haviam gerado Bela. Por encom enda num catálogo am ericano, entregue por um cam inhão, ali lhe voltava ele.

O arom a da m esa não era tão vigoroso, tão constante quanto fora o dos outros m óveis. Mas, quando ela se sentava no pátio, de vez em quando ele se evolava, realçado talvez pelo calor do sol ou im pelido pelos ventos de Santa Ana. Um cheiro picante concentrado que reduzia todo o tem po, todo o espaço.

O que Subhash teria dito a Bela, para m antê-la distante? Provavelm ente nada. Era o castigo j usto por seu crim e. Agora ela entendia que a intenção era se afastar da filha. Tinha sido seu gesto m ortal. Um a ligação que cortara, resultando num a m orte que se aplicava apenas a elas duas. Um crim e pior do que qualquer coisa que Uday an tivesse feito.

Nunca escrevera a Bela. Nunca ousara contatá-la, tranquilizá-la. Que tranquilização poderia oferecer? O que havia feito nunca poderia ser desfeito. Em com paração, parecia m ais decente m anter o silêncio, a ausência.

Quanto a Subhash, não havia feito nada de errado. Deixara-a partir, sem incom odá-la, sem culpá-la em m om ento algum , pelo m enos diante dela. Esperava que ele tivesse encontrado um pouco de felicidade. Ele m erecia, não ela.

Em bora o casam ento deles não tivesse sido um a solução, tirara-a de Tolly gunge. Ele a trouxera para os Estados Unidos e então, com o um anim al após breve observação, após breve detenção, libertara-a. Ele a protegera, tentara am á-la. Toda vez que ia abrir um pote novo de geleia, ela recorria ao truque que ele lhe ensinara, bater um as três ou quatro vezes com a colher na beirada da tam pa, para rom per o lacre.