Aguapés
Capítulo 2
Foi na sem ana antes de Durga Puj o. O m ês de Ashvin, a prim eira fase da lua crescente.
No term inal do bonde, Gauri e a sogra pegaram um riquixá a bicicleta para voltar para casa. Sentaram -se no banco do riquixá, sacolas e pacotes no colo e aos pés. Estavam voltando das com pras um pouco m ais tarde do que pretendiam .
Os pacotes continham presentes para toda a fam ília e tam bém para elas m esm as. Sáris novos para Gauri e a sogra, punj abis e pij am as para o sogro, tecidos de cam isas e calças para Uday an no ano seguinte. Lençóis novos para as cam as, chinelos novos. Toalhas de banho, pentes de cabelo.
Quando se aproxim avam da m esquita na esquina, a sogra disse ao condutor para ir m ais devagar e virar à esquerda. Mas o hom em parou de pedalar, dizendo que não queria sair da rua principal.
Apontando para todos os pacotes e sacolas, a sogra ofereceu m ais dinheiro. Mas o condutor não quis. Abanou a cabeça, esperando descerem . Assim , elas term inaram o percurso a pé, carregando as coisas que tinham com prado.
A ruela fazia um a curva para a direita, passando o tem plo m ontado para a festa, os deuses enfeitados, m as vazio. Não havia nenhum a fam ília por ali. Logo os dois lagos perto da casa se fizeram visíveis.
Na m argem do prim eiro lago, Gauri viu um a viatura da Polícia Militar. Havia alguns policiais e soldados espalhados, com seus capacetes e uniform es cáqui. Não m uitos, m as suficientes para form ar um a vaga constelação para onde ela olhasse.
Ninguém im pediu que elas entrassem pelas portas de vaivém que davam para o pátio. Viram que o portão de ferro, situado no lado da casa, estava aberto. A chave pendia no cadeado, aberto às pressas.
Elas tiraram as sandálias e pousaram as bolsas e sacolas. Com eçaram a subir o prim eiro lance de degraus. Na m etade, Gauri viu o sogro descendo, as m ãos levantadas acim a da cabeça. Ele hesitava a cada passo, com o se tem esse perder o equilíbrio. Com o se nunca tivesse descido um a escada.
Atrás dele ia um oficial. Estava com um a espingarda apontada em suas costas. Gauri e a sogra receberam ordens de se virar e descer a escada. Assim , não tiveram ocasião de entrar na casa, de ver os aposentos revirados. As roupas caídas dos varais estendidos no terraço, que elas tinham pendurado de m anhã para secar, as portas dos arm ários escancaradas. Lençóis e travesseiros arrancados das cam as, carvões despej ados do cesto, lentilhas e cereais esparram ados das latas pelo chão da cozinha. Com o se procurassem algum pedaço de papel, não um hom em .
Os três — o sogro, a sogra e Gauri — receberam ordens de sair da casa, atravessar o pátio, cruzar a laj ota de pedra e voltar para a rua. Deviam andar em fila, passando os dois lagos, indo para a baixada. As chuvas tinham sido torrenciais, e a baixada estava inundada. Os aguapés recobriam a superfície com o um m anto roído por traças.
Gauri percebeu que os vizinhos acom panhavam os acontecim entos. Espreitando pelas frestas das venezianas, im óveis na penum bra dos aposentos.
Foram postos em fila. Estavam m uito j untos, os om bros se tocando. A arm a ainda apontava para o sogro.
Ela ouviu um a trom pa tocando, um sino batendo. Os sons vinham de outro bairro. Em algum lugar, em algum a casa ou tem plo, alguém rezava e fazia oferendas ao final de m ais um dia.
Tem os ordens de encontrar e prender Uday an Mitra, disse o soldado que parecia com andar os dem ais. Falou usando um m egafone. Se alguém nesta localidade souber onde ele está escondido, se alguém o estiver abrigando, que se apresente.
Ninguém disse nada.
Meu filho está nos Estados Unidos, disse a sogra baixinho. Mentira que tam bém era verdade.
O oficial não lhe deu atenção. Acercou-se de Gauri. O castanho dos olhos era um pouco m ais claro do que a cor da pele. Estudou-a, apontando a arm a para ela, aproxim ando a arm a a ponto de deixar de vê-la. Ela sentiu a ponta do cano, um pingente frio na base da garganta.
Você é a esposa desta fam ília? A esposa de Uday an Mitra?
Sou.
Onde está seu m arido?
Ela ficou sem voz. Incapaz de falar.
Sabem os que ele está aqui. Ele foi seguido. Revistam os a casa, bloqueam os as saídas. Ele está desperdiçando nosso tem po.
Gauri sentia um a corrente dolorosa subindo e descendo pela parte de trás das pernas.
Onde ele está?, repetiu o oficial, prem indo um pouco m ais a arm a contra sua garganta.
Não sei, ela conseguiu dizer.
Acho que você está m entindo. Acho que você sabe onde ele está.
Além dos aguapés, na enchente da baixada: era lá, se houvesse um a batida no bairro, que Uday an lhe disse que se esconderia. Disse que havia ali um trecho onde a vegetação era m ais densa. Guardava um a lata de querosene atrás da casa, para aj udar a pular o m uro dos fundos. Mesm o com a m ão ferida, conseguiria. Tinha praticado algum as vezes, tarde da noite.
Acham os que ele pode estar escondido na água, continuou o soldado, sem afastar os olhos dela.
Não, disse ela consigo m esm a. Ouviu a palavra m entalm ente. Mas então percebeu que estava com a boca aberta, com o um a idiota. Tinha dito algum a coisa? Sussurrado? Não tinha certeza.
O que você disse?
Não disse nada.
A ponta da arm a continuava apertando sua garganta. Mas de repente ela se afastou, tendo o oficial indicado a baixada com a cabeça, afastando-se.
Ele está lá, disse aos outros.
O oficial voltou a falar pelo m egafone.
Uday an Mitra, saia, renda-se, disse ele, as palavras ao m esm o tem po distorcidas e penetrantes, que se ouviam por todo o enclave. Estam os dispostos a elim inar os m em bros de sua fam ília se você não obedecer.
Parou e então acrescentou: Um m em bro para cada passo em falso.
No com eço não aconteceu nada. Apenas o som de sua respiração. Alguns soldados tinham entrado na água, com as espingardas apontadas. Um deles deu um tiro. Então, de algum ponto da baixada, ela ouviu quando a superfície de água se rom peu.
Uday an apareceu. Entre os aguapés, com água até a cintura. Curvado, tossindo, arfando.
Estava com a m ão direita enfaixada, envolta em várias cam adas de gaze. O cabelo estava grudado ao crânio, a cam isa grudada à pele. Estava com a barba e o bigode por fazer. Levantou os braços para o alto.
Muito bem . Agora venha em nossa direção.
Ele avançou pela vegetação, saindo da água, ficando a poucos pés de distância. Trem ia, lutava para respirar. Ela viu os lábios que nunca se fechavam direito, deixando no m eio a pequena abertura em form ato de diam ante. Os lábios estavam arroxeados. Ela viu pedaços de algas que se aderiam ao pescoço, aos antebraços. Não sabia se o que escorria pela lateral das faces dele era água ou suor.
Mandaram que se inclinasse e tocasse os pés dos pais. Mandaram que lhes pedisse perdão. Teve de fazer isso com a m ão esquerda. Pôs-se diante da m ãe e se curvou. Perdoe-m e, disse ele.
Quem som os nós para perdoar?, perguntou o sogro, a voz em bargada, quando Uday an se curvou diante dele. Disse aos soldados: vocês estão com etendo um erro.
Seu filho traiu o país. Foi ele que com eteu o erro.
A corrente nas pernas de Gauri se intensificou, irradiando-se até os pés. Sentiu um form igam ento que subia da nuca e atravessava o crânio. Pensou que as pernas iam ceder, sem força. Não sentia apoio nelas. Mas continuou de pé.
Am arraram as m ãos dele com um a corda. Ela viu seu esgar, a m ão m achucada se crispando de dor.
Por aqui, disse o oficial, apontando com a arm a.
Uday an parou e relanceou o olhar para ela. Fitou-a no rosto com o sem pre fazia, absorvendo os detalhes com o se fosse a prim eira vez.
Em purraram -no para dentro do furgão e bateram a porta. Gauri e os sogros receberam ordens de entrar na casa. Um dos soldados os escoltou. Ela se perguntava para qual prisão o levariam . O que fariam com ele lá.
Ouviram o m otor de partida. Mas, em vez de m anobrar e sair do enclave para a estrada principal, o furgão seguiu pelo m ato úm ido que m argeava a baixada, deixando as m arcas fundas dos pneus. Para o cam po vazio que ficava do outro lado.
Em casa, eles foram até o terceiro andar, para o terraço. Podiam enxergar a viatura e Uday an de pé ao lado. Ninguém m ais na vizinhança conseguiria acom panhar a cena. Mas o últim o andar da casa, recém -concluído, perm itia a visão.
Eles viram um dos soldados desam arrando seus pulsos. Viram Uday an cruzando o cam po, afastando-se dos policiais m ilitares. Cam inhava na direção da baixada, de volta para casa, as m ãos erguidas ao alto.
Gauri lem brou todas as vezes que o vira na sacada do apartam ento dos avós em Calcutá do Norte, atravessando a rua m ovim entada, indo visitá-la.
Por um instante, parecia que eles o deixavam ir. Mas então um a arm a disparou, a bala m irando as costas. O som do disparo foi breve, inequívoco. Houve um segundo tiro, depois um terceiro.
Ela viu seus braços baixando, o corpo se proj etando à frente, se reerguendo antes de cair no chão. Ao som nítido dos tiros seguiu-se o som dos corvos, gritando roucos, se dispersando.
Não era possível ver onde ele fora atingido, onde exatam ente as balas tinham entrado. Longe dem ais para ver quanto sangue perdera.
Os soldados arrastaram o corpo pelas pernas e o j ogaram na traseira da viatura.
Ouviram o bater das portas, o m otor de partida ligado outra vez. A viatura indo em bora com o corpo.
No quarto deles, debaixo do colchão, esquecido entre j ornais dobrados que não se deram ao trabalho de j ogar fora, havia um diário que a polícia descobriu. Tinha todas as provas de que precisavam . Entre as equações e notas sobre experiências e fórm ulas de rotina, havia um a página de instruções para fazer um coquetel Molotov, um explosivo caseiro. Notas sobre as diferenças de efeito entre o m etanol e a gasolina. Entre o clorato de potássio e o ácido nítrico. Entre fósforos de em ergência e um a m echa de querosene.
No diário tam bém havia um m apa da planta do Tolly Club, que Uday an desenhara. As posições e nom es dos edifícios, dos estábulos, do chalé do encarregado. O traçado da entrada de carros, a configuração das trilhas.
Estavam registrados certos horários do dia, um cronogram a da ronda dos guardas, da entrada e saída dos funcionários. Da abertura e fecham ento dos restaurantes e bares, do corte e rega dos gram ados. Vários locais por onde era possível entrar e sair da área, alvos onde era possível atirar um explosivo ou deixar um a bom ba-relógio.
Alguns m eses antes, ele fora levado a interrogatório. Isso se tornara rotina na época entre os j ovens da cidade. Na ocasião, acreditaram no que ele declarou. Que era professor de colégio, casado, m orando em Tolly gunge. Nenhum a ligação com o pci(m l).
Perguntaram se sabia de algo sobre um episódio de vandalism o na biblioteca da escola: quem invadira o local um a noite para cortar os retratos de Tagore e Vidy asagar que havia nas paredes. Na ocasião, deram -se por satisfeitos com suas respostas. Concluindo que ele não tinha nada a ver com aquilo, não lhe perguntaram m ais nada.
Então, num a noite, cerca de um m ês antes de ser m orto, ele não voltou para casa. Voltou na m anhã seguinte, cedo, sem entrar pelo pátio, sem tocar a cam painha. Fez a volta pelo fundo, subindo pelo m uro que dava na altura do om bro.
Esperou no j ardim , atrás do depósito de carvão e lenha para o forno. Ficou atirando cacos de um vaso de barro quebrado, até que Gauri abriu as venezianas do quarto e olhou lá em baixo.
Ele estava com a m ão direita enfaixada, o braço num a tipoia. Com os colegas de equipe, tentara m ontar um a arm a caseira de pressão, usando um a bom binha com o explosivo. Não devia ter sido ele, com o ligeiro trem or que nunca abandonava totalm ente seus dedos, a fazer a tentativa.
A explosão ocorreu num local afastado, num esconderij o seguro. Conseguira escapar.
Disse aos pais que tinha sido num a experiência de rotina na escola. Que caíra um pouco de hidróxido de sódio na pele. Disse para não se preocuparem , que em poucas sem anas a m ão estaria boa. Mas contou a Gauri o que realm ente acontecera. Os dois cam aradas que estavam aj udando recuaram em tem po, m as não Uday an, e sob a faixa agora havia um toco im prestável. Com o tem po tiraria a bandagem , m as tinha perdido os dedos.
Nesse m eio-tem po, durante as batidas em Tolly gunge, a polícia descobriu m unição nos estúdios cinem atográficos. Nos cam arins, nas salas de edição. Faziam revistas ao acaso, parando rapazes nas ruas. Prendendo, torturando. Enchendo os necrotérios, os crem atórios. De m anhã, atirando cadáveres nas ruas, com o advertência.
Uday an esteve fora por duas sem anas. Disse aos pais que estava apenas tom ando precauções, em bora na época eles decerto j á soubessem . E contou a Gauri que estava com m edo, que o ferim ento na m ão cham ava m uito a atenção, que agora a polícia poderia j untar os fatos.
Gauri não sabia onde ele estava, se havia um ou m ais esconderij os. De vez em quando havia um bilhete na papelaria da rua principal. Sinal de que ainda estava vivo, pedido de roupas lim pas, com prim idos para a tireoide. No bairro ainda havia um a rede de ligações suficientes para isso. Ao final das duas sem anas, com o não havia outro lugar onde se abrigar, ele voltou ao enclave.
Estando de volta, não conseguia sair. Os pais, ansiosos com seu retorno, preferiam que ficasse em casa, em vez de ir para qualquer outro lugar. Tom aram providências para que ninguém o visse. Nenhum vizinho, nenhum trabalhador, nenhum a visita na casa. O criado j urou segredo. Livraram -se das coisas dele, com o se j á tivesse m orrido. Esconderam os livros, guardaram as roupas num a m ala debaixo da cam a.
Ele se restringia aos quartos dos fundos. Nunca m ostrava o rosto no terraço ou à j anela. Nunca falava senão em sussurros. Sua única liberdade era subir à laj e do alto no m eio na noite, debruçar-se no parapeito, fum ar às estrelas. Por causa da m ão, precisava de aj uda para tom ar banho e se vestir. Era com o um a criança, precisando que lhe dessem com ida.
Estava com problem as de audição, pedindo a Gauri que repetisse. Um dos tím panos fora lesado durante a explosão. Queixava-se de tontura, de um som agudo que nunca desaparecia. Dizia que não conseguia ouvir o rádio, que ela ouvia perfeitam ente bem .
Receava não ouvir a cam painha, se tocasse, ou a chegada de um j ipe m ilitar. Queixava-se de se sentir sozinho m esm o quando estavam j untos. De se sentir isolado da m aneira m ais radical.
Passou-se quase um a sem ana. Talvez a polícia não tivesse ligado os fatos, talvez tivesse perdido seus rastros. Talvez estivessem distraídos com o feriado que se aproxim ava, disse ele. Foi ele que convenceu Gauri e a m ãe a passarem o dia fora, fazendo o que tinham deixado de lado. A se distraírem , a aparentarem norm alidade para os vizinhos, a fazerem algum as com pras para a festa.
O corpo não lhes foi devolvido. Nunca disseram onde foi crem ado. Quando o sogro foi à delegacia, procurando inform ações, procurando explicações, negaram qualquer conhecim ento do fato. Depois de levá-lo à vista de todos, os policiais não deixaram rastros.
Nos dez dias que se seguiram à sua m orte, havia regras a observar. Ela não lavava suas roupas, não usava sandálias, não penteava o cabelo. Fechava a porta e as venezianas para preservar qualquer partícula invisível dele que estivesse flutuando na atm osfera. Dorm ia na cam a, no travesseiro que Uday an usara e que ainda guardava seu cheiro, até ser substituído alguns dias depois por seu odor, pelo odor de seus cabelos e pele untuosa.
Ninguém a perturbava. Ela sentia o corpo m uito em pertigado, com o se posasse para um a foto que nunca foi tirada. Apesar de em pertigada, às vezes sentia com o se estivesse caindo, a cam a cedendo. Não conseguia chorar. Havia apenas lágrim as dissociadas do sentim ento, que se acum ulavam e às vezes escorriam pelo canto dos olhos de m anhã cedo, ao acordar.
Os dias de Puj o chegaram e com eçaram a passar: Shashti, Saptam i, Astm ai, Navam i. Dias de culto e celebração na cidade. De luto e reclusão dentro de casa. Rem oveu o verm elhão do cabelo, retirou o bracelete de ferro do pulso. A ausência desses adereços indicava sua viuvez. Estava com vinte e três anos de idade.
No décim o prim eiro dia, veio um sacerdote para os ritos finais e um a cozinheira para a refeição cerim onial. Dentro de casa, colocaram o retrato de Uday an na parede, em oldurado, envidraçado, engrinaldado com tuberosas. Ela não conseguia fitar seu rosto na foto. Sentou-se para a cerim ônia, os pulsos nus.
Se acontecer algum a coisa com igo, não deixe que eles desperdicem dinheiro com m eu funeral, foi o que ele lhe disse um a vez. Mas houve o funeral, a casa cheia de pessoas que o conheciam , parentes e m em bros do partido que vieram prestar seus respeitos. Com er os alim entos preparados em sua hom enagem , os pratos de que ele m ais gostava.
Depois do período de luto, os sogros voltaram a com er carne e peixe, m as Gauri não. Recebeu sáris brancos para usar em lugar dos coloridos, e assim ficou parecida com as outras viúvas da fam ília. Mulheres com o triplo de sua idade.
Chegou Dasham i: o final de Puj o, o dia em que Durga volta a Shiva. À noite, as efígies que ficavam no pequeno tem plo arm ado no bairro foram levadas e m ergulhadas na água do rio. Nesse ano, o ritual foi feito sem alarde, por respeito a Uday an.
Mas em Calcutá do Norte, sob a sacada onde tinham conversado pela prim eira vez, as procissões se prolongaram por toda a noite. As pessoas se com prim iam nas calçadas para a últim a olhada, um a algazarra tão barulhenta que era im possível dorm ir. Ela voltará, ela voltará para nós, entoava o povo desfilando na rua, acom panhando a deusa até o rio, despedindo-se dela m ais um a vez.
Um a m anhã, passado o prim eiro m ês, ela não conseguiu ir à cozinha aj udar a sogra nos preparativos do dia, com o se esperava que fizesse. Sentindo-se sem forças, com tonturas ao tentar levantar, ficou na cam a.
Passaram -se cinco m inutos, depois dez. A sogra entrou no quarto e falou que era tarde. Abriu as venezianas e olhou o rosto de Gauri. Estava com um a xícara de chá nas m ãos, m as não ofereceu de im ediato. Apenas ficou parada ali por um m om ento, fitando. Gauri se soergueu devagar, para pegar o chá.
Já subo num instante.
Não se incom ode por hoj e, disse a sogra.
Por que não?
Não será de nenhum a aj uda.
Ela abanou a cabeça confusa.
Um a m oça inteligente. Foi o que ele nos disse depois de se casar com você. E no entanto incapaz de entender coisas sim ples.
O que eu não entendi?
A sogra j á tinha se virado para sair. Parou na porta. A partir de agora, tenha cuidado para não escorregar no banheiro ou na escada.
A partir de agora?
Você vai ser m ãe, Gauri ouviu a sogra dizer.
Desde o com eço do casam ento, um a vez por m ês ele passava um a sem ana sem encostar nela. Pedira-lhe que anotasse o período da m enstruação no diário, dizendo a ele quando era seguro.
Depois que a revolução vencesse, dissera ele, trariam filhos ao m undo. Só depois. Mas, nas últim as sem anas antes da m orte, quando estava escondido na casa, os dois tinham perdido a noção dos dias.
Ela nascera com um m apa do tem po im presso na m ente. Tam bém fazia a representação im aginária de outras abstrações, núm eros e letras do alfabeto, tanto em inglês quanto em bengali. Núm eros e letras eram elos de um a corrente. Os m eses se dispunham com o um a órbita no espaço.
Cada conceito existia em sua topografia própria, física, tridim ensional. Assim , desde criança só conseguia fazer um a som a, soletrar um a palavra em dúvida, recuperar um a lem brança ou esperar algum a coisa nos m eses vindouros se retirasse aquele elem ento de um local específico da m ente.
A im agem m ais forte era, sem pre foi a do tem po, passado e futuro; era um horizonte im ediato, que a continha e a conduzia ao m esm o tem po. O breve período de sua vida se sobrepunha ao espectro ilim itado dos anos. À direita ficava o passado recente: o ano em que conhecera Uday an e, antes disso, todos os anos que vivera antes de conhecê-lo. Havia o ano de seu nascim ento, 1948, antecedido por todos os anos e séculos precedentes.
À esquerda ficava o futuro, que tinha com o ponto final sua m orte, de data incerta, m as inevitável. Em m enos de nove m eses chegaria um bebê. Mas sua vida j á com eçara, o coração j á batendo, representada por um a linha que se insinuava em separado. Ela via a vida de Uday an, não m ais acom panhando a sua, com o supusera que acom panharia, m as cessando em outubro de 1971. Essa data se desenhava com o um túm ulo nos olhos de sua im aginação.
Apenas o presente, sem nenhum a perspectiva, escapava a seu controle. Era com o um ponto cego, logo atrás das costas. Um a lacuna em seu cam po de visão. Mas o futuro era visível, desenrolando-se aos poucos.
Ela queria fechar os olhos a ele. Queria que os dias e m eses diante de si term inassem . Mas o resto de sua vida continuava a se apresentar, o tem po proliferando incessantem ente. Era obrigada a prevê-lo contra a vontade.
Havia a ansiedade de que um dia não se sucedesse ao outro, j unto com a certeza de que certam ente se sucederia. Era com o prender a respiração, com o Uday an tentara fazer na baixada. E, no entanto, de algum a m aneira ela estava respirando. Assim com o o tem po ficava parado, m as tam bém passava, algum a outra parte de seu corpo que lhe era inconsciente estava agora extraindo oxigênio, obrigando-a a continuar viva.