Aguapés
Capítulo 3
Aproxim ando-se o verão, ela com eçou a passar m ais tem po na biblioteca, que tinha ar-condicionado. Um lugar onde se esperava que fosse anônim a e diligente, concentrando-se nas páginas diante de si, e nada m ais.
Ao lado havia um a j anela retangular com prida, do chão ao teto, dando para o cam pus. A luz do sol escoava por sobre as copas das árvores que, em questão de sem anas, tinham se feito verdes e viçosas. De sua m esa, ela podia ver os cam pos e m atas ao redor. Agora a praça central estava dem arcada por um a longa extensão de corda branca, onde estavam dispondo filas de cadeiras dobráveis brancas para a cerim ônia de form atura.
Em j unho não havia ninguém . Depois do final das aulas, os estudantes desapareceram e m al se ouvia um som . Som ente o toque m elódico do relógio do cam pus em sua torre de pedra, lem brando-lhe que m ais um a hora se passara. Na biblioteca, o rangido das rodas de borracha de um carrinho de m adeira, parando aqui e ali para que um livro faltante fosse devolvido à sua prateleira.
Muitas vezes, ela tinha um andar inteiro da biblioteca só para ela. A atm osfera, em sua ordem e asseio, parecia a de um hospital, m as benigna. A escadaria subia pelo centro do edifício. Os degraus baixos, revestidos de borracha, fáceis de subir, pareciam separados uns dos outros, subindo até o alto.
Ela se sentava perto da seção de filosofia, percorrendo aleatoriam ente a im ensidade de livros, lendo Hobbes, Hannah Arendt, tom ando notas, sem pre devolvendo os volum es ao lugar onde ficavam . Sentia-se em balada pelo zunido quase inaudível das lâm padas, os painéis fluorescentes por cim a dela com o versões agigantadas de um a travessa de cubos de gelo no congelador. Cercada da cintura para cim a pelos três lados da baia de leitura, de frente para a divisória branca e nua, a m adeira dura da cadeira pressionando o cóccix. O bebê aninhado dentro dela, fazendo com panhia, m as sem incom odar.
Em j ulho, bastava sair no curto traj eto de volta para o apartam ento e em poucos m inutos estava coberta de suor, sentindo a criança descer para o centro do ventre. O ar pesava de um idade, o céu às vezes am eaçando chuva, m as sem chegar a chover. A pura intensidade do calor parecia silenciar outros sons.
Ela crescera num clim a assim . Mas aqui, onde poucos m eses antes fazia tanto frio que podia enxergar o vapor de sua respiração quando saía à rua, o calor vinha com o um choque, com o algo quase sobrenatural.
Com o o sem estre term inara, alguns edifícios do cam pus, alguns aloj am entos estudantis e gabinetes adm inistrativos estavam fechados. Muitas vezes acontecia que ela atravessava o cam pus inteiro, da biblioteca ao apartam ento, sem cruzar com ninguém no cam inho. Com o se houvesse um a greve ou um toque de recolher. Ouvia o guincho m ecânico dos gafanhotos que m oravam nas árvores. O zum bido crescente parecia um a sirene interm itente, único elem ento perturbador naquele local tranquilo.
As contrações com eçaram na biblioteca, três dias antes da data prevista pelo dr. Fly nn. Um a pressão entre as pernas, a cabeça do bebê com o um a bola de chum bo de repente pesando dez vezes m ais. Voltou ao apartam ento e preparou a sacola. Então esperou Subhash, sabendo que logo chegaria em casa.
Dobrava-se em dois com as contrações, agarrando a vareta de toalhas no banheiro a tal ponto que am eaçava soltá-la da parede. Quando ele chegou, pôs o braço em torno dela, escoltando-a até o carro, detendo-se a seu lado quando ela era obrigada a parar por causa de algum a contração, deixando que lhe apertasse a cintura com força.
Agarrando o painel com o se fosse arrancá-lo; foi apenas assim que conseguiu aguentar o percurso até o hospital, o corpo am eaçando se dividir em dois a m enos que ficasse naquela posição.
Então o céu despej ou um a chuva de verão, quente e torrencial. Isso obrigou Subhash a reduzir a velocidade, sem conseguir enxergar m ais do que um m etro à sua frente, apesar dos lim padores do para-brisas se m ovendo sem parar. Ela im aginou o carro perdendo a direção, derrapando e entrando na pista dos carros que vinham em m ão contrária.
Lem brou a cerração a cam inho do aeroporto, na noite em que saiu de Calcutá. Naquela noite, estava desesperada em avançar, em sair do nevoeiro. Agora, apesar da dor, apesar da urgência, um a parte de si queria que o carro parasse. Um a parte de si queria que a gravidez continuasse, que a dor passasse, m as que o bebê não nascesse. Que atrasasse, pelo m enos um pouco, sua chegada.
Mas Subhash se inclinou sobre a direção e continuou, os pneus do carro levantando e espirrando m uita água, até que o pequeno hospital de tij olo à vista, no alto de um a colina, surgiu dentro do cam po de visão.
Era um a m enina, com o ela tinha certeza. Ficou aliviada que suas esperanças se tivessem concretizado e não lhe tivesse voltado um a nova versão de Uday an. E em certo sentido era m elhor dar à criança o nom e que fora sugerido por Subhash, conceder-lhe esse direito.
Enquanto fazia força, cerrou os dentes, teve espasm os, m as não gritou. Eram oito horas, ainda com luz lá fora, e não chovia m ais. O cordão um bilical foi cortado e de repente a criança deixou de fazer parte de Gauri. Outros estavam enfaixando, lim pando, pesando, aquecendo o bebê. Um pouco depois, quando cham aram Subhash na sala de espera, puseram -lhe Bela nos braços.
Sonhou com gaivotas na praia em Rhode Island, gritando e se atacando m utuam ente, sangue e penas, asas destroçadas na areia. Havia de novo, desde a m orte de Uday an, um a aguda noção do tem po, do futuro se avizinhando, se acelerando. A vida do bebê, tão incipiente, j á se distanciando e indo m ais rápido do que a dela. Esta era a lógica da m aternidade.
Depois de levá-la para casa, cuidaram dela, cada qual à sua m aneira. No com eço, um a parte de Gauri resistia em dividir Bela com Subhash, em incluí-lo na vivência que tinha sido exclusivam ente sua. Um a coisa era ser seu m arido, outra coisa era ser pai de Bela. Ter seu nom e na certidão de nascim ento, falsidade que ninguém questionou.
Apenas procurando o leite da m ãe, Bela descansava, aninhada aos seios de Gauri. Sua cabecinha de recém -nascida não continha nada. O coração era som ente um instrum ento para bom bear o sangue.
Exigia pouco, e m esm o assim exigia tudo. A consciência de sua presença consum ia tudo. Absorvia todas as partículas, todos os nervos do corpo de Gauri. Mas a enferm eira no hospital tinha razão, ela não podia fazer tudo sozinha, e a cada vez que Subhash assum ia o encargo, para que ela pudesse tirar um descanso, tom ar um banho ou beber um a xícara de chá antes que esfriasse, a cada vez que ele erguia Bela quando chorava, para que Gauri não precisasse pegá-la, não podia negar o alívio que sentia por poder se afastar, por pouco que fosse.
Entre dois travesseiros, um de cada lado, Bela dorm ia. Quando acordava, virava o pescoço devagar e os olhos enevoados inspecionavam atentam ente os cantos do quarto, com o se j á soubesse que faltava algum a coisa.
Quando dorm ia, respirava com todo o corpo, com o um anim al ou um a m áquina. Isso fascinava, m as tam bém preocupava Gauri: o esforço grandioso de cada inspiração, um a depois da outra pelo tem po que se estendesse sua vida, tom ada ao ar com partilhado por todos os outros no m undo.
Durante a gravidez, sentira-se capaz. Mas agora Gauri percebia que o m ais leve descuido de sua parte poderia causar a destruição de Bela. Saindo do hospital com o bebê no colo, pelo saguão que levava ao estacionam ento, com um fluxo de gente andando depressa sem nem olhar, ela se sentira apavorada, percebendo que os Estados Unidos eram um local tão perigoso com o qualquer outro. Percebendo que não havia ninguém , além de Subhash, para proteger Bela.
Com eçou a im aginar cenas, involuntárias, m as persistentes. Im agens grotescas com a cabeça de Bela virando de repente para trás, num estalo, o pescoço se partindo. Quando Bela adorm ecia em seu peito, Gauri im aginava que tam bém adorm eceria, esquecendo-se de tirá-la do bico do seio, ficando sem condições de respirar. À noite, sozinha com ela no quarto, Gauri com eçou a tem er que Bela caísse no chão ou que ela própria rolasse por cim a da filha, esm agando-a.
No dia em que foram cam inhar pelo cam pus, Gauri ficou no terraço do grêm io, com Bela no colo, esperando Subhash que fora com prar algum as Coca-Colas. De início, ela estava na beira do terraço, m as depois recuou, com m edo de perder o controle dos m úsculos, com m edo de deixar a filha cair. Im óvel num dia abafado de final de verão, sem a m ais leve brisa, m esm o assim ficou com m edo que um vento repentino lhe arrancasse Bela.
Naquele dia, m ais à noite, no apartam ento, sabendo que não devia, querendo ver o que acontecia, afrouxou a pressão sem pre tão leve por trás da nuca de Bela, relaxando os om bros. Mas o instinto de sobrevivência de Bela funcionava por reflexo. Im ediatam ente despertou de um sono profundo, protestando.
Só havia um a m aneira de reduzir essas im agens, de livrar o espírito desses im pulsos. Ficar m enos com Bela, pedir a Subhash que segurasse o bebê.
Lem brou a si m esm a que todas as m ães precisavam de auxílio. Lem brou a si m esm a que Bela era filha sua e de Uday an; que Subhash, apesar de toda a sua solicitude, apesar do papel que assum ira habilm ente, estava apenas desem penhando um a parte. Sou a m ãe, disse a si m esm a. Não preciso m e esforçar tanto.
Agora ele entrava no quarto sem bater, no instante em que Bela acordava no m eio da noite e chorava. Pegando-a, andando pelo apartam ento com ela no colo. Surpreendia-o com o ela era pequenina. Parecia que o peso era apenas da m anta que a envolvia, nada m ais.
Ela j á parecia reconhecê-lo. Aceitá-lo e lhe perm itir ignorar o fato de que era um tio, um im postor. Ela reagia ao som de sua voz quando se deitava no bercinho plano que ele fazia cruzando um a das pernas e apoiando o tornozelo no outro j oelho. Naquele ninho de suas pernas, apoiada em sua coxa, ela ficava deitadinha contente, procurando-o com os olhos. Ele se sentia com algum a m issão ao segurá-la, essencial para a vida que ela iniciara.
Um a noite, ele desligou a tevê e entrou no quarto com Bela. Gauri estava virada de costas para Subhash, dorm indo. Ele se sentou no outro lado da cam a, então se reclinou, colocando a cabecinha úm ida escura de Bela sobre o peito, aquietando-a. Estendeu as pernas na cam a, para que Bela pudesse se esticar.
Estava por cim a da colcha, os olhos abertos no escuro. Em bora Bela estivesse descansando sobre seu corpo, ele tinha um a percepção ainda m aior da presença de Gauri, não m ais grávida. Sua curiosidade, seu desej o por ela haviam se intensificado. Pois agora adm irava-se com o ela gerara a criança deitada j unto a si, confiante, tranquila, com a bochechinha virada de lado.
Quando abriu os olhos, Bela não estava m ais em seu peito, m as ao lado, nos braços de Gauri, m am ando. O quarto estava escuro, as persianas baixadas. Ouviam -se os passarinhos chilreando. Tinha o corpo aquecido, ainda vestido.
Que horas são?
É de m anhã.
Ele tinha adorm ecido; haviam passado a noite na m esm a cam a. Deitado ao lado dela por cim a do m esm o lençol, com Bela entre os dois.
Quando se deu conta do que acontecera, pôs-se sentado, pedindo desculpas.
Gauri abanou a cabeça. Fitava Bela, m as então olhou para ele. Estendeu a m ão, não para tocá-lo, m as para oferecê-la a ele.
Fique.
Ela lhe disse que tinha sido tranquilizador tê-lo a seu lado no quarto. Disse que estava pronta, que j á se passara tem po suficiente.
Sua nova aparência facilitava: o cabelo curto, o rosto que voltava a se afinar depois do nascim ento da criança, as calças e blusas que agora eram as únicas roupas que usava. E tam bém os efeitos do nascim ento de Bela, as olheiras, o cheiro de leite na pele, de form a que seu corpo estava m arcado não tanto pela gravidez iniciada por Uday an e sim m ais pelo bebê que agora os dois com partilhavam .
De início, ela não dem onstrava nenhum desej o evidente, apenas aceitação. Mas essa m escla de indiferença e deliberação o excitava. Montavam o chiqueirinho para Bela e, quando ela estava ali, dorm indo, a cam a era deles.
Ela ficava de bruços ou de lado. De costas para ele, a cabeça virada, os olhos fechados. Ele suspendia a cam isola até a cintura. Via com o se estreitava. Via o longo vale reto dividindo suas costas.
Dentro dela, cercado por ela, tem ia que nunca o aceitasse, que nunca lhe pertencesse com pletam ente, m esm o quando inspirava o perfum e de seu cabelo e segurava seu seio na m ão.
Sua pele era lisa, a cor uniform e. Sem m arcas de bronzeado, sem pintas nem m anchas com o havia por todo o corpo de Holly. Nenhum arranhado por raspar as pernas, nenhum prurido que pensou que encontraria nas coxas e nádegas. Era de um a m aciez quase perturbadora, com o a pele sob o ventre que não deveria ser exposta.
Mesm o assim , não se m achucava sob o peso dele, não inchava nem se averm elhava à pressão dos dentes ou das m ãos dele. O cheiro levem ente salgado entre suas pernas, que se transferia m om entaneam ente para os dedos dele quando sondava seus recônditos, no dia seguinte estava ausente, quando o procurava outra vez.
Ela não falava, m as, depois das prim eiras vezes, com eçou a pegar a m ão dele e a colocá-la onde precisava. Com eçou a se virar para ele, a se pôr de quatro na cam a, a encará-lo. Atingia o clím ax quando a respiração se acelerava e se fazia audível, a pele reluzindo, o corpo tenso e repuxado.
Era o único m om ento em que ele não sentia nenhum a resistência de sua parte. Ela ficava observando enquanto ele term inava fora dela, enxugando o que se espalhara pelo abdôm en, ou enquanto ele coletava a prova do desej o na m ão em concha. Sustentava seu peso quando ele caía derreado sobre ela, quando não tinha m ais nada a dar.