Aguapés
Capítulo VII
1.
No pátio de sua casa na Califórnia, Gauri está tom ando chá, com endo frutas e torradas. Liga o laptop, põe os óculos. Lê as m anchetes do dia. Mas podiam ser de qualquer dia. Um clique, e ela vai das notícias do m om ento a artigos arquivados há anos. O passado está ali o tem po todo, anexo ao presente. É um a versão da definição de Bela, na infância, para o ontem .
De vez em quando, Gauri vê algum a m enção nos j ornais am ericanos a atividades naxalistas em várias partes da Índia ou no Nepal. Artigos curtos sobre subversivos m aoístas explodindo trens e cam inhões. Incendiando acam pam entos da polícia. Com batendo as grandes em presas na Índia. Conspirando a derrubada do governo m ais um a vez.
Só às vezes ela passa os olhos por esses artigos, sem querer saber m uito. Alguns m encionam Naxalbari, dando o contexto para quem nunca ouviu falar a respeito. Dão links para a cronologia do m ovim ento, que resum e os acontecim entos daquela m eia dúzia de anos com o um a crítica da Bengala pós-colonial, fadada ao insucesso. Mesm o assim , o fracasso se m antém com o exem plo, as cinzas adorm ecidas conseguindo incendiar um a nova geração.
Quem são eles? Esse novo m ovim ento estaria arrebanhando j ovens com o Uday an e seus am igos? Seria tão desorientado, tão doloroso quanto o outro? Calcutá iria reviver aquele terror? Algo lhe diz que não.
Agora há tanta coisa a seu alcance. Prim eiro, nos com putadores que podia acessar na biblioteca, depois substituídos pela rede wireless que tem em casa. Telas brilhantes, cada vez m ais dobráveis, m ais portáteis, m ais am igáveis, antecipando qualquer pergunta im aginável que o cérebro hum ano possa conceber. Contendo m ais inform ação do que alguém j am ais precisaria.
Grande parte disso, observa ela, se destina a elim inar o m istério, a dim inuir a surpresa. Há m apas indicando o cam inho, im agens de quartos de hotel para se hospedar. O atraso de algum voo para a pessoa não precisar sair correndo para o em barque. Links para pessoas, fam osas ou anônim as — para reencontrá-las, para se apaixonar, para contratar para algum serviço. Um conceito revolucionário, agora tido com o a coisa m ais norm al do m undo. Cidadãos da internet vivendo sem hierarquias. Há espaço para todos, j á que não há restrições espaciais. Uday an iria gostar.
Alguns de seus alunos não vão m ais à biblioteca. Não abrem um dicionário de folhas gastas para procurar um a palavra. Em certo sentido, não precisam assistir a suas aulas. Seu laptop contém um a vida inteira de aprendizado, j unto com o que não viverá para aprender. Resum os de tem as filosóficos em enciclopédias on-line, exposições de sistem as de pensam ento que ela levou anos para com preender. Links para capítulos de livros que, antes, ela tinha de rastrear e fotocopiar ou solicitar a outras bibliotecas. Longos artigos, resenhas, apresentações, refutações, está tudo lá.
Ela lem bra quando ficava num a sacada na zona norte de Calcutá, conversando com Uday an. A biblioteca na Presidency onde às vezes ele ia encontrá-la, sentada a um a m esa com um a m ontanha de livros, um ventilador gigante farfalhando os papéis. Ficava atrás dela, sem dizer nada, esperando até se virar, até perceber que ele estava ali.
Lem bra quando lia livros contrabandeados em Calcutá, a banca específica à esquerda da faculdade de sânscrito que o atendia, que trazia o que ele queria. Encom endando livros estrangeiros nas editoras. Lem bra o cam inho gradual de sua form ação, horas folheando as fichas dos catálogos na Presidency, depois em Rhode Island, e até nos prim eiros anos na Califórnia. Anotando os núm eros de cham ada com um lápis curto, procurando entre as filas das prateleiras que escureciam quando os tem porizadores das lâm padas desligavam a luz. Lem bra, visualm ente, algum as passagens de livros que lera. Em qual lado do livro, em que altura da página. Lem bra a tira da sacola se afundando no om bro quando voltava para casa.
Não tem com o evitar; é m em bro do m undo virtual, um a faceta sua visível no novo oceano que veio a dom inar a superfície do planeta. Há um perfil seu no website da faculdade, um a foto relativam ente recente. Um a relação dos cursos que m inistra, um a listagem com sua produção. Títulos, publicações, conferências, bolsas. Seu e-m ail e o endereço postal de seu departam ento, caso alguém queira entrar em contato ou lhe enviar algum a coisa.
Consultando um pouco m ais, aparecia um vídeo com um pequeno grupo de outros acadêm icos, historiadores e sociólogos, participando de um a m esa-redonda em Berkeley. Ela entra na sala, ocupa seu lugar à m esa, na frente um a plaqueta com seu nom e. Ouvindo paciente, revendo suas fichas, enquanto cada participante pigarreia, lim pa a garganta, inclina-se e faz lentam ente sua apresentação.
Inform ação dem ais e ainda assim , em seu caso, insuficiente. Num m undo em que o m istério dim inui, o desconhecido persiste.
Encontra Subhash, ainda trabalhando no m esm o laboratório em Rhode Island. Descobre artigos de coautoria dele em arquivos em pdf, seu nom e citado com o participante de um sim pósio de oceanografia.
Apenas um a vez, não conseguindo se conter, ela procurou Uday an na rede. Mas, com o era previsível, apesar de todas as inform ações e opiniões, não havia nenhum vestígio de suas atividades, nenhum a m enção às coisas que havia feito. Naquela época, havia centenas de outros com o ele em Calcutá, m ilitantes de base que haviam se dedicado anonim am ente, que haviam sido anonim am ente executados. Sua contribuição não fora notada, sua punição era habitual na época.
Com o Uday an, tam pouco há traços de Bela. O m ecanism o de busca não traz nenhum resultado para seu nom e. Nenhum site de universidade, em presa ou rede social fornece qualquer inform ação. Gauri não encontra nenhum a im agem , nenhum vestígio de Bela.
Isso não significa nada, obrigatoriam ente. Apenas que Bela não existe na dim ensão onde Gauri poderia ter algum a notícia a seu respeito. Apenas que ela recusa esse acesso a Gauri. Gauri se pergunta se a recusa é intencional. Se é um a escolha deliberada de Bela para garantir que não haj a nenhum contato.
Som ente seu irm ão Manash a procurou, retom ando contato por e-m ail. Perguntando dela, perguntando se iria algum dia a Calcutá para visitá-lo. Ela contou que se separou de Subhash. Mas inventou um destino vago e previsível para Bela, dizendo que crescera e se casara.
Volta e m eia Gauri continua a procurar por ela, continua a falhar. Sabe que depende de si, que de outra m aneira Bela não virá até ela. E não se atreve a perguntar a Subhash. O afã se agita dentro dela com o um peixe recém -fisgado. Um breve clarão de possibilidade quando o nom e aparece digitado no m onitor, quando ela clica para ativar a busca. A esperança se debatendo enquanto se desfaz.
Dipankar Biswas era um nom e novo em sua caixa de entrada, m as estava arm azenado na m em ória. Um aluno bengali de m uito tem po atrás. Era nascido no m esm o ano de Bela, criado num subúrbio de Houston. Sentira-se receptiva a ele. Trocavam algum as palavras em bengali. Durante os anos em que foi seu aluno, ela o via com o um indicador de com o seria Bela.
Ele passava as férias de verão em Calcutá, ficando na casa dos avós na Jam ir Lane. Ela pensava que ele fora para a faculdade de direito, m as não, tinha m udado de ideia, explicando no e-m ail que era professor visitante de ciência política num a das outras faculdades da liga, com especialização no Sul Asiático. Com entando a influência que ela exercera.
Estava escrevendo para cum prim entar, para dizer que estava nas redondezas. Chegaria à faculdade de Gauri na sem ana seguinte, para assistir a um a m esa-redonda. Convidava-a para alm oçar. Estava m ontando um livro, esperava que ela pudesse colaborar. Podiam conversar sobre isso?
Ela pensou em recusar. Mas, curiosa em revê-lo, sugeriu um restaurante sossegado que conhecia bem , aonde ia de vez em quando.
Dipankar j á estava à m esa. Não m ais de calção e sandália que usava em suas aulas, não m ais o colarzinho de conchas no pescoço. Fora para Nebraska fazer a pós-graduação, e seu prim eiro em prego foi em Buffalo. Estava contente em vir de novo para a Califórnia. Pegou seu iPhone, m ostrando-lhe os retratos de seu casal de gêm eos nos braços de sua esposa am ericana.
Ela lhe deu parabéns. Perguntou-se se Bela estaria casada a essa altura. Se tam bém teria filhos.
Pediram os pratos. Ela dispunha de um a hora, disse a Dipankar, e depois precisava voltar ao cam pus. Me diga, sobre o que é seu livro?
Você estava na Presidency no final dos anos 1960, não?
Ele fora contratado por um a editora universitária para escrever um a história dos estudantes da faculdade no auge do m ovim ento naxalista. A ideia era com pará-lo ao Students for a Dem ocratic Society (sds) nos Estados Unidos. Pretendia escrevê-lo com o um a história oral. Queria entrevistá-la.
Sua pálpebra se contraiu. Era um tique nervoso que adquirira em algum m om ento. Perguntou-se se daria para perceber. Perguntou-se se Dipankar notaria o nervo repuxando.
Eu não estava envolvida, disse ela. Tinha a boca seca.
Levou o copo aos lábios. Tom ou um pouco de água. Sentiu pedrinhas m inúsculas de gelo, descendo pela garganta antes que conseguisse retê-las.
Não faz m al, disse Dipankar. Quero saber com o era o clim a. O que os estudantes pensavam e faziam . O que você viu.
Desculpe. Não quero ser entrevistada.
Mesm o que sua identidade fique protegida?
De repente ela ficou com m edo de que ele soubesse de algum a coisa. Que talvez o nom e dela constasse em algum a lista. Que um velho arquivo tivesse sido reaberto, que estivesse em andam ento um a investigação de um a velha ocorrência. Pôs os dedos sobre a pálpebra, para estabilizá-la.
Mas não, ela viu que ele sim plesm ente contara com ela. Que era apenas um a fonte conveniente. Houve um a pausa quando trouxeram a com ida à m esa.
Ouça, posso lhe contar o que sei. Mas não quero aparecer no livro.
Sem problem as, professora.
Ele pediu perm issão e ligou um pequeno gravador. Mas foi Gauri quem fez a prim eira pergunta.
Por que você se interessou pelo assunto?
Ele contou que o irm ão de seu pai tinha participado. Um estudante universitário que se envolvera a fundo, fora preso. Os avós de Dipankar tinham conseguido soltá-lo. Enviaram -no para Londres.
O que ele faz hoj e em dia?
É engenheiro. É o tem a do prim eiro capítulo do livro. Sob pseudônim o, claro.
Ela assentiu, perguntando-se qual teria sido o destino de tantos outros. Se teriam tido a m esm a sorte. Havia tantas coisas que poderia dizer.
Ele m e falou sobre o com ício no dia em que anunciaram o partido, continuou Dipankar.
Ela lem brou que estava lá no m eio em Prim eiro de Maio, sob o Monum ento. Vendo Kanu Sany al na tribuna, libertado.
Ela e Uday an estavam entre os m ilhares de pessoas no Maidan, ouvindo seu discurso. Lem brou o m ar de gente, a coluna branca estriada com as duas sacadas no alto, erguendo-se ao céu. A tribuna, decorada com um retrato de Mao em tam anho natural.
Lem brou a voz de Kanu Sany al, transm itida pelo alto-falante. Um j ovem de óculos, de aparência com um , m as carism ático. Camaradas e amigos!, ela ainda ouvia a saudação. Lem brou a em oção única de se sentir parte daquilo. Lem brou o entusiasm o pelas coisas que ele dizia.
Suas im pressões eram im precisas, de tanto tem po atrás. Mas eram vívidas para Dipankar. Tinha na ponta da língua todos os nom es, todos os acontecim entos daqueles anos. Citava de cor os textos de Charu Maj um dar. Sabia da cisão, no final, entre Maj um dar e Sany al, Sany al contrário à linha de aniquilação.
Dipankar estudara as táticas autodestrutivas do m ovim ento, a falta de coordenação, a ideologia irrealista. Entendera m uito m elhor do que Gauri, sem sequer ter participado, por que o m ovim ento surgira e por que falhara.
Meu tio ainda estava lá quando prenderam Sany al outra vez, em 1970. Foi enviado para Londres logo depois.
Isso ela lem brava tam bém . Os seguidores de Sany al tinham com eçado os tum ultos. Foi depois da prisão dele, um ano depois da proclam ação do partido, que se iniciou a fase de m aior violência em Calcutá.
Me casei naquele ano.
E seu m arido? Foi afetado?
Ele estava aqui nos Estados Unidos, estudando, disse ela. Não tinha nenhum a ligação. Ela se sentiu satisfeita que a segunda realidade pudesse encobrir a prim eira.
Estou pensando em fazer pesquisa de cam po em Calcutá, disse ele. Você ainda conhece alguém por lá, alguém com quem eu possa falar?
Acho que não. Pena.
Queria ir até Naxalbari, se conseguir. Queria ver o vilarej o onde Sany al m orou depois de sair da prisão.
Ela assentiu. Vá, sim .
Me fascina, a guinada da vida dele.
Com o assim ?
Depois de cum prir a sentença, continuou um herói. Ainda percorrendo de bicicleta os vilarej os em Naxalbari, anos depois, m obilizando apoios. Bem que gostaria de ter falado com ele.
E por que não fala?
Ele m orreu. Você não soube?
Tinha sido quase um ano antes. Estava com problem as de saúde. Os rins falhando, perdendo a vista. Sofrendo de depressão. Ficou parcialm ente paralisado por causa de um derram e em 2008. Não quis ser tratado num hospital do governo. Não quis recorrer ao Estado que ainda com batia.
Morreu de falência renal?
Dipankar abanou a cabeça. Não, ele se m atou.
Ela foi para casa, para a m esa, ligou o com putador. Digitou o nom e de Kanu Sany al na linha de busca. Surgiram os resultados, um após o outro, num a série de sites indianos que nunca tinha visitado antes.
Com eçou a clicar para abri-los, lendo os dados de sua biografia. Um dos fundadores do m ovim ento, j unto com Maj um dar. Um m ovim ento que ainda am eaçava o Estado indiano.
Nascido em 1932. Contratado j ovem com o escrivão num tribunal de Siliguri.
Trabalhara com o organizador do pci(m ) em Darj eeling, e depois rom peu com o partido após a revolta de Naxalbari. Fora à China para se encontrar com Mao. Passara quase dez anos na cadeia. Fora o presidente do pci(m l). Depois de sair da prisão, renunciara à violência revolucionária.
Continuou com o com unista, dedicando a vida aos problem as dos trabalhadores nas plantações de chá, dos condutores de riquixás. Nunca se casou. Concluíra que a Índia não era um a nação. Apoiou a independência de Caxem ira, de Nagaland.
Seus pertences consistiam em alguns livros, roupas e utensílios de cozinha. Quadros de Marx e Lênin. Morreu com o indigente. Outrora fui popular, perdi minha popularidade, disse num a de suas últim as entrevistas. Estou doente.
Muitos dos textos enalteciam sua vida, sua dedicação aos pobres da Índia, sua m orte trágica. Referiam -se a ele com o um herói, um a lenda. Seus críticos o condenavam , dizendo que um terrorista m orrera.
Era o m esm o leque de inform ações, repetidas de m aneiras variadas. Mesm o assim , ela continuou a abrir os links, sem conseguir parar.
Um deles levava a um vídeo. Um trecho de um noticiário na tevê, de 23 de m arço de 2010. A locutora resum ia os detalhes. Havia algum as im agens em branco e preto das ruas de Calcutá no final dos anos 1960, bandeiras e pichações, alguns segundos m ostrando um a passeata de protesto.
Cortava para a film agem de aldeões chorando, as m ãos no rosto. Gente à entrada de um a casa, a choça de sapé que fora o lar de Sany al, o escritório do partido. Entrevistavam a cozinheira dele. Estava agitada, nervosa na frente da câm era. Falando com o sotaque próprio da região.
Viera ver com o ele estava depois do alm oço, disse ao repórter. Olhou pela j anela, m as não o viu descansando na cam a. A porta não estava trancada. Ela verificou outra vez. Então o viu em outra parte do quarto.
Gauri viu tam bém . Na tela do com putador, à sua m esa, em seu escritório som breado na Califórnia, ela viu o que a cozinheira tinha visto.
Um hom em de 78 anos, de cam iseta e pij am a de algodão, pendendo de um a corda de ny lon. A cadeira que usara para prender a corda ainda estava ali à sua frente. Não caíra. Nenhum espasm o, nenhum a reação final a derrubara.
A cabeça dele estava torcida para a direita, a nuca aparecendo acim a da cam iseta. As laterais dos pés encostavam no chão. Com o se a gravidade da terra ainda lhe desse apoio. Com o se bastasse endireitar os om bros e sair andando.
Durante alguns dias ela não conseguiu afastar a im agem da m ente. Não conseguia parar de pensar na passividade final de um hom em que, até o final da vida, recusara abaixar a cabeça.
Não conseguia se livrar da em oção que despertara dentro de si. Sentia um peso terrível, e ao m esm o tem po um enorm e vazio.
Na sem ana seguinte, descendo um a escada num edifício do cam pus, distraída, ela escorregou e caiu. Estendeu o braço para atenuar a queda. A m ão perdeu o contato com o chão. Ela olhou e viu que gotej ava sangue, realçando as linhas da palm a da m ão.
Alguém veio socorrer, perguntando se estava bem . Ela conseguiu ficar de pé, dar alguns passos. A dor m ais forte se concentrava no pulso. A cabeça girava e um dos lados latej ava.
Um a am bulância da universidade a levou ao hospital. A torção do pulso era séria e, com o não dim inuíra a dor de cabeça, com o se espraiara tam bém para o outro lado, precisaria fazer alguns exam es, algum as tom ografias.
Deram -lhe form ulários para preencher e pediram para dar o nom e do parente m ais próxim o. Durante toda a vida, nesses form ulários, não tendo outra escolha, ela colocara o nom e de Subhash. Mas nunca ocorrera um a em ergência, nunca houvera necessidade de contatá-lo.
Traçou as letras com a m ão esquerda, fracam ente. O endereço em Rhode Island e o núm ero de telefone que ainda lem brava. Às vezes discava o núm ero sem tirar o telefone do gancho, quando pensava em Bela. Quando se sentia horrorizada por sua transgressão, dom inada pelo arrependim ento.
Não dava entrada num hospital desde o nascim ento de Bela. Ainda hoj e a lem brança era clara. Um anoitecer chuvoso de verão. Vinte e quatro anos de idade. Um a pulseira de identificação no braço. Todos parabenizando Subhash ao final do parto, flores chegando de seu departam ento na universidade.
Recebeu outra vez um a pulseira de identificação, foi registrada no sistem a do hospital. Forneceu as inform ações necessárias sobre seu histórico m édico, sobre o cartão do seguro de saúde. Desta vez não havia ninguém para aj udá-la. Dependia das enferm eiras, dos m édicos, quando apareciam .
Tiraram algum as radiografias, fizeram um a tom ografia. A m ão direita estava enfaixada, com o a de Uday an após o acidente. Disseram -lhe que estava com um a leve desidratação. Inj etaram soro na veia.
Ficou até o anoitecer. Os exam es não revelaram nenhum a hem orragia no cérebro. Foi para casa com um a m era receita de analgésicos e a indicação de um fisioterapeuta. Teve de ligar para um colega, pois avisaram que não poderia dirigir durante algum as sem anas, não poderia percorrer a cidadezinha com seus quarteirões com gram a nas calçadas, onde m orava fazia tantos anos.
O colega, Edwin, levou-a à farm ácia para pegar os rem édios. Ofereceu a casa, para que passasse alguns dias com ele e a esposa, ficasse no quarto de hóspedes, dizendo que não seria trabalho nenhum . Mas Gauri falou que não precisava. Voltou para casa, sentou à m esa do escritório, pegou um a tesoura e conseguiu cortar a pulseira de identificação do hospital.
Ligou o com putador e acendeu o fogão para fazer chá. Foi um esforço tirar o saquinho de chá da em balagem , erguer a chaleira e pôr a água fervendo na xícara. Tudo feito devagar, tudo parecendo desaj eitado na m ão que não estava acostum ada a usar.
A geladeira estava vazia, o leite quase no fim . Só então lem brou que estava indo com prar com ida ao se dirigir para o carro, quando caiu. Teria de telefonar para Edwin m ais tarde e pedir se poderia com prar algum as coisas para ela.
Eram onze da m anhã de um a sexta-feira. Sem aulas para dar, sem planos para a noite. Serviu-se de um copo de água, derram ando um pouco na bancada. Conseguiu de algum a m aneira abrir o frasco de com prim idos. Deixou destam pado, para não precisar abri-lo outra vez.
Não querendo ser um peso para ninguém , m as incapaz de ficar sozinha, ela saiu, um a pequena viagem de final de sem ana que não tinha nada a ver com o trabalho. Com um a m ão só, arrum ou um a m aleta. Deixou o laptop em casa. Ligou para um a locadora de autom óveis e se registrou num hotel de que alguns colegas gostavam , num a cidadezinha deserta. Um lugar onde podia andar pelas m ontanhas e tom ar banho de cachoeira, onde não precisaria cozinhar por alguns dias.
Na cobertura do hotel, j unto à piscina rodeada por m orros íngrem es, ela viu um casal indiano de idade, de aparência abastada, cuidando de um m enino pequeno. Tentavam ensiná-lo a perder o m edo da água, m ostrando os brinquedos de plástico que boiavam , o avô dando algum as braçadas para dem onstrar. Marido e m ulher discutiam ligeiram ente, em hindi, sobre a quantidade de protetor solar que deviam pôr no garoto, se deviam ou não proteger a cabeça dele com um chapéu.
O m arido era quase careca, m as ainda vigoroso. O pouco cabelo restante rodeava a parte de baixo da cabeça. A esposa parecia m ais nova, o cabelo tingido com hena, as unhas dos pés pintadas, calçando belas sandálias. Gauri ficou a observá-los no desj ej um , dando colheradas de iogurte e cereal ao m enino.
Perguntaram a Gauri, em inglês, de onde ela era, dizendo que vinham aos Estados Unidos em todas as tem poradas de verão, que era aqui que os dois filhos m oravam e que gostavam m uito do país. Um deles m orava em Sacram ento, o outro em Atlanta.
Desde que se tornaram avós, saíam de férias com os netos, um por vez, para conhecê-los por si m esm os e para proporcionar aos filhos e às noras algum tem po para si m esm os.
Em nossa idade, que outra razão há para viver?, o hom em perguntou a Gauri, com o garoto aninhado num dos braços. Mas preferiam a Índia e não queriam se m udar para cá.
Você vai para lá com frequência?, perguntou a esposa.
Faz tem po que não.
Tem netos?
Gauri abanou a cabeça e acrescentou, de repente querendo se aliar ao casal, ainda estou esperando.
Quantos filhos você tem ?
Um a, um a filha.
Norm alm ente ela dizia às pessoas que não tinha filhos. E as pessoas se retraíam polidam ente a essa revelação, não querendo pressionar.
Mas hoj e Gauri não pôde negar a existência de Bela. E a m ulher apenas riu, assentindo, dizendo que hoj e em dia os filhos eram m uito independentes.
Com o tem po, o pulso se recuperou. Nas sessões de fisioterapia, envolviam -no com cera quente. Conseguiu de novo segurar a escova de dentes, assinar um cheque ou girar a m açaneta de um a porta. Depois conseguiu dirigir outra vez, m udar a m archa e fazer um a curva, revisar rascunhos e corrigir trabalhos dos alunos com a m ão direita.
O sem estre continuou, ela deu suas últim as aulas, entregou as notas. Tiraria licença no próxim o outono. Um a tarde, depois de term inar o que fazia à escrivaninha, atravessou o estacionam ento do conj unto residencial e abriu sua caixa de correio. Virou a chave com algum esforço.
Voltou ao apartam ento e abriu a porta de vidro de correr que dava da sala para o pátio. Pôs a correspondência na m esa de teca e sentou para verificá-la.
Entre as contas e os folhetos que haviam chegado naquele dia, havia um a carta pessoal. O envelope trazia a letra de Subhash, o endereço do rem etente na casa de Rhode Island, perto da baía. Além da caligrafia, a prova suprem a de que fora ele m esm o a postar a carta era a saliva seca no verso do selo.
Enviara a carta aos cuidados do departam ento. A secretaria fizera a gentileza de encam inhá-la à casa de Gauri.
Dentro havia um a breve m ensagem escrita em bengali, ocupando a frente e o verso de um a folha de papel-ofício. Fazia décadas que ela não lia a escrita bengali; sua com unicação com Manash era por e-m ail, em inglês.
Gauri
A internet me informa que este é seu endereço, mas, por favor, confirme o
recebimento. Como você vê, continuo no mesmo lugar. A saúde está razoável. Espero que a sua também. Mas logo farei setenta anos e estamos entrando numa fase da vida em que pode acontecer qualquer coisa. Seja o futuro qual for, gostaria de começar a simplificar as coisas, visto que, legalmente, continuamos unidos. Se você não tiver objeções, vou vender a casa em Tollygunge, da qual você ainda tem uma parte. Também creio que é hora de retirar seu nome como coproprietária da casa em Rhode Island. Vou deixá-la para Bela, claro.
Ela parou, aquecendo a m ão na superfície da m esa antes de prosseguir. A m ão ficara sensível durante o enfaixam ento. Agora as veias eram salientes e pareciam um pedaço de coral enraizado no pulso.
Ele dizia que não queria arrastá-la de volta a Rhode Island no caso de algum a em ergência, não queria sobrecarregá-la caso fosse o prim eiro a falecer.
Não quero apressá-la, mas gostaria de resolver as coisas até o final do ano. Não sei se temos algo mais a nos dizer. Embora não possa perdoá-la pelo que você fez a Bela, fui e continuo a ser beneficiado por suas ações, por mais erradas que tenham sido. Ela continua a ser parte de minha vida, mas sei que não é parte da sua. Se for mais fácil, estou disposto a nos encontrarmos pessoalmente e concluir as coisas frente a frente. Não lhe desejo mal. Repetindo, é apenas uma questão de algumas assinaturas e naturalmente bastaria o correio.
Ela teve de reler a carta para entender do que se tratava. Para entender que, depois de todo aquele tem po, ele estava pedindo o divórcio.