Aguapés
Capítulo 5
Era dom ingo de m anhã, o céu sereno depois das tem pestades de final do verão. Logo seria época de colher os kale, as couves-de-bruxelas. Um pouco de geada m elhorava o sabor. Na noite anterior, com a queda brusca da tem peratura, tinham voltado a usar acolchoado para dorm ir. Logo o tem po m udaria.
Meghna estava desenhando à m esa do café. Subhash e Elise tinham saído para o desj ej um , para a cam inhada.
Bela estava lavando os pratos quando Meghna se aproxim ou, puxando-a pela ponta do suéter.
Tem alguém na porta.
Ela pensou que talvez fosse Drew dando um a passada sem avisar, com o fazia de vez em quando. Fechou a torneira e enxugou as m ãos. Afastou-se da bancada e olhou pela j anela da sala.
Mas na entrada não era a picape de Drew que estava parada. Era um carrinho branco que parecia novinho em folha, estacionado atrás do de Bela. Espiou pelo olho m ágico, m as a visita estava no lado.
Abriu a porta, im aginando o que lhe pediriam , um a assinatura ou contribuição para qual causa. O vidro da porta de proteção fora trocado pouco tem po antes, para o frio que se aproxim ava.
Ali estava um a m ulher, com a m ão enluvada na boca.
Agora eram da m esm a altura. O cabelo entrem eado de fios brancos, cortado curto. De físico m ais m iúdo. A pele m ais flácida em volta dos olhos, atenuando a intensidade deles. Parecia frágil, fácil de em purrar da frente.
Havia dedicado algum a atenção à aparência. Um pouco de batom , brincos, echarpe aj eitada dentro do casaco.
Bela estava descalça. Com a calça de m alha com que dorm ira, um pulôver velho de Drew. Testou a m açaneta da porta de proteção. Girou e trancou por dentro.
Bela, ouviu a m ãe dizer. Viu as lágrim as no rosto da m ãe. Alívio, oblívio. Da voz ela se lem brava, abafada pelo vidro.
Meghna se aproxim ou. Mam ãe, cham ou ela. Quem é essa senhora?
Ela não respondeu.
Por que você não abre a porta?
Ela destrancou e abriu a porta. Olhou a m ãe entrar na casa, os m ovim entos com edidos, m as sabendo instintivam ente o lugar das coisas. Descendo o curto lance de degraus até a sala de estar.
Ali, onde recebiam as visitas, elas se sentaram . Bela e Meghna no sofá, a m ãe num a poltrona em frente. A m ãe notou as unhas suj as de terra de Bela, a pele áspera das m ãos.
Alguns m óveis, Bela sabia, eram os m esm os. O j ogo de lâm padas de pé nos dois lados do sofá, com as cúpulas cor de crem e e pequenos suportes rodeando a haste, para apoiar um a xícara ou um copo. Um a cadeira de balanço de vim e. A estam pa de batik com um barco de pesca indiano num a arm ação de tela na parede.
Mas tam bém havia ali as provas da vida de Bela. O cesto de tricô. Os vasinhos de m udas no parapeito da j anela. Os recipientes de favas e cereais, os livros de receitas nas prateleiras.
Agora sua m ãe estava olhando Meghna, e então olhou de novo para ela.
É sua?
É, dá para ver, prosseguiu, respondendo a si m esm a depois de alguns m om entos. Bela não disse nada. Bela estava sem palavras.
Quando ela nasceu? Quando você se casou?
Eram perguntas sim ples, que Bela não se im portava em responder quando eram estranhos que lhe perguntavam . Mas, vindas da m ãe, cada um a delas era ofensiva. Cada um a delas era um a afronta. Não estava disposta a partilhar com a m ãe, de m aneira tão casual, os fatos e as escolhas de sua vida. Recusava-se a dizer qualquer coisa.
A m ãe se virou para Meghna. Quantos anos você tem ?
Ela ergueu a m ão, m ostrando quatro dedos, dizendo: Quase cinco.
Em que m ês você faz aniversário?
Novem bro.
Bela frem ia. Não conseguia se controlar. Com o isso tinha acontecido? Por que tinha cedido? Por que abriu a porta?
Você é igualzinha à sua m ãe quando ela era pequena, disse a m ãe. Com o você se cham a?
Meghna apontou para um desenho que tinha feito, onde estava escrito seu nom e. Girou o papel, para ficar m ais fácil de ler.
Meghna, você m ora aqui? Ou está de visita?
Meghna achou graça. Claro que m oram os aqui.
Com seu pai?
Não tenho pai, disse Meghna. E você, quem é?
Sou sua...
Tia, disse Bela, falando pela prim eira vez.
Agora Bela olhava Gauri, fulm inando-a. Abanando apenas um a vez a cabeça, silenciando Gauri, a advertência a perpassá-la, a lem brar qual era seu lugar.
Gauri sentiu a m esm a suspensão da certeza, a m esm a am eaça inesperada, m as im inente, com o quando as paredes na Califórnia estrem eciam durante um pequeno abalo sísm ico. Sem nunca saber enquanto não term inasse, enquanto um a xícara chacoalhava na m esa, enquanto a terra vibrava e se reassentava, se seria poupada ou não.
Essa senhora era am iga de sua avó, disse Bela a Meghna. Assim , ela é sua tia-avó. Eu não a via desde que sua avó m orreu.
Oh, disse Meghna. Voltou ao desenho. Estava aj oelhada à m esa de café, a cabeça inclinada para um lado. Um a pilha de folhas em branco, um a caixa de m adeira com um a fila de creions. Concentrou-se no que fazia, olhando de um ângulo de concentração e tam bém de repouso.
Gauri estava sentada, acom odada num a poltrona, num a sala onde as vistas eram as m esm as. Mas tudo tinha m udado, as décadas passando, m as tam bém se afirm ando. O resultado era um abism o intransponível.
Viera em busca de Bela, e ali estava ela. A um m etro de distância, inalcançável. Mulher feita, com quase quarenta anos de idade. Mais do que tinha Gauri quando a abandonou. As proporções do rosto se haviam m odificado. Mais largas nas têm poras, m ais longas, m ais esculturais. Sem cuidar da aparência, sem tirar as sobrancelhas, o cabelo retorcido e preso na nuca.
Vam os brincar de j ogo da velha?, perguntou Meghna a Bela.
Agora não, Meglet.
Meghna olhou para Gauri. Tinha o rosto m oreno com o o de Bela, os olhos castanhos igualm ente observadores. E você?
Gauri achou que Bela se oporia, m as ela não disse nada.
Debruçou-se, pegando o creiom da m ão da m enina, m arcando o papel.
Você e a m am ãe m oram aqui com seu avô?, perguntou Gauri.
Meghna assentiu com a cabeça. E Elise vem todos os dias.
Não conseguiu refrear a pergunta, não conseguiu im pedi-la.
Elise?
Quando Dadu se casar com ela, vou ter um a avó, disse Meghna. Vou ser a dam inha de honra.
Sentiu o sangue lhe fugir da cabeça. Agarrou o braço da poltrona, esperando a sensação passar.
Observou enquanto Meghna traçava um a linha no papel. Gauri ouviu sua voz: Olhe, ganhei.
Tirou da bolsa o envelope com os docum entos assinados. Pôs o envelope em cim a da m esa e o em purrou para Bela.
É para seu pai, disse ela.
Bela a observava com o se observa um a criança com eçando a andar, com o se de repente fosse cair e causar algum tipo de estrago, m as Gauri estava sentada totalm ente im óvel.
Ele vai bem ? A saúde está boa?
Mais um a vez não quis lhe responder, não quis lhe falar diretam ente. Seu rosto não m ostrava nenhum a indulgência. Nenhum a alteração, desde que Gauri chegara.
Então está bem .
Estava ardendo de raiva com o fracasso. O esforço da viagem , a presunção de sua iniciativa, a expectativa tola do retorno. O divórcio não era para sim plificar e sim para enriquecer a vida dele. Em bora ela não ocupasse nenhum espaço em sua vida, ele ainda estava em condições de erradicá-la.
Pensou no quarto que, antigam ente, tinha sido seu escritório. Perguntou-se se agora seria o quarto de Meghna. Naquela época, a única coisa que queria era fechar a porta, ficar separada de Subhash e Bela. Fora incapaz de alim entar o que tinha.
Pôs-se de pé, aj eitou a alça da bolsa no om bro. Estou indo.
Espere, disse Bela.
Foi até um arm ário e vestiu um casaco em Meghna, um par de sapatos. Abriu a porta corrediça de vidro da cozinha. Não quer ir pegar algum as flores frescas para a m esa?, disse a ela. Pegue um m aço bem grande, está bem ? E aí vá dar um a olhada nos com edouros dos passarinhos. Vej a se precisam os pôr m ais com ida.
A porta de correr se fechou. Agora ela e Bela estavam a sós.
Bela se aproxim ou de Gauri. Chegou perto, tão perto que Gauri deu um pequeno passo para trás. Bela ergueu as m ãos, com o se fosse em purrá-la ainda m ais, m as não encostou nela.
Com o se atreve, disse Bela. A voz era pouco m ais do que um m urm úrio. Com o se atreve a pisar nesta casa?
Nunca ninguém a fitara com tanto ódio.
Por que veio?
Gauri sentiu a parede atrás de si. Encostou-se nela para se apoiar.
Vim entregar os papéis a seu pai. E tam bém ...
Tam bém o quê?
Queria perguntar a ele sobre você. Encontrá-la. Ele disse que podíam os nos encontrar.
E você se aproveitou disso. Tal com o se aproveitou dele desde o com eço.
Foi errado de m inha parte, Bela. Vim para dizer...
Saia. Volte lá para aquilo que era tão im portante. Bela fechou os olhos, tam pou os ouvidos com as m ãos.
Não suporto ver você, prosseguiu ela. Não aguento ouvir nada do que você tem a dizer.
Gauri se dirigiu para a porta de entrada. A garganta ardia de dor. Precisava de água, m as não se atreveu a pedir. Pôs a m ão na m açaneta.
Desculpe, Bela. Não vou m ais incom odá-la.
Eu sei por que você nos deixou, disse Bela às costas de Gauri.
Faz anos que sei de Uday an, continuou ela. Sei quem eu sou.
Agora foi Gauri que ficou sem ação, sem palavras. Sem conseguir acreditar no nom e de Uday an, vindo de Bela.
E não tem im portância. Nada j ustifica o que você fez, disse Bela.
As palavras dela eram com o proj éteis. Dando fim a Uday an, silenciando Gauri.
Nada j am ais j ustificará. Você não é m inha m ãe. Você não é nada. Está m e ouvindo? Quero que m ostre que está m e ouvindo.
Não havia nada dentro dela. Teria sido isso o que sentiu Uday an, na baixada, quando parou para fitá-los, enquanto toda a vizinhança olhava? Agora não havia ninguém para presenciar o que estava acontecendo. De algum a m aneira, assentiu com a cabeça.
Para m im , você está m orta com o ele. A única diferença é que você escolheu m e deixar.
Ela tinha razão; nada havia a esclarecer, nada m ais a dizer.
Soou um a batida na porta de correr e Bela foi abrir. Meghna queria entrar.
Ela viu Meghna j unto à m esa de j antar com Bela, esperando a aprovação pelas flores que escolhera. Bela estava recom posta, atenta à filha, agindo com o se Gauri j á tivesse saído. Juntas, tiravam as flores velhas de um pote de vidro e substituíam pelas frescas.
Gauri não conseguiu se conter; antes de sair, atravessou a sala, foi até a m esa e pôs a m ão na cabeça da m enina e, depois, no frescor de um a das faces.
Adeus, Meghna. Gostei de conhecê-la.
A m enina, educadam ente, ergueu os olhos para ela. Fitando-a e esquecendo-a logo a seguir.
Não se disse m ais nada. Gauri se dirigiu à porta da frente, desta vez rapidam ente. Bela, sem se interrom per, não fez nada para detê-la.
Abriu o envelope logo que a m ãe saiu da casa, antes m esm o que ligasse o m otor de partida. Conferiu que ela tivesse assinado e concordado com o que o pai pedira. O que ele dissera a Bela, poucos m eses antes, estava pronto para fazer.
Ali estavam as assinaturas, todas no devido lugar. Ficou satisfeita com isso. Por desconcertante que tivesse sido, estava satisfeita que tivesse sido ela, não o pai, a confrontar Gauri. Estava satisfeita por tê-lo protegido daquilo.
Bela se sentira chocada com a breve presença da m ãe com o se fosse um cadáver. Mas j á desaparecera outra vez. Ouviu o som do carro dim inuindo até sum ir e foi com o se a m ãe nunca tivesse voltado e aqueles breves m om entos nunca tivessem ocorrido. E no entanto voltara, ficara à sua frente, falara com ela, falara com Meghna. Quantas vezes Bela sonhara com isso...
Nessa m anhã, ao ver a m ãe, fora esm agada pelo peso de sua raiva. Nunca tinha sentido antes um a em oção tão violenta.
A raiva serpenteava entre o am or que sentia pelo pai, pela filha, entre a cautelosa afeição que sentia por Drew. Sua força destrutiva arrancava essas coisas, estilhaçando e arrem essando longe, arrancando as folhas das árvores.
Por um instante foi arrem essada de volta àquele dia em que tinham chegado de Calcutá. O calor intenso de agosto, a porta do escritório aberta, a escrivaninha praticam ente vazia. O m ato batendo nos om bros, estendendo-se com o um m ar à sua frente.
Mesm o agora Bela sentia vontade de bater na m ãe. De se livrar dela, de m atá-la outra vez.