Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 20 de 37

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Aguapés

Capítulo 6

 

Brinque com igo, dizia Bela.

Se Subhash não estivesse, ela procurava a com panhia de Gauri, dizendo para se sentar no chão de seu quarto. Queria que m ovesse peças num tabuleiro ou aj udasse a vestir e desvestir as bonecas, pondo e tirando as roupinhas daqueles m em bros duros de plástico. Espalhava dezenas de cartas idênticas, de cabeça para baixo, um j ogo de m em ória em que tinham de encontrar o par de cartas.

Às vezes Gauri cedia, continuando com o livro que estava lendo, dando um a rápida espiada quando era a vez de Bela. Jogava, m as nunca era suficiente.

Você não está prestando atenção, reclam ava Bela quando Gauri se distraía.

Ficava sentada no carpete, constrangida com a reclam ação de Bela. Sabia que um irm ão a aliviaria da responsabilidade de entreter Bela dessa m aneira. Sabia que era isso que, em parte, m otivava as pessoas a ter m ais de um filho.

Não com entou com Subhash, quando ele levantou o assunto, o que ela j á sabia: em bora se tivesse casado um a segunda vez, tornar-se m ãe outra vez era a única coisa na vida que queria evitar.

Dorm ia com ele porque o contrário dava m ais trabalho. Queria pôr fim à expectativa que com eçara a sentir da parte dele. Tam bém elim inar o fantasm a de Uday an. Sufocar o que a assom brava.

Em suas relações sexuais, nada lhe lem brava Uday an, de form a que, ao fim , o fato de terem sido irm ãos não ficava tão estranho. O foco era atingir o prazer e, depois de term inarem , o torpor que lhe rem ovia da m ente todos os pensam entos específicos. Resultava no sono profundo e sem sonhos que, de outra form a, lhe fugia.

O corpo dele era outro, m ais hesitante, m as tam bém m ais atento. Com o tem po, ela veio a responder a ele, até a desej á-lo, tal com o desej ara estranhas m isturas de alim entos durante a gravidez. Com Subhash, ela aprendeu que um a ação destinada a expressar am or não precisava ter nada a ver com am or. Que coração e corpo eram coisas diferentes.

No centro acadêm ico, ela tinha visto anúncios de estudantes e m ulheres de professores oferecendo-se com o baby-sitters. Com eçou a anotar nom es e telefones.

Perguntou a Subhash se podia contratar alguém para que ela tivesse tem po de participar num grupo de estudos de filosofia alem ã que se reunia duas vezes por sem ana. Em bora Bela agora estivesse com cinco anos e frequentasse o j ardim de infância, ainda ia à escola apenas por m eio período. Gauri disse que seria um a boa solução, visto que Subhash era ocupado, visto que não conheciam m ais ninguém que pudesse aj udar.

Ele disse que não. Não pelo dinheiro que custaria, m as por princípio, por não querer pagar um desconhecido para cuidar de Bela.

É com um por aqui, disse ela.

Você fica em casa com ela, Gauri.

Em bora ele a tivesse incentivado a frequentar a biblioteca no tem po vago, a assistir de vez em quando a algum curso, ela percebeu que ele não considerava isso com o um trabalho dela. Em bora lhe tivesse dito, quando a pediu em casam ento, que poderia prosseguir com os estudos nos Estados Unidos, agora ele lhe dizia que sua prioridade devia ser Bela.

Não é filha sua, sentiu vontade de dizer. De lhe lem brar a verdade.

Mas claro que não era verdade. Na apresentação de balé de Bela, algum as sem anas antes, Gauri viu a m udança que se operou nela quando Subhash, chegando alguns m inutos atrasado, sentou e lhe acenou; Bela contente ao perceber a presença dele, o queixo se afundando no om bro, dançando acanhada apenas para ele.

Alguns dias depois, ela retom ou o assunto.

É im portante para m im , disse ela.

Disposto a um acordo, ele lhe disse que tentaria adaptar sua agenda. Com eçou a sair m ais cedo em algum as m anhãs e, em alguns dias por sem ana, a voltar no final da tarde. Ela se m atriculou no curso e foi à livraria, enchendo um a cesta de livros. Genealogia da moral. Fenomenologia do espírito. O mundo como vontade e representação. Com prou um j ogo de canetas e um dicionário. Um caderno espiral com o selo da universidade.

Com Bela, ela sentia que o tem po não passava, m as que o céu, m esm o assim , escurecia ao final de m ais um dia. Sentia o absoluto silêncio no apartam ento, tom ado pelo isolam ento em que ela e Bela viviam . Quando estava com Bela, m esm o cada um a em seu canto, era com o se fossem um a pessoa só, unidas por um a dependência que a prendia física e m entalm ente. Às vezes assustava-se por se sentir tão entrelaçada e tam bém tão sozinha.

Durante a sem ana, logo que pegava Bela no ponto do ônibus e a levava para casa, ia direto para a cozinha, lavando os pratos da m anhã que deixara de lado, então com eçando a preparar o j antar. Media um a xícara exata de arroz, deixava de m olho num a panela em cim a da bancada. Descascava cebolas e batatas, escolhia as lentilhas e fazia o j antar de m ais um a noite, e então dava de com er a Bela. Nunca conseguia entender por que essa série de tarefas relativam ente fáceis parecia tão interm inável. Quando acabava, não entendia por que se sentia esgotada.

Esperava que Subhash chegasse para poder sair, assistir à aula ou estudar na biblioteca. Pois não havia lugar no apartam ento para trabalhar, não havia porta que pudesse fechar, não havia m esa onde pudesse m anter suas coisas.

Invej ava Subhash por estar fora trabalhando, por poder ir e vir e nada m ais. Aborrecia-se com os poucos m om entos em que ele brincava com Bela de m anhã, antes de ir para seu laboratório.

Aborrecia-se com ele por se ausentar dois ou três dias, para ir a conferências sobre oceanografia ou fazer pesquisas no m ar. Quando ele aparecia, e sem que tivesse feito nada, às vezes ela m al conseguia suportar a presença dele ou tolerar o som da voz que, no com eço, lhe atraíra nele.

Ela com eçou a j antar cedo, com Bela, deixando a parte de Subhash em cim a do fogão. Assim , tão logo ele chegava, Gauri podia preparar sua bolsa a tiracolo e sair. Sentia no rosto o ar fresco do anoitecer. Fresco e claro na prim avera, frio e escuro no outono.

No com eço, era apenas nas noites em que tinha aulas, m as depois com eçou a passar todas as noites da sem ana na biblioteca, longe deles. Feliz de ficar com Bela, Subhash deixava que ela fosse. E assim Gauri se sentia contrariada por um hom em que não fazia nada para contrariá-la, e por Bela, que nem sequer sabia o sentido da palavra.

Mas seu pior castigo estava dentro de si. Não só sentia vergonha de seus sentim entos, m as tam bém receava que a derradeira tarefa que Uday an lhe deixara, a longa tarefa de criar Bela, não estivesse trazendo significado à sua vida.

No com eço, disse a si m esm a que era com o algum a coisa fora do lugar: um a caneta predileta que iria reaparecer dali a algum as sem anas, enfiada entre as alm ofadas do sofá ou discretam ente oculta atrás de um m aço de papéis. Depois de encontrá-la, nunca m ais se perderia de vista. Procurar algo que estivesse fora do lugar só pioraria as coisas. Se esperasse o suficiente, disse a si m esm a, então apareceria.

Mas não estava aparecendo; depois de cinco anos, apesar de todo o tem po, de todas as horas que passava com Bela, o am or que antes sentira por Uday an se negava a se reconstituir. Em vez dele, crescia um a insensibilidade que a inibia, que a enfraquecia.

Estava falhando em algo que todas as outras m ulheres do m undo faziam sem dificuldades. Não devia ser um a luta. Mesm o sua m ãe, que não chegara a criá-la totalm ente, sentira am or por ela; disso nunca houve dúvida. Mas Gauri receava que descera a um a tal fundura que não conseguiria m ais subir até Bela, segurar-se nela.

E tam pouco seu am or por Uday an continuava igual ou inalterado. Vinha sem pre acom panhado pela raiva, am bos ziguezagueando por ela com o um frenético casal de insetos na cópula. Raiva por ter m orrido quando podia ter vivido. Por lhe trazer e depois lhe tirar a felicidade. Por confiar nela só para traí-la. Por acreditar no sacrifício só para ser egoísta no final.

Deixara de procurar sinais dele. A fugaz sensação de que ele podia estar num aposento, olhando por cim a de seu om bro enquanto ela trabalhava à sua escrivaninha, deixara de ser um consolo. Em certos dias, era possível não pensar nele, não se lem brar dele. Nenhum aspecto seu viera até os Estados Unidos. Afora Bela, ele se recusara a vir encontrá-la aqui.

As m ulheres no departam ento de filosofia eram secretárias. O professor e os outros estudantes da turm a eram hom ens. Era um grupo pequeno, sete incluindo o professor. Logo todos se conheciam pelo nom e. Gostavam de discutir sobre o antipositivism o, sobre a práxis. Sobre a im anência e o absoluto. Nunca perguntavam a opinião de Gauri, m as, quando ela com eçou a contribuir para a discussão, ouviam , surpresos que ela soubesse o suficiente, às vezes, para provar que eles estavam errados.

O professor, Otto Weiss, era um hom enzinho baixo, de sotaque carregado, fala vagarosa, óculos de aro de m etal, cabelo crespo de cor de ferrugem . Usava roupas m ais form ais do que os outros professores. Sem pre com sapatos de couro engraxados, paletó, alfinete na gravata. Nascera na Alem anha, levado a um cam po de concentração quando m enino.

Nunca penso nisso, disse ele à turm a, com entando rapidam ente o fato, depois que um dos estudantes lhe perguntou por que tinha deixado a Europa. Com o que dizendo: Não sintam pena, em bora o resto de sua fam ília tivesse m orrido antes da libertação, em bora houvesse um núm ero de identificação no antebraço, a tatuagem oculta sob a m anga.

Tinha talvez uns dez anos a m ais que Gauri, m as parecia de outra sensibilidade, de outra geração. Morara na Inglaterra antes de vir para os Estados Unidos. Fizera o doutorado em Chicago. Nunca voltaria à Alem anha, disse ele. Fazendo a cham ada no prim eiro dia de aula, ele leu o nom e dela sem nenhum a hesitação. Ela não precisara corrigir a pronúncia, não precisara suportar a m aneira com o os am ericanos costum avam pronunciar seu nom e de casada.

Ele não recorria a nenhum a anotação durante a aula. Guiava cuidadosam ente os estudantes pelos textos que recom endara, m as parecia m ais interessado no que eles tinham a dizer, tom ando algum as notas em folhas de papel em branco enquanto falavam . Tinha lido os Upanishades e falou sobre sua influência em Schopenhauer. Ela sentiu afinidade por esse hom em . Queria agradá-lo, cum prim entá-lo de algum a m aneira.

No final do sem estre, depois de escrever um trabalho com parando os conceitos de tem po circular em Nietzsche e Schopenhauer, ela foi cham ada à sala dele depois da aula. Tinha trabalhado no ensaio durante sem anas, escrevendo à m ão, depois datilografando o texto final na m áquina de Subhash, à m esa da cozinha. Cercada de utensílios dom ésticos, o fio da lâm pada fluorescente por cim a. Ficou acordada até o am anhecer para term inar a tarefa.

Ela viu inúm eras anotações às m argens, com entários em linhas inclinadas que form avam um a espécie de m oldura.

Material am bicioso. Alguém diria pretensioso.

Ela não soube o que responder.

Você acha que conseguiu?

Continuou sem saber o que responder.

Pedi um ensaio de dez páginas. Você escreveu quase quarenta. E m esm o assim falhou totalm ente em provar o que queria dizer.

Desculpe.

Não se desculpe. Sem pre fico satisfeito em ter um intelectual na sala. Tal com preensão de Hegel não encontrei em nenhum de m eus estudantes aqui.

Ele exam inou algum as partes do ensaio, o dedo seguindo as palavras na vertical. Precisa de um a revisão, disse ele.

Posso entregar na próxim a sem ana?

Ele abanou a cabeça, passando um a m ão pela outra, com o se rem ovesse algo. Term inei com essa turm a. E sugiro que esqueça esse texto num a gaveta por alguns anos.

Gauri pensou que, com aquele gesto das m ãos, ele estava term inando com ela tam bém . Agradeceu o curso. Levantou-se para sair.

O que a traz da Índia para Rhode Island?

Meu m arido.

O que ele faz?

Tam bém estudou aqui.

Vocês se conheceram nos Estados Unidos?

Ela virou o rosto.

Perguntei algo que não devia?

Ele m ostrava paciência, sentado, m antendo os olhos nela. Não pressionava. Mas parecia sentir que ela tinha m ais a dizer.

Ela se virou outra vez. Olhou os livros atrás dele, os papéis em pilhados na m esa. Olhou o tecido am arfanhado da cam isa, os punhos encobrindo os pulsos onde as m angas do paletó term inavam . Pensou no que ele tinha vivido, ainda m ais novo do que Bela.

Meu prim eiro m arido foi m orto, disse ela. Assisti quando aconteceu. Casei com o irm ão dele, para sair.

Weiss continuou a fitá-la. Não m udara de expressão. Depois de um instante, assentiu com a cabeça. Ela percebeu que dissera o suficiente.

Ele se ergueu e foi até a j anela de sua sala. Levantou o vidro num estalo.

Você lê em francês ou alem ão?

Não. Mas estudei sânscrito.

Vai precisar das duas línguas para continuar, m as para você vai ser fácil.

Continuar?

Seu lugar é no doutorado, sra. Mitra. Aqui não tem .

Ela abanou a cabeça. Tenho um a filha pequena, disse.

Ah, não sabia que era m ãe. Precisa trazê-la para m e visitar.

Ele girou um porta-retratos que havia na m esa e m ostrou sua fam ília. Estavam de pé, tendo ao fundo um vale no outono, com folhas flam ej antes. Mulher, um a filha, dois filhos.

Com filhos, tudo recom eça. Esquecem os o que houve antes.

Ele voltou à m esa e anotou os nom es de alguns livros que recom endava, dizendo-lhe quais eram os capítulos m ais im portantes. Pegou na prateleira seus exem plares pessoais de Adorno e McTaggart, com suas anotações, e em prestou a ela. Deu-lhe núm eros da New German Critique, indicando alguns artigos que devia ler.

Recom endou-lhe que continuasse a fazer cursos de nível m ais avançado na universidade, dizendo que contariam para um m estrado. Depois disso, ele daria alguns telefonem as a program as de doutorado que se adequassem a ela, a universidades que não ficassem m uito longe, dando para ir e voltar no m esm o dia. Providenciaria que fosse aceita. Significava que teria de viaj ar algum as vezes por sem ana durante alguns anos, m as poderia escrever a tese em qualquer lugar. Participaria de bom grado de sua banca, quando chegasse a hora.

Devolveu-lhe o ensaio e se ergueu para lhe apertar a m ão.