Aguapés
Capítulo II
1.
Norm alm ente, ela ficava na sacada, lendo, ou num quarto contíguo enquanto seu irm ão e Uday an estudavam , fum avam e tom avam xícaras e xícaras de chá. Manash tinha feito am izade com ele na Universidade de Calcutá, onde os dois estudavam no departam ento de física. Os livros sobre o com portam ento dos líquidos e dos gases ficavam de lado boa parte do tem po, enquanto eles conversavam sobre as repercussões de Naxalbari e com entavam os fatos do dia.
As conversas passavam para as insurreições na Indochina e em países da Am érica Latina. No caso de Cuba, frisava Uday an, nem se tratava de um m ovim ento de m assas. Apenas um grupo pequeno, atacando os alvos certos.
Por todo o m undo, os estudantes ganhavam força, levantando-se contra os sistem as exploradores. Era outro exem plo da segunda lei do m ovim ento de Newton, brincava ele. Força igual m assa vezes aceleração.
Manash era cético. O que eles, estudantes urbanos, podiam dizer a respeito da vida dos cam poneses?
Nada, dizia Uday an. Precisam os aprender com eles.
Ela o via por um a porta aberta. Alto, m as de constituição esguia, vinte e três anos, m as parecendo um pouco m ais. As roupas ficavam frouxas. Ele usava kurtas, m as tam bém cam isas de estilo europeu, com irreverência, a parte de cim a desabotoada, fora das calças, as m angas enroladas até o cotovelo.
Ele se sentava no quarto onde ouviam rádio. Na cam a que servia de sofá, onde Gauri dorm ia de noite. Seus braços eram finos, os dedos longos dem ais para as xicrinhas de porcelana em que a fam ília dela servia o chá, que ele tom ava em poucos goles. Tinha o cabelo ondulado, as sobrancelhas grossas, os olhos lânguidos e escuros.
Suas m ãos pareciam um prolongam ento da voz, sem pre em m ovim ento, em belezando as coisas que dizia. Mesm o quando discutia, vinha-lhe um sorriso fácil. Os dentes de cim a eram levem ente encavalados, com o se tivesse um a m ais. Desde o início, ali residia o atrativo.
Nunca dizia nada quando Gauri por acaso passava a seu lado. Nunca olhando, nunca reconhecendo que era a irm ã m ais nova de Manash, até o dia em que o criado estava fazendo um serviço de rua e Manash perguntou a Gauri se ela não se im portaria em preparar o chá para eles.
Ela não encontrou bandej a para pôr as xícaras. Levou nas m ãos, em purrando a porta da sala com o om bro. Fitando-a por um instante a m ais do que o necessário, Uday an pegou sua xícara das m ãos dela.
O sulco entre a boca e o nariz de Uday an era profundo. Bem barbeado. Ainda olhando para ela, ele fez sua prim eira pergunta.
Onde você estuda?
Com o ela estava na Presidency e a Universidade de Calcutá ficava logo ao lado, quando ia até lá com os am igos, procurava por ele na praça do cam pus, entre as bancas de livros e nas m esas da cantina. Algo lhe dizia que ele não frequentava as aulas com a m esm a regularidade dela. Com eçou a procurar por ele pondo-se na am pla sacada que cercava os dois lados do apartam ento de seus avós, dando para o cruzam ento onde com eçava a Cornwallis Street. Tornou-se um a rotina.
Então, um dia ela o viu, surpresa por reconhecer sua cabeça entre centenas de outras. Ele estava na esquina em frente, com prando um m aço de cigarros. Depois atravessou a rua, um a sacola de livros a tiracolo, olhando os dois lados da rua, dirigindo-se para o apartam ento deles.
Ela se agachou sob o parapeito, sob as roupas secando no varal, tem erosa que ele erguesse os olhos e a visse. Dois m inutos depois, ela ouviu passos subindo pela escada e então a batida da aldraba de ferro na porta do apartam ento. Ouviu abrirem a porta, o criado dizendo que entrasse.
Naquela tarde, por acaso, todos estavam fora, inclusive Manash, e ela ficara lendo sozinha. Perguntou-se se ele iria em bora, j á que Manash não estava. Mas, um instante depois, ele saiu à sacada.
Mais ninguém em casa?, perguntou ele.
Ela abanou a cabeça.
Então você conversa com igo?
A roupa estava úm ida, algum as blusas e saias estavam penduradas no varal. O corte das blusas seguia o m olde de seu tronco, de seus seios. Ele desprendeu um a das blusas e pendurou m ais adiante no varal, para abrir espaço.
Fez isso devagar, um leve trem or nos dedos obrigando-o a se concentrar m ais na tarefa do que faria outra pessoa. De pé a seu lado, ela percebia sua altura, a leve curvatura das costas, o ângulo em que m antinha o rosto. Ele riscou um fósforo e acendeu um cigarro, encobrindo toda a boca com a m ão em concha ao dar um a tragada. O criado trouxe chá e biscoitos.
Olhavam o cruzam ento, do quarto andar do prédio. Estavam lado a lado, os dois debruçados no parapeito. Juntos viam os edifícios de pedra, com sua grandiosidade decrépita, que se alinhavam nas calçadas. As colunas gastas, as cornij as esfareladas, as cores encardidas.
Ela apoiava a face na barreira discreta da m ão. O braço dele pendia do parapeito, o cigarro aceso entre os dedos. As m angas de sua túnica estavam enroladas, expondo as veias que corriam do pulso até a dobra do cotovelo. Eram salientes, o sangue cinza esverdeado, com o um arco em ogiva sob a pele.
Havia algo prim ordial em tantos seres hum anos se m ovim entando ao m esm o tem po: cam inhando, andando de ônibus e bondes, conduzindo ou sendo conduzidos em riquixás. Na outra calçada havia algum as ourivesarias de ouro e prata em sequência, com espelhos nas paredes e tetos. Sem pre lotadas de fam ílias, refletidas interm inavelm ente, encom endando j oias de casam ento. Havia a tinturaria aonde levavam as roupas para passar. A loj a onde Gauri com prava cadernos e tinta. Docerias estreitas, onde as bandej as de doces viviam cheias de m oscas.
O paanwallah ficava sentado de pernas cruzadas num a das esquinas, sob a lâm pada nua, espalhando pasta de cal nas pilhas de folhas de betel. Um guarda de trânsito ficava no centro, com seu capacete e em cim a de sua caixinha. Soprando um apito e sinalizando com os braços. O barulho de tantos m otores, tantas lam bretas, cam inhonetes, ônibus, carros, era de encher os ouvidos.
Gosto dessa vista, ele disse.
Ela com entou que, a vida toda, observara o m undo dessa sacada. Passeatas políticas, desfiles oficiais, dignitários em visita. O enorm e fluxo de veículos que com eçava todos os dias ao am anhecer. Os poetas e escritores da cidade passando após a m orte, os cadáveres ocultos sob as flores. Pedestres atravessando as ruas com água pelos j oelhos, durante a m onção.
No outono vinham as efígies de Durga e no inverno as de Saraswati. As m aj estosas estátuas de barro recebiam as boas-vindas no centro da cidade, enquanto batiam os dhak e soavam as cornetas. Vinham na caçam ba de cam inhões e, das festas, eram levadas e m ergulhadas no rio. Nesses dias, havia passeatas de estudantes vindo da College Street. Grupos em solidariedade com a revolta de Naxalbari, carregando bandeiras e cartazes, erguendo os punhos no ar.
Ele notou a espreguiçadeira onde antes ela estava sentada. O assento era feito de tecido listrado, que se encurvava com o um a funda. Ao lado da cadeira, um livro largado. Um exem plar das Meditações sobre a filosofia primeira, de Descartes. Ele o apanhou.
Você lê aqui, com todo esse m ovim ento?
Aj uda a m e concentrar, ela respondeu.
Estava acostum ada ao barulho enquanto estudava, enquanto dorm ia; era o acom panham ento constante de sua vida, de seus pensam entos, o alarido ininterrupto acalm ava m ais do que o silêncio. Dentro de casa, não tendo um quarto só para si, era m ais difícil. A sacada sem pre foi seu espaço próprio.
Contou a ele que, quando era pequena, às vezes saía tropeçando da cam a à noite, e os avós iam encontrá-la de m anhã, dorm indo fundo na sacada, o rosto apoiado na grade decorada e pintada de preto, deitada no chão de pedra. Surda ao tráfego que roncava lá em baixo. Adorava acordar ao ar livre, sem a proteção de um teto e paredes. Na prim eira vez, vendo que não estava na cam a, pensaram que ela tinha sum ido. Mandaram algum as pessoas à rua para procurá-la, cham ando por ela aos gritos.
E aí?, perguntou Uday an.
Descobriram que eu estava aqui, ainda dorm indo.
Seus avós proibiram que fizesse isso de novo?
Não. Desde que não estivesse chovendo ou fazendo frio dem ais, deixavam um a m anta aqui fora, para m im .
Então esta é sua árvore bodhi, onde você alcança a ilum inação.
Ela franziu as sobrancelhas.
O olhar dele caiu nas páginas que ela estivera lendo.
O que o sr. Descartes nos fala sobre o m undo?
Ela falou o que sabia. Sobre os lim ites da percepção e a experiência com um pedaço de cera. Aquecida a cera, sua essência perm anecia, m esm o que seu aspecto físico m udasse. Era a m ente, não os sentidos, que percebia isso.
Pensar é superior a ver?
Para Descartes, é.
Você leu algum a coisa de Marx?
Um pouco.
Por que você estuda filosofia?
Me aj uda a entender as coisas.
Mas a que se aplica?
Platão diz que a finalidade da filosofia é nos ensinar a m orrer.
Só há algo a aprender se estiverm os vivos. Na m orte som os iguais. Ela tem essa vantagem em com paração à vida.
Ele lhe devolveu o livro, fechando-o e assim desm arcando o lugar onde ela tinha parado.
E agora um diplom a perdeu qualquer sentido neste país.
Você está se form ando em física, com entou ela.
Por causa de m eus pais. Eu pessoalm ente não m e im porto.
O que te im porta?
Ele olhou a rua lá em baixo, fazendo um gesto. Esta nossa cidade im possível.
Ele m udou de assunto, perguntando sobre as outras pessoas que m oravam com ela e Manash: dois tios, suas esposas, dois grupos de filhos. Os avós m aternos, que antes eram os donos do apartam ento, tinham m orrido, e os pais dela tam bém . As irm ãs m ais velhas m oravam em outros lugares, espalhadas aqui e ali, agora que eram casadas.
Vocês todos cresceram aqui?
Ela negou com a cabeça. Tiveram vários lares em Bengala Oriental, em Khulna, em Faridpur, onde antigam ente m oravam os pais e as irm ãs. Seu pai era j uiz distrital, e era periodicam ente transferido de um a cidade para outra, com sua m ãe e irm ãs, para belos bangalôs pagos pelo governo, em belos lugares do interior. As casas tinham cozinheiras e em pregados que abriam as portas.
Manash tinha nascido num a dessas casas. Ele não lem brava quase nada, m as as irm ãs ainda falavam daquela época da infância, do passado em fam ília. Os professores que vinham lhes dar aulas de canto e dança, as m esas de m árm ore onde faziam as refeições, as varandas largas onde brincavam , um quarto da casa exclusivo para as bonecas.
E m 1946, esses cargos acabaram e a fam ília voltou para Calcutá. Mas, depois de alguns m eses, o pai disse que não queria passar a aposentadoria ali. Depois de passar toda um a existência fora da cidade, não tinha paciência com a vida urbana, especialm ente agora quando o povo vivia se m atando, bairros inteiros viviam se incendiando.
Um dia durante os tum ultos, da m esm a sacada onde naquele m om ento estavam Gauri e Uday an, os pais tinham presenciado um a cena: um a m ultidão cercando o m uçulm ano que vinha entregar o leite de bicicleta. A turba queria vingança; corria a notícia de que um prim o do leiteiro se envolvera num a agressão a hindus em algum a outra parte da cidade. Viram um dos hindus cravando um a faca entre as costelas do leiteiro. Viram o leite que a fam ília tom aria naquela m anhã derram ando-se na rua, ficando cor-de-rosa por causa do sangue.
Assim , a fam ília se m udou para um povoado a oeste de Calcutá, a poucas horas de distância. Seus pais preferiram com o dom icílio final um lugar calm o, afastado dos parentes, ao abrigo dos tum ultos. Havia um lago onde pescavam e nadavam , galinhas poedeiras, um a horta que seu pai gostava de cultivar. Só terra, estradas de barro, céu e árvores, nada m ais. O cinem a m ais próxim o ficava a m ais de trinta quilôm etros de distância. Um a vez por ano, havia um a feira com bancas de livros. À noite, a escuridão era com pleta.
Quando Gauri nasceu, em 1948, a m ãe j á andava ocupada arranj ando os casam entos para suas irm ãs m ais velhas. As irm ãs pertenciam quase a outra geração: adolescentes quando ela era bebê, m oças quando era criança. Tinha sobrinhos que eram de sua idade.
Quanto tem po você m orou no cam po?
Até os cinco anos.
Sua m ãe caiu de cam a naquela época. Tinha tuberculose na m edula. As irm ãs m ais velhas de Gauri eram solícitas, aj udando nas tarefas de casa, m as ela e Manash apenas atrapalhavam . Então foram m andados para a cidade, aos cuidados dos avós, em com panhia dos tios e tias.
Depois que a m ãe se recuperou, eles continuaram na cidade. Manash foi m atriculado na escola de m eninos de Calcutá e Gauri não quis deixar Manash. Quando chegou sua vez de ir para a escola, e com o as escolas da cidade eram m elhores, era natural que ficasse.
Sem pre houve a opção de voltar ao vilarej o dos pais. Mas, em bora fosse visitá-los de trem nos feriados, a vida rural não a atraía. Não j ulgava que tivesse algum ressentim ento contra os pais, por não a terem criado. Era norm al em m uitas fam ílias num erosas e, dadas as circunstâncias, não era m uito estranho. Na verdade, ela lhes agradecia por deixarem seguir seu próprio cam inho.
Foi o presente deles para você, disse Uday an. A autonom ia.
Um acidente de carro num a estrada da m ontanha causou a m orte deles. Estavam viaj ando com m au tem po, indo passar alguns dias num a estação m ontanhosa, para m udar de paisagem . Gauri tinha dezesseis anos. A casa foi vendida, e não restou nenhum traço da fam ília naquele lugar sossegado. Foi um golpe perdê-los assim de repente, m as ela ficou m ais triste com a m orte dos avós, falecidos algum tem po depois. Crescera na casa deles, dorm ira num a cam a entre os dois. Convivera com eles dia após dia; observara enquanto adoeciam e se debilitavam . Foi o avô dela, que tinha sido professor na Faculdade de Sânscrito e m orreu com um livro no peito, que lhe dera inspiração para estudar filosofia.
Ela notou que a m odesta j ornada de sua vida até o m om ento era fascinante para ele: o nascim ento no cam po, a disposição em viver longe dos pais, o afastam ento da m aior parte da fam ília, sua independência a esse respeito.
Ele acendeu outro cigarro. Falou que sua infância foi diferente. Era apenas ele e um irm ão. Apenas os dois e os pais, num a casa em Tolly gunge.
O que seu irm ão faz?
Está falando em ir para os Estados Unidos.
Você vai tam bém ?
Não. Virou-se para ela. E você? Vai sentir falta de tudo isso quando se casar?
Ela notou que sua boca nunca se fechava totalm ente, que havia um a fresta em form ato de diam ante no centro.
Não vou m e casar.
Seus parentes não fazem pressão?
Não sou responsabilidade deles. Eles têm seus próprios filhos para se preocupar.
O que você vai fazer, então?
Posso ensinar filosofia num a escola ou faculdade.
E ficar aqui?
Por que não?
É bom . Quer dizer, para você. Por que deixaria um lugar que lhe agrada, por que interrom peria o que gosta de fazer, só por causa de um hom em ?
Estava flertando com ela. Gauri sentiu que, m esm o parado ali olhando para ela, conversando com ela, Uday an estava form ando um a opinião a seu respeito. Um aspecto dela que ele j á apreendera. Captara sem perm issão, um a iniciativa que nenhum outro hom em j am ais tentara e à qual ela não podia obj etar, porque era ele.
Passado um instante, ele disse apontando o cruzam ento:
Se você se casasse com alguém que m orasse num a dessas três outras esquinas, se tivesse apenas de se m udar para um a daquelas outras sacadas, então concordaria?
Ela não pôde se conter; sorriu, de início ocultando o sorriso com a m ão. Depois riu, afastando o olhar.
Com eçaram a se encontrar no cam pus, ora no dele, ora no dela. Mas agora, m esm o quando não tinham com binado um encontro, continuavam se vendo. Ele atravessava os portões da Presidency, observando enquanto ela descia a grande escadaria depois da aula. Sentavam no pórtico, onde pendiam as bandeiras erguidas pela União dos Estudantes. Quando havia discursos na praça central do cam pus, sobre o aum ento constante no preço dos alim entos, sobre a população que não parava de crescer, sobre o desem prego, ouviam j untos. Quando havia passeatas na College Street, ele ia com ela.
Com eçou a lhe dar coisas para ler. Nas bancas com prou para ela o Manifesto de Marx e as Confissões de Rousseau. O livro de Felix Greene sobre o Vietnã.
Ela viu que lhe causava im pressão, não só por ler o que ele lhe dava, m as por conversar a respeito. Trocavam opiniões sobre os lim ites da liberdade política e se liberdade e poder eram sinônim os. Sobre o individualism o e as hierarquias. Sobre o que era a sociedade atual e o que podia vir a ser.
Ela sentiu que sua inteligência ficava m ais afiada e m ais concentrada. Debatendo-se com os m ecanism os concretos do m undo, em vez de duvidar da existência dele. Sentia-se m ais próxim a de Uday an nos dias em que não o via, pensando nas coisas que o interessavam .
No com eço, tentaram ocultar suas relações a Manash, m as descobriram que Manash andara planej ando tudo aquilo em silêncio, na certeza de que os dois se dariam bem . Facilitava as coisas para que Gauri passasse algum tem po com Uday an, dando algum a explicação de seu paradeiro para a fam ília.
As despedidas eram abruptas, ele parando de repente de lhe dar atenção pois tinha de ir a outro lugar. Algum a reunião, algum grupo de estudos, ele nunca explicava direito. Nunca se virava para lhe dar um últim o olhar, m as sem pre parava num local onde ela podia enxergá-lo, erguendo a m ão em despedida antes de arqueá-la em concha para acender um cigarro, e então ela via suas pernas com pridas se afastarem , atravessando o cam pus ou atravessando a rua larga e m ovim entada.
Às vezes, ele falava em viaj ar, a ir a algum dos vilarej os onde ela poderia ter m orado quando m enina se não tivesse fugido. Onde depois de Naxalbari, depreendia ela, a vida não era m ais tão tranquila.
Queria conhecer m ais a Índia, disse ele, tal com o Che havia viaj ado pela Am érica do Sul. Queria entender as condições do povo. Queria algum dia ver a China.
Mencionou alguns am igos que j á tinham saído de Calcutá, para m orar entre os cam poneses. Você entenderia se algum dia eu precisasse fazer algo assim ?, perguntou-lhe Uday an.
Ela sabia que ele a estava testando. Que perderia o respeito por ela se se m ostrasse sentim ental, se não se dispusesse a enfrentar certos riscos. E assim , em bora não querendo que ele se afastasse, não querendo que lhe acontecesse nenhum m al, ela respondeu que entenderia.
Sem ele, ela se lem brava novam ente de si. Um a pessoa m ais à vontade entre os livros, passando as tardes a preencher seus cadernos na sala de leituras, alta e fresca, da biblioteca da Presidency. Mas era um a pessoa que ela estava com eçando a questionar depois de conhecer Uday an. Um a pessoa que Uday an, com seus dedos vacilantes, estava em purrando de lado, afastando com firm eza. E assim ela com eçou a se enxergar com m ais clareza, com o se rem ovesse um a fina película de pó de um a placa de vidro.
Na infância, sabendo que seu nascim ento fora acidental, não sabia quem era, onde ou a quem pertencia. À exceção de Manash, não conseguira se definir em relação aos irm ãos nem se enxergar com o parte deles. Não tinha nenhum a lem brança de passar algum m om ento, qualquer que fosse, m esm o num a casa em local tão isolado, sozinha com a m ãe ou com o pai. Sem pre no final da fila, à som bra dos outros, ela acreditava que não era capaz de lançar som bra própria.
Entre os hom ens sentia-se invisível. Sabia que não era o tipo de beleza ao qual se viravam para olhar na rua ou que notavam na festa de casam ento de algum prim o. Ninguém pedia sua m ão para se casar poucos m eses depois, com o acontecera com algum as irm ãs. Nesse aspecto, era um a decepção para si m esm a.
Tirando a cor da pele, m orena a ponto de ser considerada um defeito, talvez não houvesse nada de errado com ela. Mesm o assim , sem pre que parava para pensar em seu físico, levantava algum a obj eção, achando que o rosto era com prido dem ais, que os traços eram severos dem ais. Querendo que fosse possível m udar de aparência, acreditando que qualquer outro rosto seria preferível.
Mas Uday an a olhava com o se não existisse outra m ulher na cidade. Quando estavam j untos, Gauri nunca duvidava que causava efeito nele. Que gostava de ficar ao lado dela, virando-se para fitá-la, nunca desviando o olhar. Ele percebeu quando ela passou a repartir o cabelo do outro lado, dizendo que lhe ficava bem .
Um dia, dentro de um dos livros que ele lhe dera, havia um bilhete pedindo que fosse encontrá-lo no cinem a. Um a sessão da tarde — um cinem a perto da Park Street.
Ela ficou com m edo de ir, com m edo de não ir. Um a coisa era conversarem no pórtico ou na cantina, ou irem até a praça da faculdade para olhar os nadadores na piscina. Ainda não tinham se afastado das vizinhanças m ais próxim as, onde eram sim ples colegas, onde sem pre era natural que ali estivessem .
Na tarde do film e ela hesitou e acabou se atrasando tanto que só chegou na hora do intervalo, atarantada, preocupada que ele tivesse m udado de ideia ou desistido dela, quase o desafiando a isso. Mas ele a desafiara, ele tam bém , a aparecer.
Estava lá, do lado de fora, fum ando um cigarro, afastado das pessoas que j á discutiam a prim eira parte do film e. O sol batia forte e ele ergueu a m ão enquanto ela se aproxim ava, inclinando a cabeça até a altura de seu rosto, form ando um pequeno dossel sobre am bos. Àquele gesto, ela se sentiu a sós com ele, abrigada naquela grande m ultidão. Separada dos pedestres, flutuando na ondulação da cidade.
Ela não viu nenhum sinal de irritação ou im paciência no rosto dele, ao divisá-la. Viu apenas seu prazer em vê-la. Com o se soubesse que ela viria; com o se soubesse, até, que ia hesitar e chegaria ridiculam ente atrasada com o chegou. Quando lhe perguntou o que tinha acontecido no film e até aquele m om ento, ele abanou a cabeça.
Não sei, respondeu, estendendo o ingresso. Tinha ficado o tem po todo ali na calçada, esperando por ela. Esperando até estarem no escuro do cinem a para pegar sua m ão.