Aguapés
Capítulo 6
Poucos m eses depois, Subhash tam bém foi para um vilarej o; v illage era a palavra que os am ericanos usavam . Um a palavra antiga, designando um povoado inicial, um lugar hum ilde. Mesm o assim , o vilarej o tivera outrora um a civilização: um a igrej a, um tribunal, um a taverna, um a cadeia.
A universidade com eçara com o escola agrícola. Um a faculdade em área concedida pelo governo, ainda cercada de estufas, pom ares, trigais. Nos arrabaldes havia pastos verdej antes de capim cultivado cientificam ente, irrigados, fertilizados e roçados periodicam ente. Mais bonitos do que a gram a que crescia entre os m uros do Tolly Club.
Mas ele não estava m ais em Tolly gunge. Saíra de lá com o tantas m anhãs saíra dos sonhos, cuj a realidade e lógica peculiar perdiam o significado à luz do dia.
Era tão extrem a a diferença que ele não conseguia acom odar os dois lugares em sua m ente. Neste novo país enorm e, parecia não haver lugar para o país anterior. Não havia nenhum a ligação entre os dois; a única ligação era ele. Aqui a vida deixava de tolhê-lo ou de atacá-lo. Aqui a hum anidade não estava sem pre em purrando, forçando, correndo com o que perseguida por um fogaréu.
E no entanto alguns aspectos físicos de Rhode Island — um estado tão pequeno no conj unto dos Estados Unidos que, em alguns m apas, o território vinha indicado apenas por um a flecha apontando sua localização — tinham certa correspondência com os de Calcutá, na Índia. Montanhas ao norte, oceano ao leste, a m aior parte da área ao sul e ao oeste.
Os dois lugares ficavam quase no nível do m ar, com estuários onde a água doce e a água salgada se m isturavam . Assim com o Tolly gunge, num a era anterior, fora inundada pelo m ar, outrora Rhode Island inteira estivera coberta de cam adas de gelo. O avanço e o recuo dos glaciares, espalhando-se e se derretendo sobre a Nova Inglaterra, tinham m ovido o leito rochoso e o solo, deixando grandes rastros de destroços. Haviam criado m angues e baía, dunas e m orenas. Moldaram a costa atual.
Ele encontrou aloj am ento num a casa branca de m adeira, perto da rua principal do vilarej o, com venezianas pretas nas j anelas. As venezianas eram decorativas, nunca se abrindo nem fechando com o faziam no decorrer do dia em Calcutá, para m anter os aposentos frescos ou secos, para proteger da chuva, deixar entrar um a brisa ou controlar a lum inosidade.
Ele m orava no alto da casa, dividindo um a cozinha e banheiro com outro estudante de doutorado cham ado Richard Grifalconi. À noite, ouvia o tique-taque m etódico de um despertador ao lado da cam a. E ao fundo, com o um alarm e que tivesse disparado, o estrilo agudo dos grilos. Outras aves o despertavam de m anhã, passarinhos com pipilos delicados que, m esm o assim , interrom piam o sono.
Richard, estudante de sociologia, escrevia editoriais para o j ornal da universidade. Quando não estava trabalhando na tese, denunciava em parágrafos sucintos a recente dem issão de um professor de zoologia que se m anifestara contra o uso de napalm ou a decisão de construir um a piscina em vez de m ais aloj am entos no cam pus.
Ele vinha de um a fam ília quacre no Wisconsin. Usava o cabelo escuro preso num rabo de cavalo e não se dava ao trabalho de aparar a barba. Exam inava atentam ente a folha de papel na m áquina pelos óculos de aros de m etal enquanto batucava seus editoriais com dois dedos, à m esa da cozinha, um cigarro aceso na boca.
Contou a Subhash que acabara de fazer trinta anos. Em favor da nova geração, decidiu que seria professor. Tinha ido ao sul, durante a graduação, para protestar contra a segregação no transporte público. Passara duas sem anas num a cadeia do Mississippi.
Convidava Subhash para irem ao bar do cam pus, onde dividiam um a j arra de cervej a e assistiam às reportagens da tevê sobre o Vietnã. Richard era contra a guerra, m as não era com unista. Disse a Subhash que, para ele, Gandhi era um herói. Uday an teria escarnecido dele, dizendo que Gandhi se aliara a inim igos do povo. Que desarm ara a Índia em nom e da libertação.
Um dia, passando pela praça do cam pus, Subhash viu Richard no centro de um grupo de estudantes e professores. Usava um a faixa preta no braço, de pé no alto de um a van estacionada no gram ado.
Com um m egafone, Richard disse que o Vietnã era um erro e que o governo am ericano não tinha nenhum direito de intervir. Disse que havia inocentes sofrendo no Vietnã.
Alguns gritavam ou assobiavam , m as a m aioria apenas ouvia e aplaudia, com o se estivessem num teatro. Sentados no chão, apoiavam -se nos cotovelos, com o sol no rosto, ouvindo Richard protestar contra um a guerra travada a m ilhares de quilôm etros dali.
Subhash era o único estrangeiro. Não havia por lá nenhum estudante de outras partes da Ásia. Era um com ício totalm ente diferente das m anifestações que agora explodiam em Calcutá. Turbas desordenadas representando partidos com unistas rivais, correndo atabalhoadas pelas ruas. Salm odiando, sem parar. Eram m anifestações que quase sem pre descam bavam para a violência.
Depois de ouvir Richard por alguns m inutos, Subhash se afastou. Sabia o quanto Uday an zom baria dele naquele instante, por causa da vontade de se proteger.
Tam bém não apoiava a guerra no Vietnã. Mas, com o seu pai, sabia que precisava ter cuidado. Sabia que podia ser preso nos Estados Unidos por criticar o governo, talvez até por segurar um cartaz. Estava aqui neste país por cortesia, com visto de estudante, na universidade graças a um a bolsa. Era um convidado nos Estados Unidos, com o hóspede de Nixon.
Aqui, ele lem brava todos os dias a sensação que lhe vinha naquelas noites em que entrava furtivam ente com Uday an no Tolly Club. Desta vez, ele fora recebido oficialm ente, m as continuava atento, na soleira de entrada. Sabia que a porta podia se fechar de m odo tão arbitrário quanto se abrira. Sabia que podia ser m andado de volta para o local de onde viera e que havia um a fila de gente pronta para ocupar seu lugar.
Havia na universidade alguns outros indianos, na m aioria solteiros com o ele. Mas, até onde Subhash sabia, ele era o único de Calcutá. Conheceu um professor de econom ia cham ado Narasim han, de Madras. Era casado com um a am ericana e tinham dois filhos de tez m orena e olhos claros, que não haviam puxado a nenhum dos pais.
Narasim han tinha costeletas largas e usava j eans boca de sino. A esposa tinha um belo pescoço, cabelo ruivo curto e usava brincos de pingente. Subhash viu toda a fam ília pela prim eira vez na área verde do cam pus. Eram os únicos naquele sábado à tarde no gram ado quadrangular que ficava no centro do cam pus, cercado de árvores.
Os m eninos estavam j ogando bola com o pai. Com o Subhash e Uday an costum avam fazer, no cam po do outro lado da baixada, em bora o pai nunca tivesse ido com eles. A m ulher estava deitada de lado num a m anta estendida na gram a, fum ando, desenhando algum a coisa num caderno.
Era esta a m oça com quem Narasim han se casara, em vez de desposar algum a m oça de Madras que a fam ília escolhera para ele. Subhash se perguntou com o a fam ília teria reagido a ela. E se perguntou se ela teria ido algum a vez à Índia. Se tivesse ido, perguntou-se se teria gostado ou detestado. Só de olhar para ela, não dava para saber.
A bola correu na direção de Subhash; chutou de volta para eles, preparando-se para retom ar o cam inho.
Você deve ser o novo estudante de quím ica dos oceanos, disse Narasim han, andando em sua direção, apertando-lhe a m ão. Subhash Mitra?
Eu m esm o.
De Calcutá?
Assentiu.
Em princípio, devo ficar de olho em você. Nasci em Calcutá, acrescentou Narasim han, dizendo que ainda entendia um a ou duas palavras em bengali.
Subhash perguntou onde ele m orava em Rhode Island, se era perto do cam pus.
Narasim han abanou a cabeça. A casa deles ficava m ais perto de Providence. A esposa, Kate, estudava na Escola de Desenho de Rhode Island.
E você? Onde sua fam ília m ora em Calcutá?
Em Tolly gunge.
Ah, onde fica o clube de golfe.
Isso.
Você está na Casa Internacional?
Preferi um lugar com cozinha. Queria eu m esm o preparar m inhas refeições.
E está se dando bem ? Fez am igos?
Alguns.
Suportando bem o frio?
Até agora, sim .
Kate, por favor, anote nosso núm ero de telefone para ele.
Ela foi para o final do caderno e arrancou um a página. Anotou o núm ero e estendeu a Subhash.
Qualquer coisa que precisar, é só ligar, disse Narasim han, dando-lhe um tapinha nas costas, voltando para os filhos.
Obrigado.
Um dia desses vou fazer m eu arroz com iogurte para você, gritou Narasim han.
Mas o convite nunca veio.
O cam pus de oceanografia, onde Subhash tinha a m aioria das aulas, dava para a baía de Narragansett. Todos os dias de m anhã ele deixava o vilarej o de ônibus, percorrendo um a estrada arborizada onde se enxergavam caixas de correio fincadas em estacas, m as m uitas casas ficavam fora de vista. Passava por um sem áforo e um a torre de observação de m adeira, e depois descia a encosta até a baía.
O ônibus atravessava um estuário sinuoso até um a área que parecia m ais isolada. Aqui o ar nunca era parado e as j anelas do ônibus chacoalhavam . Aqui a qualidade da luz era outra.
Os prédios dos laboratórios pareciam pequenos hangares, estruturas m etálicas de aço corrugado e chapas de cobertura. Ele estudava os gases dissolvidos na solução da água do m ar, os isótopos encontrados nos sedim entos profundos. O iodo presente nas algas, o carbono no plâncton, o cobre no sangue dos caranguej os.
No sopé do cam pus, na base de um m onte íngrem e, havia um a pequena praia j uncada de seixos cinzentos e am arelos, onde Subhash gostava de com er seu alm oço. Dava vista para a baía e as duas pontes que levavam às ilhas m ais adiante. A ponte Jam estown se destacava, a ponte Newport, a alguns quilôm etros de distância, se via m enos. Nos dias nublados, o som de um a sirena de nevoeiro atravessava o ar a intervalos, tal com o em Calcutá tocavam trom pas para afastar o m al.
Algum as das ilhas m enores, às quais só era possível chegar de barco, não tinham eletricidade nem água encanada. Condições em que alguns am ericanos ricos gostavam de passar o verão, segundo o que lhe disseram . Num a delas havia espaço apenas para um farol, nada m ais. Todas as ilhas, por m enores que fossem , tinham nom e: Paciência e Prudência, Raposa e Bode, Coelho e Rosa, Esperança e Desespero.
No alto do m orro, subindo da praia, havia um a igrej a de tábuas brancas dispostas com o um a colm eia. A parte central se afinava e subia em agulha. A pintura j á não era nova, a m adeira por baixo absorvendo m uita m aresia, enfrentando m uitas tem pestades que chegavam à costa de Rhode Island.
Um a tarde, ele ficou surpreso ao ver um a fila de carros na estrada que levava à igrej a. Pela prim eira vez viu que as portas da frente estavam abertas. Do lado de fora havia um grupo de adultos e crianças, cerca de vinte.
Viu de relance um casal de m eia-idade, recém -casado. Um noivo grisalho com um cravo na lapela, um a m ulher de casaco e saia azul-claro. Sorriam nos degraus da igrej a, abaixando a cabeça enquanto os convidados j ogavam arroz. Notou que m ais pareciam pais dos noivos, m ais próxim os da geração de seus pais do que da dele m esm o.
Im aginou que fossem segundas núpcias. Duas pessoas trocando de cônj uge, dividindo-se em dois, conexões ao m esm o tem po cortadas e duplicadas, com o células. Ou talvez fosse um casal de viúvos, am bos tendo perdido o cônj uge no m eio da vida. Um a viúva e um viúvo com filhos crescidos, casando outra vez e seguindo em frente.
Por algum a razão, a igrej a lhe lem brou a pequena m esquita que ficava na esquina da rua onde sua fam ília m orava em Tolly gunge. Outro local de culto destinado a outros, que fora um m arco em sua vida.
Um dia, quando a igrej a estava vazia, Subhash subiu pela trilha de pedra até a entrada. Sentiu um a vontade estranha de abraçá-la, era de proporções tão estreitas e reduzidas que parecia quase caber na extensão de seus braços. A única entrada era a porta arredondada verde-escura, na frente. Por cim a, as j anelas, tam bém arredondadas, pareciam fendas finas. Espaço onde cabia a m ão, m as não um rosto.
A porta estava trancada e assim ele deu a volta, ficando na ponta dos pés e espiando pelas j anelas. Algum as vidraças eram de vidro verm elho, intercaladas por outras claras.
Viu no interior bancos cinzentos com acabam ento verm elho. Era um interior ao m esm o tem po antigo e vibrante, banhado de luz. Sentiu vontade de se sentar lá dentro, de sentir as paredes pálidas ao redor. Por cim a o teto sim ples, de ângulos agudos.
Pensou no casal que vira, casando-se. Im aginou-os um ao lado do outro.
Pela prim eira vez, pensou em seu próprio casam ento. Pela prim eira vez, talvez porque em Rhode Island sem pre sentisse que lhe faltava um a parte de si, desej ou com panhia.
Perguntou-se que m ulher os pais escolheriam para ele. Perguntou-se quando seria. Casar significaria voltar para Calcutá. Nesse sentido, ele não tinha nenhum a pressa.
Sentia orgulho por ter vindo sozinho para os Estados Unidos. Aprender a agir assim , com o um a vez devia ter aprendido a ficar de pé, a andar e a falar. Quis tanto sair de Calcutá, não só por causa de seus estudos, m as tam bém — agora podia adm itir isso para si m esm o — para dar um passo que Uday an nunca daria.
No fundo, foi isso que o m otivou. Mas a m otivação não tinha feito nada para prepará-lo. Apesar da rotina que se form ava, todos os dias pareciam incertos, im provisados. Aqui, neste local rodeado pelo m ar, seguia à deriva afastando-se do ponto de origem . Aqui, separado de Uday an, ignorava m uitas coisas.
Na m aioria das vezes, Richard não estava em casa à noite na hora do j antar, m as, quando por acaso estava, ele aceitava o convite de Subhash para dividir a refeição, trazendo o cinzeiro e um m aço de cigarros, oferecendo um a de suas cervej as enquanto Subhash preparava o caril e cozinhava um a panela de arroz. Em troca, Richard com eçou a levar Subhash de carro ao superm ercado da cidade, um a vez por sem ana, dividindo as despesas.
Num final de sem ana, os dois precisando de um descanso nos estudos, Richard levou Subhash até um estacionam ento vazio no cam pus e com eçou a ensiná-lo a trocar as m archas, para que Subhash pudesse tirar carteira de m otorista e pegar o carro em prestado quando precisasse.
Quando Richard considerou que Subhash estava em condições, deixou que dirigisse pela cidade e fosse até Point Judith, o extrem o de Rhode Island que dava em lugar nenhum . Foi em ocionante dirigir, reduzir a velocidade no sem áforo e depois acelerar na estrada deserta ao longo do m ar.
Ele atravessou Galilee, por onde iam e vinham os barcos pesqueiros, ao lado dos m angues onde entravam hom ens de galochas para pegar m ariscos. Ao lado de barracos fechados oferecendo frituras do m ar em m enus pintados com o grafite na fachada. Chegaram a um farol num a colina verdej ante. Pedras escuras cobertas de algas, um a bandeira que se retorcia com o cham a no ar.
Chegaram a tem po de ver o sol se pondo atrás do farol, a espum a branca das ondas se espalhando pelas pedras, a bandeira e a água azul encapelada coruscando. Saíram do carro para fum ar um cigarro e sentir os borrifos do m ar no rosto.
Falaram sobre My Lai. Os detalhes acabavam de vir à tona. Relatos de um m assacre, corpos em valas, um tenente am ericano sob investigação.
Vai haver um protesto em Boston. Tenho uns am igos que podem nos hospedar à noite. Por que você não vem com igo?
Acho que não.
Você não fica com raiva da guerra?
Não m e cabe obj etar.
Subhash descobriu que podia ser sincero com Richard. Richard escutava, em vez de contradizer. Não tentava m eram ente convertê-lo.
Quando voltavam para o vilarej o, Richard perguntou sobre a Índia, o sistem a de castas, a pobreza. De quem era a culpa?
Não sei. Hoj e em dia todo m undo põe a culpa nos outros.
Mas tem solução? Qual a posição do governo?
Subhash não sabia descrever a um am ericano a política irascível, a sociedade com plicada da Índia. Disse que era um lugar antigo que tam bém era j ovem , ainda lutando para conhecer a si m esm o. Você devia conversar com m eu irm ão, falou ele.
Você tem irm ão?
Subhash assentiu.
Você nunca m encionou isso. Com o ele se cham a?
Depois de um a pausa, ele pronunciou o nom e de Uday an pela prim eira vez desde que chegara a Rhode Island.
Bom , o que Uday an diria?
Ele diria que o problem a é um a econom ia agrária de bases feudais. Diria que o país precisa de um a estrutura m ais igualitária. Reform as agrárias m elhores.
Parece um m odelo chinês.
E é. Ele apoia Naxalbari.
Naxalbari? O que é isso?
Alguns dias depois, em seu escaninho de correspondência no departam ento, Subhash encontrou um a carta de Uday an. Texto em bengali, tinta azul-escura sobre o azul m ais claro do aerogram a. Tinha sido enviada em outubro; agora era novem bro.
Se esta chegar a você, destrua. Não há por que comprometer nenhum de nós. Mas, como minha única chance de invadir os Estados Unidos é por carta, não pude resistir. Acabei de voltar de outra viagem pelo interior. Conheci o camarada Sanyal. Pude sentar com ele, falar com ele. Tive de usar uma venda nos olhos. Alguma hora te conto.
Por que você não tem escrito? Decerto ficou enfeitiçado pela flora e fauna da maior
potência capitalista do mundo. Mas, se você conseguir se desprender de si mesmo, tente se tornar útil. Ouço dizer que o movimento pacifista aí está a todo vapor.
Aqui os desdobramentos são encorajadores. Um Exército Vermelho se está
formando, indo aos vilarejos, divulgando citações de Mao Ts é-Tung. Nossa geração é a vanguarda; a luta estudantil faz parte da luta camponesa armada, diz Majumdar.
Você vai voltar para um país transformado, uma sociedade mais justa, tenho certeza
disso. Uma casa reformada, também. Papai pegou um empréstimo. Estão aumentando o que já temos. Parecem achar que é necessário. Que não nos casaremos e criaremos família sob o mesmo teto, se a casa continuar como está.
Falei a eles que era um desperdício, uma extravagância, já que você nem mora
aqui. Mas não me ouviram e agora é tarde demais, veio um arquiteto e o andaime está montado, dizem que vai ficar pronto em um ou dois anos.
Os dias sem você não têm graça. E mesmo que eu não o perdoe por não apoiar um
movimento que somente trará melhorias à vida de milhões de pessoas, espero que você possa me perdoar por lhe dar preocupações. Você vai se apressar nisso aí que anda fazendo? Um abraço de seu irmão.
Term inava com um a citação. A guerra trará a revolução; a revolução encerrará a guerra.
Subhash releu a carta diversas vezes. Era com o se Uday an estivesse ali, falando, espicaçando. Sentiu que a lealdade entre eles, o afeto m útuo se estendia por m etade do m undo. Estendia-se a ponto de rom per, devido a tudo o que agora se interpunha entre eles, m as ao m esm o tem po recusava-se a rom per.
Talvez a carta ficasse em segurança entre seus pertences em Rhode Island. Estava escrita em bengali, Subhash gostaria de guardar. Mas sabia que Uday an tinha razão e que o conteúdo, a referência a Sany al, caindo em m ãos erradas, podia am eaçar a am bos. No dia seguinte, ele a levou para seu laboratório, ao final da sessão dem orando-se sob algum pretexto, esperando ficar sozinho. Cerim oniosam ente, colocou a carta na bancada de granito escuro, acendeu um fósforo, assistindo enquanto as beiradas enegreciam , as palavras do irm ão desapareciam .
Tenho estudado processos químicos próprios dos estuários, sedimentos que oxidam na maré baixa. Faixas de bancos de areia correm paralelas à terra firme. O sulfeto de ferro deixa grandes manchas negras na areia.
Por estranho que pareça, quando o céu está carregado, quando as nuvens estão
baixas, algo na paisagem costeira daqui, a água e a vegetação, o cheiro das bactérias quando visito os mangues, me levam de volta para casa. Penso na baixada, nos arrozais. Aqui não tem nenhum arroz, claro. Só mexilhões e amêijoas, que são os tipos de mariscos que os americanos gostam de comer.
Eles chamam o capim-marinho de espartina. Hoje aprendi que ela tem glândulas
especiais para excretar o sal, e por isso costuma estar coberta por um resíduo de cristais. Os caracóis sobem e descem pelos caules. Suas raízes estabilizam a orla. Sabia que ela se propaga espalhando rizomas? Parecido com os manguezais que cresciam antigamente em Tollygunge. Precisava te contar.
Agora a área verde do cam pus estava com o que forrada por um m ar de ferrugem , as folhas m ortas correndo e voando ao vento. Ele passou pelo am ontoado, que lhe batia pelo tornozelo. As folhas às vezes se erguiam ao seu redor, com o se houvesse algum a coisa viva subm ersa entre elas, am eaçando m ostrar a face antes que se assentassem novam ente.
Agora tinha carteira de m otorista e estava com as chaves do carro de Richard. Richard havia pegado um ônibus para ir passar o Dia de Ação de Graças com a fam ília. O cam pus estava fechado e não havia nenhum lugar para ir; por alguns dias, até a biblioteca e o centro acadêm ico ficaram fechados.
Às tardes, ele pegava o carro e andava sem rum o certo. Atravessava a ponte até Jam estown, até Newport e voltava. No rádio, ouvia m úsica pop, o boletim m eteorológico na terra e no m ar. Ventos do norte, dez a quinze nós, virando para o nordeste na parte da tarde. Mares de dois a quatro pés. Visibilidade, uma a três milhas náuticas.
Escurecia cedo, acendia os faróis às cinco. Um a noite, na hora do j antar, resolveu com er berinj ela à parm egiana num restaurante italiano aonde às vezes ia com Richard. Sentou-se ao balcão, tom ando cervej a, com endo o prato pesado, assistindo a um j ogo de futebol am ericano na tevê. Era um dos poucos fregueses. Ao pagar a conta, avisaram -no que o restaurante fecharia no Dia de Ação de Graças.
Naquele dia as estradas estavam vazias, toda a cidade em descanso. Fosse qual fosse a ocasião, fosse qual fosse a com em oração, não se via nada. Nenhum a procissão, nenhum festej o público de que tivesse notícia. Tirando um grupo que se reunira para um a partida de futebol no cam pus, não havia nada para olhar.
Dirigiu pelos bairros residenciais, áreas onde m oravam alguns professores. Viu fum aça saindo das cham inés, carros com placas de vários estados, estacionados nas ruas forradas de folhas.
Seguiu até a linha da praia em Charlestown, onde o capim -m arinho agora estava castanho-claro. O sol j á baixava, com um fulgor intenso. Aproxim ando-se de um lago salgado, ele parou no acostam ento.
Entre a vegetação havia um a garça, tão próxim a que Subhash podia ver o âm bar dos olhos, o corpo cor de ardósia tingido pela luz do entardecer. Estava com o pescoço curvado num S, o bico fino e com prido com o o abridor de cartas de bronze que seus pais lhe deram quando saiu da Índia.
Subhash abriu o vidro da j anela. A garça estava parada, m as então alongou e contraiu o pescoço em curva, com o se percebesse o olhar de Subhash. As garças reais em Tolly gunge, rem exendo a lam a em busca de alim ento, eram m ais m agras. Nunca tão form osas, tão m aj estosas quanto esta.
Queria ficar no carro observando enquanto a ave estivesse lá, olhando o m ar. Mas na estrada de terra estreita, norm alm ente vazia, veio um carro querendo passar, obrigando Subhash a seguir em frente. Quando fez o retorno, a garça j á tinha ido em bora.
Na tarde seguinte, ele voltou ao m esm o local. Percorreu a m argem do pântano, procurando a ave. Ficou olhando o horizonte enquanto a luz se dourava e o sol com eçava a se pôr. Perguntou-se se a garça teria m igrado por causa da estação. Então ouviu de repente um grasnido áspero e repetido.
Era a garça levantando voo sobre a água, batendo as grandes asas com vagar e decisão, parecendo ao m esm o tem po livre e tolhida. O pescoço com prido estava encolhido, as pernas escuras pendendo atrás. No céu baixo a silhueta era negra, nítidas as pontas das penas prim árias, as patas em forquilha.
Ele voltou no terceiro dia, m as não conseguiu vê-la em parte algum a. Pela prim eira vez na vida, sentiu um am or desesperançado.
Com eçou um a nova década: 1970. No inverno, quando as árvores estavam nuas, o solo duro coberto de neve, chegou um a segunda carta de Uday an, desta vez dentro de um envelope.
Subhash abriu e encontrou um a pequena foto em branco e preto de um a m oça, em pé. Tinha os braços esguios cruzados sobre o peito.
Ela estava à vontade, m as parecia um pouco cética. Tinha a cabeça voltada um pouco de lado, de boca fechada, m as com lábios num leve sorriso oblíquo. Usava um a trança, que descia por um dos om bros. Tinha pele m uito m orena.
Era atraente sem ser bonita. Em nada se parecia com as m oças sérias que a m ãe costum ava apontar a ele e a Uday an nos casam entos, quando estavam na faculdade. Era um retrato espontâneo, em algum lugar das ruas de Calcutá, na frente de um edifício que não soube identificar. Perguntou-se se Uday an teria tirado a foto. Se teria despertado aquela expressão de alegria em seu rosto.
Esta serve como apresentação formal, e é o anúncio mais formal que você receberá. Já é hora de você saber. Eu a conheço faz alguns anos. Deixamos a coisa quieta, mas você sabe como é. Ela se chama Gauri e está terminando o curso de filosofia na Presidency. Moça de Calcutá do Norte, da Cornwallis Street. Os pais morreram, ela mora com o irmão — amigo meu — e alguns parentes. Gosta mais de livros do que de joias e sáris. Pensa como eu.
Como o presidente Mao, rejeito a ideia de casamento arranjado. Esta é uma coisa,
reconheço, que admiro no Ocidente. E assim me casei com ela. Não se preocupe, tirando o fato de termos fugido juntos, não há nenhum escândalo. Você não vai virar tio. Pelo menos não por enquanto. Há crianças demais que são vítimas de nossa estrutura social deficiente. Primeiro é preciso consertar isso.
Gostaria que você estivesse aqui, mas não perdeu nenhum tipo de comemoração.
Foi um registro civil. Contei à Ma e ao Baba depois de consumado, como estou te contando agora. Falei para eles: ou vocês a aceitam e voltamos juntos para Tollygunge, ou vamos morar como marido e mulher em algum outro lugar.
Ainda estão em choque, bravos comigo e, sem nenhuma razão, também com Gauri,
mas agora estamos com eles, aprendendo a viver juntos. Não suportam a ideia de te contar o que fiz. Então estou eu mesmo te contando.
No final da carta, ele pedia a Subhash que com prasse alguns livros para Gauri, dizendo que eram m ais fáceis de encontrar nos Estados Unidos. Nem se incomode em mandar pelo correio, pois se extraviarão ou serão roubados. Traga quando vier. Você vai aparecer para me dar parabéns num dia desses, não vai?
Desta vez, ele não releu a carta. Um a vez só bastava.
Uday an tinha em prego, m as m al dava para sustentar a si m esm o, quem dirá a um a fam ília. Não tinha nem vinte e cinco anos. A casa logo ficaria com espaço suficiente, m as para Subhash a decisão parecia im pulsiva, um a im posição aos pais, prem atura. E ficou surpreso que Uday an, tão devotado à sua política, tão desdenhoso das convenções, de repente se casasse.
Uday an não só se casara antes de Subhash, com o se casara com um a m ulher escolhida por ele m esm o. Por iniciativa própria, dera um passo que Subhash acreditava que cabia aos pais. Aí estava m ais um exem plo de Uday an passando à frente de Subhash, negando que fosse o segundo. Mais um exem plo de fazer as coisas à sua m aneira.
No verso da foto, a data estava anotada na letra de Uday an. Era de m ais de um ano atrás, de 1968. Uday an a conhecera e se apaixonara por ela quando Subhash ainda estava em Calcutá. Durante todo aquele tem po, Uday an guardara Gauri só para si.
Mais um a vez Subhash destruiu a carta. A foto ele guardou, no final de um dos livros de curso, com o prova do que Uday an havia feito.
De tem pos em tem pos, ele tirava a foto e olhava. Perguntava-se quando conheceria Gauri e o que pensaria a seu respeito, agora que tinham um a ligação. E um a parte de si, m ais um a vez, sentia-se derrotada por Uday an, por ter encontrado um a m oça com o aquela.