Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 21 de 37

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Aguapés

Capítulo 7

 

Na frente do conj unto residencial, havia um trecho largo de gram ado em declive. O ônibus escolar parava do outro lado. Nos prim eiros dias do prim eiro ano de escola, Gauri atravessava o gram ado com Bela, esperando j untas o ônibus, despedindo-se dela, então voltando à tarde para pegá-la.

Na sem ana seguinte, Bela quis ir sozinha, com o faziam as outras crianças do conj unto. Havia um a ou duas m ães que sem pre iam e disseram a Gauri que ficavam contentes em garantir que todas as crianças entrassem a salvo no ônibus.

Mesm o assim , Gauri observava quando Bela descia pela entrada do prédio e atravessava o gram ado. Afastava a m esa de refeições em que trabalhava j unto à j anela. O ônibus chegava sem pre na m esm a hora e esperava apenas uns cinco m inutos. As lancheiras alinhadas na calçada m arcavam os lugares das crianças na fila.

Ela gostou dessa pequena m udança na rotina m atinal. Fazia diferença o fato de não precisar se vestir, não precisar sair do prédio e falar de am enidades com outras m ães, antes de se sentar para estudar. Estava fazendo um curso independente com o professor Weiss, lendo Kant, com eçando a entendê-lo pela prim eira vez.

Certa m anhã, depois de um a noite de chuvas torrenciais, ainda caindo um a garoa, ela entregou a lancheira e despachou Bela. Estava ainda de cam isola e penhoar. Tinha o dia para si até as três da tarde, quando term inava o horário de Bela na escola, o ônibus a deixava ali e ela voltava pela ladeira do gram ado.

Mas hoj e, um m inuto depois, bateram à porta. Bela tinha voltado.

Esqueceu algum a coisa? Quer o chapéu de chuva?

Não.

Então o que é?

Venha ver.

Estou ocupada.

Bela a puxou pela m ão. Mãe, você precisa vir ver.

Gauri tirou os chinelos e o penhoar e pôs botas e um a capa de chuva. Saiu lá fora, abrindo um a som brinha.

O ar estava úm ido, carregado de um cheiro forte e salobro. Bela apontou o pavim ento do cam inho. Estava forrado de m inhocas m ortas; tinham saído do solo encharcado para m orrer. Não duas ou três, m as centenas. Algum as estavam enroladas, outras achatadas. O corpinho rosado, os cinco corações, estraçalhados.

Bela fechou os olhos com força. Retraiu-se à im agem , reclam ou do cheiro. Disse que não queria pisar nelas. E tinha m edo de atravessar o gram ado de onde tinham vindo.

Por que são tantas?

Às vezes acontece. Saem para respirar quando a terra fica m olhada dem ais.

Me leva no colo?

Você está grande dem ais.

Então posso ficar em casa?

Gauri olhou para onde estavam as outras crianças, de capuz e guarda-chuva. Parece que conseguiram , disse ela.

Por favor? A voz de Bela era um fiozinho. As lágrim as se form aram e então escorreram pelo rosto.

Outra m ãe poderia concordar. Outra m ãe poderia levá-la de volta, deixar que ficasse em casa, que faltasse um dia à escola. Outra m ãe poderia achar que não era um desperdício passar o tem po com ela.

Gauri lem brou a felicidade de Subhash naqueles dias do inverno passado, quando tinha nevado m uito e quase tudo estava fechado. Tinha passado um a sem ana inteira em casa com Bela, transform ando os dias em férias. Jogando, lendo histórias, levando-a para brincar no cam pus, na neve.

Então lem brou outra coisa. Com o, no auge da repressão, largavam os cadáveres dos m em bros do partido nos riachos, os cam pos perto de Tolly gunge. Eram deixados pela polícia para chocar as pessoas, para lhes causar revolta. Para deixar claro que o partido não sobreviveria.

O ônibus escolar estava chegando.

Vam os.

Mas Bela abanou a cabeça. Não.

Se você não pegar o ônibus, vam os a pé até a escola. Passando por m ais m inhocas do que estas.

Bela continuava no lugar e Gauri agarrou sua m ão com força, obrigando-a a andar, puxando-a pela gram a. Agora Bela soluçava alto, desesperada.

As outras m ães e crianças, reunidas no ponto de ônibus, tinham se virado para olhar. O ônibus parou, a porta se abriu, as crianças subiram . O m otorista ficou esperando por elas.

Não faça cena, Bela. Não sej a covarde.

Vi m atarem seu pai na m inha frente, poderia dizer.

Não gosto de você, gritou Bela, desvencilhando-se. Nunca vou gostar de você, pelo resto da vida.

E correu em frente. Largando a m ãe, que corria atrás cham ando por ela. Não querendo que Gauri a acom panhasse no resto do cam inho.

Tinha sido um a explosão infantil, arrogante, grandiosa. À tarde, quando Bela chegou em casa, o episódio fora esquecido. Mas as palavras de Bela tinham atravessado Gauri com o um a profecia.

Quero que ela saiba, disse a Subhash naquela noite, parando de datilografar um texto, estando Bela na cam a. Subhash estava sentado à m esa da cozinha, verificando o talão de cheques, pagando contas.

Saiba o quê?

Quero contar sobre Uday an.

Subhash a fitou. Ela viu m edo em seus olhos. Lem brou quando Uday an estava escondido nos aguapés e a arm a na garganta dela. Percebeu que agora a arm a estava em suas m ãos. Ela podia tirar a ele tudo o que lhe im portava.

É a verdade, continuou.

Ele abanou a cabeça. Sua expressão m udara. Levantou-se para encará-la.

Ela m erece saber, Subhash.

É nova dem ais. Tem só seis anos.

Quando, então?

Quando ela estiver pronta. Agora faria m ais m al do que bem .

Gauri se preparara para insistir no assunto, em rem over a casca falsa da vida deles, m as sabia que ele tinha razão. Seria dem ais para Bela absorver. E talvez afetasse a aliança entre Subhash e Bela, da qual viera a depender. Faria com que Bela olhasse Subhash de outra m aneira.

Está bem , então. Virou-se para sair.

Espere.

O que é?

Estam os de acordo?

Já falei que sim .

Então m e prom eta um a coisa.

O quê?

Prom eta que não vai contar sozinha. Que contarem os j untos algum dia.

Ela prom eteu, m as sentiu o peso daquilo, afundando-se dentro de si. Era o peso de m anter a ilusão de que ele era o pai de Bela. Um peso que sem pre afundava, em vez de aflorar.

Percebeu que esta era a única coisa que ele continuava a precisar dela. Que estava com eçando a desistir do resto.

Ela notou um hom em que a olhava, virando levem ente a cabeça quando ela passava. O olhar dele a acom panhava, em bora nunca parasse para se apresentar — não havia razão para isso. Ela sabia que não havia m uitas m ulheres com sua aparência no cam pus. A m aioria das outras indianas usava sári. Apesar da calça j eans, das botas e do cardigã com cinto, ou talvez por causa deles, Gauri sabia que se destacava.

No com eço, ele lhe pareceu pouco atraente, fisicam ente. Na casa dos cinquenta anos, im aginou ela, um pouco gordo na cintura. Os olhos eram m iúdos, inescrutáveis. Cabelo claro um pouco espetado. Lábios finos, a pele do rosto sulcada, parecendo ressecada.

Ele usava paletó de veludo canelado m arrom , com suéter por baixo. Levava na m ão um a pasta velha de couro. Em bora se cruzassem com um a previsibilidade côm ica, reconhecendo-se em silêncio, ela nunca o viu sorrir.

Supôs que fosse um professor. Não fazia ideia a que departam ento pertencia. Um dia, notou um a aliança no dedo dele. Via-o quando ia para as aulas de alem ão, sem pre no m esm o trecho do cam inho.

Um dia, olhou para trás para vê-lo. Encarando-o, desafiando-o a parar, a dizer algum a coisa. Não tinha a m enor ideia do que faria, m as com eçou a querer, a torcer que acontecesse. Sentia o corpo reagir ao vê-lo, o coração batendo m ais rápido, os m em bros se retesando, um a um idade entre as pernas.

Procurando Subhash na cam a, im aginava que estava com aquele hom em , num quarto de hotel ou na casa dele. Sentindo sua boca, seu sexo encostando no dela.

Às quartas-feiras, os dias em que o via, ela com eçou a se arrum ar para o encontro. A aula era de m anhã, o que significava que daria tem po. Um pouco m ais de um a hora, para ir com ele e voltar antes de ir pegar Bela. Nas terças, ela preparava um j antar m aior para o dia seguinte, para com pensar o eventual lapso em seu cronogram a.

Mas, na outra vez, ela o viu num a segunda-feira à tarde, em outra parte do cam pus. Reconheceu-o de costas. Precisava pegar Bela dali a m eia hora, estava indo à biblioteca para pegar um livro, m as m udou de rota e com eçou a segui-lo, apressando-se para acom panhá-lo, m as ao m esm o tem po m antendo algum a distância.

Seguiu-o ao centro acadêm ico. Sentia suas inibições se dissolvendo. Iria até ele, olharia para ele. Por favor, diria.

Entrou atrás dele na sala de dois am bientes com sofás j unto às paredes e televisões nos cantos. Ele parou para pegar um exem plar do j ornal do cam pus, dando um a rápida olhada. Então viu que ele ia até um dos sofás, inclinava-se para beij ar um a m ulher que estava esperando. Tocava-lhe o j oelho.

Ela se refugiou no único lugar que lhe ocorreu, o enorm e banheiro fem inina, em purrando a porta pesada, cruzando o tapete espesso da antessala, trancando-se num banheiro. Estava sozinha, não havia ninguém nos banheiros vizinhos e não conseguiu se conter, levou a m ão ao seio, acariciando-o, a outra m ão abrindo o zíper do j eans, encaixando os dedos na saliência do osso, a testa apoiada no m etal frio da porta.

Levou apenas um instante para se acalm ar, para term inar. Lavou as m ãos na pia, alisou o cabelo, viu a cor que lhe subira ao rosto. Atravessou a sala a passos largos, sem parar para ver se o hom em e sua com panheira estavam lá.

Na quarta-feira seguinte, tom ou outro cam inho até a sala de aula. Garantiu que nunca m ais iria topar com ele, tom ando a direção oposta se o visse.

Um a tarde, Bela estava ocupada com um a tesoura e um livro de figurinhas de bonecas para recortar. Era j ulho, e a escola de Bela tinha fechado durante as férias; o cam pus estava parado. Subhash estava dando um curso de verão em Providence, passando o resto do tem po num laboratório em Narragansett. Gauri passava os dias com Bela, sem interrupção, sem carro para irem passear em algum lugar.

Gauri estava sentada com seu livro ao lado, a Ética de Espinosa, tentando ler um a seção até o final. Mas algo com eçava a m udar: vinha se tornando possível ler um livro e estar com Bela ao m esm o tem po. Possível estar j untas, fazendo coisas separadas.

A televisão estava desligada, o apartam ento quieto exceto pelo som interm itente da tesoura de Bela, recortando devagar o papel grosso.

Indo à cozinha para fazer chá, Gauri viu que estavam sem leite. Voltou à sala. Viu a nuca de Bela, reclinada sobre sua tarefa. Estava falando consigo m esm a, criando um diálogo em várias vozes entre as bonecas de papel.

Calce os sapatos, Bela.

Por quê?

Vam os sair.

Estou ocupada, disse ela, de repente parecendo um a m enina de doze e não de seis anos. Com o se, com um a tesourada, tivesse cortado sua necessidade de Gauri, elim inando-a.

Surgiu a ideia. A loj a ficava logo atrás do prédio, a dois m inutos de cam inhada, Dava para enxergá-la pela j anela da cozinha, passando a caçam ba de lixo, a m áquina de refrigerantes e os carros estacionados no fundo.

Vou descer para pegar a correspondência.

Sem parar para refletir m uito, ela saiu, trancando a porta. Desceu a escada, atravessou o estacionam ento, entrou no dia quente e frondoso.

Mais corria do que andava. Os pés estavam leves e ligeiros. Na loj a, sentiu-se com o um a crim inosa, preocupada que o senhor no caixa, sem pre gentil com Bela, pensasse que Gauri estava roubando o leite que fora com prar.

Onde está sua filha hoj e?

Com um a am iga.

Ele sorriu e lhe deu um a bala de hortelã do frasco que ficava ao lado da m áquina registradora. Diga que fui eu.

Ela contou o troco depressa, m as com cuidado. A transação era dem ais para ela, com o na prim eira vez em que estivera lá. Lem brou-se de agradecer. Jogou a bala fora antes de entrar no prédio, escondendo o leite na sacola a tiracolo.

No dia seguinte, arrum ou as coisas para Bela à m esa do café na frente da televisão. Pensou em todos os detalhes: um copo de água se ela sentisse sede, um prato generoso de uvas e biscoitos. Alguns lápis de reserva, caso se quebrasse a ponta do que ela estava usando para desenhar. Meia hora de preparativos cuidadosos para cinco m inutos de ausência.

Os cinco m inutos viraram dez, às vezes m ais. Quinze m inutos para ficar sozinha, para desanuviar a cabeça. Era o tem po de atravessar correndo a praça central do cam pus para ir até a biblioteca e devolver um livro, tarefa sim ples que podia fazer a qualquer hora, m as que decidira fazer naquele m om ento. Tem po de ir à agência de correio e m andar um a carta, pedindo para se m atricular num dos program as de doutorado que Otto Weiss sugerira. Tem po de pensar que, sem Bela ou Subhash, sua vida podia ser diferente.

Tornou-se um desafio, um quebra-cabeças para resolver, para m anter o espírito aguçado. Um a m aratona pessoal que se sentia obrigada a correr constantem ente, crendo que, se parasse, perderia a capacidade de realizá-la. Antes de sair, verificava se o fogão estava desligado, as j anelas fechadas, as facas fora de alcance. Não que Bela fosse daquele tipo de criança.

Assim com eçou de tarde. Não todas as tardes, m as várias, até dem ais. Desorientada com o senso de liberdade, devorando a sensação com o um m endigo devora a com ida.

Às vezes, ia sim plesm ente até a loj a e voltava, sem com prar nada. Às vezes realm ente pegava a correspondência, sentava num banco do cam pus e verificava. Ou ia até o centro acadêm ico para pegar um exem plar do j ornal do cam pus. Então voltava, correndo escada acim a, ao m esm o tem po triunfante e aterrada consigo m esm a. Destrancava a porta, e lá estava Bela, tal com o a havia deixado. Nunca suspeitando, nunca perguntado aonde ela tinha ido.

Então, num dia daquele verão, Subhash voltou m ais cedo do que o habitual, pretendendo aproveitar o final dos dias quentes e levar Bela à praia.

Encontrou Bela escondida debaixo de um a das tendas que às vezes fazia com as m antas que tirava da cam a, pondo por cim a do sofá e da m esa de café na sala. Ficava contente dentro dessa estrutura, brincando sozinha.

Disse a ele que a m ãe tinha ido buscar a correspondência. Mas Gauri não estava no térreo do prédio. Subhash sabia disso, pois ele m esm o acabara de pegar a correspondência e subira as escadas.

Dez m inutos depois, Gauri voltou com um j ornal. Não tinha percebido o carro de Subhash no estacionam ento. Com o ele não telefonara para avisar que estava saindo m ais cedo, não havia por que pensar que j á estivesse em casa.

Aí está ela, disse Bela quando Gauri entrou. Viu, eu disse que ela sem pre volta.

Mas Subhash, que estava de pé j unto à j anela, de costas para a sala, levou vários m inutos antes de se virar.

De início, ele não lhe fez nenhum a censura. Durante um a sem ana, seu único castigo foi se recusar a falar, se recusar a reconhecer sua presença, tal com o seus sogros a tinham ignorado depois da m orte de Uday an. Convivendo no apartam ento com o se ela fosse invisível, com o se apenas Bela estivesse ali, a fúria contida. No dia em que rom peu o silêncio, ele disse:

Minha m ãe tinha razão. Você não m erece ter filhos. Com você, esse privilégio foi um desperdício.

Ela se desculpou, disse que aquilo nunca m ais se repetiria. Em bora o odiasse por insultá-la, sabia que a reação dele era j ustificada e que nunca a perdoaria pelo que tinha feito.

Em bora continuassem a viver na m esm a casa, ele se afastou dela, tal com o ela tinha se afastado dele. O am plo espaço para si que ela queria no casam ento, agora ele lhe dava de bom grado. Não queria m ais tocar nela na cam a, não aventava m ais a possibilidade de um segundo filho.

Quando ela foi aceita na prim avera seguinte num program a de doutorado em Boston, quando lhe ofereceram pagar as despesas de transporte, ele não fez nenhum a obj eção. Não disse nada quando ela com eçou a pegar o ônibus para Boston duas vezes por sem ana ou quando com binou com estudantes da graduação para cuidar de Bela nos dias em que estivesse ausente. Não a criticou por tum ultuar a rotina nem por querer passar aquele tem po fora.

Por causa de Bela, estava excluída a possibilidade de um a separação. O cerne do casam ento era Bela e, apesar dos incôm odos criados por Gauri, apesar de sua nova program ação, suas idas e vindas, o fato de Bela perm anecia.

Além disso, era um a estudante, sem renda. Com o Bela, Gauri não sobreviveria sem ele.