Aguapés
Capítulo 4
O esforço de viver com ela desapareceu. No lugar, um a paternidade que era exclusiva, um vínculo que não teria de ser revisto ou desfeito. Tinha sua filha; só ele sabia que não era sua. Os elem entos reduzidos de sua vida ficavam pouco à vontade, um ao lado do outro. Não era um a vitória nem um a derrota.
Ela passou para o sétim o ano. Estava aprendendo espanhol, ecologia, álgebra. Ele esperava que o novo prédio, os novos professores e cursos, a rotina de ir de um a sala para outra, iriam distraí-la. No com eço, assim pareceu. Viu com o ela organizava um fichário de três argolas, escrevendo os nom es das disciplinas nos m arcadores, pregando com fita adesiva o horário dos cursos dentro do fichário.
Ele reorganizou seu horário de trabalho, deixando de ir tão cedo, fazendo questão de estar em casa de m anhã para preparar o desj ej um dela e vê-la sair. Observava diariam ente enquanto ela ia até o ponto de ônibus, a m ochila nas costas, cheia de livros escolares.
Um dia, ele percebeu que, sob a cam iseta, sob o pulôver, a superfície do peito deixara de ser plana. Ela passara por algum a transform ação em Tolly gunge. Estava à beira de um novo tipo de beleza. Florescendo, apesar de espezinhada.
Ficou m ais m agra, m ais calada, fechando-se em si m esm a nos finais de sem ana. Com portando-se com o Gauri costum ava fazer. Não o procurava m ais, querendo passear aos dom ingos. Dizia que tinha tarefas da escola para fazer. Esse estado de ânim o veio rápido, sem aviso, com o um céu de outono de onde a luz desaparece de repente. Ele não perguntou qual era o problem a, sabendo qual seria a resposta.
Estava criando um a existência à parte dele. Este foi o verdadeiro choque. Ele pensava que seria ele a protegê-la, a dar-lhe segurança. Mas sentia-se posto de lado, acusado j unto com Gauri. Tinha m edo de exercer sua autoridade, sua confiança paterna abalada, agora que estava sozinho.
Ela perguntou se podia m udar de quarto e usar o escritório de Gauri. Em bora abalado, ele deixou, dizendo a si m esm o que era um im pulso natural. Aj udou-a a arrum ar o côm odo, passando um dia inteiro a transferir as coisas dela para lá, pendurando as roupas no arm ário, recolocando seus cartazes nas paredes. Pôs a lâm pada de Bela na escrivaninha de Gauri, os livros de Bela nas prateleiras de Gauri. Mas, depois de um a sem ana, ela concluiu que preferia seu quarto antigo e queria m udar de volta para lá.
Só falava com ele quando necessário. Em certos dias, sim plesm ente nem falava. Ele se perguntava se ela teria contado aos am igos o que acontecera. Mas ela não lhe pedia perm issão para visitá-los, e ninguém vinha visitá-la em casa. Perguntava-se se teria sido m elhor se ainda m orassem perto do cam pus, num conj unto residencial cheio de professores e pós-graduandos e respectivas fam ílias, em vez de estarem nessa parte isolada da cidade. Censurava-se por tê-la levado a Tolly gunge, por ter dado a Gauri chance de fugir. Perguntava-se o que ela teria pensado da avó, das coisas que ouvira sobre Uday an. Em bora Bela nunca os m encionasse, ele se perguntava o que ela teria percebido.
Em dezem bro, ele fez quarenta e um anos. Norm alm ente, Bela gostava de com em orar seu aniversário. Conseguia que Gauri lhe desse algum dinheiro para lhe com prar algum frasco de Old Spice na drogaria ou um novo par de m eias. No ano anterior, chegou a fazer um bolo sim ples para ele, um a torta gelada. Neste ano, quando voltou do trabalho, encontrou-a no quarto com o de hábito. Depois de term inarem o j antar, não houve nenhum cartão, nenhum a pequena surpresa. O afastam ento, a nova indiferença dela eram grandes dem ais.
Um dia, quando estava no trabalho, a orientadora pedagógica de Bela telefonou. Seu desem penho na escola era preocupante. Segundo seus professores, ela era despreparada, distraída. Por recom endação da professora do sexto ano, fora colocada em cursos m ais avançados, m as não estava conseguindo acom panhar.
Coloque-a em outros cursos, então.
Mas não era só isso. Ela parecia não ter m ais contato com os outros alunos, disse a orientadora. Na cantina, ela se sentava sozinha à m esa. Não tinha se inscrito em nenhum a agrem iação. Depois da escola, tinham visto que ela saía andando sozinha.
Ela vai de ônibus de casa para a escola. Volta e faz as lições de casa. Quando eu volto, ela está sem pre lá.
Mas avisaram -no que ela fora vista, m ais de um a vez, vagueando em várias partes da cidade.
Bela sem pre gostou de passear com igo. Talvez se sinta m ais relaxada, espairecendo um pouco.
Havia estradas onde os carros andavam em alta velocidade, disse a orientadora. Um a pequena autoestrada que não serve para pedestres. Não é a interestadual, m as m esm o assim é um a autoestrada. Foi lá que viram Bela na últim a vez. Equilibrando-se na am urada, os braços erguidos.
Ela aceitou um a carona para casa de um desconhecido que parou para perguntar se estava tudo bem . Felizm ente, era um a pessoa responsável. Outro pai aqui da escola.
A orientadora solicitou um a reunião. Pediu que Subhash e Gauri com parecessem .
Ele sentiu o estôm ago se revirar. A m ãe dela não m ora m ais conosco, conseguiu dizer.
Desde quando?
Desde o verão.
O senhor devia nos ter avisado, sr. Mitra. O senhor e sua esposa conversaram com Bela antes de se separarem ? Prepararam Bela?
Ele largou o telefone. Queria ligar para Gauri e gritar com ela. Mas não tinha o núm ero, apenas o endereço da universidade onde dava aulas. Recusava-se a escrever para ela. Obstinado, queria guardar apenas para si a m aneira com o a ausência de Gauri estava afetando Bela. Você a deixou com igo, e m esm o assim levou-a em bora, era o que lhe queria dizer.
Ele com eçou a levar Bela um a vez por sem ana a um a psicóloga que fora sugerida pela orientadora pedagógica, no m esm o conj unto de consultórios onde ficava seu oftalm ologista. De início, ele resistiu, dizendo que falaria com Bela, que não seria necessário. Mas a orientadora foi categórica.
Ela disse que j á tinha conversado com Bela sobre isso e que Bela não fizera nenhum a obj eção. Disse-lhe que Bela precisava de um tipo de auxílio que ele não poderia fornecer. Era com o se ela tivesse fraturado um osso do corpo, explicou a orientadora. Não era um a sim ples questão de tem po até sarar, e nem era possível que ele conseguisse curar.
Pensou outra vez em Gauri. Tentara aj udá-la, m as falhara. Agora estava apavorado que Bela se fechasse para sem pre e que o rej eitasse da m esm a form a.
E assim preencheu um cheque no nom e da psicóloga, dra. Em ily Grant, e pôs dentro de um envelope, com o faria com outra conta qualquer. As contas vinham datilografadas em papeletas, que lhe chegavam pelo correio no final do m ês. As datas de cada sessão, separadas por vírgulas, eram escritas à m ão. Depois de pagar, ele j ogava fora as contas. Odiava escrever o nom e da dra. Grant no canhoto do talão.
Bela com parecia às sessões sozinha. Ele se perguntava o que ela dizia à dra. Grant, se contava a um a desconhecida as coisas qu e não lhe contava m ais. Perguntava-se se a doutora seria um a pessoa bondosa ou não.
Lem brou quando soube pela prim eira vez que Uday an tinha se casado com Gauri e se sentiu substituído por ela. Agora sentia-se substituído pela segunda vez.
Na única vez que viu a dra. Grant, fora im possível form ar um a opinião a respeito dela. Um a porta se abriu e ele se levantou para apertar a m ão de um a m ulher. Era m ais j ovem do que ele esperava, baixa, um a grenha castanha revolta. Rosto sério e pálido, m alha preta lisa e j usta, panturrilhas roliças, sapato baixo de couro. Com o um a adolescente com as roupas da m ãe, a j aqueta um pouco grande dem ais, um pouco com prida dem ais, em bora pela porta aberta do consultório ele visse a sucessão de títulos em oldurados e expostos na parede. Com o um a m ulher de aparência tão desconj untada poderia aj udar Bela?
A dra. Grant não m anifestou nenhum interesse nele. Encarara-os nos olhos por um instante, um olhar firm e, m as im penetrável. Fez Bela entrar no consultório e fechou a porta diante dele.
Aquele olhar, experiente, reservado, o desanim ou. Era com o qualquer outro m édico inteligente, exam inando o paciente e j á sabendo qual era a doença. Durante as sessões, teria intuído o segredo que ele guardava de Bela? Saberia que ele não era o pai verdadeiro? Que m entia a ela a esse respeito, dia após dia?
Nunca foi convidado a entrar no consultório. Durante alguns m eses, não recebeu nenhum a notícia sobre os progressos de Bela. Ficar ali sentado na sala de espera, vendo a porta atrás da qual estavam Bela e a dra. Grant, só o fazia se sentir pior. Aproveitava o tem po para fazer as com pras da sem ana. Calculava as sessões e esperava por ela no estacionam ento, dentro do carro. Quando acabava, ela entrava no carro, batendo a porta.
Com o foi hoj e, Bela?
Bem .
Ainda te aj uda?
Ela deu de om bros.
Quer j antar num restaurante?
Estou sem fom e.
Ela se desviava, com o Gauri. A cabeça em outro lugar, o rosto virado para o outro lado. Castigando-o, porque Gauri não estava ali para ser castigada.
Quer escrever um a carta a ela? Tentar falar por telefone?
Ela abanou a cabeça. Curvada para baixo, a testa franzida. Os om bros caídos e retraídos, enquanto corriam as lágrim as.
De pé à porta de seu quarto à noite, observando-a no sono, ele lem brou a m enina pequena de tem pos atrás. Na praia com ela, quando tinha seis ou sete anos. A praia quase vazia, sua hora preferida. O sol se pondo deita nas águas um feixe de luz, m ais largo j unto ao horizonte, estreitando-se na direção da terra.
As pernas e braços de Bela ficam rosados, reluzentes. Em nenhum outro lugar parece tão cheia de vida, o corpo solitário equilibrando-se audaz na im ensidão do m ar.
Ele lhe ensina a identificar coisas, brincam de j ogar: um ponto pelo m exilhão, dois pela vieira, três pelo siri. As taram bolas, arrem etendo feito flechas das dunas para as ondas, valem cinco. O prim eiro a falar o nom e ganha os pontos.
Ela segue atrás, a algum a distância, volta e m eia parando para apontar algum a coisa no chão. Pisa com cuidado nas partes com pedras. Cantarola um a m usiquinha, um a parte do cabelo para trás da orelha. Um cham a o outro, conferindo a pontuação.
Ele para, espera, m as então ela tem um súbito rom pante de energia e passa correndo. Corre e corre, livre e desim pedida, erguendo os calcanhares na beira da água. O cabelo negro vem para a frente, despenteado pelo vento, escurecendo o rosto. Bem na hora em que ele pensa que ela terá energia de correr para sem pre, de escapar à sua visão, ela para. Virando-se, ofegando, a m ão na cintura, conferindo se ele está ali.
No ano seguinte, aos poucos, um a libertação do que acontecera. Um a vividez nova no olhar, um a serenidade no rosto. Mais expansiva, m ais extrovertida. Outra atitude, não m ais cam inhando contra o vento, m as com o vento às costas, im pelindo-a para o m undo.
Em vez de estar sem pre em casa, agora nunca estava. No oitavo ano, ao anoitecer o telefone tocava sem parar, várias pessoas, m eninas e garotos, querendo falar com ela. De porta fechada, às vezes durante horas, conversava com colegas.
As notas m elhoraram , o apetite voltou. Não largava m ais o garfo depois de dois bocados, dizendo que estava satisfeita. Entrou na banda, aprendendo a tocar m úsicas patrióticas ao clarinete, m ontando o instrum ento depois do j antar e praticando as escalas.
No Dia dos Veteranos, ele se postou num a calçada no centro da cidade para assistir enquanto ela desfilava. De uniform e, suportando o frio do outono, concentrada na folha da partitura pendurada no peito. Num outro dia, esvaziando a lixeira do banheiro, ele viu a em balagem de um absorvente higiênico e se deu conta de que ela tinha com eçado a m enstruar. Não lhe tinha dito nada. Com prara os artigos, guardara escondido, am adurecendo sozinha.
No colégio, entrou no grupo de estudos da natureza, aj udando o professor de biologia a classificar tartarugas e a dissecar aves, indo a praias para lim par as áreas de nidificação. Foi estudar as focas-com uns no Maine e as borboletas-m onarcas em Cape May. Com eçou a se dedicar a outras atividades às quais ele não podia obj etar: ir com algum colega de porta em porta, pedindo assinaturas a petições para a reciclagem de garrafas ou para o aum ento do salário m ínim o.
Quando teve perm issão de seu instrutor, com eçou a ir de carro a restaurantes locais, recolhendo restos de com ida e entregando aos albergues. No verão, trabalhava em serviços tem porários ao ar livre, regando plantas num a creche ou aj udando em acam pam entos infantis. Não era consum ista, não se interessava em com prar coisas.
No verão após o últim o ano do ensino m édio, não o acom panhou na viagem , quando Deepa avisou que a m ãe dele tinha sofrido um derram e. Disse que queria ficar em Rhode Island, ficar com as am igas que logo perderia de vista. Ele providenciou que ela ficasse na casa de um a delas. E ainda que não lhe agradasse a ideia de passar algum as sem anas tão longe de Bela, em certo sentido era um alívio não precisar levá-la outra vez a Tolly gunge.
Subhash não sabia com certeza até que ponto a m ãe o reconheceu. Ela lhe falava em fragm entos, às vezes com o se ele fosse Uday an ou se os dois ainda fossem m eninos. Dizia-lhe para não enlam ear os sapatos na baixada, para não ficar brincando lá fora até m uito tarde.
Viu que a m ãe vivia num tem po diferente, num a realidade m ais suportável. As pernas tinham perdido a coordenação m otora, e assim não era m ais necessário passar a corrente na escada. Estava confinada ao terraço, no topo da casa, para sem pre.
Percebeu que ele talvez não existisse m ais na m ente da m ãe, que ela j á se afastara. Ele a desafiara ao casar com Gauri; evitara-a durante anos, levando a vida num lugar que ela nunca vira. E no entanto, quando m enino, tinha passado inúm eras horas sentado a seu lado.
Mas agora a distância entre os dois não era m eram ente física ou m esm o em ocional. Era intransponível. Desencadeou um a explosão retardada, um acesso de responsabilidade em Subhash. Um a tentativa, agora que não fazia m ais diferença, de estar presente. Nos três anos seguintes, ele foi a Calcutá na época do inverno, para visitá-la. Sentava-se a seu lado, lendo j ornais, tom ando chá j unto com ela. Sentindo-se tão apartado quanto Bela devia ter se sentido em relação a Gauri.
Ficava em Tolly gunge com o se fosse outra vez um m enino, nunca indo além da m esquita na esquina. Apenas passeando pelo enclave de vez em quando, sem pre parando diante do m em orial de Uday an, então voltando. O resto da cidade, viva, alvoroçada, não tinha nenhum sentido para ele. Era apenas um cam inho de passagem entre o aeroporto e a casa. Ele se afastara de Calcutá tal com o Gauri se afastara de Bela. E agora se passara tem po dem ais.
Durante sua últim a visita, a m ãe teve de ser hospitalizada. O coração estava fraco dem ais, ela precisava de oxigênio. Ele passava os dias inteiros a seu lado, chegando de m anhã cedo ao hospital para lhe segurar a m ão. O fim estava chegando e os m édicos lhe disseram que ele tinha vindo em boa hora. Mas o ataque aconteceu tarde da noite.
Bij oli não m orreu em Tolly gunge, na casa a que se apegara. E em bora Subhash tivesse voltado de tão longe para ficar j unto com ela, naquela últim a m anhã no hospital chegou tarde dem ais. Ela m orrera sozinha, num quarto com desconhecidos, negando-lhe a oportunidade de acom panhar seu passam ento.
Para a universidade, Bela escolheu um a pequena faculdade de artes liberais no Centro-Oeste. Ele a levou até lá, atravessando a Pensilvânia, Ohio e Indiana, de vez em quando deixando que ela dirigisse. Conheceu sua colega de quarto, a m ãe e o pai de sua colega de quarto, e então deixou-a lá. A faculdade tinha um currículo alternativo, sem exam es nem notas. O m étodo atípico se adequava bem a ela. Segundo as longas cartas de avaliação que seus professores escreviam no final do ano letivo, ela estava indo bem . Com o área de concentração, escolheu ciência am biental. Para o trabalho de conclusão de curso, estudou os efeitos negativos dos resíduos de pesticida num rio local.
Mas a pós-graduação, que ele esperava que seria seu próxim o passo, não tinha nenhum interesse para ela. Disse a ele que não queria passar a vida dentro de um a universidade, pesquisando coisas. Já tinha aprendido o suficiente em livros e laboratórios. Não queria acabar assim .
Disse-lhe aquilo com certo desdém . Foi o m ais perto que chegou de um a rej eição daquilo que Subhash e Gauri faziam na vida. E ele lem brou Uday an, com sua súbita indiferença pelos estudos, tal com o Bela agora.
Às vezes falava no Corpo da Paz, querendo ir a outros lugares do m undo. Ele se perguntava se ela entraria, se gostaria talvez de voltar à Índia. Estava com 21 anos, idade suficiente para tom ar tais decisões. Mas, depois de se form ar, ela se m udou para Massachusetts Ocidental, não m uito longe dele, onde conseguiu em prego num a propriedade rural.
De início, ele pensou que ela estava lá num trabalho de pesquisa, para fazer análises do solo ou aj udar a desenvolver um a variedade nova. Mas não; estava lá com o aprendiz braçal, na lavoura. Montando as linhas de irrigação, carpindo e colhendo, lim pando currais. Preparando as caixas para vender os produtos, pesando os vegetais para fregueses na beira da estrada.
Quando vinha para casa nos finais de sem ana, ele via que o form ato e a textura das m ãos estavam m udando por causa das tarefas que fazia. Notou calos nas palm as, as unhas suj as. Tinha cheiro de terra. A nuca, os om bros, o rosto de um castanho m ais carregado. Usava m acacão de brim , botas pesadas e enlam eadas, um lenço de algodão na cabeça. Levantava às quatro da m anhã. Cam iseta m asculina com as m angas arregaçadas até o om bro, tiras de couro escuro am arradas no pulso em vez de braceletes.
A cada vez aparecia com algum a novidade. Um a tatuagem que parecia um a algem a aberta no tornozelo. Um a m echa oxigenada no cabelo. Um a argola de prata no nariz.
Esta passou a ser sua vida: um a sucessão de em pregos em propriedades agrícolas por todo o país, algum as perto, outras longe. Estado de Washington, Arizona, Kentucky, Missouri. Vilarej os que ele tinha de procurar no m apa, vilarej os onde, às vezes dizia ela, não havia painéis lum inosos num raio de m uitos quilôm etros. Ela ia na época do plantio ou no período de reprodução, plantando pessegueiros ou cuidando de colm eias, criando galinhas ou cabras.
Disse a ele que m orava nos aloj am entos do local de trabalho, m uitas vezes sem receber salário, tendo com o pagam ento a com ida e o abrigo que forneciam . Tinha m orado com grupos que faziam um fundo com um de tudo o que recebiam . Morou alguns m eses em tenda, em Montana. Arranj ava bicos quando precisava, pulverizando pom ares, cuidando de j ardins. Vivia sem seguro, sem preocupação pelo futuro. Sem endereço fixo.
Às vezes lhe enviava um cartão-postal dizendo onde estava ou m andava um a caixa de papelão com m aços de brócolis ou algum as peras em brulhadas em j ornal. Pim entas verm elhas secas, form ando um a guirlanda. Ele se perguntava se teria ido algum a vez trabalhar na Califórnia, onde Gauri continuava a m orar, ou se evitava o local.
Ele não tinha contato com Gauri. Apenas um a caixa postal para onde, nos prim eiros anos, encam inhara as declarações de im posto de renda, até com eçarem a preencher separadam ente. Afora essa correspondência oficial, nunca a procurara.
Cada qual vivia num dos extrem os do país enorm e, Bela vagueando entre eles. Não tinham se dado ao trabalho de form alizar o divórcio. Gauri não pedira e Subhash não se im portara. Continuar casado era m elhor do que ter de negociar com ela outra vez. Ficava horrorizado que ela nunca tivesse contatado Bela, nunca tivesse enviado sequer um bilhete. Que pudesse ter um coração tão frio. Ao m esm o tem po, sentia-se agradecido que o rom pim ento fosse claro.
De vez em quando, num j antar na casa de algum colega am ericano ou de algum a das fam ílias indianas locais com que m antinha laços de cordialidade, conhecia alguém , um a viúva ou um a solteira. Um a ou duas vezes, ligou para elas ou elas ligaram para ele, convidando-o para assistir a um a peça ou a um concerto de m úsica clássica em Providence.
Em bora não se interessasse m uito por tais program as, ele tinha ido; em algum as ocasiões, ansiando por com panhia, tinha passado algum as noites na cam a de um a m ulher. Mas não tinha nenhum interesse num relacionam ento. Estava na casa dos cinquenta anos, tarde dem ais para form ar outra fam ília. Tinha dado um passo grande dem ais com Gauri. Não conseguia nem de longe im aginar que algum dia fosse querer dar novam ente aquele passo.
A única com panhia que queria era a de Bela. Mas ela era arisca e ele nunca sabia quando a veria outra vez. Costum ava voltar no verão, tirando um a ou duas sem anas de folga na época de seu aniversário, para visitar as praias e nadar no m ar, na região onde ele a criara. Vez por outra, aparecia no Natal. Um a ou duas vezes, prom etendo que iria, depois dizendo que tinha surgido algum a coisa de últim a hora, acabou não aparecendo.
Quando estava lá, dorm ia em sua velha cam a. Esfregava pom ada canforada nas pernas e braços e se afundava na banheira. Deixava que ele cozinhasse para ela, cuidasse dela por algum tem po, dessa m aneira sim ples. Assistia com ele a film es antigos na tevê e iam cam inhar em volta do lago Ninigret ou pelas áreas cheias de azáleas em Hope Valley, com o costum avam fazer quando ela era criança.
No entanto, exigia algum tem po para si, de m odo que, m esm o durante suas visitas, ela continuava acordada até tarde, depois que ele ia se deitar, assando pães de abobrinha ou pegando o carro dele para um passeio, sem o convidar. Ele sabia, m esm o quando ela voltava, que um a parte sua lhe estava vedada. Que ela tinha um a sólida noção dos lim ites. E, em bora parecendo que ela se encontrara, ele tem ia que ainda estivesse perdida.
Ao final de cada visita, ela fechava o zíper da m ala e saía, nunca dizendo quando voltaria. Desaparecia, com o Gauri desaparecera, tendo com o prioridade sua vocação. Que a definia, dirigia seus rum os.
Com os anos, seu trabalho com eçou a se fundir com um a certa ideologia. Ele viu que havia um espírito de oposição nas coisas que ela fazia.
Agora ficava em cidades, em áreas degradadas de Baltim ore e Detroit. Aj udava a converter terrenos abandonados em hortas com unitárias. Ensinava fam ílias de baixa renda a plantar verduras e legum es no quintal, para não precisarem depender totalm ente das organizações de caridade. Desconsiderava quando Subhash elogiava suas iniciativas. Era necessário, dizia ela.
Em Rhode Island, ela verificou a geladeira e o repreendeu por continuar a com prar m açãs no superm ercado. Era contrária ao consum o de alim entos que precisavam ser transportados de longas distâncias. Ao patenteam ento de sem entes. Com entava por que as pessoas ainda m orriam de desnutrição, por que os agricultores ainda passavam fom e. Criticava a desigualdade na distribuição da riqueza.
Criticava Subhash por j ogar fora as cascas dos legum es em vez de fazer com postagem . Um a vez, durante um a de suas visitas, ela foi a um a loj a de ferragens para com prar pregos e um a placa de com pensado, fazendo um a caixa no quintal, m ostrando com o revirar o m onte quando resfriava.
O que consum im os é o que defendem os, ela disse, acrescentando que ele precisava fazer sua parte. Podia ser dogm ática, com o Uday an tinha sido.
Às vezes ele se preocupava que ela tivesse ideais tão ardorosos. Mesm o assim , quando ela foi em bora, e m esm o sendo m ais rápido e m ais barato fazer as com pras no superm ercado, ele com eçou a ir à banca de um sítio nos sábados de m anhã, para com prar frutas, legum es e ovos para a sem ana.
O pessoal que trabalhava lá, que pesava os produtos na balança e punha em sua sacola de lona, que fazia as contas com um toco de lápis em vez de usar um a calculadora, lem brava-lhe Bela. Recordava-lhe sua sim plicidade pragm ática. Graças a Bela, passou a com er os produtos da estação, os produtos disponíveis. O que, quando m enino, considerava a coisa m ais natural do m undo.
O em penho de Bela em querer m elhorar o m undo, im aginava ele, era algo que poderia m otivá-la durante toda a vida. Mesm o assim , não conseguia deixar de lado sua preocupação. Ela fugira da estabilidade que ele se em penhara em lhe dar. Ela criara um rum o sem raízes, que a ele parecia precário. Que o excluía. Mas, com o com Gauri, deixou que seguisse sua vida.
Um grupo inform al de am igos, pessoas de quem ela falava com afeto, m as nunca apresentou ao pai, proporcionava-lhe um a espécie de fam ília alternativa. Com entava os casam entos desses am igos, a que tinha ido. Tricotava suéteres para os filhos deles ou fazia bonecas de pano, que enviava com o presentes de surpresa. Se havia outra com panhia em sua vida, algum laço rom ântico, ele não sabia. Quando ela vinha, eram sem pre eles dois, apenas.
Ele aprendeu a aceitá-la com o era, a aprovar o rum o que tom ara. Às vezes, o segundo nascim ento de Bela parecia um m ilagre m aior do que o prim eiro. Para ele, era um m ilagre que ela tivesse encontrado um significado em sua vida. Que pudesse ser resistente, diante do que Gauri havia feito. Que, com o tem po, tivesse renovado, senão recuperado totalm ente, o afeto que sentia por ele.
No entanto, às vezes sentia-se am eaçado, certo de que era um a inspiração de Uday an, que a influência de Uday an era m aior. Gauri os deixara e Subhash confiava que ela se m anteria distante. Mas, algum as vezes, Subhash acreditava que Uday an iria voltar, reivindicando seu lugar, do túm ulo reivindicando Bela para si.