Aguapés
Capítulo 3
Queria contar a Uday an. De algum m odo, queria confessar ao irm ão o grande passo que dera. Queria descrever Holly, quem era, com o era, com o vivia. Falar do conhecim ento das m ulheres que agora os dois tinham . Mas não era um a coisa que pudesse pôr num a carta ou num telegram a. Tam pouco conseguia im aginar um a conversa pelo telefone, m esm o que houvesse linha.
Sextas-feiras de noite: era quando podia visitar Holly e passar a noite com ela no chalé. No resto do tem po, ele m antinha distância, às vezes se encontrando com ela na praia para com er um sanduíche, m as nada m ais. Durante a m aior parte da sem ana, ele conseguia fingir, se precisasse, que não a conhecia e que não ocorrera nenhum a m udança em sua vida.
Mas, ao anoitecer das sextas, ele ia até o chalé dela, na autopista virando na longa estrada arborizada que ia até o m angue salino. Passava o sábado e às vezes ficava até dom ingo de m anhã. Ela nunca exigia nada, sem pre à vontade com ele. Confiando, a cada vez que se separavam , que se encontrariam novam ente.
Andavam pela praia, na areia firm e com as m arcas deixadas pela m aré. Ele nadava com ela na água fria, sentindo o gosto de sal na boca. Parecia entrar em seu sangue, em todas as células, purificando-o, deixando areia em seu cabelo. Boiava de costas, sem peso, os braços estendidos, o m undo silenciado. Apenas o m arulho profundo e o sol ardendo com o brasa sob suas pálpebras.
Um a ou duas vezes, fizeram coisas com uns, com o se fossem m arido e m ulher. Indo j untos ao superm ercado, enchendo o carrinho de m antim entos, pondo as sacolas no bagageiro do carro dela. Coisas que não faria com um a m ulher, em Calcutá, antes de se casar.
Em Calcutá, quando era estudante, j á bastava sentir atração por certas m ulheres. Era tím ido dem ais para abordá-las. Não fazia galanteios a Holly, com o tinha visto fazerem os colegas da universidade, tentando im pressionar as m oças que os interessavam , m oças com as quais geralm ente se casavam . Com o Uday an certam ente havia feito com Gauri. Não levava Holly ao cinem a nem ao restaurante. Não lhe escrevia bilhetes que, para não despertar a desconfiança dos pais da garota, seriam entregues por um am igo, pedindo para se encontrar com ele em tal ou tal lugar.
Holly estava além dessas coisas. O único lugar onde fazia sentido se encontrarem era a casa dela, aonde era m ais fácil de ir, onde ele gostava de ficar, onde ela provia às necessidades de am bos. As horas se passavam em longas conversas, falando de suas fam ílias, de seus passados, em bora ela não falasse de seu casam ento. Nunca se cansava de perguntar a ele sobre seu passado. Os detalhes m ais corriqueiros de sua vida, que não teriam causado nenhum a im pressão num a j ovem de Calcutá, eram j ustam ente o que o faziam especial para ela.
Um dia, ao anoitecer, quando voltavam j untos da m ercearia onde tinham com prado m ilho e m elão para com em orar o Quatro de Julho, Subhash contou com o seu pai saía todas as m anhãs para ir ao m ercado, levando um a sacola de aniagem na m ão. Com prando o que havia, o que estava ao seu alcance naquele dia. Se a m ãe reclam ava que as com pras não eram suficientes, ele dizia: Melhor um pouco de peixe gostoso do que m uito peixe insosso. Ele testem unhara um a fom e de proporções devastadoras, e nunca tom ava nenhum alim ento com o garantia líquida e certa.
Subhash lhe contou que, de vez em quando, ele e Uday an iam com o pai fazer com pras ou pegar as quantidades racionadas de arroz e carvão. Esperavam com ele nas filas com pridas, à som bra do guarda-chuva paterno quando o sol ficava m uito forte.
Aj udavam a carregar o peixe e os legum es, as m angas que o pai cheirava e apertava, e às vezes guardava debaixo da cam a para acabarem de am adurecer. Aos dom ingos, com pravam carne, talhada da carcaça do bode pendurada no açougue, pesada na balança, em brulhada em folhas secas.
Você é próxim o de seu pai?, Holly perguntou.
Por algum a razão, ele pensou na foto no quarto de Joshua, Joshua sentado nos om bros do pai. O pai de Subhash nunca se m ostrara afetuoso, m as fora um a presença sólida e constante.
Eu o adm iro, respondeu ele.
E seu irm ão? Vocês se dão bem ?
Ele fez um a pausa. Sim e não.
É, geralm ente são as duas coisas m esm o, disse ela.
No quarto entulhado de Holly, deixando de lado o sentim ento de culpa, ele cultivava um a atitude de desafio constante em relação às expectativas dos pais. Sabia que podia m antê-la, que era apenas por causa da enorm e distância física que podia persistir na atitude de desafio.
Agora pensava em Narasim han com o um aliado, Narasim han e sua esposa am ericana. Às vezes, im aginava com o seria levar um a vida parecida com Holly. Passar o resto da vida nos Estados Unidos, desconsiderar os pais, criar sua própria fam ília com ela.
Ao m esm o tem po, sabia que era im possível. Ser am ericana era o que m enos pesava. A situação dela, o filho, a idade, o fato de ser tecnicam ente esposa de outro hom em , tudo isso seria im pensável, inaceitável para seus pais. Iriam j ulgá-la por essas coisas.
Ele não queria subm eter Holly a isso. Mas continuava a vê-la nas sextas-feiras, criando esse novo rum o clandestino.
Uday an entenderia. Talvez até o respeitasse por isso. Mas não havia nada que Uday an pudesse dizer e que Subhash j á não soubesse: estava envolvido com um a m ulher que não pretendia desposar. Um a m ulher a cuj a com panhia estava se acostum ando, m as a quem , talvez devido à própria am bivalência dele, não am ava.
E assim ele não contou nada a ninguém sobre Holly. A relação se m anteve oculta, inacessível. A desaprovação dos pais am eaçava corroer o que ele estava fazendo, instalada com o um a sentinela silenciosa no fundo de sua m ente. Mas, sem os pais ali, ele podia continuar a repelir as obj eções deles, distanciando-se cada vez m ais, com o a prom essa de um horizonte, pressentido num navio, que nunca se alcança.
Num a sexta-feira, ele não pôde encontrá-la; Holly telefonou para dizer que ocorrera um a m udança inesperada nos planos e Joshua não ia para a casa do pai. Subhash entendia que tais eram os term os. Mesm o assim , passou aquele final de sem ana querendo que os planos m udassem outra vez.
No final de sem ana seguinte, quando voltou a visitá-la, o telefone tocou quando estavam j antando. Ela com eçou a falar, puxando o fio até o sofá, onde podia ficar sozinha à vontade. Ele entendeu que era o pai de Joshua.
Joshua estava com febre e Holly estava dizendo ao m arido que o pusesse na banheira com água m orna. Explicando a dose de rem édio que devia dar.
Subhash ficou surpreso, e tam bém perturbado, que ela falasse com calm a, sem azedum e. A pessoa do outro lado da linha continuava a ser m uito próxim a. Ele viu que, por causa de Joshua, a vida dos dois, apesar da separação, continuava unida para sem pre.
Ele estava sentado à m esa de costas para ela, sem com er, esperando o final da conversa. Olhou o calendário na parede, ao lado do telefone de Holly .
O dia seguinte seria 15 de agosto, data da Independência indiana. Feriado no país, luzes nos edifícios oficiais, hasteam ento de bandeiras, desfiles. Aqui, um dia com um .
Holly desligou o telefone. Você parece inquieto, observou ela. Algo errado?
Só m e lem brei de um a coisa.
O quê?
Era sua lem brança m ais antiga, agosto de 1947, em bora às vezes achasse que a m em ória lhe pregava um a peça, com o um a espécie de consolo. Pois era um a noite que o país inteiro dizia lem brar e, se ele recordava, era apenas porque os pais repetiam o fato constantem ente.
Só um a coisa ocupara o pensam ento dos pais naquela noite, enquanto estouravam os fogos de artifício em Délhi, enquanto os m inistros eram em possados. Enquanto Gandhi j ej uava pela paz em Calcutá, enquanto nascia o país. Uday an tinha apenas dois anos, Subhash quase quatro. Lem brava o toque inusitado da m ão de um m édico em sua testa, as batidinhas leves nos braços, nas plantas dos pés. O peso das cobertas quando os dois foram acom etidos pelos calafrios.
Lem brava que se virara para o irm ão m ais novo, os dois com trem edeira. Lem brava o olhar vidrado e perdido de Uday an, a verm elhidão no rosto, as coisas sem sentido que dizia.
Meus pais tinham m edo que fosse febre tifoide, disse a Holly. Por alguns dias ficaram com m edo que m orrêssem os, com o tinha acontecido pouco antes com outro m enino do bairro. Mesm o agora, quando falam disso, o m edo transparece na voz deles. Com o se ainda estivessem esperando a febre ceder.
É o que acontece quando a gente tem filho, disse Holly. O tem po para quando há algum a am eaça. As coisas perdem o sentido.