Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 27 de 37

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Aguapés

Capítulo 2

 

No novo m ilênio, foi concluída um a trilha de corrida, um aplainam ento de um ram al ferroviário que antigam ente transportava os passageiros da estação Kingston até o píer de Narragansett.

O curso da trilha era m oderado, passando por um bosque, contornando um rio, alguns riachos m enores. Aqui e ali havia bancos para descansar e, a intervalos m ais espaçados, um a placa, indicando a posição na trilha, talvez indicando tam bém a espécie de um a árvore nativa.

Nos dom ingos de m anhã, depois do desj ej um , ele pegava o carro e ia até a estação de trem , feita de m adeira, aonde chegara com o estudante pela prim eira vez, aonde ia de vez em quando receber Bela na plataform a, quando vinha em visita. Muitos anos atrás, ocorrera um incêndio, m as com o tem po a estação foi reform ada para trens de alta velocidade. Estacionava o carro e com eçava a andar, sozinho, entre os recessos protegidos da cidade. Às vezes, ainda agora, Subhash não conseguia sondar os extrem os de sua vida: vindo de um a cidade tão apinhada de gente, chegando a um lugar onde ainda havia tanto espaço livre.

Continuava andando pelo m enos durante um a hora, às vezes um pouco m ais, pois era possível percorrer dez quilôm etros de ida e volta. Era a cidade onde tinha m orado por m ais da m etade da vida, à qual fora serenam ente fiel, m as agora a nova trilha alterava sua relação com ela, convertendo-a de novo num a desconhecida. Passava pelo fundo de alguns bairros, ao lado de quadras de esportes onde alunos j ogavam , por um a ponte de m adeira para pedestres. Por um brej o cheio de taboas, por um a antiga fábrica têxtil.

Nesses dias até a costa, ele preferia a som bra. Nascido e criado em Calcutá, m esm o assim o sol de Rhode Island, passando pela cam ada de ozônio depauperada, agora parecia m ais forte do que o sol de sua infância. Batendo im placável na pele, atingindo-o de um j eito que, principalm ente no verão, não conseguia m ais suportar. Sua pele m orena nunca ardia, m as a sensação dos raios de sol o esm agava. Às vezes tom ava o fulgor perm anente daquela estrela distante com o um a questão pessoal.

Passava por um pântano no com eço das cam inhadas, onde anim ais se reproduziam e aves nidificavam , onde tuias e bordos verm elhos cresciam entre torrões m usgosos. Era a m aior área de floresta úm ida no sul da Nova Inglaterra. Antigam ente era um a depressão glacial e ainda rodeada por um a m orena.

De acordo com as placas que ele parava para ler, lá tam bém tinha ocorrido um a batalha. Curioso, um dia ele ligou o com putador em casa e com eçou a se inform ar, pela internet, dos detalhes de um a atrocidade.

Num a ilhota que ficava no m eio do pântano, a tribo Narragansett local construíra um forte. Tinham se abrigado num acam pam ento de tendas, por trás de um a paliçada de galhos, crendo que o refúgio era inexpugnável. Mas no inverno de 1675, estando o solo pantanoso congelado e tendo as árvores perdido as folhas, um a m ilícia colonial atacou o forte. Trezentas pessoas foram queim adas vivas. Muitos dos que escaparam m orreram de fom e e doença.

Em algum lugar, leu ele, havia um a indicação e um fuste de granito com em orando a batalha. Mas Subhash se perdeu no dia em que entrou no pântano para procurar. Quando era m ais j ovem , a coisa que m ais lhe agradava era passear assim , com Bela. Naquela época, era obrigado a seguir indicações m uito vagas, trilhas não identificadas nas m atas, apenas os dois, descobrindo m oitas de m irtilos, lagoas isoladas onde podiam nadar. Mas perdera aquela confiança, aquele intrépido senso de direção. Agora sentia apenas que estava sozinho, com m ais de sessenta anos, e que não sabia onde estava.

Num dom ingo, perdido em seus pensam entos, ficou surpreso ao ver um hom em de capacete, com um rosto conhecido, aproxim ando-se em sua bicicleta, do outro lado da trilha, encostando e parando.

Jesus, Subhash! Não te ensinei a ficar sem pre de olho na estrada?

Sentado num a bicicleta de dez m archas, de arm ação leve, estava Richard, seu colega de apartam ento de décadas atrás, abanando a cabeça, sorrindo para ele. Que raios você ainda anda fazendo por aqui?

Nunca saí.

Pensei que você tinha voltado para a Índia depois de acabar o curso. Nem m e passou pela cabeça te procurar.

Havia um banco ali perto, e lá se sentaram para conversar. O cabelo de Richard sob o capacete não era m ais escuro, um a parte dele sum ira, m as o que restava ele ainda prendia num rabo de cavalo. Tinha engordado um tanto, m as Subhash lem brava o rapaz esguio e bonito que conhecera no doutorado e que, em alguns aspectos, recordava-lhe Uday an. Da época antes de se casarem , quando tinham m orado j untos, ido j untos ao superm ercado, partilhado as refeições.

Richard estava casado, era avô. Depois de sair de Rhode Island, sentia saudades, sem pre na intenção de voltar algum dia, na aposentadoria. Um ano atrás, ele e a esposa, Claire, tinham vendido a casa deles em East Lansing e com praram um chalé em Saunderstown, não m uito longe de Subhash.

Ele criara um centro de estudos sobre a não violência num a universidade no Centro-Oeste e ainda era integrante da diretoria, m as conseguira nunca m ais usar um a gravata na vida. Estava cheio dos m ais variados proj etos — escrevendo outro livro, j á na m etade, tentando reform ar sozinho a cozinha, m antendo um blogue político. Planej ando um a viagem com Claire ao Sudeste Asiático, até Phnom Penh e a cidade Ho Chi Minh.

Acredita num a coisa dessas?, perguntou ele. Depois de tudo aquilo, finalm ente vou ao Vietnã.

A seu lado, Subhash contava os parcos detalhes de sua vida. Um a esposa de quem estava afastado, um a filha que crescera e se m udara. Um em prego no m esm o laboratório de pesquisas costeiras onde estava fazia quase trinta anos. De vez em quando, alguns trabalhos de consultoria sobre derram am entos de petróleo ou para o Departam ento de Obras Públicas do m unicípio. Estava sem fam ília, tal com o quando conhecera Richard. Mas sua solidão era diferente.

Ainda trabalhando em período integral?

Pelo tem po que m e deixarem .

Ainda usando m eu carro?

Não, desde que Nixon renunciou e a caixa de transm issão pifou.

Sem pre com ento com Claire aquele caril que você fazia. E que batia as cebolas no liquidificador.

Richard tinha ido à Índia, a Nova Délhi e ao local de nascim ento de Gandhi em Guj arat. Quis incluir Calcutá no roteiro, m as não conseguiu. Talvez na volta do Vietnã, disse ele.

A pergunta seguinte veio na inocência. E aquele seu irm ão, o naxalista, o que aconteceu com ele?

Ele e Richard trocaram núm eros de telefone e endereços de e-m ail. Encontravam -se para um a cam inhada pelas trilhas ou para um a cervej a na cidade. Tinham ido pescar duas vezes, lançando a linha nos rochedos de Point Judith, fisgando cabrinhas, devolvendo ao m ar o que apanhavam .

Quando se despediam , Subhash sem pre prom etia que da próxim a vez o encontro seria em sua casa, que Claire devia ir e que ele ia preparar um caril. Pensava em program ar durante um a das visitas de Bela, e assim Richard poderia conhecê-la. Mas ainda não surgira ocasião. A am izade entre eles era m eio vaga, m as tranquila, com o sem pre tinha sido.

Agora Subhash tinha se acostum ado aos e-m ails em m assa de Richard, anunciando palestras e reuniões, citando estatísticas sobre os custos da guerra no Iraque, dando um link para seu blogue. Habituara-se a ver o núm ero e o sobrenom e de Richard, Grifalconi, saudando-o de vez em quando no visor do telefone.

Viu-os num final de sem ana, de m anhã, enquanto assistia a um program a na cnn. Abaixou o volum e com o controle rem oto. Não esperava ouvir a voz da esposa de Richard, Claire, que ainda não conhecia e com quem nunca havia falado, dizendo-lhe que Richard tinha m orrido alguns dias antes. Um coágulo na perna subira até os pulm ões, no dia seguinte ao passeio de bicicleta que Richard e Claire tinham feito j untos, até Rom e Point.

Subhash pousou o telefone. Desligou a televisão. Seus olhos foram atraídos por um m ovim ento que viu pela j anela da sala. Eram passarinhos em rebuliço, volteando.

Foi até a j anela para ver m elhor. No alto da árvore no j ardim , um bando deles, m iúdos, escuros, barulhentos, estava no m aior alvoroço, indo e vindo. Pegando no inverno tudo o que a árvore ainda podia fornecer de alim ento. Havia um resoluto frenesi nos m ovim entos deles. Um a atividade de sobrevivência que agora o ofendia.

Pela prim eira vez na vida, Subhash entrou num velório, aj oelhou-se e fitou o corpo estendido no caixão, vestido com apuro. Observou a ausência de vida no rosto de Richard, ali patente, com o se um especialista tivesse feito um a efígie em cera. Subhash lem brou a últim a im agem da m ãe, coberta por um a m ortalha.

Depois do ofício fúnebre, ele foi à recepção na casa de Richard, não m uito diferente de outras recepções am ericanas a que com parecera ao longo da vida. Havia um a m esa com prida, com travessas de queij os e saladas. Usando traj es escuros, as pessoas estavam tom ando vinho, fatiando pedaços de um pernil de presunto.

Claire estava num dos extrem os da sala, ladeada pelos filhos, pelos netos, agradecendo às pessoas por terem vindo, trocando apertos de m ão. Dizendo que não houvera nenhum sinal de problem a até o m om ento em que Richard reclam ou que estava sem fôlego. Na m anhã seguinte, sacudiu Claire para acordá-la, apontando o telefone, sem conseguir falar. Morreu na am bulância, Claire seguindo atrás, no carro deles.

Os convidados se distribuíam em círculos, conversando. Parentes distantes, para os quais a ocasião era não só um funeral, m as tam bém um a reunião, tiraram algum as fotos. Para os que tinham vindo de longe, era um a oportunidade de explorar Rhode Island, de ir até Newport no dia seguinte.

Elise Silva era um a vizinha.

Ela se aproxim ou da j anela com vidro de correr, à qual estava Subhash, olhando a vista do terreno em declive, cheio de bétulas, atrás da casa de Richard. Quando se virou para olhá-la, ela se apresentou.

Vi Richard e Claire poucas sem anas atrás, de m ãos dadas com o se tivessem acabado de se conhecer, com entou ela. Disse-lhe que havia um laguinho além das árvores. Quando congelava, disse Elise, Richard e Claire iam patinar de braços dados.

Tinha tez azeitonada, quase tão m orena quanto a dele. O cabelo era branco, m as as sobrancelhas ainda eram escuras. Usava-o preso, com o às vezes fazia Bela, com um a fivela na nuca, de m odo que não interferia no rosto. Estava com um vestido preto de m angas com pridas, m eias cinzentas, um a corrente de prata no pescoço.

Com entaram há quanto tem po conheciam Richard. Mas havia outra conexão entre Elise e Subhash. Ela aflorou quando ele deu seu nom e, e então Elise perguntou se por algum acaso era parente de um a estudante cham ada Bela Mitra, que, m uitos anos atrás, tinha feito seu curso de história am ericana no colégio local.

Sou o pai dela.

Ele ainda se sentia nervoso ao afirm á-lo.

Olhou aquela m ulher que dera aulas a ela. Elise Silva era um a das inúm eras coisas que ele desconhecia na vida da filha, desde que atingira certa idade. Ainda lem brava os nom es de seus professores na escola fundam ental. Mas no ensino m édio era só o relatório, o boletim de notas que ele exam inava.

Você não m e conhece, m as m e deixou levar sua filha a Hancock Shaker Village, disse ela. Levara Bela com um pequeno grupo de outros estudantes num a excursão até lá.

Minha ignorância é vergonhosa. Nem sei onde fica Hancock Shaker Village.

Ela riu. Vergonhosa m esm o.

O que há para visitar lá?

Ela explicou. No século xviii nasceu um a seita religiosa, dedicada ao celibato e à vida sim ples. Um a população utopista que definhou j ustam ente por causa de seu credo. Ela perguntou onde Bela m orava agora.

Em lugar nenhum . É nôm ade.

Deixe-m e adivinhar: ela anda por aí de m ochila, fazendo coisas para m elhorar o m undo?

Com o você sabia?

Algum as crianças se form am cedo. Sabem o que querem . Bela era assim .

Subhash tom ou um pouco de vinho. Ela não tinha escolha, disse ele.

Elise o fitou, assentindo. Indicando que sabia o que acontecera, que Gauri tinha ido em bora.

Ela falou sobre isso?

Não. Mas os professores foram avisados.

Você ainda dá aulas?

Depois dos 55, eu não dava m ais conta. Precisava de algum a m udança.

Agora trabalhava em m eio período na sociedade histórica local, disse ela. Estava transferindo os arquivos para a rede on-line, editando o boletim .

Ele contou que andara lendo sobre o Massacre do Grande Pântano. Perguntou se restava algum registro.

Ah, claro. Você até encontra balas de m osquete se procurar em volta do obelisco.

Tentei um a vez. Me perdi.

Não é fácil. Costum ava-se pagar um agricultor que cuidava da estrada.

Sentiu-se cansado de ficar em pé. Lem brou que não tinha com ido nada. Vou pegar algo para com er. Quer vir com igo?

Foram até a m esa do bufê. A viúva de Richard estava num dos extrem os. Chorava, abraçada a um dos presentes.

Passei por isso, anos atrás, disse Elise. Vira o m arido m orrer de leucem ia aos quarenta e seis 46 anos. Ele a deixou com três filhos, dois m eninos e um a m enina. O caçula com quatro anos. Depois da m orte do m arido, ela se m udara com os filhos para a casa dos pais.

Lam ento.

Eu tinha m inha fam ília. Parece que com Bela era só você.

A filha se casara com um engenheiro português e m orava em Lisboa. Seus antepassados vinham de lá, m as Elise nunca fora à Europa antes do casam ento da filha. Os rapazes m oravam em Denver e Austin. Durante algum tem po, depois de se aposentar, ela dividira o tem po entre as duas cidades, aj udando com os netos, indo a Lisboa um a vez por ano. Mas voltara a Rhode Island fazia uns dez anos, depois que o pai m orreu, para ficar m ais perto da m ãe.

Com entou que haveria um a excursão na sem ana seguinte, a um a casa no povoado que fora restaurada pela sociedade histórica. Deu-lhe um folheto que tinha na bolsa, com os detalhes.

Ele aceitou, agradecendo. Dobrou o folheto para caber no bolso do paletó.

Mande lem branças a Bela, disse deixando-o sozinho, sem ninguém para conversar, dirigindo-se a outra pessoa na sala.

Depois do funeral, por várias noites, às vezes até as três da m anhã, ele ficava acordado, sem conseguir se abandonar ao sono por m uito tem po seguido. A casa estava em silêncio, o m undo ao redor em silêncio, sem nenhum carro na estrada àquela hora. Nada além do som da respiração ou do som da garganta quando engolia em seco.

A casa, para seu constante pesar, ficava longe dem ais da baía para ouvir as ondas. Mas o vento vindo do m ar às vezes soprava com força suficiente para trazer o m arulho estrondeante. Um poder violento, im aterial, enraizado em nada. Am eaçando, enquanto ele ficava im óvel na cam a, para arrancar a casa de seus alicerces, para derrubar as árvores que estrem eciam , para dem olir a estrutura de sua vida.

Um colega, notando seu cansaço no trabalho, sugeriu que fizesse m ais exercícios ou tom asse um copo de vinho ao j antar. Um a xícara de chá de cam om ila. Podia tom ar com prim idos, m as resistia a essa opção. Já havia o com prim ido para abaixar o colesterol, outro para aum entar o potássio, um a aspirina por dia para facilitar a circulação sanguínea. Guardava todos eles num a caixinha de plástico com sete com partim entos, cada qual com um a etiqueta do dia da sem ana, tom ando-os de m anhã, j unto com o desj ej um .

Era m ais um a vez a ansiedade que o m antinha acordado, m as não a m esm a que costum ava despertá-lo depois que Gauri foi em bora e ele ficou sozinho com Bela, dorm indo no quarto ao lado. Ciente de que ela sofria, ciente de que ele era a única pessoa no m undo responsável em criá-la.

Relem brava Bela quando era bebê, quando a distinção entre dia e noite não existia para ela: dorm e, acorda, dorm e, acorda, fases superficiais de um a ou duas horas que se alternavam . Ele tinha lido em algum lugar que, no início da vida, esses conceitos eram invertidos; que o tem po dentro do útero era o inverso do tem po fora dele. Lem brava com o, na prim eira vez que esteve no m ar, aprendera que as baleias e golfinhos nadavam logo abaixo da superfície e que em ergiam para respirar, sendo cada respiração um ato consciente.

Ele inspirou o ar pelas narinas, na esperança de que essa função essencial, tão constante quanto as batidas do coração, pudesse relaxá-lo por algum as horas. Estava de olhos fechados, m as a m ente totalm ente desperta.

Isso vinha acontecendo desde a notícia da m orte de Richard: um a consciência desproporcional de estar vivo. O que m ais queria era o sonho profundo e contínuo que se recusava a vir. Um a libertação do torm ento noturno que ocupava a cam a.

Quando era m ais j ovem , a insônia não o incom odava; aproveitava as horas adicionais para ler um artigo ou sair para olhar as estrelas. Às vezes, o corpo até se sentia repleto de energia, e tinha vontade de que j á fosse dia, para poder levantar e andar pela ciclovia. Andava até o banco onde topara com Richard dois anos antes, para sentar e pensar.

Mas, na cam a, ele se via voltando ao passado m ais distante, revirando os detritos da infância. Revisitava os anos antes de deixar a fam ília. O pai voltando toda m anhã do m ercado, o peixe que a m ãe fatiava, salgava e fritava para o desj ej um , postas prateadas que saíam de um a sacola de pano de aniagem .

Via a m ãe curvada sobre a m áquina de costura preta que ela operava com os pés, pisando no pedal, sem conseguir falar por causa dos alfinetes que segurava entre os lábios. Sentava-se à m áquina de noite, costurando saias para as clientes, cortinas para a casa. Uday an passava óleo na m áquina, de vez em quando arrum ava o m otor. Um passarinho em seu j ardim em Rhode Island, de piado curto e rápido, cham ando e parando, reproduzia o som da m áquina.

Via o pai ensinando xadrez a ele e Uday an, desenhando as casas num a folha de papel. Via o irm ão curvado, sentado no chão de pernas cruzadas, passando o dedo indicador no prato para aproveitar o finalzinho do m olho, ao term inar a refeição.

Uday an estava por toda parte. Indo com Subhash para a escola de m anhã, voltando para casa de tarde. Estudando à noite na cam a que dividiam . Livros espalhados entre os dois, decorando as m atérias. Escrevendo num caderno, concentrado, o rosto a poucos centím etros da página. Deitado de noite ao seu lado, ouvindo os chacais que uivavam no Tolly Club. Rápido, seguro, controlando a bola no cam po atrás da baixada.

Essas pequenas im pressões tinham m oldado sua vida. Haviam desaparecido m uito tem po atrás, para reaparecer agora, reconstituídas. Continuavam a distraí-lo, com o trechos de um a paisagem vista pelo trem . A paisagem era fam iliar, m as algum as coisas sem pre o surpreendiam , com o se as visse pela prim eira vez.

Antes de deixar Calcutá, a vida de Subhash m al deixara qualquer traço. Todos os seus pertences caberiam num saco de superm ercado. Ao crescer, quando estava na casa dos pais, o que tinha de seu? A escova de dentes, os cigarros que fum ava escondido com Uday an, a sacola de pano onde levava os livros de escola. Algum as roupas. Antes de ir para os Estados Unidos, não tinha um quarto seu. Pertencia aos pais e a Uday an, e eles a ele. E só.

Aqui se saíra bem , discretam ente, instruindo-se, conseguindo um trabalho interessante, enviando Bela para a faculdade. Fora suficiente, em term os m ateriais.

Mas ainda estava fraco dem ais para contar a Bela o que ela m erecia saber. Ainda fingindo ser seu pai, ainda retendo o que não era seu. Uday an tinha razão quando disse que ele era um aproveitador.

A necessidade de contar a ela pendia sobre ele, causava-lhe terror. Era o principal assunto inacabado de sua vida. Bela j á tinha idade e força suficiente para lidar com o fato, m as m esm o assim , com o ela era tudo o que ele am ava, não conseguia reunir coragem .

Nesses dias, vinha percebendo cada vez m ais o quanto devia, quanto esforço a vida lhe exigia. Os m ilhares de vezes que fora à m ercearia, todas as m ontanhas de alim entos, prim eiro em sacos de papel e depois de plástico, e agora em sacolas de pano que levava de casa, tirados do bagageiro do carro, desem pacotados, guardados no arm ário da cozinha, tudo para dar sustento a um corpo só. Os com prim idos que tom ava todos os dias de m anhã. Os pauzinhos de canela que tirava de um a lata para tem perar o m olho de um a panela de caril ou dal.

Um dia ele ia m orrer, com o Richard, e suas coisas ficariam para os outros resolverem , escolherem , j ogarem fora. Seu cérebro j á deixara de guardar os endereços que nunca m ais iria visitar, os nom es de pessoas com quem só falara um a vez. Grande parte do que lhe ocupava a m ente era insignificante. Havia apenas um a coisa, a história de Uday an, que ele queria revelar.

 

Reconheceu im ediatam ente a casa. Era o aloj am ento onde tinha m orado com Richard tem pos atrás, passando o poço e a bom ba m anual do povoado. Um a casa de m adeira pintada de branco com venezianas pretas. Com o os endereços das casas tinham m udado, com o não havia nenhum a foto no folheto que Elise lhe dera, ele não se dera conta.

Elise sorriu ao vê-lo, entregando-lhe o tíquete que tirou de um bloco grosso, dando-lhe o troco. Hoj e parecia diferente, com um a blusa solta de linho verde, o cabelo prateado em oldurando o rosto, os óculos escuros no alto da cabeça.

Obrigada por vir. Com o tem passado?

Conheço esta casa. Morei aqui. Com Richard.

Sério?

É, logo que cheguei. Não sabia?

A expressão dela m udou, o sorriso desapareceu, e agora havia um ar de preocupação nos olhos. Não fazia ideia.

Ela não com entou o fato com o resto do grupo, quando com eçou a visitação. A planta da casa tinha m udado, com m enor núm ero de aposentos. Havia poucos m óveis, feitos de m adeira escura, linguetas de ferro nas portas. As m esas tinham se descam ado, com o folheado descascado ocultando parcialm ente os pés, com o a saia de um a m ulher recatada. Daria para retirar e guardar a superfície da escrivaninha. A cornij a da lareira era de carvalho.

Ele não se lem brava de nada. E no entanto tinha m orado aqui, tinha olhado por essas j anelas pequenas enquanto estudava. Muito tem po atrás, recém -chegado a Rhode Island, Uday an ainda vivo. Aqui lera as cartas de Uday an. Aqui olhara um a foto de Gauri, indagando-se sobre ela, sem saber que iria desposá-la.

Elise m ostrava os diversos estilos de cadeiras que então se usavam : de espaldar reto, de traves entre as pernas, de costas arqueadas. Contou ao grupo que a rua antigam ente fazia parte da zona com ercial da cidade. Ao lado havia um a chapelaria e, adiante, um a barbearia onde os hom ens da localidade iam se barbear.

A casa tinha sido inicialm ente residência e oficina de um alfaiate, depois um escritório de advocacia e m ais tarde um lar de fam ília por quatro gerações. Foi subdividida em vários quartos para alugar nos anos 1960. Quando o últim o proprietário m orreu, deixou-a para a sociedade histórica, e aos poucos tinham levantado fundos para restaurá-la, em colaboração com um a galeria de arte local, que m ontava exposições nas salas do térreo.

Ele estava im pressionado com o em penho em preservar esses lugares. No guarda-louças de canto havia travessas e tigelas que as pessoas tinham usado para com er, castiçais onde tinham acendido velas para ter luz. Nas paredes da cozinha estavam expostas as conchas e as chapas com que as pessoas tinham cozinhado. Os assoalhos de pinho eram da m esm a cor que tinham sido quando aquelas pessoas andavam pelos côm odos.

O efeito era inquietante. Ele sentia negada sua presença na terra, m esm o estando ali parado. O acesso lhe era proibido; o passado não aceitava seu ingresso. Lem brava-lhe apenas que esse local arbitrário, aonde chegara e onde fizera sua vida, não lhe pertencia. Com o Bela, o local o aceitara, ao m esm o tem po m antendo distância. Entre seu povo, suas árvores, sua geografia específica, que estudara e viera a am ar, ele continuava a ser um visitante. Talvez a pior form a de visitante: aquele que se recusara a ir em bora.

Pensou nos dois lares que tivera. A casa em Tolly gunge, à qual não voltara desde a m orte da m ãe, e a casa em Rhode Island onde Gauri o abandonara, que im aginava que seria a últim a. Um parente cuidava da casa em Tolly gunge em seu nom e, recebendo o aluguel e depositando num a conta bancária de lá, utilizando a renda para providenciar eventuais consertos.

Nunca voltaria a m orar lá, m as não conseguia se decidir a vender a propriedade; aquele terreno pequeno e a casa prosaica ali construída ainda estavam em nom e da fam ília, com o seus pais teriam desej ado.

Agora ali m orava um m édico com sua fam ília, o andar térreo servindo de consultório. Talvez ignorando a história da casa, talvez tendo ouvido algum a versão dos vizinhos. Nenhum grupo iria lá adm irá-la daqui a duzentos anos.

No final da visita, ele pôs seu nom e, telefone e e-m ail num a lista da sociedade histórica. Aceitou m ais um folheto de Elise, anunciando um a venda de plantas no m ês seguinte.

Depois da breve conversa, ela não lhe prestara nenhum a atenção em especial naquela tarde, sem pre se dirigindo ao grupo. Não se aproxim ara, conform e Subhash esperava, quando se dem orou sozinho no corredor do segundo andar, na parte da casa que tinha sido m ais fam iliar a ele.

Concluiu que fora convidado por causa da sociedade histórica, e m ais nada. Porém , alguns dias depois, ela telefonou.

Tudo bem com você?

Por que pergunta?

No outro dia, você parecia abalado. Eu não quis m e introm eter.

Queria convidá-lo para outra coisa. Não um a peça ou um concerto, que ele poderia declinar. Disse que se lem brava que ele com entara, no funeral de Richard, que gostava de andar pela ciclovia. Ela fazia parte de um clube de cam inhada que se reunia um a vez por m ês, para explorar trilhas e locais m eio escondidos.

Vam os nos encontrar no Grande Pântano na próxim a vez; então pensei em você, disse ela, antes de perguntar se queria ir tam bém .