Aguapés
Capítulo V
1.
A cada dia dim inui: um pouco m enos de água que se vê pela grade do terraço. Bij oli nota com o as duas lagoas na frente da casa e a baixada atrás delas estão atravancadas de lixo. Roupas velhas, trapos, j ornais. Em balagens vazias de Mother Dairy. Vidros de Horlick, latas de Bournvita e talco. Papel de em brulho roxo dos chocolates Cadbury. Xícaras de barro quebradas em que antigam ente, na beira da estrada, serviam chá e iogurte adoçado.
O entulho vai se adensando com o um a m argem à beira d’água. Esbranquiçado de longe, colorido de perto. Até seu lixo foi parar ali: o papel de em balagem dos pacotes de biscoito ou de m anteiga. Mais um tubo achatado de Boroline. As m açarocas dos fios de cabelo que lhe caem da cabeça, rem ovidos do pente.
Sem pre j ogaram restos e refugos nessas áreas de água. Mas agora o acúm ulo é deliberado. Um a prática ilegal ocorrendo em lagos, em arrozais, por toda Calcutá. Estão sendo entulhados por im obiliárias, para que a terra pantanosa da cidade se torne terreno firm e, para que se possam form ar novos setores, construir novas casas. Criar novas gerações.
Isso se dera em escala m aciça no norte, em Bidhannagar. Ela tinha lido a respeito nos j ornais, os engenheiros holandeses pondo tubulações para trazer lodo do Hooghly, fechando os lagos, transform ando água em terra. Tinham criado no local um a cidade planej ada, Salt Lake.
Muito tem po atrás, quando tinham vindo para Tolly gunge, a água era lím pida. Nos dias de m uito calor, Subhash e Uday an se refrescavam nos lagos. Os pobres tom avam banho ali. Depois das chuvas, as águas da cheia transform avam a baixada num belo local, com aves aquáticas, um a superfície clara que refletia o luar.
A água que sobrou agora se reduz a um círculo verde no centro, um verde opaco que lhe lem bra os veículos m ilitares. Dias de inverno, quando o calor do sol é intenso, quando a m aior parte da baixada j á voltou a ser lam a, ela vê a água de algum as poças se evaporando diante de seus olhos, subindo do solo com o vapor.
Apesar do lixo, o aguapé ainda cresce, de raízes teim osas. Os construtores que querem essa área terão de fazer um a queim ada para erradicá-lo ou rem ovê-lo com m áquinas.
Num a certa hora, ela se levanta da cadeira. Desce até o pátio para colher alguns j asm ins e cravinas, que abriga na concha da m ão. As dálias de seu m arido ainda estão floridas neste inverno, gente espiando por cim a do m uro para adm irá-las.
Ela passa pelos lagos e vai até o com eço da baixada. Seu andar m udou. Perdeu a coordenação necessária para pôr um pé na frente do outro. Move o corpo prim eiro de um lado, depois do outro, inclinando o om bro, o pé procurando o solo.
Aquele anoitecer ocorreu faz tanto tem po que j á surgiram m uitas histórias. As crianças do bairro, que nasceram depois da m orte de Uday an, ficam quietas quando a veem com as flores e a pequena urna de bronze.
Lava a lápide e troca as flores, tirando as do dia anterior, j á m urchas. Em outubro passado, fez doze anos. Ela enfia a m ão num a poça, aspergindo as flores com a água dos dedos, para m antê-las úm idas durante a noite.
Bij oli sabe que m ete m edo às crianças; que tam bém é para elas um a espécie de fantasm a no bairro, um espectro que as observa do terraço, sem pre saindo todos os dias à m esm a hora. Sente vontade de dizer que estão certas, e que o fantasm a de Uday an realm ente está espreitando por ali, dentro de casa, em volta de casa, em volta do enclave.
Alguns dias, contaria Bij oli às crianças se perguntassem , ela o vê se aproxim ar, chegando em casa depois de um longo dia na faculdade. Ele atravessa as portas de vaivém e entra no pátio, um a sacola de livros ao om bro. Ainda bem barbeado, concentrado nos estudos, ansioso em se sentar à escrivaninha. Dizendo-lhe que está com fom e, com sede, perguntando por que ainda não pôs a água do chá para ferver.
Ela ouve seus passos na escada, o ventilador girando em seu quarto. O barulho da estática no rádio que parou de funcionar anos atrás. O som rápido do fósforo estalando, a cham a acendendo e então dim inuindo, quando chega na beirada da caixa.
Com o desgraça final para a fam ília, seu corpo nunca foi devolvido. Não tiveram sequer o consolo de honrar o cadáver crivado de balas. Não puderam ungi-lo, envolvê-lo com flores. Não fora transportado nos om bros dos cam aradas, saindo do enclave e conduzido ao próxim o m undo aos gritos de hari bol.
Depois de sua m orte, não havia com o recorrer à lei. Fora a lei, na época, que perm itira que a polícia o m atasse. Durante algum tem po, ela e o m arido procuraram o nom e dele nos j ornais. Precisando de provas m esm o depois do que tinham visto. Mas não saiu nenhum a notícia. Nenhum a adm issão do que fora feito. A pequena lápide de pedra, erguida por decisão de seus cam aradas de partido, é o único reconhecim ento.
Tinham -lhe dado o nom e do sol. Aquele que doa a vida sem receber nada em troca.
No ano após a m orte de Uday an, no ano em que Subhash levou Gauri para os Estados Unidos, o m arido de Bij oli se aposentou. Acordava antes de clarear e tom ava o prim eiro bonde para o norte, até Babu Ghat, onde se banhava no Ganges. No resto do dia, depois do desj ej um , isolava-se no quarto e lia. Para o alm oço não queria arroz e dizia a ela que cortasse algum a fruta, esquentasse um a tigela de leite.
Essa rotina, essas pequenas privações estruturavam o dia dele. Deixara de ler os j ornais. Deixara de se sentar com Bij oli no terraço, reclam ando que a brisa era úm ida dem ais, que pegava no peito. Lia o Mahabharata traduzido para o bengali, algum as páginas por vez. Perdendo-se em velhos contos, em conflitos antigos que não os tinham envolvido. Quando com eçou a ter problem a na vista, com os olhos toldados pela catarata, não se deu ao trabalho de se consultar. Passou a usar um a lente de aum ento.
A certa altura, sugeriu que vendessem a casa e se m udassem de Tolly gunge, deixando Calcutá para trás. Talvez se m udando para algum outro lugar da Índia, para algum a vila tranquila na m ontanha. Ou talvez pedindo visto e indo para os Estados Unidos, para ficar com Subhash e Gauri. Nada os prendia ali, disse ele. A casa ficava praticam ente vazia. Um arrem edo zom beteiro do futuro que im aginaram que teriam .
Por algum tem po ela considerou a ideia. Viaj ar, fazer as pazes com Subhash, aceitar Gauri, conhecer a filha de Uday an.
Mas para Bij oli era im possível abandonar a casa onde Uday an vivera desde o nascim ento, o bairro onde m orrera. O terraço de onde ela o vira pela últim a vez, à distância. O cam po adiante da baixada, onde o tinham apanhado.
O cam po não era m ais deserto. Agora há um conj unto de casas novas, os telhados cheios de antenas de televisão. De m anhã, ali perto, há um m ercado novo, onde Deepa diz que os preços dos vegetais são m elhores.
Um m ês atrás, antes de ir se deitar, seu m arido prendeu o m osquiteiro nos pregos da parede e deu corda no relógio para m arcar as horas do dia seguinte. De m anhã, Bij oli percebeu que a porta do quarto dele, contíguo ao dela, ainda estava fechada. Que ele não tinha saído para seu banho.
Não bateu à porta dele. Foi ao terraço, para sentar, olhar o céu e bebericar seu chá. Havia algum as nuvens no céu, m as nada de chuva. Disse a Deepa para levar chá ao m arido, para acordá-lo.
Alguns m inutos depois, quando Deepa entrou no quarto, Bij oli ouviu o barulho do pires e da xícara se quebrando no chão. Antes que Deepa voltasse ao terraço, para lhe dizer que ele m orrera durante o sono, Bij oli j á sabia.
Enviuvou, com o enviuvara Gauri. Agora Bij oli usa sáris brancos, sem estam pas nem bordados. Retirou os braceletes e parou de com er peixe. Já não tem o verm elhão m arcando o repartido do cabelo.
Mas Gauri se casou outra vez, com Subhash, um a guinada que ainda a deixa estupefata. Em alguns aspectos, era m enos esperado, m ais chocante do que a m orte de Uday an. Em alguns aspectos, igualm ente devastador.
Deepa agora faz tudo. Adolescente capaz, cuj a fam ília m ora fora da cidade, com cinco irm ãos para aj udar a sustentar. Bij oli deu a Deepa suas bij uterias e coisas coloridas e as chaves da casa. Deepa lava e penteia o cabelo de Bij oli, arrum ando-o de um a m aneira que as partes m ais ralas não apareçam tanto. À noite, dorm e na casa com Bij oli, no quarto de orações onde Bij oli não ora m ais.
Lida com o dinheiro, vai ao m ercado, prepara as refeições, pega a correspondência. De m anhã, tira a água potável do poço. De noite, verifica se o portão está trancado.
Se precisa fazer algum a bainha, usa a m áquina de costura que Uday an costum ava azeitar, que consertava com suas ferram entas e assim Bij oli nunca precisou levá-la a um a oficina. Bij oli diz a Deepa que pode usar a m áquina de costura o quanto quiser, e agora se tornou um a fonte de renda adicional para ela, com o costum ava ser para Bij oli, costurando túnicas e calças, aceitando ou oferecendo blusas para as m ulheres do bairro.
De tarde, no terraço, Deepa lê artigos do j ornal para Bij oli. Nunca a m atéria inteira, só algum as linhas, pulando as palavras difíceis. Conta-lhe que um artista de cinem a é presidente dos Estados Unidos. Que o pci(m ) está governando de novo Bengala Ocidental. Que Jy oti Basu, que Uday an costum ava insultar, é o m inistro.
Deepa substituiu todos: o m arido, a nora, os filhos de Bij oli. Ela crê que foi Uday an que organizou tudo isso.
Lem bra-se dele sentado com um pedaço de giz no pátio, ensinando os m eninos e m eninas que costum avam trabalhar para eles, que não tinham frequentado a escola, a ler e escrever. Era am igo dessas crianças, com endo com elas, cham ando-as para brincar, dando-lhes carne do próprio prato se Bij oli não tivesse separado o suficiente. Vinha em defesa delas, quando levavam algum a reprim enda.
Depois, m ais velho, j untava coisas usadas, lençóis, vasilhas e panelas para distribuir entre as fam ílias que m oravam em colônias, em cortiços. Acom panhava um a criada até a casa dela, nas partes m ais pobres da cidade, para levar rem édios. Para cham ar um m édico se alguém da fam ília dela estivesse doente, para assistir a um funeral se alguém m orresse.
Mas a polícia tinha dito que ele era um infiel, um extrem ista. Mem bro de um partido político clandestino. Um garoto que não distinguia entre o certo e o errado.
Ela vive da pensão do m arido e da renda dos aposentos do térreo, que com eçaram a alugar a outra fam ília depois que Gauri foi em bora. De vez em quando, chega um cheque em dólares de Subhash, que leva m eses até ser com pensado. Ela não lhe pede aj uda, m as não está em condições de recusar.
Som ando tudo, é suficiente para com prar com ida e pagar Deepa, até para com prar um a pequena geladeira e para instalar um a linha telefônica. As linhas são im previsíveis, m as, na prim eira tentativa, ela pegou o aparelho, discou o núm ero de Subhash e sua voz chegou até os Estados Unidos, dando a notícia de que o m arido m orrera. Foi alguns dias depois do fato. Foi um a surpresa, claro, m as até que ponto a afetara?
Viviam em quartos separados fazia m ais de um a década. Fazia m ais de um a década que o m arido não falava do que acontecera a Uday an. Negava-se a falar do assunto com Bij oli, com qualquer pessoa. Todo dia de m anhã, depois de se banhar no rio, com prava frutas no m ercado, na volta parando para conversar sobre um a coisa e outra com os vizinhos. Juntos, sem pre em silêncio, os dois j antavam sentados no chão sob o retrato fúnebre de Uday an, nunca reconhecendo o fato.
Tinham am ado a casa, o local onde m oravam ; em certo sentido, foi o prim eiro filho deles. Orgulhavam -se de todos os detalhes, cuidando j untos, entusiasm ados a cada m odificação.
Quando foi construída inicialm ente, quando tinha apenas dois aposentos, a energia elétrica estava com eçando a chegar ao bairro, candeeiros acesos para preparar o j antar. O poste de ferro com o lam pião na rua, elegante exem plo do planej am ento urbano britânico, ainda não fora convertido. Todos os dias, antes do pôr do sol e depois ao rom per do dia, vinha alguém da em presa, subindo num a escadinha, ligando e desligando o gás à m ão.
O terreno tinha 7,60 m etros de frente por 18,20 de fundo. A casa em si era estreita, não chegando a cinco m etros de largura. Havia um a passagem obrigatória de 1,20 m de cada lado e o m uro da divisa.
Bij oli contribuíra com seu único recurso. Vendeu o ouro que recebera em dote ao se casar. Pois o m arido tinha insistido, antes m esm o de terem filhos, que construir um a casa para a fam ília, ter um a propriedade em Calcutá, por sim ples que fosse, era m ais im portante. Acreditava que não havia segurança m aior.
Originalm ente, a casa era coberta com telhas de argila seca, m ais tarde substituídas por placas de asbesto corrugado. Num a época, Subhash e Uday an dorm iam num quarto sem grades nas j anelas. De noite colocavam aniagem nas aberturas porque ainda não tinham instalado as venezianas. Às vezes entrava chuva.
Ela lem bra o m arido polindo trincos e dobradiças com retalhos de algum sári velho. Batendo os colchões para tirar a poeira. Um a vez por sem ana, depois que construíram um banheiro particular, ele lim pava antes de se lavar, despej ando desinfetante nos cantos e tirando as teias de aranha logo que se form avam .
Nos côm odos, todos os dias Bij oli fazia um inventário m eticuloso de tudo o que tinham . Levantando, desem poeirando, colocando de volta no lugar. Sabendo exatam ente onde ficava cada coisa. Sob sua vigilância, os lençóis eram m uito bem esticados. O espelho sem um a m anchinha. As xícaras de chá sem nenhum a m arca por dentro.
Sahib Mej o, o segundo dos três irm ãos Nawab, era o dono da área que form ava o enclave e lhes vendera o terreno. Descendia do sultão Tipu, que fora m orto pelos ingleses, cuj o reino fora dividido, cuj os filhos ficaram reclusos algum tem po no Tolly Club. Quem visitasse a Inglaterra, pelo que Bij oli ouviu dizer um dia, podia ver a espada e as chinelas de Tipu, partes de seu torno e tenda, expostas com o troféus de conquista num a das residências da rainha Elizabeth.
Nos prim eiros anos de vida de Subhash e Uday an, quando ainda não estava claro se Calcutá pertenceria à Índia ou ao Paquistão, essas fam ílias de sangue real m oravam entre eles. Tinham sido gentis com Bij oli, convidando-a a sair da rua e entrar em suas casas de colunas, oferecendo-lhe refresco de frutas. Subhash e Uday an tinham acariciado os coelhos de estim ação que criavam em gaiolas no pátio. Tinham brincado num balanço feito com tábua de m adeira, em baixo de um caram anchão de buganvílias.
E m 1946, ela e o m arido ficaram receosos que a violência chegasse a Tolly gunge e que talvez os vizinhos m uçulm anos se virassem contra eles. Pensaram em j untar as coisas e sair da casa por algum tem po, indo m orar em outra parte da cidade, onde os hindus eram m aioria. Mas um sobrinho de Sahib Mej o fora m uito franco. Saíra em defesa deles. Quem entrar neste enclave para am eaçar um hindu terá de m e m atar antes, disse ele.
Mas, depois da Partilha, a fam ília de Sahib Mej o e m uitas outras fugiram . O solo natal se tornava corrosivo, com o água salgada atingindo as raízes de um a planta. Abandonaram suas casas elegantes, na m aioria ocupadas ou destruídas.
É assim tam bém que agora parece a casa de Bij oli, abandonada, o curso desviado. Uday an não viveu para herdá-la, Subhash se recusa a voltar. Devia ser um consolo; o único filho que restou depois de lhe tirarem o outro. Mas ela não conseguia am ar um sem o outro. Ele apenas aum entava a perda.
Quando ele voltou após a m orte de Uday an, quando se pôs diante deles, ela só sentiu raiva. Raiva de Subhash por lhe lem brar tanto Uday an, por ter a voz parecida, por ser um a versão sobressalente dele. Entreouvira Subhash conversando com Gauri, dando-lhe atenção, sendo gentil.
Ela lhe falou, quando anunciou que ia se casar com Gauri, que a decisão não cabia a ele. Quando insistiu, ela disse que estava pondo tudo em risco e que nunca entrariam naquela casa com o m arido e m ulher.
Falou isso para feri-los. Falou isso porque um a m oça da qual, para com eçar, não gostava, não queria em sua fam ília, ia se tornar sua nora pela segunda vez. Falou isso porque era Gauri, não Bij oli, que trazia no ventre um a parte de Uday an.
Não era sua intenção falar tudo aquilo. Mas durante doze anos Subhash e Gauri tinham m antido sua posição. Não voltaram , nem j untos nem separados, a Tolly gunge; ficaram longe, na distância. E assim ela sente a m aior vergonha que pode sentir um a m ãe: não só sobreviver a um filho, m as perder outro, ainda vivo.
Quarenta e um anos antes, Bij oli desej ara m uito conceber Subhash, m ais do que qualquer outra coisa que desej ara na vida. Fazia quase cinco anos que estava casada antes de acontecer, j á nos m eados da casa de seus vinte anos, com eçando a pensar que talvez não pudesse ter filhos, que talvez ela e o m arido não pudessem ter um a fam ília. Que tinham investido na propriedade e construído a casa à toa.
Mas no final de 1943 ele nasceu. Naquela época, Tolly gunge era um m unicípio independente. A nova ponte Howrah estava aberta ao trânsito, m as ainda eram charretes a cavalo que levavam as pessoas à estação de trem . Gandhi estivera em j ej um em protesto contra os britânicos, e os britânicos estavam em guerra com os países do Eixo, de form a que as árvores de Tolly gunge ficavam repletas de soldados estrangeiros, prontos para abater aviões j aponeses.
No verão em que ficou grávida, com eçou a chegar um a avalanche de gente do cam po na estação de Bally gunge. Esqueléticos, quase enlouquecidos. Eram cam poneses, pescadores. Gente que outrora produzira e fornecera alim ento para os outros, agora m orrendo por falta de com ida. Ficavam deitados nas ruas de Calcutá do Sul, à som bra das árvores.
Um ciclone no ano anterior destruíra os arrozais ao longo da costa. Mas todos sabiam que a fom e que se seguira era um a calam idade criada por m ão hum ana. O governo ocupado com problem as m ilitares, a distribuição afetada, o custo da guerra tornando o preço do arroz proibitivo.
Ela lem bra os cadáveres fedendo ao sol, cobertos de m oscas, apodrecendo nas estradas até virem as carroças para retirá-los. Ela lem bra os braços de algum as m ulheres tão m agros que tinham de puxar os braceletes de casam ento, seus únicos enfeites, acim a do cotovelo para que não caíssem .
Os que ainda tinham algum a energia abordavam as pessoas na rua, batendo no om bro de estranhos para m endigar a água turva de am ido que escorria quando drenavam a panela de arroz e que norm alm ente j ogavam fora. Phen.
Bij oli costum ava separar essa água, dando a m agotes de gente delirante que se aglom erava na hora das refeições diante das portas de vaivém de sua casa. Subhash pesando-lhe na barriga, ela ia aos centros de voluntários para servir tigelas de m ingau. À noite, ouviam -se os rogos dos pedintes, com o o balido interm itente de um anim al. Com o os chacais no Tolly Club, que a assustavam da m esm a form a.
Nos lagos além da casa e nas águas da baixada inundada, ela via gente em busca de alim ento. Com endo insetos, com endo terra, com endo larvas que rastej avam no chão. Foi naquele ano de sofrim ento ubíquo que, pela prim eira vez, ela trouxe vida ao m undo.
Quinze m eses depois, não m uito antes do final da guerra e da rendição do Japão, chegou Uday an. Em sua lem brança, tinha sido um a só e longa gravidez. Um após o outro ocuparam o corpo de Bij oli, as células de Uday an com eçando a se dividir e se m ultiplicar antes que Subhash desse o prim eiro passo, antes que recebesse um nom e próprio. Em essência, o que parecia separá-los eram os três m eses entre os respectivos aniversários, e não os quinze que haviam transcorrido na realidade.
Alim entara-os a m ão, arroz e dal m isturados no m esm o prato. Tirara os espinhos de um m esm o pedaço de peixe, enfileirando-os ao lado do prato com o um j ogo de suas agulhas de costura.
Desde o com eço, Uday an era m ais exigente. Por algum a razão, não se sentia seguro do am or dela por ele. Chorando, protestando, desde o instante em que nasceu. Chorando se ela o entregava ao colo de outra pessoa ou saía do quarto por um m om ento. O trabalho de acalm á-lo criara união. Em bora a exasperasse, era evidente que necessitava dela.
Talvez sej a por isso que ainda agora se sente m ais próxim a de Uday an do que de Subhash. Am bos a desafiaram , escapando e se cansando com Gauri. No caso de Uday an, a princípio ela tentara aceitar. Tinha esperanças de que se assentaria tendo esposa, que se afastaria da política. Ela vai continuar com seus estudos, dissera ele aos pais. Não a transform em num a dona de casa. Não se introm etam no cam inho dela.
Chegava em casa com presentes para Gauri, levava-a a restaurantes e cinem as, iam j untos visitar os am igos dele. Quando Bij oli e o m arido souberam o que os estudantes andavam fazendo depois de Naxalbari, o que andavam destruindo, quem andavam m atando, pensaram consigo m esm os que Uday an estava casado. Que tinha um futuro a pensar, um a fam ília a form ar. Que não ia se m isturar a eles.
Sem com entar nada, tinham se preparado para escondê-lo, para m entir à polícia, caso aparecesse. Im aginavam que era um a sim ples questão de protegê-lo.
Sem perguntar aonde ele ia à noite, sem saber com quem ele se encontrava, estavam preparados para perdoá-lo. Eram seus pais. Não estavam preparados, naquela noite, para deixar de serem seus pais.
Ela não consegue m ais rever a cena na im aginação. Nem consegue im aginar a vida que Subhash e Gauri levam nos Estados Unidos, no lugar cham ado Rhode Island. A criança, cham ada Bela, que estão criando com o m arido e m ulher. Mas agora Subhash perdeu o pai. Pela segunda vez desde que saiu da Índia, por causa de um a segunda m orte, ele é obrigado a encará-la.
Certa m anhã, olhando a vista do terraço, Bij oli tem um a ideia. Desde a escada e atravessa as portas do pátio, vai para o enclave e então segue até a rua. Passam escolares de uniform e, de m eias brancas e sapatos pretos, as m alinhas a tiracolo carregadas de livros. Saia azul-celeste para as m eninas, calção e gravata para os m eninos.
Estão rindo, até que a veem e se afastam . Seu sári está m anchado e os ossos ficaram frágeis, os dentes j á bam bos nas gengivas. Não lem bra a idade que tem , m as sabe, sem precisar parar para pensar, que Uday an teria feito 39 anos nesta prim avera.
Carrega um a cesta larga e baixa, usada para guardar carvão de reserva. Anda até a baixada, erguendo o sári e pondo à m ostra as panturrilhas, com pintas que lem bram alguns ovos, com o se tivessem sido borrifadas com um a leve cam ada castanha. Entra num a poça e se encurva, rem exendo as coisas com um a vareta. Depois, com as m ãos, com eça a retirar obj etos da água verde-escura. Um pouco por vez, alguns m inutos por dia; este é seu plano, m anter lim pa a área em volta da lápide de Uday an.
Ela am ontoa os refugos na cesta, esvazia a cesta um pouco adiante e então volta a enchê-la. Com as m ãos nuas, separa os frascos vazios de Dettol, de xam pu Sunsilk. Coisas que os ratos não com em , que os corvos não pegam . Maços de cigarro j ogados por gente de passagem . Um absorvente higiênico ensanguentado.
Sabe que nunca vai conseguir rem over tudo. Mas todos os dias vai e enche a cesta, um a vez, e depois m ais algum as vezes. Não se im porta quando alguns, parando para ver o que ela está fazendo, dizem que é inútil. Que é repulsivo, abaixo de sua dignidade. Que pode lhe causar algum tipo de doença. Está acostum ada com vizinhos que não a entendem . Está acostum ada a ignorá-los.
Todos os dias, rem ove um a pequena parcela das coisas indesej adas de vidas alheias, em bora tudo aquilo, pensa ela, tenha sido outrora útil e desej ado. Sente o sol queim ando a nuca. O calor está agora no auge; as chuvas ainda vão dem orar alguns m eses para chegar. Sente-se satisfeita com a tarefa. Ocupa o tem po.
Um dia, aparecem alguns obj etos inesperados, am ontoados perto da lápide de Uday an. Folhas de bananeira suj as, com m anchas de com ida. Guardanapos de papel usados, com o nom e de um fornecedor, cálices quebrados onde os convivas tom aram chá e água filtrada. Grinaldas de flores m urchas, usadas para enfeitar a entrada de um a casa.
São os restos de um a festa de casam ento em algum lugar do bairro. Sinais de um a união auspiciosa, um a com em oração. Um a m istura de coisas que lhe causa repulsa, que não quer tocar nem lim par.
Nenhum dos filhos se casou dessa m aneira. Não tinham com em orado, não houve convidados para festej ar. Foi som ente no funeral de Uday an que serviram alim ento aos presentes na casa, folhas de bananeira com m ontinhos de sal e fatias de lim ão arrum adas no andar de cim a, parentes e cam aradas esperando em fila no patam ar, até a vez de subir a escada e com er a refeição.
Ela se pergunta qual seria a fam ília que casou um filho ou um a filha. O bairro anda crescendo: não sabe m ais onde com eça e onde acaba. Antigam ente, teria batido à porta deles, seria reconhecida, bem -vinda, convidada a tom ar um a xícara de chá. Teria recebido um convite para o casam ento, insistiriam que fosse. Mas agora há casas novas, pessoas novas que preferem suas televisões, que nunca falam com ela.
Quer saber quem fez aquilo. Quem profanou este local? Quem insultou a m em ória de Uday an desta form a?
Ela brada aos vizinhos. Quem foi responsável? Por que não se apresentam ? Já esqueceram o que aconteceu? Ou não sabiam que foi aqui que seu filho estava escondido? E logo ali, onde antes era um cam po vazio, foi onde o m ataram ?
Suplica, com as m ãos em concha, com o faziam os m endigos com fom e, entrando no enclave, pedindo com ida. Tinha feito por eles o que podia. Tirara o am ido da panela de arroz e dera a eles. Mas ninguém dá atenção a Bij oli.
Apresentem -se, grita aos que estão olhando pelas j anelas ou do alto das casas. Lem bra a voz do param ilitar, falando pelo m egafone. Caminhe devagar. Mostre o rosto.
Espera que Uday an apareça entre os aguapés e venha até ela. Agora está seguro, diz a ele. A polícia foi em bora. Ninguém vai te levar. Volte depressa para casa. Você deve estar com fom e. O j antar está pronto. Logo vai escurecer. Teu irm ão se casou com Gauri. Agora estou sozinha. Você tem um a filha nos Estados Unidos. Teu pai m orreu.
Espera, na certeza de que ele está ali, de que está a ouvi-la. Ela fala sozinha, para si, para ninguém . Cansada de esperar, espera m ais um pouco. Mas a única pessoa que aparece é Deepa. Lava as m ãos suj as e os pés enlam eados de Bij oli com água fresca. Envolve seus om bros num xale e passa o braço por sua cintura.
Venha tom ar chá, diz Deepa, adulando-a, levando-a para casa.
No terraço, j unto com o prato de biscoitos e a xícara de chá, Deepa lhe estende m ais um a coisa.
O que é isso?
Um a carta, Mam oni. Estava hoj e na caixa de correio.
É dos Estados Unidos, de Subhash. Ele confirm a os planos de visitá-la neste verão, inform ando a data da chegada. Até lá, terão transcorrido quase três m eses desde a m orte do pai.
Ele diz que não é possível chegar antes. Diz que vai trazer a filha de Uday an, m as que Gauri não pode vir. Cita algum as palestras que pretende dar em Calcutá. Diz que ficarão seis sem anas. Ela me considera seu pai, diz sobre a m enina a que deram o nom e de Bela. Ela não sabe de nada.
O ar está parado. Os prédios do governo, construídos recentem ente atrás da casa, vedam a passagem da aragem vinda do sul, que costum ava percorrer toda a extensão do terraço. Ela devolve a carta a Deepa. Com o um saquinho de chá sobressalente que não vai usar agora, ela põe a inform ação de lado e volta os pensam entos para outras coisas.