Aguapés
Capítulo 3
No dia seguinte, depois de conversar com Gauri, Subhash foi sozinho à cidade pela prim eira vez. Levou os tecidos que os pais lhe haviam dado, sua parte e a parte de Uday an, até a oficina de um alfaiate. Não precisava de calças e cam isas novas, m as se sentia obrigado a isso, por não querer que os tecidos se desperdiçassem . A inform ação de que não havia nenhum lugar em Rhode Island onde se pudesse encom endar roupas, que as roupas am ericanas eram confecções prontas, causou surpresa a seus pais. Foi o prim eiro detalhe de sua vida no exterior a que reagiam abertam ente.
Ele pegou o bonde até Bally gunge, passando pelos cam elôs que o cham avam . Encontrou a pequena alfaiataria que pertencia a parentes distantes, aonde ele e Uday an sem pre iam j untos, um a vez por ano, para tirar as m edidas. Um balcão com prido, um espaço para provar num dos cantos, um a haste onde ficava a roupa depois de pronta. Ele fez a encom enda, observando enquanto o alfaiate desenhava rapidam ente os m odelos num caderno, recortando um triângulo do tecido e gram peando no canto de cada registro de entrada.
Ele não precisava de m ais nada, não queria m ais nada na cidade. Depois de ouvir o que lhe contara Gauri, depois de im aginar as cenas, não conseguia se concentrar em outras coisas.
Pegou um ônibus, sem destino definido, descendo perto da Esplanada. Viu estrangeiros nas ruas, europeus com kurtas e colares de contas. Explorando, percorrendo Calcutá. Em bora se parecesse com todos os outros bengalis, agora sentia afinidade com os estrangeiros. Dividia com eles o conhecim ento de outros lugares. De outra vida a retom ar. A possibilidade de sair.
Nessa parte da cidade havia hotéis onde poderia entrar, tom ar um uísque ou um a cervej a, engatar um a conversa com desconhecidos. Esquecer com o seus pais se com portavam , esquecer as coisas que Gauri contara.
Parou para acender um cigarro, Wills, a m arca que Uday an fum ava. Sentindo cansaço, parou na frente de um a loj a que vendia xales bordados.
O que gostaria de ver?, perguntou o dono. Era de Caxem ira, o rosto pálido, os olhos claros, um barrete de algodão na cabeça.
Nada.
Venha dar um a olhada. Tom e um a xícara de chá.
Ele havia esquecido esses gestos de hospitalidade dos com erciantes. Entrou e sentou num a banqueta, observando enquanto o hom em abria os xales de lá, um por um , por cim a de um a grande alm ofada branca no chão. Com oveu-se com a generosidade do esforço, a fé im plícita. Decidiu com prar um para a m ãe, som ente então percebendo que não lhe havia trazido nada dos Estados Unidos.
Levo este, disse ele, apontando um xale azul-m arinho, pensando que ela gostaria da m aciez da lã, da com plexidade da tram a.
O que m ais?
Só, respondeu. Mas então pensou em Gauri. Lem brou seu perfil enquanto ela lhe contava sobre Uday an. A m aneira com o fitava em frente, com o olhar perdido, contando-lhe o que ele queria saber.
Era graças a Gauri que agora ele sabia o que havia acontecido: que ela e os pais tinham visto Uday an m orrer. Agora ele sabia que seus pais tinham passado vergonha diante dos vizinhos. Incapazes de aj udar Uday an, incapazes de protegê-lo ao final. Perdendo o filho de um a m aneira inconcebível.
Ele vasculhou as opções a seus pés. Marfim , cinzento, um castanho m ais claro do que o chá que recebera para tom ar. Agora eram considerados os adequados para ela. Mas um turquesa vivo com as beiradas bordadas em ponto m iúdo prendeu seu olhar.
Im aginou-o em torno dos om bros dela, um dos lados pendendo para trás. Ilum inando seu rosto.
Este tam bém , disse ele.
Seus pais estavam no terraço, esperando. Perguntaram por que se dem orara tanto. Disseram que ainda não era seguro ficar andando tão tarde pelas ruas.
A preocupação deles era razoável, m as Subhash se aborreceu. Não sou Uday an, sentiu vontade de dizer. Jam ais colocaria vocês nessa situação.
Deu à m ãe o xale que lhe com prara. Então m ostrou o que daria a Gauri.
Gostaria de dar este a ela.
Você sabe que não deve, respondeu a m ãe. Pare de tentar fazer am izade com ela.
Ele ficou em silêncio.
Ouvi vocês dois conversando ontem .
Não posso falar com ela?
O que ela contou?
Ele não disse. Mas perguntou: Por que você nunca fala com ela?
Desta vez foi a m ãe que ficou em silêncio.
Você lhe tirou as roupas coloridas, o peixe e a carne das refeições.
São nossos costum es, disse a m ãe.
É hum ilhante. Uday an j am ais ia querer que ela vivesse dessa m aneira.
Ele não tinha o costum e de discutir com a m ãe. Mas um a nova energia percorreu seu ser e ele não conseguiu se conter.
Não significa nada o fato de que ela lhe dará um neto?
Significa tudo. Foi a única coisa que ele nos deixou, disse a m ãe.
E Gauri?
Ela tem um lugar aqui, se quiser.
Com o assim , se quiser?
Ela pode ir a outro lugar, para continuar os estudos. Pode preferir assim .
E por que você pensa isso?
Ela é retraída dem ais, distanciada dem ais para ser m ãe.
As têm poras dele latej avam . Você com entou algum a coisa a respeito com ela?
Não há por que incom odá-la sobre isso agora.
Ele viu que sua m ãe, sentada no terraço, j á planej ara tudo, friam ente. Mas ficou igualm ente aterrado com o pai, por não dizer nada, por aceitar aquilo.
Você não pode separá-los. Por consideração a Uday an, aceite-a.
A m ãe perdeu a paciência. Zangou-se com ele tam bém . Cale a boca, disse em tom insultuoso. Não m e diga com o devo honrar m eu próprio filho.
Naquela noite, sob o m osquiteiro, Subhash não conseguiu adorm ecer.
Talvez nunca viesse a saber totalm ente o que Uday an havia feito. Gauri lhe apresentara sua versão e os pais se negavam a falar sobre o assunto.
Ele supunha que tinham sido lenientes com Uday an, com o sem pre haviam sido. Intuindo o que lhe passava pela cabeça, m as nunca o confrontando.
Uday an deu sua vida a um m ovim ento que fora m al conduzido, que só causara danos, que j á fora desm antelado. A única coisa que ele transform ou foi a fam ília.
Havia m antido Subhash, e provavelm ente ainda m ais os pais, no escuro, de propósito. Quanto m ais intensificava seu envolvim ento, m ais evasivo se tornava. Escrevendo cartas com o se o m ovim ento não o interessasse m ais. Esperando despistar Subhash enquanto m ontava bom bas, enquanto desenhava m apas do Tolly Club. Enquanto perdia os dedos num a explosão.
Era em Gauri que ele confiava. Trouxera-a para a vida deles, apenas para deixá-la perdida ali.
Com o a solução de um a equação que vai aparecendo aos poucos, Subhash com eçou a perceber um rum o possível para as coisas. Já estava ansioso em sair de Calcutá. Não havia nada que pudesse fazer pelos pais. Não conseguia consolá-los. Voltara para ficar com eles, m as no final sua vinda pouca im portância tivera.
Gauri, porém , era diferente. Perto dela, sentia um a percepção da pessoa que am bos tinham am ado.
Pensou em Gauri ficando com os pais dele, vivendo de acordo com suas regras. A frieza da m ãe em relação a Gauri era insultante, m as a passividade do pai era igualm ente cruel.
E não era apenas crueldade. O tratam ento que am bos davam a ela era deliberado, calculado para afastá-la. Ele pensou em Gauri dando à luz, apenas para perder o controle do filho. Pensou no filho sendo criado num a casa sem alegria.
A única m aneira de im pedir isso era levar Gauri em bora dali. Era só o que podia fazer por ela, a única alternativa que podia oferecer. E a única m aneira de tirá-la dali era se casando com ela. Ocupando o lugar do irm ão, criando seu filho, vindo a am ar Gauri com o Uday an am ara. Seguindo-o de um a m aneira que parecia incorreta, que parecia necessária. Que parecia certa e errada ao m esm o tem po.
A data de sua partida se aproxim ava: logo estaria outra vez num avião. Não havia ninguém à sua espera em Rhode Island. Estava cansado de ficar sozinho.
Tentara negar a atração que sentia por Gauri. Mas era com o a luz dos pirilam pos que enchiam a casa à noite, pontos aleatórios que o rodeavam , brilhavam e depois sum iam sem deixar rastros.
Não com entou nada com os pais, sabendo que apenas tentariam dissuadi-lo. Sabia que a solução a que chegara seria aterradora para eles. Foi diretam ente a ela. Antes sentira m edo da reação que os pais teriam diante de Holly . Mas agora não estava m ais com m edo.
Isso é para você, disse de pé à porta, dando-lhe o xale.
Ela levantou a tam pa da caixa e olhou.
Gostaria que você o colocasse.
Observou-a enquanto ela entrava no quarto e abria o guarda-roupa. Guardou o xale, ainda dobrado na caixa.
Quando se virou para olhá-lo, ele notou que um m osquito havia pousado no alto de sua testa, perto da linha dos cabelos. Sentiu vontade de estender a m ão para espantá-lo, m as ela estava im óvel, im perturbável, talvez sem perceber.
Odeio com o m eus pais te tratam , disse ele.
Ela continuou em silêncio. Sentou à escrivaninha, diante do livro e do caderno aberto. Estava esperando que ele saísse.
Subhash perdeu o ânim o. A ideia era ridícula. Ela não ia usar o xale turquesa, nunca concordaria em se casar com ele e ir para Rhode Island. Estava de luto por Uday an, carregando um filho seu no ventre. Subhash sabia que não significava nada para ela.
Na tarde seguinte, num a hora em que não se esperava ninguém , a cam painha soou. Subhash estava sentado no terraço, lendo os j ornais. O pai estava no trabalho, a m ãe tinha saído. Gauri estava em seu quarto.
Ele desceu a escada para atender. Encontrou três hom ens, do lado de fora do portão. Dois policiais arm ados e um investigador do Serviço Secreto. O investigador se apresentou. Queria falar com Gauri.
Ela está dorm indo.
Vá acordá-la.
Ele destrancou o portão e levou os hom ens ao segundo andar. Pediu que esperassem no patam ar da escada. Então foi pelo corredor até o quarto de Gauri.
Quando ela abriu a porta, estava sem óculos. Os olhos pareciam cansados. O cabelo estava despenteado, o tecido do sári am arrotado. A cam a desfeita.
Avisou quem estava lá. Ficarei com você, disse ele.
Ela prendeu o cabelo e pôs os óculos. Arrum ou a cam a e disse que estava pronta. Estava serena, sem dem onstrar nada do nervosism o que ele sentia.
O investigador foi o prim eiro a entrar no quarto. Os policiais vieram atrás e pararam à porta. Estavam fum ando, deixando as cinzas caírem no chão. Um deles era estrábico e parecia estar olhando Guari e Subhash ao m esm o tem po.
O investigador exam inava as paredes, o forro, dem orando-se em alguns detalhes. Pegou um dos livros da m esa de Gauri, folheando algum as páginas. Tirou um a caneta e um bloco de notas do bolso da cam isa. Fez algum as anotações. Tinha a ponta dos dedos descolorida, com o que m anchada por algum alvej ante.
Você é o irm ão?, perguntou sem sequer olhar Subhash.
Sou.
O dos Estados Unidos?
Ele assentiu com a cabeça, m as o investigador j á estava concentrado em Gauri.
Você conheceu seu m arido em que ano?
1968.
Quando estudava na Presidency ?
Sim .
Você sim patizava com as convicções dele?
No com eço.
Atualm ente você pertence a algum a organização política?
Não.
Quero m ostrar algum as fotos. São pessoas que seu m arido conhecia.
Tudo bem .
Ele tirou um envelope do bolso. Com eçou a lhe estender as fotos. Pequenos instantâneos que Subhash não conseguiu ver.
Você reconhece algum a dessas pessoas?
Não.
Nunca encontrou nenhum a delas? Seu m arido nunca apresentou?
Não.
Olhe com atenção, por favor.
Olhei.
O investigador recolocou as fotos no envelope, tom ando cuidado para não m anchar.
Algum a vez ele m encionou alguém de nom e Nirm al Dey ?
Não.
Tem certeza?
Tenho.
Gopal Sinha.
Subhash engoliu em seco e olhou de relance para Gauri. Ela estava m entindo. Até ele se lem brava de Sinha, o estudante de m edicina, na reunião a que com parecera. Certam ente Uday an o teria m encionado a Gauri.
Ou não? Talvez, para protegê-la, tam bém tivesse sido desonesto com ela. Subhash não tinha com o saber. Mesm o tendo descrito os últim os dias e m om entos de Uday an com tanta vividez, alguns detalhes continuavam vagos.
O investigador tom ou m ais algum as notas, então enxugou o rosto com um lenço. Posso lhe pedir um pouco de água?
Subhash o serviu, pegando água da bilha no canto do quarto, estendendo a ele o copo de aço inoxidável que ficava ao lado, virado de borco. Observou enquanto o investigador esvaziava o copo e o colocava na m esa de Gauri.
Voltarem os se tiverm os m ais perguntas, disse o investigador.
Os policiais apagaram os cigarros com a ponta da bota e o grupo se encam inhou para a escada. Subhash seguiu atrás, acom panhando-os à saída da casa, trancando o portão.
Quando você volta para os Estados Unidos?, perguntou o investigador.
Daqui a algum as sem anas.
Qual é sua área?
Quím ica dos oceanos.
Você não se parece em nada com seu irm ão, com entou e se virou para ir em bora.
Ela esperava por ele no terraço, sentada em um a das cadeiras dobráveis.
Você está bem ?, ele perguntou.
Estou.
Quanto tem po até voltarem ?
Não vão voltar.
Com o você sabe?
Ela ergueu a cabeça e depois os olhos. Porque não tenho m ais nada a dizer para eles, respondeu.
Tem certeza?
Ela continuou olhando para ele, com expressão neutra, serena. Queria acreditar nela. Mas, m esm o que ela tivesse m ais algum a coisa a dizer, ele entendeu que não havia m ais nada que quisesse falar.
Você não está segura aqui, disse ele. Mesm o que a polícia te deixe em paz, m eus pais não deixarão.
Com o assim ?
Depois de um a pausa, ele contou o que sabia.
Eles te querem fora daqui, Gauri. Não querem cuidar de você. Querem o neto para eles.
Depois que ela absorveu isso, ele disse as únicas coisas em que pôde pensar, os fatos m ais óbvios: que nos Estados Unidos ninguém sabia do m ovim ento, ninguém iria incom odá-la. Poderia continuar os estudos. Seria um a oportunidade para recom eçar.
Com o ela não disse nada para interrom pê-lo, ele prosseguiu, explicando que a criança precisava de um pai. Nos Estados Unidos, ela poderia crescer sem o peso do que acontecera.
Disse-lhe que sabia que ela ainda am ava Uday an. Disse-lhe para não pensar no que os outros podiam dizer, na reação que seus pais teriam . Se ela fosse com ele para os Estados Unidos, garantiu-lhe, tudo isso perderia qualquer im portância.
Ela tinha reconhecido a m aioria das pessoas das fotos. Eram cam aradas de Uday an, gente do bairro que pertencia ao partido. Lem brava-se de alguns deles de um a reunião a que tinha com parecido, antes de ficar perigoso dem ais. Reconheceu Chandra, um a m ulher que trabalhava na alfaiataria, e tam bém o hom em da papelaria. Fingira que não.
Entre os nom es que o investigador citara, havia apenas um que Uday an nunca m encionou. Apenas um , realm ente, que ela não conhecia. Nirm al Dey. Mesm o assim , algo lhe dizia que não ignorava esse hom em .
Você não precisa fazer isso, disse ela a Subhash na m anhã seguinte.
Não é só por você.
Ele não iria querer.
Entendo.
Não estou falando de nos casarm os.
Do quê, então?
No fim ele não queria um a fam ília. Me falou na véspera de m orrer. Mas...
Ela se interrom peu.
O quê?
Um a vez ele m e disse que, com o tinha se casado antes de você, queria que você fosse o prim eiro a ter um filho.