Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 6 de 37

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Aguapés

Capítulo 5

 

No com eço de 1968, devido à oposição crescente, o governo da Frente Unida caiu e Bengala Ocidental ficou sob regim e presidencial.

O sistem a de ensino tam bém estava em crise. Era um a pedagogia ultrapassada, destoando da realidade da Índia. Ensinava a j uventude a ignorar as necessidades do povo. Esta era a m ensagem que os estudantes radicais com eçaram a divulgar.

Reproduzindo Paris, reproduzindo Berkeley, boicotavam os exam es por toda Calcutá, rasgavam os diplom as. Gritavam durante os discursos nas assem bleias, atrapalhando os oradores. Diziam que as reitorias eram corruptas. Faziam barricadas m antendo os vice-reitores em suas salas, negando-lhes água e com ida enquanto não atendessem a suas reivindicações.

Apesar dos tum ultos, os dois irm ãos, encoraj ados pelos professores, com eçaram a pós-graduação, Uday an na Universidade de Calcutá, Subhash continuando em Jadavpur. Esperava-se que desenvolvessem seus potenciais, para sustentar os pais no futuro.

Os horários de Uday an ficaram m ais irregulares. Um a noite não voltou para o j antar e a m ãe guardou sua refeição no canto da cozinha, sob um prato. Quando ela lhe perguntou, na m anhã seguinte, por que não tinha se alim entado, ele respondeu que com era na casa de um am igo.

Quando ele estava fora, não se falava nada durante as refeições sobre a am pliação do m ovim ento de Naxalbari para outras áreas de Bengala Ocidental e tam bém para algum as outras áreas da Índia. Não se discutia nada sobre as guerrilhas ocorrendo em Bihar, em Andhra Pradesh. Subhash concluiu que agora Uday an se dava com outras pessoas, com quem podia conversar à vontade sobre essas coisas.

Sem Uday an, com iam em silêncio, sem discussões, com o preferia o pai. Subhash sentia falta da com panhia do irm ão, m as às vezes era um alívio ficar sozinho à m esa de estudos.

Quando estava em casa, Uday an ligava o rádio de m adrugada. Insatisfeito com as notícias oficiais, encontrou program as secretos de estações em Darj eeling, em Siliguri. Ouvia program as da Rádio Pequim . Um a vez, bem na hora em que nascia o sol, conseguiu trazer a Tolly gunge a voz distorcida de Mao, interrom pida por raj adas de estática, discursando para o povo chinês.

Com o Uday an o convidou e com o era curioso, Subhash foi um a noite com ele a um a reunião num bairro em Calcutá do Norte. A salinha enfum açada estava repleta de gente, na m aioria estudantes. Havia um retrato de Lênin forrado de plástico, pendurado num a parede verde vivo. Mas o clim a na sala era contra Moscou, a favor de Pequim .

Subhash tinha im aginado um debate encarniçado. Mas a reunião foi ordeira, conduzida com o um a sessão de estudos. Um estudante de m edicina de cabelo esfarripado, cham ado Sinha, desem penhava o papel de professor. Os outros anotavam . Um a um , eram cham ados para m ostrar seus conhecim entos sobre os fatos da história chinesa, sobre os postulados de Mao.

Distribuíram os exem plares m ais recentes de Deshabrati e Liberation. Havia um a atualização na revolta em Srikakulam . Cem aldeias ao longo de trezentos e vinte quilôm etros entre m ontanhas, caindo sob a influência m arxista.

Cam poneses rebeldes estavam criando bastiões onde nenhum policial se atrevia a entrar. Fazendeiros fugiam . Havia notícias de fam ílias que m orreram queim adas durante o sono, suas cabeças expostas em estacas. Slogans de vingança escritos com sangue.

Sinha falava baixo. Sentado a um a m esa, reflexivo, os dedos cruzados.

Passou-se um ano desde Naxalbari, e o pci(m ) continua a nos trair. Eles ultraj aram a bandeira verm elha. Mancharam o bom nom e de Marx.

O pci(m ), as políticas da União Soviética, o governo reacionário da Índia, todos se equivalem . São lacaios dos Estados Unidos. Estas são as quatro m ontanhas que precisam os derrubar.

O obj etivo do pci(m ) é m anter o poder. Mas nosso obj etivo é a form ação de um a sociedade j usta. A criação de um novo partido é fundam ental. Para que a história avance, a política parlam entar de gabinete precisa acabar.

A sala estava em silêncio. Subhash viu com o Uday an bebia as palavras de Sinha. Totalm ente concentrado, com o costum ava ficar quando ouvia um a partida de futebol pelo rádio.

Em bora estivesse ali presente, em bora estivesse sentado ao lado de Uday an, Subhash se sentia invisível. Não acreditava que um a ideologia im portada fosse capaz de resolver os problem as da Índia. Em bora um a fagulha tivesse se acendido um ano atrás, não j ulgava que se seguiria necessariam ente um a revolução.

Perguntava-se se era a falta de coragem ou de im aginação que o im pedia de acreditar. Se eram os defeitos de que sem pre tivera consciência que o im pediam de partilhar a convicção política do irm ão.

Lem brou os sinais bobos que ele e Uday an costum avam trocar entre si, apertando a cam painha, um fazendo o outro rir. Não sabia com o responder à m ensagem que Sinha transm itia e que Uday an tão avidam ente recebia.

Debaixo da cam a de am bos, encostadas na parede, havia um a lata de tinta verm elha e um a brocha que antes não estavam lá. Sob o colchão, Subhash encontrou um papel dobrado com um a lista de slogans, copiados na letra de Uday an. O dirigente da China é nosso dirigente! Abaixo as eleições! Nosso caminho é o caminho de Naxalbari!

Os m uros da cidade agora estavam forrados de pichações. As paredes dos edifícios no cam pus, os m uros altos dos estúdios cinem atográficos. Os m uros m ais baixos ladeando as ruas do enclave.

Um a noite, Subhash ouviu Uday an entrar em casa e ir direto ao banheiro. Ouviu o som de água pingando no chão. Subhash estava sentado à m esa de estudos. Uday an em purrou a lata de tinta para baixo da cam a.

Subhash fechou o caderno, tam pou a caneta. O que você estava fazendo agora há pouco?

Me lavando.

Uday an atravessou o quarto e se sentou num a cadeira ao lado da j anela. Estava com um pij am a de algodão branco. O corpo estava m olhado, os pelos pretos úm idos no peito. Pôs um cigarro na boca e abriu um a caixa de fósforos. Teve de riscar o palito algum as vezes até acender.

Você estava pichando slogans?, perguntou Subhash.

A classe dom inante espalha sua propaganda por todas as partes. Por que só ela, e ninguém m ais, pode influenciar as pessoas?

E se a polícia te pegar?

Não vai pegar.

Ligou o rádio. Se não com batem os um problem a, contribuím os para ele, Subhash.

Depois de um a pausa, acrescentou: Venha com igo am anhã, se quiser.

 

Subhash ficou outra vez com o vigia. Outra vez alerta a qualquer som .

Atravessaram um a ponte de m adeira que cobria um a parte estreita do Tolly ’s Nullah. Era um bairro considerado distante quando eram m ais novos, e tinham a recom endação de não ir até lá.

Subhash segurava a lanterna. Ilum inou um a parte do m uro. Era quase m eia-noite. Tinham dito aos pais que iam à últim a sessão de um film e.

Ficou perto. Prendeu a respiração. As rãs do lago coaxavam , m onótonas, insistentes.

Observava enquanto Uday an m ergulhava a brocha na lata. Estava escrevendo em inglês Viva Naxalbari!

Logo Uday an form ou as letras do slogan. Mas a m ão vacilava, aum entando a dificuldade. Subhash j á tinha notado antes, nas últim as sem anas — um trem or ocasional, quando o irm ão sintonizava o rádio, quando gesticulava ao falar algum a coisa ou virava as folhas do j ornal.

Subhash lem brou quando escalaram o m uro do Tolly Club. Dessa vez, Subhash não estava com m edo de ser apanhado. Talvez fosse bobagem de sua parte, m as algo lhe dizia que esse tipo de coisa só acontece um a vez. E tinha razão, ninguém percebeu o que faziam , ninguém os castigou e, alguns m inutos depois, atravessavam de novo a ponte, depressa, fum ando para se acalm arem .

Desta vez só Uday an foi estouvado. Só Uday an ficou orgulhoso pelo que tinham feito.

Subhash estava zangado consigo m esm o por ter ido. Por ainda precisar provar que era capaz.

Estava farto daquele m edo que sem pre surgia dentro de si: que deixaria de existir, que ele e Uday an deixariam de ser irm ãos, se Subhash resistisse a ele.

Term inados os estudos, os irm ãos se som aram a tantos outros de sua geração, altam ente qualificados e desem pregados. Com eçaram a dar aulas para ganhar alguns trocos e contribuir com as despesas de casa. Uday an conseguiu vaga para dar aulas de ciências num a escola técnica perto de Tolly gunge. Parecia satisfeito com um em prego com um . Não fazia questão de seguir carreira.

Subhash resolveu se candidatar a alguns program as de doutorado nos Estados Unidos. As leis de im igração tinham m udado, facilitando a entrada de estudantes indianos. Na graduação, ele com eçara a se concentrar em pesquisas na área de quím ica e m eio am biente. Os efeitos do petróleo e do nitrogênio nos oceanos, rios e lagos.

Achou que seria m elhor com entar prim eiro com Uday an, antes de contar aos pais. Esperava que o irm ão entendesse. Sugeriu a Uday an que tam bém fosse para o estrangeiro, onde havia m ais em pregos, onde as coisas podiam ser m ais fáceis para am bos.

Ele m encionou as universidades fam osas que tinham dado apoio aos cientistas m ais dotados do m undo, m it, Princeton, onde Einstein estivera.

Mas Uday an não se deixou im pressionar. Com o você pode se afastar do que anda acontecendo? Daqui, em prim eiro lugar?

É um program a de doutoram ento. Questão de poucos anos.

Uday an sacudiu a cabeça. Se você for, não vai voltar.

Com o você sabe?

Porque te conheço. Porque você só pensa em si m esm o.

Subhash encarou o irm ão. Estendido na cam a, fum ando, ocupado com os j ornais.

Você acha que o que você está fazendo não é egoísta?

Uday an virou um a página do j ornal, sem nem se im portar em olhar para cim a. Não acho que querer m udar as coisas sej a egoísm o.

Não é brincadeira. E se a polícia vier aqui em casa? E se você for preso? O que a m ãe e o pai vão pensar?

Existem m ais coisas na vida do que eles pensam .

O que aconteceu com você, Uday an? Foram eles que te criaram . Que continuam a te alim entar e vestir. Você não seria nada se não fosse por eles.

Uday an se levantou e saiu do quarto. Voltou logo a seguir. Parou na frente de Subhash, de cabeça baixa. Sua raiva, que vinha rápido, j á fora em bora.

Você é m inha outra m etade, Subhash. Sem você, eu é que não sou nada. Não vá.

Foi a única vez em que ele adm itiu um a coisa dessas. Falou com am or na voz. Com carência.

Mas Subhash tom ou com o um a ordem , um a das tantas a que tinha capitulado durante toda a vida. Mais um a exortação a fazer o que Uday an fazia, a segui-lo.

Então, de repente, foi Uday an quem foi em bora. Saiu da cidade, não disse para onde ia. Foi num período em que a escola onde dava aulas estava fechada. Inform ou Subhash e os pais sobre seus planos na m anhã da viagem .

Era com o se fosse ficar fora apenas um dia, nada além de um saco de roupas a tiracolo. Dinheiro no bolso apenas para as passagens.

É algum passeio?, perguntou o pai. Com binou com os am igos?

É isso m esm o. Um a m udança de cenário.

Por que tão de repente?

Por que não?

Curvou-se para tocar a poeira nos pés dos pais, dizendo que não se preocupassem , prom etendo voltar.

Não tiveram notícias suas enquanto ele esteve fora. Nenhum a carta, nenhum a m aneira de saber se estava vivo ou m orto. Subhash e os pais não com entavam nada, m as não acreditavam que Uday an tivesse ido a passeio. Mesm o assim , não fizeram nada para im pedi-lo. Ele voltou depois de um m ês, um pano am arrado na cintura, barba e bigode cobrindo o rosto sem disfarçar o quanto havia em agrecido.

O trem or nos dedos tinha piorado, às vezes, segurando a xícara de chá, a ponto de bater com ela no pires, e era perceptível quando abotoava a cam isa ou pegava um a caneta. De m anhã, o lençol em seu lado da cam a estava gelado de suor, escurecido pela m arca de seu corpo. Um dia em que levantou com o coração disparado, um a verm elhidão no pescoço, ele consultou um m édico e fez um exam e de sangue.

Estavam receosos que ele tivesse contraído um a doença no interior, m alária ou m eningite. Mas o resultado foi hiperatividade da glândula tiroide, possível de controlar com um rem édio. O m édico disse à fam ília que podia levar algum tem po até fazer efeito. Que precisava ser tom ado sistem aticam ente. Que a doença podia deixar a pessoa irritadiça e m al-hum orada.

Uday an recuperou a saúde e m orava com eles, m as um a parte dele estava em outro lugar. O que tinha visto ou aprendido fora da cidade, o que havia feito, não contou a ninguém .

Desistiu de dissuadir Subhash de ir para os Estados Unidos. Quando escutavam o rádio à noite, quando folheava os j ornais, não dem onstrava m uita reação. Algo o dom inara. Algo agora o ocupava, algo que não tinha nada a ver com Subhash, com nenhum deles.

Em 22 de abril de 1969, data do aniversário de Lênin, foi lançado em Calcutá um terceiro partido com unista. Os integrantes se denom inavam naxalistas, em hom enagem ao que ocorrera em Naxalbari. Charu Maj um dar foi nom eado com o secretário-geral e Kanu Sany al com o presidente do partido.

Em 1o de m aio, um a grande procissão encheu as ruas. Dez m il pessoas m archaram para o centro da cidade. Reuniram -se no Maidan, sob as colunas brancas em cúpula de Shahid Minar.

Kanu Sany al, recém -saído da prisão, subiu num palanque e discursou para a m ultidão esfuziante.

Com grande orgulho e enorme alegria, hoje desejo anunciar nesta manifestação que formamos um genuíno Partido Comunista. O nom e oficial era Partido Com unista da Índia, Marxista-Leninista. O pci(m ).

Não expressou nenhum agradecim ento aos políticos que o haviam libertado. Sua libertação fora determ inada pela lei da história. Naxalbari havia sacudido toda a Índia, disse Sany al.

A situação revolucionária estava m adura, no país e no exterior, falou ao povo. Um a grande onda de revoluções estava se alastrando pelo m undo. Ao lem e estava Mao Tsé-Tung.

Nacional e internacionalmente, os reacionários estão tão fracos que desmoronam quando os atingimos. Na aparência são fortes, mas na realidade não passam de gigantes feitos de barro, são verdadeiros tigres de papel.

A tarefa principal do novo partido era organizar o cam pesinato. A tática seria a de guerrilha. O inim igo era o estado indiano.

Era um a nova form a de com unism o, a do partido deles, declarou Sany al. Iriam se instalar nos vilarej os. E m 2000, ou seja, daqui a apenas trinta anos, os povos de todo o mundo estarão livres de todos os tipos de exploração do homem pelo homem e comemorarão a vitória mundial do marxismo, do leninismo, do pensamento de Mao Ts é-Tung.

Charu Maj um dar não esteve presente ao com ício. Mas Sany al declarou lealdade a ele, com parando-o a Mao em sua sabedoria, alertando contra os que contestavam a doutrina de Maj um dar.

Certamente faremos brilhar um novo sol e uma nova lua no céu de nossa grande terra natal, disse ele, e suas palavras ressoaram a quilôm etros de distância.

Os j ornais publicaram fotos, tiradas de longe, da m ultidão reunida para ouvir o discurso de Sany al, para fazer a Saudação Verm elha. Grito de batalha proferido, um a geração fascinada. Um pedaço de Calcutá im obilizado.

Era o retrato de um a cidade da qual Subhash não se sentia m ais com o parte integrante. Um a cidade à beira de algo; um a cidade que ele se preparava para deixar.

Subhash sabia que Uday an estivera lá. Não o acom panhou ao com ício, nem Uday an lhe pediu para ir. Neste sentido, os dois j á tinham se separado.