Aguapés
Capítulo 6
A vip Road, a velha estrada até o aeroporto em Dum Dum , antigam ente era um bom refúgio para bandoleiros, sendo evitada ao escurecer. Mas agora ela passou por prédios altos de apartam entos, por escritórios com fachada de vidro, por um estádio. Parques de diversões e shopping centers ilum inados. Em presas estrangeiras e hotéis cinco estrelas.
Agora a cidade se cham ava Kolkata, com o diziam os bengalis. O táxi percorria um a m arginal que contornava a parte norte da cidade, o centro congestionado. Anoitecia, o trânsito era intenso, m as fluía rápido. Havia árvores e flores plantadas nos dois lados da estrada. Novos elevados, novos setores substituindo o que antes eram pântanos e terras agrícolas. O táxi era um Am bassador. Mas a m aioria dos outros carros eram sedãs m enores, im portados.
Após a m arginal, virando depois de um hospital m oderno, algum as coisas fam iliares. Os trilhos de trem em Bally gunge, o cruzam ento congestionado em Gariahat. A vida transbordando de ruelas tortuosas, a vida sentada em degraus esfacelados. Cam elôs vendendo roupas, vendendo chinelas e carteiras, enfileirados nas ruas.
Era Durga Puj o, os dias m ais esperados na cidade. As loj as, as calçadas estavam abarrotadas de gente. No final de alguns becos ou no espaço livre entre alguns edifícios, ela viu os tem plos m ontados para os festej os. Durga portando suas arm as, ladeada pelos quatro filhos, representada e cultuada em inúm eras versões. Feita de gesso, feita de barro. Resplandecente, im ponente. Um leão aj udava a vencer o dem ônio a seus pés. Era um a filha visitando a fam ília, visitando a cidade, transform ando-a por algum tem po.
A hospedaria ficava na Southern Avenue. O apartam ento ficava no sétim o andar. Dando para o lago. Um a academ ia de ginástica fem inina em baixo. O elevador era pouco m aior do que um a cabine telefônica. Mas de algum a m aneira ela e o zelador conseguiram caber, j unto com sua bagagem .
Veio para o Puj o?, perguntou o zelador.
Ela estava a cam inho de Londres, não daqui. Em algum m om ento sobrevoando o Atlântico, o destino ficou claro.
Em Londres, nem saiu do aeroporto. A palestra que supostam ente apresentaria, as páginas im pressas num a pasta dentro da valise, ficaria por fazer.
Não se deu ao trabalho de enviar um e-m ail aos organizadores da conferência para avisar que não iria. Pouco lhe im portava. Nada lhe im portava, depois das coisas que Bela havia dito.
Foi à agência de reservas em Heathrow, inform ando-se sobre os voos para a Índia. Com o passaporte indiano que continuava a usar, a cidadania a que nunca renunciara, pôde tom ar outro avião na m anhã seguinte.
O destino era Mum bai. Era um voo direto, não havia m ais necessidade de reabastecer no Oriente Médio. Outra noite em outro hotel de aeroporto, lençóis brancos e frios, program as indianos na televisão. Film es em branco e preto dos anos 1960, a cnn International. Sem conseguir dorm ir, ligando o laptop, procurou hospedarias em Kolkata, reservou um lugar para ficar.
A cozinha seria abastecida de m anhã. A durwan podia m andar alguém buscar o j antar agora à noite, disse o zelador.
Não precisa.
Reservo um m otorista?
Ela pagaria um valor fixo pelo dia, disse o zelador. Chegaria à hora que ela quisesse. Iria levá-la a qualquer lugar que quisesse, dentro do perím etro urbano.
Estarei pronta às oito, disse ela.
Acordou no escuro, abriu os olhos às cinco. Às seis tom ou um banho quente de chuveiro. Colocou as roupas num canto do banheiro, escovou os dentes num a pia cor-de-rosa. No arm arinho da cozinha encontrou um a caixa de Lipton, acendeu o fogo e preparou um a xícara de chá. Tom ou e com eu um pacote de bolachas que tinha sobrado no avião.
Às sete, a cam painha da porta tocou. Um a em pregada com um saco de frutas, pão e m anteiga, biscoitos, j ornal. O zelador tinha com entado algo a respeito.
Ela se cham ava Abha. Estava na casa dos trinta, m uito falante, m ãe de quatro filhos. O m ais velho, disse a Gauri, estava com dezesseis anos. À tarde ela fazia faxina num dos hospitais m odernos. Preparou m ais chá, serviu um prato de biscoitos.
O chá de Abha era m elhor, m ais forte, com açúcar e leite quente. Alguns m inutos depois, trouxe outro prato.
O que é isso?
Ela tinha preparado um a om elete e fatias de torrada com m anteiga. A m anteiga era salgada, a om elete tem perada com rodelinhas de pim enta. Gauri com eu tudo. Tom ou m ais chá.
Às oito, olhando pela sacadinha do quarto, Gauri viu um carro estacionado lá fora. O m otorista era um rapaz de cabelo crespo, barrigudo, de calças e chinelas de couro. Estava apoiado no capô, fum ando um cigarro.
Ela foi para o norte, subindo a College Street, passando a Presidency, para visitar seu antigo bairro e ver Manash. Mas Manash estava em Shillong, onde m orava um de seus filhos; todos os anos ia para lá nessa época. A esposa dele a recebeu no velho apartam ento dos avós, onde a escada escura ainda era irregular, onde a porta se abria para ela, onde Manash e sua fam ília continuavam a m orar.
Sentou-se com eles num dos quartos de dorm ir. Conheceu o outro filho, os netos daquela fam ília. Estavam incrédulos com sua presença, acolhedores, gentis. Ofereceram -lhe sandesh, rolinhos de carneiro, chá. Atrás de si, atrás da porta de veneziana, ela ouviu o apito de um guarda, o barulho do bonde.
Ficou com vontade de perguntar se podia sair um instante, ir até a sacada que cercava os aposentos do apartam ento, m as m udou de ideia. Quantas horas passara olhando o trânsito, o cruzam ento, levem ente debruçada com os cotovelos na grade, o queixo apoiado na concha da m ão? De repente se viu incapaz de se visualizar parada ali.
Usando um celular, ligaram para Manash em Shillong. Ouviu sua voz no telefone. Manash, com quem viera para essa cidade, que fora sua ligação com Uday an; Manash, o prim eiro com panheiro de sua vida.
Gauri, disse ele. A voz estava m ais grave e tam bém m ais fraca. A voz de um velho. Densa da m esm a em oção que ela sentia.
É você de verdade?
Eu m esm a.
O que te traz aqui, até que enfim ?
Precisava rever a cidade.
Ele ainda lhe dava o tratam ento afetivo, o dim inutivo reservado para os laços criados na infância, nunca questionado, nunca suj eito a m udanças. Era com o os pais falavam com os filhos, com o Uday an e Subhash tinham falado entre si. Transm itia a intim idade de irm ãos, m as não de am antes. Não com o Uday an ou Subhash haviam falado com ela.
Venha passar uns dias em Shillong. Ou então espere eu voltar a Kolkata.
Vou tentar. Não sei bem quanto tem po posso ficar.
Ele falou que era a única irm ã ainda viva. Que a fam ília se reduzira a eles dois.
Com o vai m inha sobrinha, m inha Bela? Vou vê-la? Algum dia vou conhecê-la?
Ela garantiu que sim , sabendo que isso nunca aconteceria. Despediu-se. O m otorista tom ou a direção sul. Para Chowringhee, Esplanade. O Metro Cinem a, o Grand Hotel.
Ela estava no carro, no trânsito ruidoso, a atm osfera carregada de poluição. Viu um a versão de si m esm a, de pé num ônibus lotado, segurando-se num a alça, com um dos sáris de algodão que usava para ir à faculdade. Indo encontrar Uday an em algum lugar sugerido por ele, algum restaurantezinho escondido onde ninguém os reconheceria, onde ele estaria esperando por ela, onde podiam ficar sentados um diante do outro pelo tem po que quisessem .
Quer que a leve ao Mercado Novo?, perguntou o m otorista. Ou a algum shopping?
Não.
Quando o m otorista se aproxim ava da Southern Avenue, ela disse para seguir em frente.
Para Kalighat?
Para Tolly gunge. Logo depois do term inal do bonde, bem no com eço.
Passaram a réplica da m esquita do sultão Tipu, passaram o cem itério. Agora havia um a estação de m etrô do outro lado do term inal, cortando a cidade por baixo. Fazia todo o percurso até Dum Dum , disse o m otorista. Ela viu gente subindo apressada os degraus rasos, gente j á com idade para trabalhar, m as de um a geração que convivia desde sem pre com o m etrô.
Viu os m uros altos de tij olo, nos dois lados da estrada, protegendo os estúdios de cinem a e o Tolly Club. Passados quarenta anos, a pequena m esquita da esquina continuava ali, com seus m inaretes brancos e verm elhos.
Pediu ao m otorista que parasse, dando-lhe dinheiro para o chá, dizendo-lhe para esperar ali. Era um a visita rápida, disse ela.
Agora, saindo do carro, as pessoas ficavam olhando para ela. Reparando nos óculos escuros, nas roupas e sapatos am ericanos. Sem saber que, antigam ente, ela tam bém m orava aqui. Havia celulares tocando, m as as buzinas de borracha dos riquixás a bicicleta ainda grasnavam nas ruas principais.
Atrás da m esquita, havia um agrupam ento de choças feitas de bam bu trançado, abrigando quem ainda m orava ali.
Ela avançou pela ruela, passando ao lado dos vira-latas. Algum as casas agora eram m ais altas, tam pando um trecho m aior de céu. Tinham vidros nas j anelas, guarnições de m adeira pintadas de branco. Telhados j uncados de antenas. Pátios com pavim entos em terraço. As casas m ais velhas eram m ais desleixadas, feitas de tij olos estreitos, pedaços de grade faltando.
Era tudo m uito apertado. Nenhum lote vazio, nenhum espaço para as crianças j ogarem críquete ou futebol. A ruela continuava tão estreita que um carro m al conseguiria passar.
Ela chegou à casa onde, im aginava-se outrora, iria envelhecer com Uday an. O lar onde havia concebido Bela, onde Bela poderia ter crescido.
Esperava encontrar a casa envelhecida, m as ainda de pé, tal com o ela m esm a. Na verdade, parecia renovada, as arestas m ais lisas, a fachada pintada de alaranj ado vivo. As portas duplas de m adeira, de vaivém , tinham sido trocadas por um portão de um verde alegre, para com binar com a grade do terraço.
O pátio não existia m ais. A casa tinha sido am pliada e agora a fachada dava praticam ente na rua. Aquela área talvez fosse agora um a sala de estar ou um a sala de j antar, não sabia. Num dos aposentos havia um a televisão ligada. A vala aberta na entrada, que tantas vezes transpusera ao entrar e sair, fora tam pada.
Passou pela casa, atravessou a ruela, avançou para os dois lagos. Não esquecera nenhum detalhe. O tom e o form ato dos lagos, claros na m em ória. Mas os detalhes não estavam m ais lá. Os dois lagos tinham sum ido. Casas novas ocupavam um a área que antes era aberta e coberta de água.
Andando um pouco m ais adiante, viu que a baixada tam bém desaparecera. Aquele trecho quase despovoado agora não se distinguia m ais do restante do bairro, com novas casas construídas ali. Havia scooters estacionadas na frente das casas, roupa pendurada nos varais.
Perguntou-se se, entre as pessoas que estavam por ali, alguém tam bém se lem braria dessas coisas. Sentiu vontade de interpelar um hom em m ais ou m enos de sua idade, que parecia vagam ente fam iliar, que podia ter sido um dos colegas de Uday an. Ele estava indo ao m ercado, de cam iseta e lungi, levando um a sacola de com pras. Passou por ela, sem a reconhecer.
Em algum lugar perto de onde estava, Uday an se escondera na água. Tinham -no levado a um cam po vazio. Em algum lugar, havia um a tabuleta com o nom e dele, em m em ória à sua breve existência. Ou talvez tam bém tivesse sido rem ovida.
Não estava preparada para tantas m udanças na paisagem . Para a ausência de qualquer vestígio daquele anoitecer, quarenta outonos atrás.
Mal som avam dois anos de vida de casada, encerrando-se em viuvez e gravidez. Cúm plice de um crim e.
Parecera razoável o que Uday an lhe pedira. O que lhe dissera: que queriam tirar um policial do cam inho. Dependendo da interpretação, nem era m entira.
Ela aceitara a versão benigna. A ponta de dúvida, aquela parte silenciosa de si que suspeitava de algo pior, quando se sentava à j anela com o casal de irm ãos, espreitando pela j anela, ela sufocara.
Ninguém a associou ao ocorrido. Ninguém sabia ainda o que ela havia feito.
Era a única acusadora, a única guardiã de sua culpa. Protegida por Uday an, dispensada pelo investigador, rem ovida dali por Subhash. Condenada ao esquecim ento, punida com a soltura.
Relem brou m ais um a vez o que Bela lhe dissera. Que seu reaparecim ento não significava nada. Que estava m orta, com o Uday an.
Parada ali, sem conseguir encontrá-lo, sentiu um a nova solidariedade com ele. O vínculo de não existirem .
Na noite da véspera em que vieram buscá-lo, ele adorm eceu, com o não conseguia fazer por m uitos dias. Mas, durante o sono, com eçou a gritar, acordando-a.
No com eço, ela não conseguiu acordá-lo, m esm o sacudindo-o pelos om bros. Então ele despertou, aturdido, trêm ulo. Ardia de febre. Reclam ou do frio no quarto, de um vento encanado, em bora o ar estivesse úm ido e parado. Pediu-lhe que desligasse o ventilador e fechasse as venezianas.
Ela o cobriu com um cobertor, tirando-o de um baú de m etal que ficava em baixo da cam a. Estendeu-o até os om bros, até o queixo.
Durm a, disse ela.
Com o na Independência, disse ele.
O quê?
Eu e Subhash. Nós dois ficam os com febre. Meus pais contam que nossos dentes batiam na noite em que Nehru fez o discurso, na noite em que chegou a liberdade. Nunca te contei?
Não.
Dois tontos na cam a, com o agora.
Ela lhe ofereceu água, ele recusou, afastando o copo que então se derram ou no cobertor. Ela um edeceu um lenço e lhe passou pelo rosto. Tem ia que a febre fosse por causa de um a infecção, de algo a ver com a m ão m achucada. Mas ele não se queixou que a dor estivesse aum entando. E então a febre com eçou a ceder e o cansaço o ganhou novam ente.
Dorm iu fundo até a m anhã seguinte. Ela ficou acordada, sentada no quarto abafado, sem desgrudar dele. Fitando-o, em bora não conseguisse vê-lo no escuro.
Aos poucos seu perfil se desenhou. A testa, o nariz, os lábios, cercados pela luz cinzenta. Era a prim eira luz que entrava pelas aberturas acim a das j anelas, a m assa ali perfurada num a série de linhas onduladas.
A barba por fazer cobria as faces, o bigode ocultava o detalhe do rosto — o sulco som breado entre a boca e o nariz — que ela m ais am ava. A im agem dele tão im óvel, de olhos fechados, deixou-a desconcertada. Pôs a m ão em seu peito, sentindo enquanto subia e descia.
Ele abriu os olhos, parecendo lúcido, recom posto.
Andei pensando, disse ele.
Em quê?
Em ter filhos. Se nunca tiverm os filhos, estaria bem para você?
Por que você está pensando nisso agora?
Não posso ser pai, Gauri.
A seguir, acrescentou: Não depois do que fiz.
E o que você fez?
Ele não disse. Falou que, acontecesse o que acontecesse, só lam entava um a coisa: não a ter conhecido antes, não a ter conhecido desde sem pre.
Fechou novam ente os olhos, procurou a m ão dela, ficaram de dedos entrelaçados. Continuou a segurá-la enquanto a m anhã avançava.
Na hospedaria, num forno de m icro-ondas, ela aqueceu a refeição que Abha lhe deixara, com endo arroz e ensopado de peixe a um a m esa oval para seis. A m esa estava coberta com um a toalha florida, um a proteção de plástico por cim a. Assistiu um pouco à televisão, então afastou o resto de com ida.
A cam a estava feita, a colcha bem esticada, o m osquiteiro de ny lon dobrado e preso em ganchos. Ela o abaixou, prendendo as laterais. Havia apenas a luz da lâm pada no teto. Im possível ler na cam a. Deitou no escuro. Por fim adorm eceu, durante algum as horas.
Foi acordada pelos corvos. Saiu da cam a e foi à sacada no lado de fora do quarto. A aurora leitosa era opaca, com o se estivesse no alto da m ontanha e não na foz de um delta espraiado, o m aior delta do m undo, no nível do m ar.
A sacada era pequena, com espaço apenas para um a banqueta de plástico e um a cuba para deixar a roupa suj a de m olho. Nenhum lugar para passar o tem po.
A rua estava vazia. Os com erciantes ainda não tinham chegado para abrir os cadeados e erguer as portas de enrolar.
Estavam despej ando baldes de água, varrendo as calçadas. Um ou outro se dirigia à área do lago para a cam inhada m atinal, deliberadam ente sozinhos ou aos pares. Viu um a banca do outro lado da avenida, vendendo j ornais e frutas, garrafas de água e chá.
O gari seguiu para a quadra seguinte. Não havia ninguém ali. Ela ouviu o barulho do trânsito, aum entando. Logo ficaria ininterrupto. Logo não se escutaria m ais nada.
Com prim iu-se à grade da sacada. A altura era suficiente. Sentiu o desespero subindo dentro de si. E tam bém um a clareza. Um a necessidade.
Este era o lugar. Esta era a razão de sua vinda. A finalidade de seu retorno era se despedir.
Im aginou-se im pulsionando um a perna, depois a outra. A sensação de nenhum apoio, de nenhum a resistência. Levaria poucos segundos. Seu tem po chegaria ao fim , só isso.
Quarenta anos antes, não tivera essa coragem . Tinha Bela dentro de si. Não era a vacuidade, não era a casca vazia da existência que sentia agora.
Pensou em Kanu Sany al e na m ulher que o encontrara. Um a m ulher com o Abha que atendia a suas necessidades, que ia e voltava todos os dias.
Quem , voltando de um a cam inhada m atinal em torno do lago, sentindo-se revigorado, veria sua queda? Quem , percebendo que era tarde dem ais para salvá-la, se protegeria da visão e viraria o rosto?
Fechou os olhos. A m ente estava vazia. Continha apenas o m om ento presente, nada m ais. O m om ento que, até agora, nunca conseguira ver. Pensava que seria com o fitar diretam ente o sol. Mas isso não a dem oveu.
Então, um a a um a, ela desprendeu as coisas que a agrilhoavam . Fazendo-se m ais leve, tal com o rem overa as pulseiras depois do assassinato de Uday an. O que vira do terraço em Tolly gunge. O que fizera a Bela. A im agem de um policial passando por um a j anela, com o filho pela m ão.
Um a im agem final: Uday an de pé a seu lado, na sacada em Calcutá do Norte. Olhando j untos a rua abaixo, vindo a conhecê-la. Debruçados, poucos centím etros entre am bos, o futuro se estendia à frente deles. O m om ento em que sua vida com eçara pela segunda vez.
Inclinou-se para a frente. Viu o local onde cairia. Lem brou a em oção de encontrá-lo, de ser adorada por ele. O m om ento em que o perdeu. A fúria de saber com o ele a envolvera. A dor de trazer Bela ao m undo, depois que ele se foi.
Abriu os olhos. Ele não estava lá.
Iniciara-se a m anhã, m ais um dia. Mães levando os filhos de uniform e para a escola, hom ens e m ulheres indo apressados para o trabalho. O grupo de hom ens que passava o dia j ogando baralho tinha se acom odado num a cam a de vento na esquina. O hom em que consertava sarods estendeu um lençol na calçada, pondo por cim a os instrum entos quebrados que ia arrum ar naquele dia, trocando as cordas e afinando.
Bem em baixo de Gauri, tinham m ontado um a banquinha vendendo tom ates e berinj elas que ficavam dentro de cestas rasas. Cenouras m ais verm elhas do que alaranj adas, feij ão-de-corda de um palm o e m eio de com prim ento. O dono estava sentado de pernas cruzadas à som bra de um encerado encardido, atendendo a freguesia que j á com eçava a aparecer.
Ele pôs os pesos na balança. Era para aferir os pratos. Um dos fregueses se afastou.
Era Abha, que vinha fazer o desj ej um , preparar o chá. Olhou para cim a, para Gauri, erguendo um cacho de bananas, um pacotinho de detergente, um pão. Na outra m ão estava o j ornal.
Ela gritou. O que m ais para hoj e?
Só isso, m ais nada.
No final da sem ana deixaria Kolkata e retom aria sua vida. Quando Abha tocou a cam painha, Gauri saiu da sacada e abriu a porta.
Vários m eses depois, na Califórnia, chegou um a segunda carta de Rhode Island.
Desta vez estava em inglês. Tinta azul não m uito carregada, o endereço num rabisco desleixado — com o o carteiro conseguiu decifrar aquilo? Não era m ais a caligrafia bem feita que Bela aprendera na escola. Mas ali estava, legível o suficiente para chegar até ela, a coisa que m ais se aproxim ava de um a visita naquele tem po todo.
Gauri exam inou o envelope, o selo com a figura de um veleiro. Sentou-se à m esa no pátio de casa e desdobrou a folha. Dentro dela havia outra folha dobrada, um desenho feito e assinado por Meghna: um a faixa sólida de céu azul, outra faixa de chão verde, um gato colorido flutuando no espaço branco entre elas.
A carta não trazia nenhum a saudação.
Meghna pergunta de você. Talvez perceba alguma coisa. Não sei. Ainda é muito cedo
para contar a história a ela. Mas um dia vou explicar quem você é e o que você fez. Minha filha vai saber a verdade sobre você. Nem mais, nem menos. Se, então, ela ainda quiser conhecer e se relacionar com você, estou disposta a facilitar. Isso é com ela, não comigo. Você já me ensinou a não precisar de você e não preciso saber mais nada sobre Udayan. Mas, quando Meghna crescer, quando ela e eu estivermos prontas, talvez possamos tentar nos reencontrar.