Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 29 de 37

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Aguapés

Capítulo 4

 

O m ês de j unho trouxe nuvens que ocultavam o sol, tem porais que deixavam o céu cinzento. O frio ainda era suficiente para Subhash continuar a usar pantufas em vez de chinelos de dedo, para continuar a preaquecer a cam a com o cobertor elétrico. A chuva caía à noite, batendo pesada no telhado, virando garoa de m anhã, parando um pouco, m as nunca cessando. Aum entava e dim inuía, e então aum entava de novo.

Na lateral da casa, ele lim pou as tábuas rem ovendo as placas de fungo. O porão cheirava a m ofo, os olhos ardendo quando punha a roupa para lavar. A terra estava m olhada dem ais para lidar na horta, as m udinhas que plantara com as raízes expostas. As azáleas perdiam as pétalas roxas cedo dem ais, as peônias m al se abriam e os talos j á se dobravam , as flores se aplastrando no solo encharcado. Era carnal aquele cheiro de tanta um idade. Cheiro de decom posição da terra.

À noite, acordava com a chuva. Ouvia-a batendo nas vidraças, lavando o concreto da entrada de carros. Perguntava-se se seria o prenúncio de algo. De outro m om ento m arcante em sua vida. Lem brava a chuva caindo na prim eira noite que passou com Holly, no chalé dela. A chuva forte na noite em que Bela nasceu.

Logo se viu aguardando que ela vazasse pelos tij olos em torno da lareira, que pingasse do teto, que se infiltrasse por baixo das portas. Pensou nas m onções que chegavam todos os anos a Tolly gunge. Os dois lagos transbordando, o aterro entre eles desaparecendo.

 

Em j ulho, a horta com eçou a se encher de ervas daninhas. O entardecer se dem orava, o céu da m anhã clareava às cinco. Bela ligou para avisar que estava chegando. Às vezes vinha de trem , às vezes tom ava um avião até Boston ou Providence. Um a vez, ela apareceu num carro em prestado, depois de dirigir centenas e centenas de quilôm etros sozinha.

Ele passou o aspirador de pó no carpete do quarto dela, lavou os lençóis da cam a, em bora ninguém os tivesse usado desde a últim a vinda de Bela a Rhode Island. Trouxe do porão outro ventilador de parede, agora que o tem po andava quente e ensolarado, até um pouco úm ido, desparafusando a grade de plástico e lim pando as pás antes de instalá-lo na j anela.

Nas prateleiras dela havia algum as coisas que tinham descoberto j untos, nas m atas ou à beira-m ar. Um ninhozinho de gravetos trançados. O crânio de um a cobra raj ada, a coluna vertebral de um boto que parecia um a hélice. Ele lem brou a em polgação de encontrarem j untos, e com o ela preferia essas coisas em vez de brinquedos e bonecas. Lem brou com o ela colocava pinhas e pedras no capuz do casaco, quando era inverno, quando era pequena, quando os bolsos j á estavam abarrotados.

Ela sacudia a atm osfera plácida de sua vida. Espalhava as coisas pela casa, largava as roupas no chão; por causa do cabelo com prido, dos fios que caíam , a água dem orava m ais para descer pelo ralo do chuveiro. As coisas que ela gostava de com er, que ia com prar na loj a de produtos naturais, durante algum tem po se destacavam na bancada da cozinha: am aranto em flocos, pedaços de alfarroba, chás de ervas. Manteiga de am êndoa, leite de arroz. E então ia em bora.

Ele foi a Boston para recebê-la. Lem brou a vez em que fora encontrar Gauri no aeroporto, e m 1972, crendo que passaria a vida com ela. Lem brou a vez em que voltou do m esm o aeroporto com Bela, doze anos depois, para descobrir que Gauri tinha ido em bora.

Ela chegou com um saco de viagem , um a m ochila. O avião tinha vindo de Minnesota. Destacava-se entre os outros com seus ternos e im perm eáveis, verificando as m ensagens nos celulares, puxando a bagagem atrás de si, tensos. Ela era m orena, vigorosa, despoj ada. Atenta. Aproxim ou-se dele, a pele radiante, abraçando-o com os braços fortes.

Com o vai, Bela?

Bem . Muito bem .

Está com fom e. Quer ir com er em algum lugar em Boston?

Quero ir para casa. Vam os à praia am anhã. E você, com o está?

Ele disse que estava bem de saúde, que andava ocupado com suas pesquisas, com um artigo para o qual estava contribuindo. Disse que os tom ates na horta não iam bem ; as folhas estavam com m anchinhas pretas.

Não se preocupe com elas. Foi chuva dem ais nessa prim avera. Elise, com o vai?

Ele respondeu que Elise ia bem . Mas parecia haver algum desequilíbrio nessas am enidades, pois Bela nunca trouxera nenhum nam orado.

Quando era adolescente e ainda m orava com ele, nunca lhe pediu licença para nam orar. Sob esse aspecto, nunca lhe deu nenhum problem a. E era isso que agora lhe parecia um problem a.

Até hoj e, um a parte dele ainda tinha esperanças de que ela o surpreendesse e aparecesse acom panhada no aeroporto. Com alguém que olhasse por ela, que com partilhasse a vida pouco convencional que levava. Não vou estar aqui para sem pre, chegou ele a dizer quando lhe contou da m orte de Richard pelo telefone. Mas Bela o criticou por ser m elodram ático.

Ele aprendera a abdicar da responsabilidade que antes j ulgara que era sua: cum prir sua parte em assegurar o futuro da filha acoplando-o ao de outra pessoa. Se a tivesse criado em Calcutá, seria razoável levantar o assunto de seu casam ento. Aqui isso era considerado um a introm issão, um abuso descabido. Ele a criara num lugar livre de tais estigm as. Um a noite, quando expôs suas preocupações a Elise, ela o aconselhou a não dizer nada, lem brando-lhe que, hoj e em dia, m uita gente espera chegar aos trinta, e m esm o aos quarenta, para se casar.

Além disso, com o poderia esperar que Bela se interessasse pelo casam ento, em vista do exem plo que ele e Gauri haviam dado? Eram um a fam ília de solitários. Tinham colidido e se dispersado. Esta era a herança dela. Pelo m enos esse im pulso ela herdara deles.

 

Sentia saudades da Nova Inglaterra. Ela sem pre dizia isso quando estavam indo para casa. Tinha no rosto, enquanto olhava pela j anela do carro, um a expressão de reconhecim ento indisfarçado. Pediu-lhe que parasse quando viu um a daquelas cam inhonetes que apareciam de vez em quando no verão, vendendo copos de lim onada gelada.

Em casa, ela desfez a bagagem , rem ovendo os lenços de papel que protegiam as nectarinas e am eixas perfum adas, colocando-as em travessas.

Quanto tem po você vai ficar?, ele perguntou enquanto j antavam , enquanto com iam o arroz com carneiro que havia preparado. Quinze dias, desta vez?

Ela repetira o prato. Pousou o garfo.

Depende.

De quê? O que há?

Ela cravou os olhos nele. Subhash viu nervosism o em seu olhar, j unto com ansiedade e determ inação. Lem brou com o ela apertava as m ãozinhas quando criança, erguendo-se e se afundando na água pela cintura, quando estava aprendendo a nadar. Parando, pensando, preparando-se para o esforço, para o salto de fé que aquilo exigia.

Preciso te contar um a coisa, Baba. Um a novidade.

O coração dele parou e então disparou. Agora entendia. A razão do sorriso que havia em seu rosto quando ele a viu no aeroporto, a alegria que sentira a noite toda, cantarolando dentro dela.

Mas não, não tinha encontrado ninguém . Não havia nenhum am igo especial que ela quisesse lhe apresentar, quisesse convidar para a casa.

Respirou fundo e soltou o ar.

Estou grávida, disse ela.

Estava com m ais de quatro m eses. O pai não fazia parte de sua vida, não sabia da gravidez. Era apenas alguém que Bela conhecera, com quem se envolvera, talvez durante um ano, talvez por um a sim ples noite. Ela não disse.

Queria ficar com a criança. Queria ser m ãe. Disse-lhe que tinha pensado m uito e estava pronta.

Disse que era m elhor que o pai não soubesse. Ficava m enos com plicado.

Por quê?

Porque não é o tipo de pai que quero para m eu filho. Depois de um instante, acrescentou: É totalm ente diferente de você.

Entendo.

Mas não entendia. Quem era esse hom em que transform ara sua filha em m ãe? Que ignorava, que não m erecia a paternidade?

Ele foi aos poucos. Não é fácil criar um filho sozinha, Bela.

Você criou. Montes de gente criam .

Teoricam ente, um a criança tem os dois genitores na sua vida, prosseguiu ele. O pai, além da m ãe.

Isso te incom oda?

Isso o quê?

Eu não ser casada?

Você não tem fonte de renda, Bela. Não tem um lar estável.

Tenho este.

E você é sem pre bem -vinda. Mas você fica com igo quinze dias por ano. O resto do tem po fica em outro lugar.

A m enos...

A m enos?

Ela queria voltar para casa. Queria ficar com ele, ter o filho em Rhode Island. Queria dar ao filho o m esm o lar que ele lhe dera. Queria não precisar trabalhar por algum tem po.

Por você tudo bem ?

A coincidência o percorreu de cim a a baixo, entorpecendo-o, desconcertando-o. Um a m ulher grávida, um a criança sem pai. Chegando a Rhode Island, precisando dele. Era um a reprodução das origens de Bela. Um a nova versão daquilo que trouxera Gauri a ele, anos atrás.

 

Depois do j antar, depois de tirar a m esa e lavar os pratos, Bela falou que queria dar um a volta.

Onde?

Quero ver o pôr do sol em Point Judith.

Não precisa descansar?

Me sinto cheia da energia. Você vem com igo?

Mas ele respondeu que estava cansado da ida e volta de Boston, preferia não sair outra vez.

Então eu vou.

Sozinha?

Mesm o sem querer, a ideia de Bela dirigindo, coisa que fazia m uito bem desde os dezesseis anos de idade, agora o preocupou. Sentia um im pulso irracional de não a perder de vista.

Ela abanou a cabeça enquanto ele lhe estendia as chaves. Vou ter cuidado. Volto daqui a pouco.

E em bora não se vissem fazia um ano, em bora ela lhe tivesse pedido para vir j unto, ele sentiu, tal com o ela devia ter sentido, a necessidade de ficar sozinho, de pensar sobre o que acabava de saber.

Acendeu as luzes externas. Mas dentro de casa, onde se sentou depois que ela saiu, não se deu ao trabalho. Ficou observando o céu enquanto em palidecia e depois escurecia, as silhuetas das árvores enegrecendo, o contraste agudo. Pareciam bidim ensionais, sem textura. Depois de alguns m inutos, não se distinguia m ais o contorno delas no céu da noite.

Gauri a abandonara. Mas Subhash sabia que ele falhara m ais. As ações de Gauri pelo m enos tinham sido honestas, definitivas. Sem covardia, sem enrolar, sem trair dissim uladam ente a confiança de Bela, com o ele havia feito.

E no entanto essa filha, a filha deles, agora decidira ser m ãe. Subhash j á sabia que ela, com o m ãe, seria diferente de Gauri. Percebia o orgulho, a tranquilidade com que carregava o filho dentro de si.

A recusa em revelar quem era o pai, a insistência em criar um filho sozinha: ele não conseguia deixar essa preocupação de lado. Mas o que o transtornava não era a perspectiva de Bela com o m ãe solteira. Era porque ele constituía o m odelo que ela estava seguindo, ele era sua inspiração.

Voltou-lhe à m em ória um a conversa entre eles, de m uito tem po atrás.

Por que você não está em dois?, ela perguntou sentada à frente dele.

Ele ficara aturdido. No com eço não entendeu.

Tenho dois olhos, insistiu ela. Por que só vej o um você?

Pergunta inocente, inteligente. Ela tinha uns seis ou sete anos. Ele explicou que, de fato, cada olho pegava um a im agem diferente, de um ângulo levem ente diferente. Tam pou um dos olhos dela, e depois o outro, para que visse por si m esm a. Assim ele aparecia dobrado, avançando e recuando.

Explicou que o cérebro j untava as duas im agens separadas. Reunindo o que era igual, acrescentando o que era diferente. Pegando o m elhor das duas.

Então é m eu cérebro que enxerga, não m eus olhos?

Agora teria de enxergar com a m ente. Teria de processar de algum a m aneira o que ele ia dizer.

Ainda estava sentado no escuro quando, cerca de um a hora depois, ouviu o carro chegando. O guincho agudo do freio de m ão, a batida leve da porta.

Foi até a entrada, abrindo a porta antes que ela tocasse a cam painha. Viu-a do outro lado da tela que estava coberta de m ariposas. Durante anos ele se preocupara com a reação que ela teria à notícia, m as agora a preocupação era dobrada, por causa do filho que carregava. Tinha voltado a ele, procurando estabilidade. Agora seria o pior m om ento. Mas ele não podia aguardar outro m om ento.

A presença de outra geração dentro dela obrigava a um novo início, tam bém exigindo um fim . Ele ocupara o lugar de Uday an e se convertera no pai dela. Mas não podia se tornar avô do m esm o m odo sub-reptício.

Tem ia que agora Bela o odiasse, assim com o odiava Gauri. Com o ela não se casara, ele não a entregara a outro hom em , fosse sim bolicam ente ou de qualquer outra m aneira. Mas sentia que era isso que ia fazer agora. Preparava-se para devolvê-la a Uday an. Repeli-la no exato m om ento em que ela queria voltar para ele. Arriscar que fosse em bora.

O que você está fazendo, Baba?, ela perguntou, dispersando os insetos, entrando em casa. Está ficando tarde. Por que as luzes estão apagadas? Por que você está parado aí assim ?

No vestíbulo escuro, ela não viu as lágrim as que se form avam nos olhos dele.

Ficaram a noite inteira acordados. Até raiar o dia, ele tentou explicar.

Não sou seu pai.

Então é o quê?

Padrasto. Tio. As duas coisas.

Ela não quis acreditar. Achou que tinha acontecido algum a coisa com ele, que estava m eio de parafuso solto, que talvez tivesse sofrido um derram e. Aj oelhou-se na frente dele no sofá, agarrando-o pelos om bros, a alguns centím etros de seu rosto.

Pare com isso, disse ela. Continuou sentado, parado, entre as m ãos dela, m as se sentia desferindo um golpe. Sabia da força brutal da verdade, pior do que qualquer im pacto físico. Ao m esm o tem po nunca se sentira tão patético, tão frágil.

Ela gritou, perguntando por que nunca lhe contara, em purrando-o com raiva contra o sofá. Então com eçou a chorar. Agia exatam ente com o ele se sentia — com o se tivesse m orrido de repente à sua frente.

Ela com eçou a sacudi-lo, querendo trazê-lo de volta à vida, com o se agora fosse um a concha vazia, com o se a pessoa que conhecera tivesse desaparecido.

Enquanto a noite avançava e a notícia se sedim entava, ela fez um a ou outra pergunta sobre a m orte de Uday an. Perguntou um pouco sobre o m ovim ento, que não conhecia e agora estava curiosa, e foi só.

Ele com eteu algum a coisa?

Algum as. Sua m ãe nunca m e contou a história inteira.

Bom , o que ela contou?

Ele lhe contou a verdade, que Uday an planej ara ações de violência, que m ontara explosivos. Mas acrescentou que, m esm o depois de todos esses anos, não se sabia com certeza a extensão do que ele havia feito.

Ele sabia de m im ? Sabia que eu ia nascer?

Não.

Sentou-se diante dele, ouvindo. Em algum lugar na casa, disse ele, havia algum as cartas que guardara, das que Uday an lhe enviara. Cartas que m encionavam Gauri com o sua esposa.

Prontificou-se a lê-las para Bela, m as ela não quis. Tinha no rosto um a expressão im placável. Agora que ele voltara à vida, era um estranho para ela.

Subhash não sentia que a conversa estivesse chegando a algum a conclusão, sentia apenas um a exaustão cada vez m aior. Cobriu um dos olhos com a m ão por causa do cansaço, da im possibilidade de m antê-lo aberto. Sentia-se esm agado pelo peso de todas as noites insones, desde a m orte de Richard, e se desculpou, incapaz de continuar acordado, e subiu para seu quarto.

Quando acordou, ela j á tinha ido em bora. Um a parte dele sabia que ela faria isso, que, depois do que lhe contara, só conseguiria segurá-la dentro de casa se a am arrasse. Mesm o assim , foi correndo a seu quarto e viu que, em bora a cam a tivesse sido usada e depois arrum ada, a bagagem não estava m ais lá.

No andar de baixo, na bancada da cozinha, entre as travessas cheias de frutas, a lista telefônica ainda estava aberta, na página com a relação das em presas de táxi que atendiam na cidade.

A questão da paternidade tinha m udado. Dois em vez de um . Assim com o agora estava grávida, fundida com um ser que não podia ver nem conhecer.

Essa criatura desconhecida crescendo dentro dela era o único ser com quem Bela sentia algum a ligação, enquanto se afastava de Rhode Island para se acalm ar, para absorver o que soubera. A única parte de si que parecia real, fam iliar. Ao contem plar pela j anela de um ônibus da viação Peter Pan a paisagem de sua infância, não reconhecia nada.

Haviam m entido para ela durante toda a sua vida. Mas a m entira se recusava a aceitar a verdade. Seu pai continuava a ser seu pai, m esm o tendo lhe contado que não era. Tendo contado que Uday an é que era.

Não podia recrim inar o pai por não ter contado antes. Seu próprio filho, algum dia, poderia recrim iná-la pela m esm a razão.

Isso explicava por que a m ãe tinha ido em bora. Por que, olhando as lem branças do passado, ficava ora com a m ãe, ora com o pai, m as raram ente com os dois ao m esm o tem po.

Era esta a origem da com punção que sem pre sentira dentro de si, de não conseguir proporcionar alegria à m ãe. De se sentir um a exceção entre as crianças, sendo um a criança incapaz disso.

Sua m ãe nunca fingira diante dela. Transm itia um a infelicidade constante, um a aura em torno que era im utável. Transm itia sem palavras. E Bela percebia, tal com o se percebe um a m ontanha. Irrem ovível, intransponível.

Agora havia um terceiro genitor, que lhe fora apontado com o um a nova estrela que seu pai lhe ensinaria a identificar no firm am ento noturno. Algo que estivera ali o tem po todo, contribuindo com um ponto lum inoso próprio. Que estava m orto, m as agora vivo para ela. Que a fizera e, ao m esm o tem po, não fizera nenhum a diferença.

Lem brou vagam ente o retrato em Tolly gunge, na parede por cim a de um a pilha de recibos. Um rosto sorridente, um a m oldura encardida de m adeira clara. Um rapaz que a avó dizia que era seu pai, até que o pai lhe disse que era um retrato de Uday an. Não lem brava m ais os detalhes do rosto. Depois que lhe disseram que não era seu pai, deixara de prestar atenção nele.

Agora entendia por que a m ãe não fora com eles a Calcutá naquele verão. Por que não voltara em nenhum a outra ocasião e por que, quando Bela perguntava, nunca falava de sua vida lá.

Quando a m ãe deixou Rhode Island, levara j unto sua infelicidade, parando de reparti-la com Bela, tirando-lhe o acesso àquela aura. O que antes parecia im possível acontecera. A m ontanha se fora.

No lugar havia agora um a pedra pesada, com o algum as pedras profundam ente enterradas quando cavava a areia na praia. Grande dem ais para rem over, a superfície parcialm ente visível, m as de contornos desconhecidos.

Ela aprendeu a ignorá-la, a seguir em frente. E no entanto a cavidade continuava a ser o ponto oco de sua origem , o retículo gelado de sua existência.

Agora voltava àquela pedra. Finalm ente a areia cedeu e ela conseguiu arrancá-la, retirá-la dali. Sentiu por um instante as dim ensões, o peso nas m ãos. Sentiu a tensão que lhe percorreu o corpo, antes de j ogá-la definitivam ente ao m ar.

Por alguns dias, Subhash não teve nenhum a notícia. Tentou o celular, não se surpreendendo quando ela não atendeu. Não fazia ideia de para onde Bela tinha ido. Não havia ninguém a quem pudesse perguntar. Im aginou se teria ido à Califórnia, para procurar Gauri, para ouvir seu lado da história. Com eçou a se convencer de que era isso que ela teria feito.

Na vez seguinte em que conversou com Elise, ele disse que os planos da visita de Bela tinham m udado. Várias vezes tinha sentido vontade de contar a Elise que não era o verdadeiro pai de Bela — que esta era um a das razões pelas quais Gauri tinha ido em bora. Sentia que ela entenderia. Mas não com entara nada por lealdade a Bela. Era Bela quem m erecia ser a prim eira a saber.

Dorm ia, dorm ia, acordava por pouco tem po, sem se sentir descansado. Quando não conseguia m ais dorm ir, ficava na cam a. Lem brava o isolam ento no alto-m ar, o silêncio quando o capitão desligava o m otor. Em bora tivesse desabafado, tirado aquela carga de si, a cabeça pesava, havia um desconforto que não desaparecia. Durante alguns dias, ligou para o laboratório avisando que estava doente e não ia trabalhar.

Perguntou-se se devia se aposentar. Se vendia a casa e se m udava dali. Queria telefonar para Gauri, recrim iná-la, dizer-lhe que ela o derrotara totalm ente. Que revelara a verdade, que a partir de agora Bela passaria a vê-lo com o ele era. Mas na verdade só queria que, de algum a m aneira, Bela o perdoasse.

À noite, apesar dos dias encalorados, o vento soprava em lufadas, o ar frio entrando pelas j anelas abertas e gelando Subhash, a estação am eaçando term inar m al tendo com eçado.

Aproxim ando-se o final da sem ana, o telefone tocou. Sentia o estôm ago vazio, não com era quase nada. Só chá de vez em quando, e as frutas tenras que Bela havia trazido. A barba crescida era áspera ao tato. Estava na cam a, pensando que talvez fosse Elise, para ver se estava tudo bem .

Pensou em deixar tocar, m as atendeu no últim o instante, querendo ouvir sua voz, agora precisando contar o que acontecera, pedir seu conselho.

Mas era Bela.

Por que você não está no trabalho?, perguntou ela.

Soergueu-se depressa. Era com o se ela tivesse entrado no quarto e o encontrasse daquele j eito, desgrenhado, desesperado.

Estou... resolvi tirar o dia de folga.

Vi algum as baleias-piloto. Estavam tão perto da orla que daria para nadar até elas. Isso é norm al nessa época do ano?

Ele não conseguia pensar direito e entender bem o que ela estava dizendo, m enos ainda responder. Aliviado com o estava em ouvir sua voz, ficou com m edo de dizer algo errado e que ela desligasse.

Onde você está? Aonde você foi?

Tinha tom ado um táxi até Providence, um ônibus até Cape Cod. Tinha um a am iga em Truro com quem podia se hospedar, am iga do colégio, agora casada, que passava a tem porada de verão lá e alguns anos atrás se m udara definitivam ente para Truro. As praias eram lindas, disse ela. Desde a adolescência não se m ostrava tão anim ada.

Ele lem brou quando foram a Cape Cod, ela ainda m enina. No final da prim avera, no prim eiro ano em que Gauri foi em bora. Quando estavam cam inhando j untos pela baía, ela saíra em disparada na frente dele, em polgada em ir ver algum a coisa.

Ele a alcançou e viu que era um golfinho encalhado na praia, as órbitas vazias, ainda parecendo sorrir. Pegara a m áquina para tirar um a foto. Abaixando a câm era, percebeu que Bela chorava. De início em silêncio, depois soluçando, quando ele a abraçou.

Quanto tem po você vai ficar?, perguntou-lhe agora.

Estou pegando um a carona até Hy annis. Lá tem um ônibus que chega às oito da noite.

Chega aonde?

Em Providence.

Ficou calado por um instante, com o ela. Estava ligando do celular; ele não sabia se ainda estava ali ou se a linha tinha caído.

Baba?

Ele ouviu. Ouviu que ela ainda o cham ava assim .

Você pode ir m e pegar, ouviu-a dizer, ou tom o um táxi?

Nos dias subsequentes, ela o agradeceu por lhe contar sobre Uday an — cham ava-o pelo nom e —, dizendo que isso aj udava a explicar certas coisas. Já sabia do necessário; não precisava que ele lhe contasse m ais nada.

Em certo sentido, disse ela, aj udou a se sentir m ais próxim a do bebê que ia ter. Era um detalhe, um elem ento da vida que partilhavam , em bora por razões diferentes.

A filha nasceu no outono. Depois de se tornar m ãe, disse a Subhash que o am ava ainda m ais, sabendo o que ele havia feito.