Aguapés

Jhumpa Lahiri · Capítulo 12 de 37

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Aguapés

Capítulo III

1.

 

Ele deixou os dias curtos de inverno, o local escuro onde pranteara sozinho a dor. Onde o Natal estava chegando, onde as entradas e j anelas das loj as e das casas, em dezem bro, eram enfeitadas com pequenas luzinhas.

Pegou um ônibus até Boston e tom ou um voo noturno para a Europa. O segundo voo fazia escala no Oriente Médio. Esperou nos term inais, foi de um a plataform a de em barque para outra. Por fim aterrissou em Délhi. De lá em barcou num trem noturno até a estação Howrah.

Enquanto percorria m etade da Índia, soube pelos com panheiros de viagem algum as notícias sobre o que andara acontecendo em Calcutá no período em que esteve fora. Notícias que nem Uday an nem seus pais tinham m encionado nas cartas. Acontecim entos que Subhash não lera em nenhum j ornal em Rhode Island nem ouvira na rádio am do carro.

Disseram -lhe que, em 1970, as coisas tinham tom ado outro rum o. Na época, os naxalistas estavam operando na clandestinidade. Os m ilitantes só apareciam para realizar ataques de im pacto.

Saqueavam escolas e faculdades por toda a cidade. No m eio da noite incendiavam arquivos e desfiguravam retratos, erguendo bandeiras verm elhas. Encheram Calcutá com im agens de Mao.

Intim idavam os eleitores, na esperança de tum ultuar as eleições. Disparavam arm as de pressão nas ruas. Punham bom bas em locais públicos, e as pessoas ficavam com m edo de ir ao cinem a ou de entrar num a fila de banco.

Depois os alvos se tornaram específicos. Guardas de trânsito desarm ados nos cruzam entos m ais m ovim entados. Em presários ricos, alguns pedagogos. Mem bros do partido rival, o pci(m ).

Os ataques eram sádicos, horrendos, com intenção de chocar. A esposa do cônsul francês foi assassinada enquanto dorm ia. Mataram Gopal Sem , o vice-reitor da Universidade de Jadavpur. Mataram -no no cam pus quando fazia sua cam inhada ao anoitecer. Ele ia se aposentar no dia seguinte. Espancaram -no com barras de aço e lhe deram quatro facadas.

Assum iram o controle de alguns bairros, dando-lhes o nom e de Zonas Verm elhas. Assum iram o controle de Tolly gunge. Montaram hospitais im provisados, abrigos de segurança. O povo passou a evitar esses bairros. Os policiais com eçaram a portar carabinas.

Então foi aprovada um a nova legislação e voltaram a vigorar leis antigas. Leis que autorizavam a polícia e as forças param ilitares a entrar nas casas sem m andado, a prender rapazes sem provas. A legislação antiga fora criada pelos britânicos, para enfrentar a Independência, para enfraquecer suas forças.

Depois disso, a polícia com eçou a fechar e revistar os bairros da cidade. A bloquear as saídas, a bater nas portas, interrogando os j ovens de Calcutá. A polícia m atou Uday an. Isso Subhash conseguiu com preender.

Ele esquecera a possibilidade de tam anha aglom eração hum ana no m esm o espaço. O cheiro concentrado de tanta vida. Foi agradável a sensação do sol na pele, a ausência do frio cortante. Mas era inverno em Calcutá. Passageiros e cules que lotavam a plataform a, vagabundos que faziam da estação um sim ples abrigo, estavam em brulhados em xales e barretes de lã.

Apenas duas pessoas tinham vindo recebê-lo. Um prim o m ais novo de seu pai, Biren Kaka, e esposa. Estavam ao lado de um vendedor de frutas, sem conseguir sorrir quando o divisaram . Ele entendia essa recepção contida, m as não conseguia entender por que, depois de m ais de dois dias de viagem , depois de m ais de dois anos de ausência, seus pais não se dispuseram a cobrir sequer essa distância para acolher seu retorno. Quando saíra da Índia, a m ãe lhe prom etera um a acolhida de herói, um a guirlanda de flores no pescoço quando descesse do trem .

Foi aqui, na estação, que Subhash vira Uday an pela últim a vez. Ele chegara atrasado no dia da partida, não acom panhando Subhash, os pais e outros parentes que haviam form ado um a pequena caravana desde Tolly gunge, m as garantindo que iria encontrá-los na plataform a. Subhash j á estava sentado no trem , j á se despedira de todos, quando Uday an chegou à j anela.

Estendeu a m ão por entre as grades, alcançando e apertando o om bro de Subhash, então dando-lhe um leve tapinha no rosto. De algum a m aneira, no últim o instante, os dois haviam se encontrado naquela enorm e m ultidão.

Ele tirou da m ochila algum as laranj as de casca verde, dando-as a Subhash para com er durante a viagem . Tente não nos esquecer totalm ente, disse Uday an.

Você cuida deles, não?, perguntou Subhash, referindo-se aos pais. Me avise se acontecer algum a coisa, certo?

O que vai acontecer?

Bom , então, se você precisar de algum a coisa, certo?

Volte algum dia, só isso.

Uday an continuou perto, inclinando-se para ele, a m ão no om bro de Subhash, sem dizer m ais nada, até ligarem os m otores. A m ãe com eçou a chorar. Mesm o os olhos do pai estavam úm idos quando o trem se pôs em m ovim ento. Mas Uday an se postou sorridente entre eles, a m ão erguida, o olhar fixo, enquanto Subhash se afastava deles.

Quando cruzaram a ponte Howrah, o dia ainda não clareara. Do outro lado, os m ercados acabavam de abrir. Alinhados nas calçadas, os cestos expunham as verduras e legum es da m anhã. Passaram pelo grande centro da cidade, em direção a Dalhousie, além de Chowringhee. Um a cidade sem nada, um a cidade com tudo. Quando se aproxim avam de Tolly gunge, cruzando a Prince Anwar Shah Road, o dia brilhava e o m ovim ento era intenso.

As ruas continuavam com o ele lem brava. Cheias de riquixás puxados a bicicleta, o grasnido das buzinas soando a seus ouvidos com o um bando de gansos alvoroçados. O congestionam ento era de outra espécie, de um vilarej o, não de um a cidade. As construções m ais baixas, m ais espaçadas.

Viu aproxim ar-se o term inal, as bancas onde vendiam bolachas e biscoitos em frascos de vidro, onde ferviam chaleiras de alum ínio. As paredes dos estúdios cinem atográficos, do Tolly Clube, estavam cobertas de pichações. Façamos dos anos 1970 a década da libertação. Os fuzis trazem a liberdade, e a liberdade está chegando.

Quando viraram na frente da pequena m esquita, saindo da Baburam Ghosh Road, Subhash sentiu que sua longa j ornada logo term inaria. O táxi m al cabia na rua, quase arranhando a lataria nas paredes dos dois lados. Foi assaltado pelo cheiro ácido, pútrido de seu bairro, de sua infância. O cheiro de água parada. O fedor de algas e esgotos a céu aberto.

Ao se aproxim arem dos dois lagos, ele viu a casinha que deixara para trás, agora substituída por algo grande, desaj eitado. Ainda havia alguns andaim es, m as a construção parecia pronta. Viu as palm eiras que se erguiam atrás da casa. Mas a m angueira que estendia as folhas e as ram agens escuras sobre o telhado original havia desaparecido.

Ele atravessou um a laj e sobre a valeta que separava a propriedade da rua. Duas portas de m ola davam para o pátio. O m ofo recobria as paredes. Mas ainda era um espaço acolhedor, com um poço num dos cantos, vasos de barro com dálias, as cravinas e o m anj ericão que sua m ãe usava nas preces. Naquela época do ano, a trepadeira de ram os am arelos entrelaçados estava em flor.

Aqui era onde ele e Uday an brincavam quando m eninos. Onde desenhavam e faziam contas com pedaços de carvão ou cacos de argila. Aonde Uday an foi, no dia em que receberam ordens de não sair, escorregando da tábua antes que o cim ento tivesse secado.

Subhash viu as pegadas e passou por elas. Olhou a parte de cim a da casa, erguendo-se sobre o que havia antes. Varandas com pridas, com o corredores aéreos, davam a volta num dos lados. Eram fechadas por grades em desenhos de trevo. O verde-esm eralda da tinta era vivo e brilhante.

Por um a das grades ele viu os pais, sentados no andar de cim a. Tentou ver a expressão deles, m as não conseguiu depreender nada. Agora que estava tão perto, um a parte de si sentia vontade de voltar ao táxi, que saía de ré lentam ente. Sentia vontade de dizer ao m otorista que o levasse a algum outro lugar.

Apertou a cam painha que Uday an instalara. Ainda funcionava.

Os pais não se levantaram nem o cham aram pelo nom e. Não desceram para vir cum prim entá-lo. Em vez disso, o pai baixou um barbante com a chave am arrada na ponta, passando pela grade. Subhash esperou que ela chegasse a seu alcance e abriu um cadeado pesado na lateral da casa. Por fim ouviu o pai pigarreando para lim par a garganta, parecendo soltar as secreções de um longo silêncio.

Tranque o portão antes de tirar a chave, disse a Subhash.

Subhash subiu um a escada de corrim ão preto e liso e as paredes azul-celeste. Biren Kaka e a esposa vinham atrás. Quando viu os pais, j untos no terraço, curvou-se para tocar seus pés. Era filho único, experiência que não lhe deixara nenhum a m arca nos prim eiros quinze m eses de vida. Ia com eçar a sério agora.

À prim eira vista, seus pais não aparentavam nenhum a m udança. O brilho oleoso do cabelo da m ãe, o tom pálido da pele. O físico esguio e encurvado do pai, o algodão sim ples da túnica. Os cantos dos lábios voltados para baixo, que podiam expressar algum a decepção, m as, pelo contrário, sugeriam um a afabilidade constante. A diferença estava nos olhos deles. Em botados pela dor, am ortecidos por um a visão que nenhum pai ou m ãe deveria ver.

Apesar da fotografia pendurada no quarto novo dos pais, que o levaram para conhecer, ele não conseguia acreditar que Uday an não se encontrava em lugar nenhum . Mas ali estava a prova. A foto fora tirada cerca de dez anos antes, por um parente que tinha um a m áquina fotográfica, um dos únicos retratos existentes dos dois irm ãos. Foi no dia em que receberam os resultados dos exam es finais do ensino m édio, o dia que o pai disse ser o de m aior orgulho de sua vida.

Ele e Uday an tinham posado j untos no pátio. Subhash viu dois centím etros de seu om bro, encostado no de Uday an. O resto de sua im agem fora recortado, para fazerem o retrato da m orte.

Ficou diante da im agem e chorou, a cabeça aninhada no braço, num estranho abraço de si m esm o. Mas os pais, passado o choque, observavam -no com o se fosse um ator no palco, aguardando a cena term inar.

Do terraço ele tinha um a vista am pla do lugar onde crescera j unto com Uday an. O topo das casas m ais baixas revestido de telha ou chapa de alum ínio, com os pés rasteiros das abóboras se espalhando por cim a. No alto das paredes, m anchas brancas, m arcas de excrem entos dos corvos. Dois lagos ovais do outro lado da aleia. A baixada, olhando para ele com o um m angue na m aré baixa.

Ele desceu a escada até o térreo, até a parte da casa que não fora reform ada, até o quarto que dividia antigam ente com Uday an. Ficou espantado com o era escuro, com o era pequeno o quarto. Havia a m esa de estudos sob a j anela, as prateleiras em butidas na parede, o cabideiro sim ples onde colocavam as roupas dobradas. A cam a onde dorm iam j untos fora substituída por um a cam a de vento. Uday an devia ter usado o quarto para dar aulas particulares. Viu livros escolares nas prateleiras, canetas e instrum entos de m edição. Perguntou-se o que teria acontecido com o rádio. Todos os livros políticos tinham desaparecido.

Desfez a m ala e tom ou banho com a água que a bom ba trazia duas vezes por dia do reservatório coletivo. A água, com excesso de ferro, tinha gosto de m etal. Deixava o cabelo duro, a pele viscosa ao tato.

Disseram que subisse para alm oçar. Era onde agora ficava a cozinha. No andar do dorm itório dos pais, onde ficava o retrato de Uday an, estavam os pratos postos para o pai, para Biren Kaka e esposa, para Subhash. A m ãe com eria depois de servi-los, com o sem pre fazia.

Ele se sentou de costas para o retrato. Não conseguiria olhá-lo outra vez.

Com eu com avidez a refeição sim ples: dal e fatias de m elão-de-são-caetano frito, arroz e cozido de peixe. Pabda, peixe de água doce, seus olhos cozidos com o seixos am arelos.

De novo as travessas largas de bronze. A liberdade de com er com os dedos. A água ficava num a bilha preta no canto da sala. O copo pesando na m ão, a borda um pouco larga dem ais para a boca.

Onde ela está?, perguntou.

Quem ?

Gauri.

A m ãe lhe serviu um a concha de dal por cim a do arroz. Ela com e na cozinha, respondeu.

Por quê?

Prefere assim .

Ele não conseguia acreditar. Não falou o que lhe veio à m ente. Que Uday an iria detestá-los por segregá-la, por seguirem esses costum es.

Ela está lá agora? Gostaria de conhecê-la.

Está descansando. Não está se sentindo bem hoj e.

Cham aram um m édico?

A m ãe baixou os olhos, atenta à com ida que servia aos dem ais.

Não há necessidade.

Está falando sério?

Finalm ente a m ãe explicou.

Ela está esperando um filho.

Depois do alm oço, ele saiu, passando ao lado dos dois lagos. Havia algum as m açarocas de aguapés espalhadas na baixada e água ainda suficiente para form ar poças aqui e ali.

Viu um pequeno m arco de pedra que não estava lá antes. Foi até ele. Trazia o nom e de Uday an. Em baixo, os anos de nascim ento e m orte: 1945-1971.

Era um a lápide com em orativa, erigida para m ártires políticos. Aqui aonde a água vinha e ia, onde se em poçava e desaparecia, foi o lugar que os cam aradas de partido escolheram para colocá-la.

Subhash lem brou um a tarde quando estava j ogando futebol com Uday an e alguns m eninos do bairro no cam po adiante da baixada. Ele torceu o pé no m eio da partida. Disse a Uday an que continuasse j ogando, pois daria um j eito sozinho, m as Uday an insistiu em acom panhá-lo.

Lem brou que pusera o braço no om bro de Uday an, apoiando-se nele enquanto voltava para casa m ancando, o tornozelo inchado e pesado de dor. Lem brou que m esm o naquela hora Uday an im plicou com ele, por ser desaj eitado e se m achucar na hora em que o tim e deles estava ganhando. E ao m esm o tem po sustentando-o, levando-o para casa.

Voltou para casa, pensando em tirar um descanso rápido, m as caiu num sono profundo. Acordou tarde, depois do horário em que seus pais norm alm ente j antavam . Perdera a hora da refeição. O ventilador estava parado; acabara a energia elétrica. Encontrou um a lanterna em baixo do colchão, ligou e subiu a escada.

A porta do quarto dos pais estava fechada. Indo à cozinha para ver se havia algo para com er, ele viu Gauri sentada no chão, com um a vela acesa ao lado.

Reconheceu-a de im ediato, pelo retrato que Uday an enviara. Mas não era m ais a universitária descontraída que sorria para seu irm ão. Aquele retrato era em branco e preto, m as agora a ausência de cor, m esm o à luz suave da vela, era m ais acentuada.

O cabelo com prido estava preso e enrolado acim a da nuca. Tinha a cabeça baixa, os braços sem pulseiras, um sári de um branco refulgente. Era m agra, sem sinais da vida que carregava dentro de si. Usava óculos, detalhe que não aparecia na foto. Quando ergueu os olhos para ele, Subhash viu que, além dos óculos, o retrato deixara de m ostrar outra coisa. A franca beleza de seus olhos.

Ele a fitou, m as não falou com ela, observando-a enquanto com ia arroz e dal. Podia ser qualquer pessoa, um a desconhecida. Mas agora fazia parte da fam ília, a m ãe do filho de Uday an. Com o indicador, puxava alguns grãos de sal do m ontinho na beirada do prato e m isturava na com ida. Ele notou que o peixe que lhe serviram no alm oço não fora servido a ela.

Sou Subhash, ele disse.

Eu sei.

Não quero incom odá-la.

Tentaram acordá-lo para o j antar.

Agora estou bem desperto.

Ela com eçou a se levantar. Vou lhe preparar um prato.

Term ine de com er. Eu m esm o pego.

Ele sentiu os olhos dela sobre si enquanto inspecionava as prateleiras com a lanterna, encontrava um prato, destam pava as panelas e caçarolas que haviam deixado para ele.

Você fala com o ele, disse.

Sentou-se ao lado dela, a vela entre am bos, fitando-a. Viu sua m ão pousada no prato, as pontas dos dedos lam buzadas de com ida.

É por causa de m eus pais que você não está com endo peixe?

Ela ignorou a pergunta. Vocês têm a m esm a voz, disse.

Logo ele adotou um a atitude passiva, acordando sob a tela branca do m osquiteiro. Esperando que lhe trouxessem o chá de m anhã, esperando que lavassem e dobrassem as roupas que deixava no chão, que lhe servissem as refeições. Nunca enxaguava um copo ou um prato, sabendo que o criado viria retirá-los. O açúcar cristal cobria sua torrada m atinal, que acom panhava com um chá doce dem ais, form iguinhas m iúdas vindo carregar os farelos.

A planta da casa era desorientadora. A caiação ainda estava tão fresca que saía na m ão quando encostava na parede. Apesar da reform a, a casa não parecia acolhedora. Havia m ais espaço para se recolher, para dorm ir, para ficar sozinho. Mas não se proj etara nenhum lugar para se reunirem , nenhum a m obília para receber convidados.

Era no terraço do últim o andar que seus pais preferiam ficar, a única parte da casa que parecia ser inteiram ente deles. Era ali que, depois que o pai voltava do trabalho, tom avam o chá do final de tarde, num par de cadeiras sim ples de m adeira. Naquela altura havia m enos m osquitos e, quando acabava a energia, ainda havia algum a aragem . O pai não se dava ao trabalho de abrir o j ornal. A m ãe não tinha nenhum a peça de costura no colo. Por entre os desenhos da grade, olhavam a vizinhança até anoitecer; esse parecia ser o único passatem po deles.

Se o criado estivesse fazendo algum serviço de rua, era Gauri quem servia o chá. Mas nunca se j untava a eles. Depois de aj udar a sogra nas tarefas m atinais, ficava em seu quarto, no segundo andar da casa. Ele percebeu que seus pais não falavam com ela, que m al davam notícia de sua presença quando ela aparecia.

Ele recebeu atrasado seus presentes de Durga Puj o. Tecido cinzento para calças, tecido listrado para cam isas. Dois j ogos de cada, pois tam bém ganhou a parte de Uday an. Mais de um a vez, oferecendo-lhe um biscoito, perguntando se queria m ais chá, a m ãe o cham ou de Uday an, em vez de Subhash. E m ais de um a vez ele atendeu, sem a corrigir.

Em penhava-se em se relacionar com eles. Quando perguntou ao pai com o eram os dias no escritório, o pai respondeu que eram com o sem pre. Quando perguntou à m ãe se naquele ano havia recebido m uitas encom endas para bordar sáris para o ateliê, ela disse que estava com a vista fraca.

Os pais não perguntaram nada sobre os Estados Unidos. A poucos centím etros de distância, evitavam olhá-lo. Subhash se perguntava se os pais iam lhe pedir para ficar em Calcutá, para deixar sua vida em Rhode Island. Mas não houve nenhum a m enção a respeito.

Nem houve m enção à possibilidade de lhe arranj arem um a esposa. Não estavam em condições de planej ar um casam ento, de pensar em seu futuro. Muitas vezes passavam um a hora sem trocar palavra. Eram envolvidos pelo silêncio com partilhado, que os unia m ais do que qualquer conversa.

Mais um a vez o im plícito era que ele não lhes pedisse m uito, que de algum a m aneira se virasse sozinho.

Ao cair da noite, sem pre na m esm a hora, a m ãe colhia algum as flores nos vasos do pátio e saía. Do terraço, ele a via passando j unto aos lagos.

Parava no m arco de pedra à beira da baixada, lavando a lápide com água que tirava de um a anforazinha de bronze, a m esm a que usara para dar banho nele e em Uday an quando eram pequenos, e então colocava as flores por cim a da lápide. Não precisou perguntar: entendeu que esta era a hora, que tinha sido nesta hora do dia.

Ouviram no rádio da fam ília que o Paquistão Oriental se tornara Bangladesh após treze dias de com bates. Para os bengalis m uçulm anos, era um a libertação, m as para Calcutá o conflito significava outra onda de refugiados cruzando a fronteira. Charu Maj um dar ainda estava escondido. Era o hom em m ais procurado da Índia, com a cabeça a dez m il rúpias de recom pensa.

Ouviram as notícias em silêncio, m as o pai parecia nem prestar atenção. As varreduras policiais tinham cessado, m as o pai ainda guardava a chave da casa em baixo do travesseiro enquanto dorm ia. Às vezes, ao acaso, sentado no alto da casa trancada com cadeado, acendia a lanterna pela grade, para ver se havia alguém lá.

Não falavam de Uday an. Passaram -se dias sem que dissessem seu nom e.

Então, um a noite, Subhash perguntou: Com o aconteceu?

O rosto do pai estava im passível, com o se não tivesse escutado.

Pensei que ele tinha saído do partido, insistiu Subhash. Que tinha se afastado. Não foi?

Eu estava em casa, disse o pai sem responder à pergunta.

Quando você estava em casa?

Naquele dia. Abri o portão para eles. Deixei entrarem .

Eles quem ?

A polícia.

Finalm ente estava chegando a algum lugar. A algum a explicação, algum a adm issão. Ao m esm o tem po sentiu-se pior, agora que suas suspeitas estavam confirm adas.

Por que não m e disse que ele corria perigo?

Não faria diferença.

Bom , então m e diga agora: por que o m ataram ?

Então a m ãe reagiu com um olhar penetrante a Subhash. Tinha um rosto m iúdo, com espaço j usto para tudo o que continha. Ainda j ovial, o cabelo escuro decorado com a faixa de verm elhão vivo, indicando que tinha m arido.

Era seu irm ão, disse ela. Com o você pode perguntar um a coisa dessas?

Na m anhã seguinte, ele procurou Gauri, batendo à porta de seu quarto. Tinha acabado de lavar o cabelo. Estava solto para secar.

Ele tinha na m ão um a brochura que com prara para ela a pedido de Uday an. O homem unidimensional, de Herbert Marcuse. Entregou-lhe.

É para você. De Uday an. Ele tinha m e pedido.

Ela olhou a capa e depois o verso. Abriu e foi ao com eço. Por um instante parecia que ela j á com eçara a ler, o rosto adquirindo um a expressão plácida de concentração, esquecendo que ele estava ali.

De pé à sua porta, ele se sentiu com o se estivesse invadindo seu espaço. Virou-se para ir em bora.

Gentil de sua parte em trazer, disse ela.

Não foi nenhum trabalho.

Queria conversar com ela. Mas não havia nenhum lugar na casa onde pudessem conversar a sós.

Vam os dar um a volta?

Agora não.

Ela se afastou de lado e apontou para um a cadeira no quarto.

Ele hesitou, e então entrou. O quarto estava na penum bra, até que Gauri abriu as venezianas das duas j anelas, deixando entrar o fulgor branco do dia. A luz do sol bateu na cam a, form ando um quadrado, um a área calm a e clara com as som bras verticais das barras da j anela.

A cam a era baixa, de colunas finas. Tam bém havia um a côm oda e um a penteadeira pequena com banqueta. Em vez de pós e pentes, havia cadernos, canetas-tinteiro, frascos de tinta. O quarto tinha um cheiro forte de teca, vindo dos m óveis. Ele sentia o perfum e de seu cabelo recém -lavado.

A ilum inação é boa, disse ele.

Só agora. Em poucos m inutos, o sol estará alto dem ais e perde o ângulo de entrada.

Ele passou um a vista de olhos num conj unto de prateleiras em butidas num a das paredes, onde ela guardava seus livros. Entre eles estava o rádio de ondas curtas. Retirou-o dali, sem chegar a ligá-lo, m as m exendo instintivam ente num dos botões.

Montam os j untos.

Ele m e falou.

Você ouve?

Ele era o único que conseguia fazer o rádio funcionar. Quer de volta?

Ele abanou a cabeça e recolocou o aparelho na prateleira.

Ela sentou na beirada da cam a. Ele viu outros livros abertos, voltados para baixo, encapados com papel pardo liso. Ela escrevera os títulos no centro, com sua letra. Ele ficou observando enquanto ela pegava um a folha de j ornal velho e com eçava a encapar o livro que ganhara. Ele e Uday an costum avam fazer isso j untos, depois de com prar os livros escolares de cada ano.

Lá ninguém faz isso.

Por que não?

Não sei. Talvez as capas sej am m ais duráveis. Ou talvez eles não se incom odem que pareçam velhos.

Foi difícil de achar?

Não.

Onde você com prou?

Na livraria do cam pus.

É longe de onde você m ora?

Virando a esquina.

Dá para ir a pé?

Dá.

O papel parece diferente. Macio.

Ele assentiu.

Você fica num a pensão?

Tenho um quarto num a casa.

Tem refeitório?

Não.

Então quem cozinha para você?

Eu m esm o.

Você gosta de m orar sozinho?

Inesperadam ente, ele pensou em Holly e nos j antares à m esa da cozinha. Aquela breve turbulência em sua vida agora parecia trivial. Com o os seixos que parava para apanhar em Rhode Island, que segurava um pouco e depois atirava de volta ao m ar enquanto cam inhava pela praia, ele deixara que ela se fosse.

Mesm o assim , agora ele se perguntava o que ela teria feito com essa casa tristonha e vazia, esse enclave pantanoso no sul de Calcutá, onde ele crescera. Perguntava-se o que ela teria feito com Gauri.

Perguntou a Gauri sobre seus estudos, e ela respondeu que tinha concluído a graduação em filosofia naquele ano m esm o. Levou m ais tem po do que deveria. Tinha sido difícil, por causa dos distúrbios. Disse que estava pensando em fazer m estrado, antes do assassinato de Uday an. Antes de saber que estava grávida.

Uday an sabia que ia ser pai?

Não.

A cintura ainda estava fina. Mas o fantasm a de Uday an era palpável dentro dela, preservado nesse quarto onde passava todo o seu tem po. Quando ela falava dele, era um a evocação. Não se fechara com o os pais.

Quando nasce o bebê?

No verão.

Com o você se sente aqui na casa? Com m eus pais?

Ela não respondeu nada. Ele esperou, então percebeu que estava com os olhos cravados nela, absorto num a m anchinha escura do lado do pescoço. Desviou o olhar.

Posso te levar a algum outro lugar, sugeriu ele. Quer visitar sua fam ília? Tios e tias?

Ela abanou a cabeça.

Por que não?

Pela prim eira vez quase surgiu um sorriso em seu rosto, o sorriso oblíquo que ele lem brava da fotografia, favorecendo levem ente um dos cantos da boca. Porque fugi para m e casar com seu irm ão, disse ela.

Nem agora eles querem te ver?

Ela franziu as sobrancelhas. Estão bravos. Não os culpo. Eu poderia com prom eter a segurança deles, e m esm o a segurança de seus pais, quem sabe?

Mas decerto alguém ?

Meu irm ão veio m e ver depois do que aconteceu. Veio ao funeral. Ele e Uday an eram am igos. Mas não depende dele.

Você pode m e contar m ais algum a coisa?

O que você quer saber?

Quero saber o que aconteceu com m eu irm ão, respondeu ele.