Aguapés
Capítulo VIII
1.
Na costa ocidental da Irlanda, na península de Beara, vem um casal passar um a sem ana. Estão vindo de Cork, atravessando o interior m odorrento, chegando no final da tarde a um a região árida e m ontanhosa. Os vales ocultam os sinais de um a agricultura pré-histórica. O traçado dos cam pos, o sistem a das divisas de pedras, sepultados sob cam adas de turfa.
Eles alugaram um a casa num dos poucos vilarej os dali. De estuque branco, porta e j anelas pintadas de azul. O povoado inteiro não parece m uito m aior do que o enclave de casas onde, m uito tem po atrás, o hom em cresceu.
A rua é íngrem e e estreita, ladeada por fúcsias em flor, carros estacionados. Estão a duas portas de um bar, a poucos m etros de um a igrej a am arela que atende aos m oradores locais. Na agência de correio, que tam bém funciona com o arm azém , com pram os m antim entos: leite e ovos, sardinha e feij ão em lata, um pote de geleia de am ora preta. Pode-se ficar sentado na frente do correio, a um a m esa para dois na calçada, e pedir um bule de chá, m anteiga e crem e fresco, um prato de bolinhos.
À noite, depois da longa viagem e de um caneco de cervej a no bar, o hom em está com um sono leve. Acorda na cam a onde está com a nova esposa. Ela dorm e um sono pacífico, a cabeça virada de lado, as m ãos cruzadas no peito.
Ele desce a escada e abre a porta dos fundos. Sai descalço para o alpendre de m adeira que dá para o j ardim , os pastos m ais além , descendo até a Baía de Kenm are. Tem cabelo basto e branco com o neve. A esposa gosta de passar os dedos por ele. O hom em vê a vasta faixa de luar batendo nas águas. Fica assom brado com a claridade do céu, com a quantidade de estrelas.
Sopra um vento forte na terra, im itando o som das ondas. Ele olha para o alto, esquecendo os nom es das constelações que um dia ensinou à filha. Gases incandescentes, vistos na terra com o frescos pontos lum inosos.
Ele volta para a cam a, ainda olhando o céu, as estrelas pela j anela. Fica novam ente assom brado que, m esm o durante o dia, tenham tal beleza. Sente-se tom ado pela gratidão da idade, pelos esplendores da terra, pela oportunidade de contem plá-los.
Na m anhã seguinte, depois do desj ej um , saem para sua prim eira cam inhada por trilhas contornando o m ar. Atravessam pastos rústicos onde vacas e carneiros pastam em silêncio tendo o horizonte ao fundo, cam pos de dedaleiras e sam am baias. O dia está encoberto, m as lum inoso, as nuvens paradas. O oceano invade as enseadas de pedras, estende-se calm o entre penhascos abruptos.
O casal absorve a im ensidão do espaço. A quietude do lugar. Nesse afloram ento de terra, depois de andar por horas, galgando e descendo as escadinhas que separam as propriedades, não estão nem na m etade do cam inho aonde achavam que chegariam , segundo o m apa da região que param para estudar.
A viagem é de lua de m el, a prim eira do hom em , em bora j á se tivesse casado antes. Alguns dias atrás, do outro lado do m esm o oceano, nos Estados Unidos, o casal trocou seus votos no recinto de um a igrej inha verm elha e branca em Rhode Island que o hom em adm irava fazia m uitos anos, o pináculo erguendo-se sobre a baía de Narragansett.
A união do casal foi presenciada por um grupo de am igos e parentes. O hom em ganhou dois filhos, um a segunda filha além da sua. São sete netos. Espalhados por vários lugares, de vez em quando se reunindo, irão se conhecer de m odo lim itado. Ainda assim , é um ponto de partida, um a nova perspectiva tardia na vida.
Os anos que o casal tem pela frente são o desfecho conj unto de vidas que foram construídas em separado, vividas em separado. É inútil im aginar o que teria acontecido se o hom em a tivesse conhecido na casa dos quarenta ou dos vinte. Não teria se casado com ela.
No dia seguinte, quando saem da casa, deparam -se com um grupo na últim a despedida de um m orador desconhecido, os enlutados espalhados descendo a ladeira. Por um instante, é com o se eles tam bém fizessem parte do cortej o fúnebre. Não há indicação onde com eça, onde term ina, quem é o pranteado. Então o casal se afasta respeitosam ente de sua som bra.
Se os netos estivessem ali, tom ariam o teleférico para ver os golfinhos e baleias que nadam perto da ilha de Dursey. Em vez disso, dedicam os dias a cam inhadas. De m ãos dadas, com suéteres grossos que com praram para se proteger do leve frio de outono.
Param quando se cansam , para adm irar a paisagem , para sentar e com er biscoitos, pedaços de queij o. Nas poças da m aré com pedras que form am grutas e cavernas, descobrem m ontes de seixos lisos e cinzentos, conchas perfuradas que se desgastaram até virar anéis brancos e duros. O hom em cata um punhado, pensando que podem dar um belo colar para a neta em Rhode Island, passando por um barbante. Im agina-se colocando-o na cabeça da m enina, adornando-a com o coroa.
Chegam a algum as pedras que são de interesse, seguem as placas para visitá-las. Pilares rústicos enfurnados em estradas secundárias. Um a pedra de Ogham , com nom es inscritos, no cam po de um agricultor. Um m atacão solitário, que dizem ser a encarnação de um a m ulher com poderes m ágicos, inclinado num ângulo oblíquo num penhasco.
Num dia de tarde, percorrem um a charneca para chegar a um conj unto de pedras situadas num vale, que parecem aleatórias, m as estão dispostas num a ordem deliberada, um a de frente para a outra na área varrida pelos ventos. Algum as são m ais altas, outras m ais baixas do que o casal. Mais largas em baixo, desbastadas em cim a. Sem elegância, m as sagradas, com pontos esbranquiçados por causa da idade. Parece inconcebível m ovê-las, m as estão em posições cuidadosam ente avaliadas, cada pedra laboriosam ente transportada, agrupada por m ãos hum anas.
A esposa explica que são da Idade do Bronze, que tinham finalidade religiosa, talvez fúnebre ou com em orativa. Que algum as podem ter sido colocadas seguindo o m ovim ento da terra em torno do sol. Faz séculos que as pessoas percorrem enorm es distâncias para vir tocá-las, para ficar diante delas e receber suas bênçãos. Há quem deixe seus traços.
Ele vê fitas de cabelo, correntinhas frágeis, m edalhões, am ontoados na base de algum as das pedras. Gravetos am arrados, pedaços de fio. Oferendas pessoais, pequenos penhores de fé. Desconhece totalm ente essa arqueologia antiga, essas crenças duradouras. São tantas as coisas que ainda desconhece no m undo...
Nota alguns chum aços m ais altos despontando por todo o cam po verde, com o um a vegetação pantanosa na m aré baixa. Vê as faces rochosas castanhas dos m ontes em torno, a superfície serena da baía m ais abaixo.
O hom em pensa em outra pedra num lugar distante e nítido em sua lem brança. Um a tabuleta sim ples, com o um m arco de estrada, com o nom e de seu irm ão. As cercanias lentam ente conspurcadas, a baixada onde antes estava agora indiferente às estações, destinada a coisas m ais práticas. Durante anos, sua m ãe foi um a peregrina fiel àquele santuário, ofertando flores ao filho, até se tornar incapaz de visitá-lo, até ser negado a ele esse tributo.
Em terreno antigo que para ele é novo, no am plo abraço de um a ruína isolada, seus sapatos estão cobertos de lam a. Olha para o alto e vê o céu cinzento e pesado estendendo-se sobre a terra. O m ovim ento incessante da atm osfera, nuvens baixas seguindo por quilôm etros.
Entre o cinzento, um a incongruente faixa de azul diurno. A oeste, um sol rosado j á com eça a se pôr. Três aspectos isolados, três fases distintas do dia. Todas elas, sem eadas ao longo do horizonte, são abarcadas por seu olhar.
Uday an está a seu lado. Estão andando j untos em Tolly gunge, atravessando a baixada, por sobre as folhas dos aguapés. Levam um taco de golfe, algum as bolas na m ão.
Na Irlanda tam bém o solo é encharcado, desnivelado. Contem pla a paisagem pela últim a vez, sabendo que nunca m ais voltará aqui. Anda até outra pedra e tropeça, tentando alcançá-la, procurando se firm ar. Um m arco, no final da viagem , do que foi dado, do que foi tirado.