Aguapés
Capítulo 5
Fazia dois anos que concluíra e defendera sua tese de doutorado, um a análise da eutrofização no Narrow River. Mil novecentos e setenta e seis, bicentenário da independência dos Estados Unidos. Sete anos desde que aqui chegara.
Em quase cinco anos, não fora a Calcutá. Os pais agora queriam conhecer Bela, m as Subhash lhes disse que ela era novinha dem ais para fazer um a viagem tão longa e que havia pressão dem ais em seus estudos. De vez em quando enviava fotos e ainda rem etia dinheiro a eles, agora que o pai estava aposentado. Sentia que tinham se abrandado, m as não estava preparado para reencontrá-los. Nesse aspecto, ele e Gauri eram aliados.
Mas sua m otivação era pessoal. Não queria ver as únicas outras pessoas do m undo que sabiam que não era o pai de Bela. Iriam lem brá-lo de seu lugar, iriam vê-lo com o tio, nunca reconheceriam que era algum a coisa m ais.
Estava concluindo seu pós-doutorado em New Bedford. Fora convidado a participar num a pesquisa am biental. À noite, para ganhar um pouco m ais, dava aulas de quím ica num a faculdade com unitária em Providence.
Tinha pensado em se m udar para o sul de Massachusetts, para ficar m ais perto do trabalho. Mas logo a bolsa term inaria e j á encontrara um apartam ento m aior em Rhode Island, ainda a um a distância do cam pus principal que podia ser percorrida a pé. Havia a possibilidade de ser contratado por um laboratório em Narragansett. Agora que Bela estava no j ardim de infância da universidade, agora que a vida lá se tornara m ais fam iliar para ele, parecia m ais sim ples ficar.
Levava cerca de um a hora para voltar, passando pelas fábricas e usinas em Fall River, passando por Tiverton, cruzando a sucessão de pontes sobre a baía. Chegava ao continente, e então eram m ais uns dez m inutos até o conj unto residencial tranquilo e frondoso, atrás de um a fila de repúblicas estudantis, onde m oravam . A cada noite que via Bela, ela lhe parecia levem ente diferente — ossatura e dentição m ais sólidas, a voz vigorosa que se tornara m ais enfática nas horas em que estava fora.
Ela com eçara a escrever o nom e, a espalhar a m anteiga na torrada. As pernas se encom pridavam , m as a barriguinha continuava redonda. Tinha um a penugem suave nas costas, um a elegante linha de pelos ao longo da espinha. Form avam um a espiral perfeita no centro, com o as curvas na ponta dos dedos ou no tronco de um a árvore. Quando a seguia com o dedo, ao dar banho em Bela na banheira com espum a, antes de dorm ir, os pelinhos se rearranj avam e o desenho se desfazia.
Tinha aprendido a am arrar os sapatos, m as não sabia distinguir o pé direito do pé esquerdo. Restavam outros gestos da prim eira infância — o j eito que estendia, abria e fechava a m ão quando queria algum a coisa. Um copo de água, por exem plo, que estivesse fora de alcance.
Tinha m edo de trovão e, m esm o quando não havia nenhum a trovoada, às vezes despertava no m eio da noite, cham ando por ele, ou sim plesm ente indo ao quarto onde dorm ia com Gauri e aninhando-se ao lado dele na cam a. De m anhã, logo antes de acordar, ficava de bruços, as pernas dobradas, encolhida com o um a rãzinha.
Toda noite, por insistência de Bela, Subhash se deitava a seu lado até que ela pegasse no sono. Era um lem brete da ligação entre am bos, um a ligação falsa e ao m esm o tem po verdadeira. E assim , noite após noite, depois de aj udá-la a escovar os dentes e vestir o pij am a, ele desligava a luz e se deitava a seu lado. Bela dizia para ele se virar e olhar para ela, olhos nos olhos para unirem a respiração. Olhe para m im , Baba, m urm urava com um a intensidade, um a inocência que o sobrepuj avam . Às vezes ela segurava seu rosto entre as m ãos.
Você m e am a?
Am o, Bela.
Te am o m ais.
Mais do que o quê?
Mais do que você m e am a.
Im possível. Isso cabe a m im .
Mas te am o m ais do que qualquer pessoa am a outra.
Ele se perguntava com o em oções tão fortes, com o essa devoção tão exagerada, podiam existir num a criança tão pequena. Paciente, esperava até que ela fechasse as pálpebras e ficasse im óvel. O corpo sem pre se contraindo um pouco; era o sinal de que o sono profundo chegaria em poucos segundos.
Toda noite, em bora se repetisse a m esm a coisa, era um choque. Minutos antes, Bela estava saltando na cam a, a risada enchendo o quarto. Mas, quando fechava os olhos, essa cessação da atividade era tão desconcertante, tão definitiva quanto a m orte.
Algum as noites, ele tam bém adorm ecia brevem ente ao lado de Bela. Com cuidado, tirava suas m ãozinhas do colarinho de sua cam isa e aj eitava o lençol por cim a dela. A cabeça afundada no travesseiro, num a posição de orgulho e rendição. Tal proxim idade ele havia sentido som ente com outra pessoa. Com Uday an. Todas as noites, ao se desvencilhar dela, seu coração parava por um instante, im aginando o que ela diria no dia em que soubesse a verdade sobre ele.
Aos sábados, ele e Bela iam ao superm ercado; era o único m om ento que passavam a sós fora do apartam ento, m om ento pelo qual ele m ais ansiava durante a sem ana. Ela não cabia m ais no assento que ficava na frente do carrinho, e agora ia atrás enquanto ele guiava, saltitando para aj udar a escolher as m açãs, um a caixa de cereais, um vidro de geleia.
Mais depressa, ela insistia, e às vezes, se o corredor estava vazio, ele atendia, acelerando, brincando. Nesse sentido, Uday an deixara suas m arcas, legando um a exuberante réplica de si m esm o. E Subhash adorava isso nela, que houvesse um pródigo transbordam ento de quem ela era.
De pé com ele no setor de frios, ela com ia os cubinhos de queij o espetados em palitos, as colheradas de salada de batata servidas na bandej a, fatias rosadas de presunto. Havia um a lanchonete nos fundos do superm ercado, e ali ele a levava para um cachorro-quente e um copo de refrigerante, um a porção de anéis de cebola em panada para dividirem .
Um dia, atravessando o estacionam ento depois de term inarem as com pras, em purrando o carrinho repleto de sacos de papel pardo, ele viu Holly .
Bela ainda se segurava na traseira do carrinho, de frente para ele. Era um dia frio de outono, o céu lím pido, o vento do oceano soprando forte.
Fazia m uitos anos que ele tinha cuidado em evitar os lugares onde pudesse cruzar com Holly, deixando de visitar o lago salino m ais próxim o à casa dela, certificando-se de que seu carro não estivesse estacionado na praia onde se encontraram pela prim eira vez.
Mas agora ali estava ela, num lugar a que ele vinha infalivelm ente todas as sem anas. Estava acom panhada, não por Joshua, m as por um hom em . Abraçava-a pela cintura.
O hom em era o m arido, o m esm o rosto da foto no quarto de Joshua. Agora m ais velho, ficando grisalho, ganhando careca.
Ela parecia à vontade com esse hom em que a abandonara um a vez, que a traíra. Não viu Subhash. Ele ouviu sua risada enquanto atravessavam o estacionam ento, viu j ogar a cabeça para trás. Ele estava na casa dos vinte quando a conheceu. Agora ela estava com m ais de quarenta; Joshua devia estar com catorze, idade suficiente para ficar sozinho em casa enquanto o pai e a m ãe iam às com pras.
Subhash não se im portara com a diferença de idade entre eles. Mas perguntava-se se ela teria term inado com ele por causa disso, por ser im aturo, sem condições de substituir o hom em que agora estava m ais um a vez a seu lado.
Com eçaram a se dirigir ao superm ercado, Holly dim inuindo o passo, vendo-o, agora acenando ao reconhecê-lo, ainda se aproxim ando. O cabelo loiro estava com outro corte, em cam adas ao redor do rosto. De tam ancos, calças largas, suéter com capuz, roupa para um dia m ais frio. Afora isso, ela continuava igual.
O que você está olhando, Baba?
Nada.
Então vam os.
Ele não conseguiu se m over. E agora era tarde dem ais para evitá-la.
Bela desceu do carrinho e se pôs ao seu lado. Sentiu que ela se apoiava em seu quadril. Afagou seu cabelo e procurou o calorzinho sob o pescoço. O rostinho dela ainda cabia quase inteiro na concha de sua m ão.
Subhash, disse Holly . Você tem um a m enina.
Tenho.
Não fazia ideia. Este é Keith.
Esta é Bela.
Trocaram um aperto de m ãos. Subhash se perguntou se Keith saberia da época em que estiveram j untos. Holly estava observando, adm irando Bela.
Quando você se casou?
Uns cinco anos atrás.
Afinal você decidiu ficar aqui.
Decidi, sim . Com o vai Joshua?
Batendo por aqui em m im , disse ela, m ostrando a altura dele com a m ão.
Ela estendeu a m ão e lhe tocou o braço por um instante. Parecia genuinam ente satisfeita em vê-lo, em conhecer Bela. Ele lem brou com o ela gostava de ouvi-lo falar sobre sua infância, sobre Calcutá. O que ela teria lem brado? Ele nunca lhe contou sobre a m orte de Uday an.
Bom te ver, Subhash. Cuide-se.
Não devia sentir ciúm e, m as sentiu um a pontada quando os dois passaram por ele, enquanto em purrava o carrinho lotado de com pras até o carro. Viu que não foi só por causa de Joshua que ela tinha perdoado o m arido. Que os dois ainda se am avam .
Subhash e Gauri dividiam um leito à noite, tinham um a criança em com um . Haviam com eçado a j ornada com o m arido e m ulher quase cinco anos atrás, m as ele ainda aguardava chegar a algum lugar com ela. A um lugar onde não questionasse m ais o resultado do que haviam feito.
Ela nunca m anifestava nenhum a infelicidade, não se queixava. Mas a m oça de ar despreocupado e sorridente da foto que Uday an enviara, ar que fora a prim eira im pressão que m arcara Subhash e que ele tam bém gostaria de despertar nela — essa parte sua ele nunca tinha visto.
E faltava m ais um a coisa, algo que se sentia ainda m ais incom odado em adm itir. Detestava pensar naquilo. Detestava lem brar a previsão terrível que lhe fizera a m ãe.
Mas de algum a m aneira sua m ãe antevira. Pois a ternura que Subhash sentia por Bela, im possível de conter ou reduzir, não era a m esm a por parte de Gauri.
Em bora cuidasse bem de Bela, lavasse, penteasse e alim entasse Bela, sem pre parecia distraída. Raram ente Subhash via Gauri sorrir quando olhava o rosto da m enina. Raram ente via Gauri lhe dar um beij o espontâneo. Pelo contrário, desde o com eço, era com o se tivesse invertido os papéis, com o se Bela fosse não filha sua, m as de um parente.
Na praia com Bela, ele via as fam ílias que iam a Rhode Island para reforçar a intim idade. Para m uitos, parecia ser um ritual sagrado.
Subhash e Gauri nunca tinham saído j untos, com Bela, nos feriados. Subhash nunca sugeriu, talvez porque soubesse que a ideia não agradaria a Gauri. No tem po livre, ele saía com Bela, indo de carro a um lugar e outro para passar o dia. Não conseguia im aginar os três explorando j untos um lugar novo ou dividindo o aluguel de um chalé com outra fam ília, com o faziam alguns colegas seus.
Subhash agora tinha esperança de que Gauri estivesse pronta para ter um filho com ele e dar a Bela um a com panhia. Um dia chegara a sugerir isso a ela, dizendo que não queria negar um irm ãozinho a Bela. Acreditava que, se fossem quatro em vez de três, isso corrigiria o desequilíbrio. Dim inuiria a distância.
Ela respondeu que pensaria nisso dali a um ou dois anos; que ainda não tinha nem trinta anos, que ainda havia tem po para ter outro filho.
E assim ele continuou na esperança, em bora todo m ês, no arm arinho de rem édios, sem pre houvesse um a nova cartela de anticoncepcionais.
Às vezes receava que seu único gesto de rebelião, casar-se com ela, j á fracassara. Tinha esperado m aior resistência dela na época, não agora. Às vezes se perguntava se ela se arrependia. Se a decisão tinha sido um erro, tom ada às pressas.
Ela é a m ulher de Uday an, nunca vai te am ar, tinha dito a m ãe, tentando dissuadi-lo. Na época, ele tom ou o partido dela, na certeza de que poderia ser diferente, que poderia fazê-la feliz. Estava decidido a provar que sua m ãe estava errada.
Para se casar com Gauri, tinha posto em risco suas relações com os pais, talvez para sem pre, não sabia. Mas agora era pai. Não conseguia m ais im aginar sua vida sem ter dado aquele passo.