As nove vidas de Rose Napolitano
Sete
20 DE DEZEMBRO DE 2012
ROSE, VIDA 3
“Addie, pega sua banqueta.”
Fico observando enquanto minha filha de quatro anos — determinada, séria — vai até o canto onde fica a banqueta que ela usa para me ajudar na cozinha, ao lado da estante lotada de livros e com uma pilha bagunçada de revistas ameaçando cair. Devagar, Addie arrasta até a ilha a banqueta que meu pai fez especialmente para ela — pintando a madeira de rosa, sua cor preferida, por mais que eu e Luke tivéssemos tentado convencê-la de que azul, verde e lilás eram cores tão bonitas quanto o fúcsia e os tons pastéis que sempre a atraíam. O cabelo de Addie brilha sob a luz — é castanho-escuro, como o meu, e tem um halo de fios arrepiados, como o de Luke. Resisto à vontade de acariciá-lo, porque sei que ela vai responder com um sonoro “Mamãe!”, em protesto. A vontade de tocá-la é muitas vezes incontrolável.
Um saco grande e pesado de farinha nos aguarda na bancada, assim como o jarro de água morna e os ovos em temperatura ambiente.
“Tá, mamãe”, diz ela. “Pronto.”
Addie coloca as mãozinhas gorduchas — cada dia menos gorduchas — sobre a ilha de madeira. É cedo; Luke ainda está dormindo, e Addie e eu estamos de pijama. A estampa do dela é de girafas cor-de-rosa, porque Addie adora girafas. Toda vez que vê uma na televisão, dá um gritinho e ri. Ela tem girafas por todo o quarto, uma das quais bem grande, cujo pescoço serve de cabideiro. Foi um presente da mãe de Luke, em março, quando fez quatro anos. Música natalina toca ao fundo. A expressão de Addie é de profunda concentração. Seus olhos castanhos estão focados, seus lábios vermelhos franzidos, sua respiração faz barulho ao sair pelo nariz.
Ela é uma criança séria.
Just hear those sleigh bells jing-a-ling…
“Você lembra o que fazemos primeiro, nhoquinha?” O apelido que minha mãe havia dado a Addie realmente pegou.
“A gente tem que… tem que fazer… o buraco.” Ela enunciava bem cada palavra, com a voz aguda e baixa.
“Isso, muito bem! E como é que se faz?”
Ela se estica sobre a bancada, o máximo que consegue, tentando pegar o saco de farinha. Antes que o derrube, eu o puxo para mais perto. Addie enfia a mão dentro dele e tira um punhado de farinha. Joga sobre a bancada e começa a girar, como me viu fazendo centenas de vezes. Enfio a mão no saco também, pego a farinha e espalho sobre a bancada, o que faz Addie me olhar na mesma hora: NÃO.
“Eu consigo fazer, mamãe.”
“Sei que você consegue. Está bem.” Levanto as mãos enfarinhadas e me afasto. Acho graça no jeito como Addie se esforça para preparar o espaço onde vamos fazer a massa do macarrão. Ela vai para a frente e para trás, para a frente e para trás, incrivelmente devagar, acrescentando farinha até formar uma montanha, com pico e tudo. Jack Frost nipping at your nose, Frank Sinatra canta, fornecendo a trilha sonora para o trabalho de Addie.
Nunca fui uma pessoa paciente, uma das coisas que achei que faria de mim uma péssima mãe. Mas é estranho, você descobre recursos dentro de si quando de repente há uma criança, e ela é sua. Quando uma pessoa se torna mãe ou pai, tudo relacionado a quem ela é, a sua personalidade, sua individualidade, seu corpo, parece ser sacudido e jamais voltar ao que era. Se qualquer outra pessoa demorasse todo esse tempo para pegar a farinha para fazer o macarrão, eu a teria interrompido e terminado o trabalho eu mesma. Mas, como se trata de Addie, eu apenas fico ali, com o avental escrito “Dra. Chef” que Luke me deu no Natal passado, observando minha filha fazer as menores e mais insignificantes coisas, como se tivesse toda a paciência do mundo.
“Acho que já temos farinha o bastante, nhoquinha. Bom trabalho! Agora deixa a mamãe fazer o buraco.”
Everybody knows a turkey and some mistletoe…
“Quero ajudar.”
“Você super pode ajudar.” Eu a levanto — ela está ficando tão pesada — e a inclino sobre o monte Everest de farinha. “Use as duas mãos, retas, Addie, retas, isso, assim, e pressione pra baixo, pra farinha começar a se espalhar. Isso, muito bem! Assim mesmo. Agora as laterais. Boa! Agora eu vou te colocar de volta na banqueta e vou fazer o resto.”
“Mas…”
“Nhoquinha, você precisa olhar pra mamãe com muita atenção, pra da próxima vez fazer essa parte sozinha, tá bom?” Referir-me a mim mesma na terceira pessoa, como “mamãe”, era outro item da lista de coisas que eu dizia que jamais iria fazer.
Addie dá um suspiro longo e pesado. Então faz que sim com a cabeça.
Começo a trabalhar, salvando a farinha dos tortuosos esforços de Addie. A música preferida dela começa a tocar. “Addie, canta comigo! Ohhh, way up North, where the air gets cold!”
“Mas e se a gente acordar o papai?”, ela me interrompe. Está sorrindo, porque gosta da ideia de fazer barulho de manhã, quando ainda tem gente dormindo.
“Ah, não se preocupa com o papai. Ele não vai acordar”, eu digo. “Ele não acordaria nem se uma bomba explodisse.”
Luke é um bom pai. De verdade.
Ou tenta ser. Quer ser.
Mas, estranhamente, ele, que estava tão desesperado, que queria tanto um filho, não é o homem que eu esperava que fosse agora que finalmente tem um. Eu o amo, ele é maravilhoso, está sempre de bom humor e trabalha duro, mas a verdade é que nunca está muito disponível.
Praticamente todas as manhãs desde que Addie nasceu, tenho que batalhar para tirá-lo da cama, para que me ajude com ela.
“Luke… Luke”, eu dizia, então inspirava profundamente, frustrada. “Luke!” Essa era eu, pouco depois, gritando no ouvido dele, usando as duas mãos para sacudi-lo, desejando ter uma daquelas cornetas que os torcedores usam nos jogos de futebol.
“Hum…” Esse era ele, quase sempre, incapaz de abrir os olhos, letárgico, totalmente alheio ao fato de haver um bebê na casa, um bebê que logo começaria a engatinhar e que agora se tornara uma aluna vibrante e falante da escolinha, uma criança que nunca irá embora, que precisa de cuidado e atenção, que sempre vai precisar.
Quando finalmente concordei em tentar engravidar, combinamos de dividir o trabalho. Luke prometeu que faria mais do que a sua cota para compensar o fato de que, independentemente do que fizéssemos, seria eu a carregar a criança. Ele jurou que ia compensar.
Mas ninguém, nada é capaz de te preparar para a realidade do primeiro ano. A mulher faz tudo. Afinal, é o corpo dela. E isso dá o tom de tudo que vai vir. Todos os meses de gravidez, o caos do parto, um borrão intenso e estridente, seguido pela realidade implacável de que se acabou de passar pelo maior trauma físico que uma mulher pode vivenciar, e praticamente no segundo seguinte você se vê responsável por cuidar de uma pessoinha indefesa, que quer se alimentar de você.
Eu insisti que não ia amamentar, de jeito nenhum. Luke e eu vivíamos brigando por causa disso. Ele me fornecia todos os argumentos, de todos os jornais e revistas que encontrava, explicando por que a amamentação era essencial, por que era quase um crime não amamentar. E eu só dizia: não, de jeito nenhum, nem pensar, a criança vai sobreviver. Nós dois havíamos sido criados à base de fórmula, e tínhamos ficado bem. Mas, quando vi Addie, mesmo depois de toda aquela loucura — uma cesariana depois de vinte horas de trabalho de parto —, senti o estranho e inesperado impulso de amamentar. Quem poderia imaginar?
Se aquele momento em que olhei no rostinho enrugado e perfeito de Addie e concordei em amamentar não tivesse existido, talvez eu tivesse dado um jeito de dividir as coisas meio a meio. Mas, como o momento existiu, isso não aconteceu. Enfim, Luke é um bom pai, mas não tão bom quanto achei que seria.
Logo depois que Addie nasceu, ele começou a fazer muitas viagens de trabalho. Quando comentei a respeito, ele riu e disse: “Não é verdade. Você está imaginando coisas, Rose. Deve ser a falta de sono”. Eu estava diante do fogão, de olho no brócolis e no alho na frigideira. Ele se aproximou e beijou meu pescoço. “Você sabe que eu te amo. Muito.”
“Também te amo”, falei, porque era verdade. Mas não se tratava apenas de falta de sono. Eu sabia que ele estava viajando mais do que antes.
Quando o confrontei a respeito novamente alguns meses depois, ele respondeu de maneira menos amorosa:
“Nem todo mundo é promovido toda vez que publica alguma coisa. Estou tentando sustentar essa família, tá?”
“Sei que você trabalha bastante”, respondi. “Mas preferia que ficasse em casa com a gente. Não é fácil lidar sozinha com Addie.”
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas pareceu mudar de ideia. “Você é tão boa com ela. Melhor do que eu.” Luke riu, mas foi uma risada triste.
“Luke”, protestei, a frustração diminuindo. “Você é ótimo com Addie. De verdade.” Quando está por perto, acrescentei mentalmente.
“Eu tento”, disse ele.
Não o bastante. “E não é uma competição. Você só precisa passar mais tempo com a gente. Precisa passar mais tempo comigo.” Não pude resistir a acrescentar aquilo. “Nós quase não temos passado tempo juntos.”
Ele não respondeu. Apenas falou: “Vou na confeitaria para comprar bagel. Quer alguma coisa?”.
Fiz que não com a cabeça.
Ele se afastou, pegou o casaco e saiu.
Fui para o quarto e fiquei olhando por um bom tempo para as duas fotografias na mesa de cabeceira de Luke — uma minha, rindo na neve, que está ali desde sempre, e a segunda, mais recente, de Addie comigo, rindo na neve. Um conjunto. Luke olha para elas todas as noites, antes de dormir. Diz que o deixam contente com a vida que tem, que o fazem lembrar das coisas boas. Quando olho para elas, tento me lembrar que tenho um marido que nos ama o melhor que pode.
Mais tarde na mesma noite, Luke pediu desculpas, disse que ia tentar ficar mais em casa. No dia seguinte, chegou extravasando animação, com um buquê de peônias, minhas flores preferidas. Ele me beijou e explicou que tinha pedido aos pais para cuidarem de Addie no fim de semana, para que pudesse me levar a um lugar especial, onde ficaríamos só os dois. Tinha se dado conta de que não passávamos um fim de semana fora de casa desde que Addie nascera, e precisávamos daquilo. De que seria bom para nós sair um pouco, voltar a ser Rose e Luke, e não Rose, Luke e Addie.
Sim, eu pensei. Sim.
A pequena pousada em que nos hospedamos ficava em frente ao mar, para o qual nosso quarto tinha vista. Estávamos tão perto da água que parecia que sentíamos as ondas o tempo todo. Ficamos no bar como dois adultos sem filhos, tomando vinho, conversando, rindo dos velhos tempos; o jantar foi maravilhoso, longo e suntuoso; depois fomos para a cama e fizemos amor com o tipo de liberdade que costumávamos ter antes do nascimento de Addie — sem nos preocupar em ser interrompidos, em não fazer barulho demais. Lembrei-me das coisas que amava no homem com quem me casei, coisas que se pode perder de vista ao se ter um filho. Acho que ele também se lembrou de coisas que amava em mim. Assim espero.
Os pais de Luke não nos ligaram nem uma vez.
“Aproveitem”, disse Nancy, a mãe de Luke, quando partimos.
Fiquei tão grata a ela que fiz algo que não fazia havia anos: a abracei. Nancy ofegou quando meus braços envolveram seu corpo pequeno, claramente surpresa. Depois retribuiu meu abraço, com vontade.
Nunca me recuperei direito do modo como os pais de Luke me trataram enquanto eu resistia a ter filhos. Agora nos damos relativamente bem, porque eles são avós de Addie, mas, tirando ela, meu relacionamento com os dois é no máximo um coquetel de camarão — frio e não tão bom quanto se esperava.
No entanto, naquele momento, a faísca de generosidade de meus sogros provocou uma onda de calor em mim, e não pude evitar abraçar também Joe, o pai de Luke.
Assim, nosso fim de semana começou com um sorriso no rosto de Luke. Era sempre uma questão complicada entre nós, minha raiva dos pais dele, minha “recusa a perdoar”, como ele dizia, sem notar que Nancy e Joe continuavam agindo de maneira estranha comigo.
E o fim de semana só melhorou a partir dali.
Quando as coisas ficam difíceis, tento me lembrar do tempo que passamos juntos naquela pousada à beira-mar; quando parece cada vez mais impossível tirar Luke da cama para levar Addie ao parque, como prometido, digo a mim mesma que só precisamos de um fim de semana para resolver tudo. Puf!
A campainha toca.
“Quem é, mamãe?”
Addie e eu estamos cobertas de farinha, com as mãos e os antebraços grudentos de massa. Ela tem um pouco na bochecha e no cabelo, também. Parece que rolou sobre a bancada. “Fica aqui”, eu digo. “Não mexe em nada.”
Acabamos de desfazer o buraco, um momento perigoso no processo de fazer o macarrão. Mariah Carey está cantando minha música de Natal preferida. Eu a canto enquanto lavo as mãos na pia — não é fácil tirar massa de macarrão. Mais tarde, quando for dormir, vou encontrar grumos nos antebraços, no pescoço e no pé.
A campainha toca de novo, e de novo. “Já vou, já vou!” Fecho a torneira e seco as mãos ainda sujas. Tenho pedaços de massa nas palmas e nos dedos, descascando como pele de zumbi.
“Podem ser presentes de Natal”, diz Addie, esperançosa. Ela está de pé na banqueta, rebolando ao som de Mariah. Luke e eu conseguimos convencê-la de que às vezes o Papai Noel manda seus ajudantes entregarem os presentes com alguma antecedência. Eles não parecem elfos porque estão disfarçados de entregadores.
Ao abrir a porta, vejo minha melhor amiga, Jill, professora de psicologia da universidade em que trabalho, do lado de fora, segurando uma grande sacola de compras. “Tentei te ligar, mas você não atendeu!” Ela olha para meu corpo enfarinhado, meu avental e diz: “Dra. Chef!”.
“Deixei no silencioso.”
Ela entra e imediatamente calça os chinelos que deixa no meu apartamento para quando vem visitar. “Aaah, Mariah Carey! Minha preferida! I just want you for my own, more than you could ever know!”
Eu a sigo, achando graça em seu canto desafinado, alto e exuberante. “Além do mais, não estou exatamente em condições de pegar o celular”, digo, mas Jill não está ouvindo.
Ela deixa a sacola na mesa da cozinha. “Oi, minha nhoquinha!”, diz, e dá um abraço apertado em Addie, apesar da sujeira, fazendo-a rir. Jill não tem filhos. Não quer ter, como eu. Como eu costumava não querer. “Sinto muito por interromper a sessão de culinária, mas tenho um negócio importante para falar com sua mãe.” Jill dá um beijo estalado na bochecha de Addie, depois faz um movimento de quadril ao som da música e vira para mim. “Cadê o Luke? Ainda dormindo?”
“Onde mais?” Fico olhando enquanto Jill tira coisas da sacola. Continua dançando. Uma caixa de donuts. Chocolate. Um saco engordurado de croissants da minha padaria preferida.
“O que é isso?”, pergunto. “Vai ter festa?” Em seguida, vem suco de laranja, seguido de champanhe. Sinto um tremor por dentro. “O que está acontecendo?”
“Você não entrou na internet hoje, né? Não viu seu e-mail?”
“Não. Fala.”
Jill está sorrindo. Ela abre o suco de laranja.
“Ai, meu Deus. Eu consegui? Consegui?”
Depois de uma pausa, Jill bate no tampo da mesa, como se fossem tambores rufando. “Sim, você conseguiu a bolsa de pesquisa! A lista saiu hoje de manhã!”
“Puta que pariu!” Estou gritando. Tapo a boca com uma das mãos quando vejo a cabecinha de Addie virando para mim. “Nossa. Isso é incrível! Puta merda!”
“Mamãe!”
“Desculpa, amor. Não vai acontecer de novo.”
Jill pega o champanhe e, com toda a experiência, abre a garrafa. O barulho faz Addie dar um grito agudo de surpresa. Pego três taças no armário. Provavelmente não é boa ideia dar uma a Addie, mas não consigo me conter, e ela só vai tomar suco. Ponho as taças uma ao lado da outra na ilha coberta de farinha, e Jill começa a preparar duas mimosas.
“É refrigerante?”, pergunta Addie, referindo-se ao champanhe. Está inclinada para a frente, entretida com a garrafa.
“É o refrigerante da mamãe”, diz Jill.
“Ah…” Addie parece decepcionada. A infância é cheia de decepções terríveis, uma série interminável de: não, você não pode experimentar, não pode dizer isso, não pode fazer isso. Addie está sempre reclamando. Por que a resposta é sempre não?, pergunta. Minha mãe gosta de me lembrar que eu costumava perguntar a mesma coisa. Aquilo também a deixava louca, ela diz, com um sorriso satisfeito no rosto.
Jill pega sua taça do outro lado da ilha. A massa de macarrão pela metade é uma grande pilha entre nós, em meio a uma explosão de farinha. “Saúde, Rose!”
Pego minha taça e ajudo Addie a pegar a dela. Ela tem um pouco de dificuldade, inclina a haste longa, derrama suco na bancada.
“Uhu!”
Addie ri enquanto brindamos.
Batemos as taças. Addie derrama um pouco mais de suco na ilha, dessa vez sobre a massa de macarrão, mas não me importo. Sinto a champanhe borbulhando da ponta dos dedos da mão aos dedos dos pés.
“Saúde, nhoquinha!” Cutuco Addie. “É você, filha.”
Ela sorri, e pedacinhos de massa caem de suas bochechas.
Rosno de brincadeira para ela, com a boca encostada na testa dela.
“Mamãe!”, ela protesta, e se afasta.
Se alguém me perguntasse cinco anos atrás o que aconteceria se eu tivesse um filho, eu teria dito que acabaria com minha carreira. De fato, no primeiro ano, achei que nunca mais me sentiria descansada. Estava sempre exausta.
Então, certa noite, alguns meses depois da longa alucinação que foi o primeiro ano de Addie, não consegui voltar a dormir depois de amamentar. Abri o laptop e comecei a escrever. O que saiu foi toda a minha ansiedade sobre me tornar mãe depois de ter resistido por tanto tempo. O “antes” me tornava uma mãe ruim? O “antes” importava, agora que eu tinha me firmado no depois? As pessoas me julgavam mais, me viam com suspeita? Preocupavam-se pela minha filha, porque a mãe dela podia não servir para aquilo? Porque eu podia não servir para aquilo? Havia outras mães relutantes no mundo, como eu, com preocupações similares? Ou eu estava sozinha?
Jill veio me ver certa noite, prometendo não reparar na mancha de vômito na minha malha. Trouxe vinho, uísque para depois do vinho e coisinhas para comer. Eu já tinha tirado o leite, como era de se esperar de uma boa mãe, para poder beber com ela. Sempre pedia vinho no jantar quando estava grávida — tomava apenas uma taça, olhando para as pessoas que me julgavam com um sorriso desafiador no rosto. Luke e eu também brigávamos por causa daquilo. Os pais dele ficavam loucos. Os chiliques de Joe e Nancy e os olhares feios dos outros só me deixavam com vontade de tomar uma segunda taça e virar uma dose de tequila depois.
Expliquei a Jill que vinha escrevendo um pouco, elaborando uma lista de perguntas ansiosas. Contei a ela que andava me perguntando se era a única que pensava daquele jeito — que, por não ter desejado ser mãe, era inevitável que eu seria péssima na criação de Addie.
Algo se acendeu nos olhos de Jill. “Bem, professora Napolitano, por que não tenta descobrir?”
“Como?”
“Acho que são perguntas muito boas para investigar, Rose.”
“Acha mesmo?”, perguntei, com os reflexos entorpecidos pela exaustão. Então, de repente, tive um vislumbre daquela velha sensação, aquela que sempre me fazia lembrar da razão por que decidira cursar o doutorado. Era uma sensação vaga, mas familiar. Excitante. “Ai, meu Deus. Posso fazer uma pesquisa baseada nessas perguntas. Posso pesquisar essas questões!”
Jill assentiu.
Ela estava certa.
Aquela noite parecia ter acontecido muito tempo atrás, e tinha mesmo. Levei um bom tempo para conseguir elaborar meu projeto, mais do que o normal. Mas elaborei. E agora, aqui estou eu, comemorando na cozinha, bebendo champanhe e comendo donuts e chocolate. Addie já comeu pelo menos quatro caramelos. Suas bochechas estão sujas de doce, além de massa de macarrão.
“Estou tão feliz”, digo para Jill, provavelmente pela décima vez. “Não consigo nem acreditar.”
Então Luke surge do quarto, esfregando os olhos e usando seu roupão azul. “No que você não consegue acreditar, Rose?”
“Bom dia, amor!”
“Oi, Luke”, diz Jill.
“Oi, papai!”
“Ih.” Luke pega Addie da banqueta e dá um abraço nela, depois se vira para mim. “Você nunca me chama de ‘amor’ de manhã. O que aconteceu?”
“Consegui a bolsa de pesquisa, Luke. Consegui!” Não consigo evitar dar gritinhos, e Jill se junta a mim. Pulamos as duas sem sair do lugar, e o resto de nossas mimosas gira nas taças, espirrando no chão.
“Nossa. Isso é incrível, Rose! Parabéns! Você conseguiu!”
Ainda estou olhando para Jill quando Luke diz isso, quando exclama com energia. Viro a cabeça para ele na hora. Avalio meu marido. Um pouco da animação e todo o ar dentro de mim são arrancados do meu corpo. Olho para Luke, vejo o sorriso em seu rosto, ouço-o dizendo todas as coisas que um marido orgulhoso deveria dizer. E, no entanto, sob as palavras certas, por trás do sorriso orgulhoso, percebo, pela sua expressão, que está mentindo. Ele não está feliz por mim. É bem o contrário. Eu sei. Uma esposa sempre sabe.