As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 3 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Dois

14 DE MARÇO DE 1998

ROSE, VIDAS 1-9

 

Não gosto de sair em fotos.

“Pode erguer os olhos?”

Meus olhos, minha cabeça, meu queixo, todos se recusam a atender.

Sou o tipo de pessoa que foge de câmeras, que se esconde atrás de quem quer que esteja perto. Que tampa a lente com a mão quando botam uma na minha cara. Mais um motivo para eu não estar aqui agora, sendo fotografada de beca e capelo. No que eu estava pensando?

“Hum, Rose?”

Ouço passos. Um par de tênis azul-marinho, desgastados no dedão e com cadarços velhos, aparece no chão à minha frente. Inspiro fundo e solto o ar, então ergo os olhos. O fotógrafo é jovem, talvez da minha idade, talvez um ou dois anos mais velho. Ele pisca, morde o lábio, franze as sobrancelhas.

“Desculpa”, eu digo, remexendo as mãos sobre as pernas, os dedos apertando e soltando. “Devo ser a pior fotografada da história.” Desvio o rosto, olhando para o lado, para a escuridão além do espaço bem iluminado onde estou sentada com um fundo cinza atrás de mim, montado especialmente para tirar retratos. Há uma pilha de caixas junto à parede, do tipo usado em mudanças. Em cima dela, uma jaqueta azul dobrada, além de um taco de hóquei largado no chão, ao longo do rodapé. “Foi uma ideia idiota”, continuo. “Só pensei… tipo, eu queria… mas depois…”

“Você queria…?”, o fotógrafo pergunta.

Não respondo, acho que porque não quero falar sobre o funcionamento interno do meu coração com um desconhecido. Além disso, ainda estou olhando para as tranqueiras espalhadas por toda parte. Esta deve ser a casa do fotógrafo. Ele falou em “estúdio”, mas parece que mora aqui. Talvez tenha acabado de se mudar.

“O que você queria?”, ele insiste.

Há algo no som da voz dele — gentil, paciente — que me deixa com vontade de chorar. A situação toda me deixa com vontade de chorar. “Eu não deveria estar aqui, não sou boa nisso.” Começo de fato a chorar. “É tão constrangedor. Não gosto de sair em fotos. Sinto muito, peço desculpas.” Choro ainda mais, mesmo que minha feminista interior me repreenda por pedir desculpas.

O fotógrafo — não consigo lembrar o nome dele (Larry? Não. Lou? Talvez.) — se agacha perto da minha cadeira, de modo que ficamos quase cara a cara. “Relaxa. Um monte de gente odeia sair em foto. Mas você está chorando por causa do retrato ou de outra coisa?”

Eu o avalio, reparo no modo como seu joelho direito pressiona o rasgo do jeans, a maneira como seu corpo oscila levemente por causa da posição agachada. Como ele sabe que não estou chorando por causa da foto? Ele também sentiu que na verdade se trata dos meus pais, que às vezes têm dificuldade de entender minhas escolhas? A mulher que me tornei como adulta?

Cruzo os braços, pressionando-os contra o corpo. A beca preta com acabamento em veludo é grossa e rígida. Aposto que se sustentaria sozinha se eu a apoiasse da maneira certa. Tiro o capelo da cabeça e sacudo o cabelo. Deve estar horrível, depois de aguentar o peso dessa coisa. O capelo é de veludo, da mesma cor que a beca. Fiquei tão animada quando chegou pelo correio, o símbolo de tantos anos de trabalho duro, do doutorado que estou prestes a concluir, em maio. Meu doutorado em sociologia, que vai me transformar de Rose na professora Napolitano. Dra. Napolitano.

“De quem é aquela foto ali?”, pergunto para o fotógrafo, em vez de responder à pergunta dele. Aponto para a foto, estendendo o braço para a direita.

Acima da pilha de caixas, há uma grande foto emoldurada, pendurada na parede. Parece deslocada, fixa e permanente, considerando o aspecto temporário de todo o resto. Duas pessoas, um homem e uma mulher, sentados lado a lado em uma varanda, cada um com um livro aberto na mão. E expressões tão vivas, tão envolvidas, que era como se as palavras diante de si fossem as mais empolgantes já escritas.

O fotógrafo se vira na direção que eu aponto e ri. “São meus pais. Tirei quando tinha dez anos. Ganhei minha primeira câmera de verdade no meu aniversário naquele ano. Tirava fotos de tudo à minha volta: das flores, da grama, dos veios do piso de madeira da sala. Muito artístico.”

Ele se volta de novo para mim, me olha e dá de ombros. Então revira os olhos para si mesmo.

Seus olhos são verdes, com manchas castanhas.

“Tirei umas fotos excelentes do cachorro também.”

Rio um pouco. Parte da tensão se alivia. “E então…?”

“Ah, claro.” Dessa vez, ele não se vira. Mantém os olhos em mim. “Bom, a foto. Eu estava chegando em casa. Tinha uma borboleta voando sobre a grama alta, e eu saí correndo atrás dela, tentando conseguir a foto perfeita.” Ele cobre os olhos com as mãos.

Sinto vontade de pegá-las, de tirá-las do rosto dele, de tocar sua pele morena e macia. Não quero que se sinta constrangido.

Ele deixa as mãos caírem ao lado dos joelhos. Balança um pouquinho. “Eu era muito nerd. Bom, lá estava eu, com o jeans todo sujo de grama, cansado, suado, e de repente olhei e vi meus pais lendo na varanda. E notei algo no rosto deles, que eu precisava capturar. Parei, ergui a câmera e tirei uma única foto.” Ele sorri.

“Aquela?”

Ele volta a se levantar. É muito alto. “É. Foi essa foto que me fez querer ser fotógrafo. Quando eu vi, simplesmente soube. Minha mãe mandou emoldurar, para eu sempre me lembrar de quem sou e do que quero fazer, mesmo quando as coisas ficarem difíceis. Não é fácil começar nessa área.” Ele deu tapinhas afetuosos na câmera que estava ao seu lado no chão, depois ergueu os ombros de novo.

Inclinei a cabeça enquanto o avaliava. “Obrigada por me contar essa história.”

Ele assentiu. “Obrigado por me perguntar sobre a fotografia.” Ele bateu o pé. “Agora é sua vez.”

“Minha vez?”

“É, de me contar o que está acontecendo. Eu já contei uma história, então agora você tem que me contar por que está aqui.”

“Hum…”

“Hum, e…?”

“Hum, tá. Tá bom.”

Ele atravessa a sala para pegar uma cadeira, que coloca perto da minha, então se senta e se inclina para a frente. “Tenho bastante tempo. Você é meu único compromisso do dia.”

Respiro fundo. “Antes de começar, tenho outra pergunta.”

“Claro. O que é?”

Minhas bochechas ficam vermelhas. Eu me levanto, abro a beca e volto a me sentar. Estou derretendo dentro dessa coisa. “É meio constrangedora.”

Ele arqueia as sobrancelhas.

“Esqueci seu nome. Como estamos contando da nossa vida um para o outro, acho que deveríamos nos tratar pelo nome. Sei que não é Larry. Será que é… Lou?”

Ele sorri de novo, ri de novo. Tem uma risada gostosa, baixinha, mas grave, como se gostasse de rir, como se risse com facilidade. “Bem, Rose Napolitano, meu único compromisso do dia, concordo que devemos nos chamar pelo nome, e, como já sei o seu, acho que você também deveria saber o meu.” Ele estende a mão, e eu a seguro.

Sinto um arrepio em toda a minha pele.

“Me chamo Luke.”