As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e cinco
14 DE JULHO DE 2007
ROSE, VIDA 6
“E se adotássemos?”
A pergunta paira no metrô depois que a faço. Luke e eu estamos voltando para casa, depois de ter ido a um bar ver uma banda tocar. É tarde e estamos cansados, mas é aquele cansaço gostoso que a gente sente depois que se diverte. Há poucas pessoas no nosso vagão.
Luke tem a cabeça descansando no meu ombro, mas agora a levanta e olha para mim. “Se adotássemos um bebê?”
Rio da surpresa dele e o cutuco. “É, um bebê.” Do que ele achou que eu estava falando, um gato? Um cachorro? Por outro lado, temos uma espécie de pacto de não falar sobre filhos, muito embora não estejamos usando proteção faz quase um ano. Pego a mão dele e entrelaço nossos dedos. “Já que parece que não está rolando.”
“Não, não está”, ele admite.
“Pode ser que eu não consiga engravidar. Ou talvez seja você.” A sensação de afinal dizer isso é boa, de falar sobre o que estamos fazendo sem admitir diretamente.
“Pode ser”, diz Luke.
“O que você acha de adoção, no geral?”
Ele olha para nossos dedos entrelaçados. A porta do vagão abre e fecha, o trem segue para a próxima estação. “Não sei. Nunca pensei muito a respeito, na verdade.” Ele olha para mim. “E você?”
“Já pensei um pouco.” A conversa com minha mãe na casa de praia na semana anterior ocupa minha mente desde então, assim como a opinião dela de que eu poderia ser uma boa mãe. De que eu seria uma boa mãe. “Acho que gosto da ideia, na verdade. Talvez seja um bom meio-termo, sabe?”
Luke não responde.
Decido insistir. Fecho os olhos por um momento, tento visualizar o cenário. “Talvez tirar a gravidez da equação, tirar essa coisa de tentar engravidar e não conseguir, também tire parte da pressão que tenho sentido.” O trem chega a outra estação. Estamos quase em casa. “Mas, se adotássemos, ainda criaríamos um filho juntos, sabe?”
Um grupo grande de adolescentes entra no vagão, conversando, rindo. Talvez estivessem numa festa, ou no parque perto da estação. Eles se sentam no banco à nossa frente, levantam o ânimo do vagão inteiro com sua energia.
“Você parece quase animada”, diz Luke.
“Não sei. Pode ser. Talvez esteja um pouco.” Uma das meninas se destaca do grupo, puxando outra para o outro lado do vagão. Elas começam a se beijar. “Você se animaria a adotar?”
“Talvez”, diz ele.
“Pode pensar a respeito?”
“Tá. Sim. Acho que sim. Mas acho que deveríamos continuar tentando.” Sinto o olhar dele me avaliando enquanto ficamos sentados ali, lado a lado, com o trem avançando.
Posso concordar com isso? Continuar com o que temos feito, só que a partir de agora de maneira declarada, intencionalmente? A voz da minha mãe vai e volta na minha cabeça, falando de como acha que vou adorar ser mãe, de sua fé em mim, de como tudo vai dar certo.
“Tá. Sim. Acho que sim”, digo, repetindo as palavras de Luke.
Ele parece satisfeito com isso. Aperta minha mão. Beija minha bochecha.
Pessoas casadas são muito diferentes de adolescentes. As duas meninas do outro lado do vagão estão abraçadas, com os corpos colados. Eu e Luke não nos beijamos mais no metrô. A conexão que sinto com ele a essa altura da vida é suave, fixa. Não é pior, só é diferente.
O trem para na nossa estação. Quando chegamos ao apartamento, vamos direto para a cama, de tão cansados que estamos. Não nos beijamos, não fazemos amor, só colocamos o pijama e apagamos a luz. É um alívio não ter que tentar engravidar esta noite. Antes de pegar no sono, penso que a adoção pode ser a resposta perfeita para nós.
Duas listras cor-de-rosa emergem no teste, lado a lado. Grávida.
Estou grávida.
É como se minha conversa com Luke sobre adoção ontem à noite tivesse conjurado um bebê. Ou a conversa com minha mãe na praia. Pego o telefone para ligar para meu marido, então paro. Vou contar pessoalmente. Ele vai ficar tão feliz.
E eu, estou feliz?
Adotar parecia uma ideia tão boa. Como Luke disse, a possibilidade me animava.
Com cuidado, limpo o teste e o deixo na pia do banheiro, sobre uma toalha de rosto.
Como vou dar a notícia a Luke? Vou tentar ser casual? Oi, Luke, como foi seu dia? O meu foi interessante. Descobri que estamos grávidos. Ou vou fazer uma revelação grandiosa? Tenho tempo para ir comprar uma caixinha, algo simples, discreto. De bom gosto. Talvez uma caixinha azul, ou rosa, ou… quem estou enganando? Amarelo ou verde, sem determinar gênero. Eu poderia colocar o teste dentro, fechar e amarrar um laço. Colocar no lugar de Luke à mesa e fazer com que abrisse, como se fosse um presente.
Seria nojento?
Mas é um presente, não é? Algo que só eu posso dar a meu marido, algo que só o corpo de uma mulher pode oferecer. Afasto o pensamento, porque não gosto de imaginar o bebê como uma moeda de troca. Penso em outras coisas, em contar a Luke, em como vou contar a ele.
Posso esperar até a hora de ir para a cama, talvez escrever um bilhete fofo e deixar no travesseiro dele. “O que é isso, Luke?”, eu perguntaria. “A fada dos dentes passou por aqui?” Não, seria tonto. E ridículo.
Uma sensação estranha cresce dentro de mim, enquanto as possibilidades disparam na minha mente. Parece uma bolha, uma efervescência no meu tórax, subindo pela minha garganta.
Felicidade.
Estou feliz. Acho.
Sacudo os braços e as pernas, os pulsos, estico os dedos. Saio do banheiro e vou para a sala.
Será que é verdade? Estou mesmo feliz com a gravidez? Será que é mesmo fácil assim, uma questão de se jogar, de braços abertos, de permitir que as mãos do destino me peguem, de um jeito ou de outro?
Paro antes de chegar à cozinha. Fico completamente imóvel.
E aguardo.
A animação vai evaporar agora que não estou me movendo? Se eu permitir que a realidade dessa gravidez penetre meu corpo até chegar a minhas extremidades, em um gotejamento lento, antibiótico? Fico um bom tempo parada, talvez vinte minutos, talvez mais. Respiro, pisco, me pergunto se a felicidade vai se desfazer, se os átomos vão se transformar em nada. Meus olhos disparam pela casa, vejo a mesa comprida de madeira rústica cheia de correspondência a um canto, a pilha de New Yorker para ler, um moletom que Luke largou no encosto do sofá.
Demora bastante, mas a felicidade se dissipa. Transforma-se em outra coisa. Em paz, imagino.
“Quem é você?”, pergunto em voz alta para o vazio.
Não, eu pergunto a ela, ao meu corpo, à minha barriga, à minha futura filha. Tenho certeza de que é menina, de que é ela, menor que um alfinete.
Como é estranho absorver tudo isso.
Pego a bolsa, calço os chinelos e logo já estou correndo até a farmácia. Compro seis testes diferentes. As palavras “sim” e “não” escritas na janelinha do teste, sinais de mais e menos, linhas horizontais sozinhas ou acompanhadas. Quero ter certeza de que estou certa. Não quero dar falsas esperanças a Luke.
Ou não quero dar falsas esperanças a mim mesma?
No caminho de volta para o apartamento, ligo para Jill. Ela atende na mesma hora.
“Oi! E aí?”
Respiro fundo. “Você não vai acreditar”, digo, então paro. Jill não sabe que Luke e eu não estamos usando proteção. Meus amigos se cansaram da obsessão dele por um bebê, com o fato de que me tornar ou não mãe se tornou o que define nosso casamento. Jill inclusive já me disse para deixar Luke por causa disso. Ela não é grande fã do meu marido. Não mais.
“No quê?”, Jill pergunta.
Preciso dizer isso em voz alta para alguém que não seja Luke. Preciso treinar as palavras. “Então… eu… estou grávida. Estou grávida.”
Pronto. Aí está.
Jill fica em silêncio.
“Fala alguma coisa.”
“Ah, Rose. Bom. Você está bem?”, ela pergunta, mas volta a falar antes que eu consiga responder. “Quer abortar? Quer que eu vá com você? Você sabe que pode contar comigo. Chego rapidinho.”
“Abortar?”
Seguro o telefone entre o ombro e a orelha enquanto abro a porta do apartamento e volto a entrar. Aborto ainda é uma opção, não é? Nem pensei nisso até Jill mencionar. Mas é verdade, eu poderia sair e fazer um aborto antes que Luke chegasse do trabalho. Eu poderia sair e fazer um aborto como se fosse a uma consulta oftalmológica. Sem problemas. Luke nunca precisaria saber.
Ouço o barulho das chaves de Jill do outro lado da linha. “Estou indo.”
“Não, não precisa. Estou bem.”
“Tem certeza, Rose? Por que não conversamos sobre o que você quer fazer?”
“Já estamos conversando.”
“Você sabe o que quero dizer”, ela contesta.
“Não vou fazer um aborto”, digo.
“Sério?” A dúvida em sua voz é uma âncora, que arrasta a minha felicidade.
Tento não deixar que sua reação me derrube. Na verdade, não deveria estar surpresa. Deveria esperar isso de Jill, de todo mundo que me conhece. “Sério. Vou ter o bebê.”
“Rose, você parece estar tentando convencer a si mesma.”
“E se for isso, será que é tão terrível assim?”
“Acho que você não está pensando direito”, diz.
Puxo uma cadeira da mesa da cozinha e me sento, para me estabilizar, para não hesitar. “Acho que posso estar realmente feliz com isso, Jill. Sei que você só está tentando ser uma boa amiga, mas estou falando sério. Por favor, tenha fé em mim.”
Silêncio de novo.
As últimas palavras que eu disse, o modo como as disse, fazem quase parecer um erro. “Tenha fé em mim”, em vez de “acredite em mim”. O que eu quero de Jill, o que preciso receber dela? Que ela acredite que no fim das contas vou ser uma boa mãe, o mesmo tipo de fé que minha mãe demonstrou ter em mim?
Pressiono o telefone com mais força contra a orelha.
Jill volta a falar, finalmente. “Tá… Quem sequestrou minha melhor amiga e a substituiu por uma mulher que quer ter um filho?”
“Ainda sou eu mesma”, digo a ela.
Mas sou mesmo?
Há uma tranquilidade inesperada no que digo, no meu compromisso, uma adequação repentina ao papel que as mulheres vêm desempenhando por toda a sua existência. Não tento evitar. Deixo que seja assim. Tento me acostumar.
Olho para o vestido que estou usando, florido, fino, esvoaçante, o tipo de vestido que adoro colocar quando está quente e quero me sentir leve. Meus pés descalços estão bronzeados do sol do verão, assim como meus braços. Já estou animada para voltar a dar aula no fim de agosto, para o seminário especial que planejei com base na nova pesquisa que vou iniciar. Fiquei tão feliz na primavera, quando recebi a bolsa.
Ter um bebê vai mudar essas coisas? Vai me mudar?
Talvez? Provavelmente?
Percebo que não me importo.
Pelo menos não o bastante para que minha decisão de ter o bebê mude.
Minhas aulas vão estar me esperando depois que eu a tiver. Meu corpo vai voltar a seu tamanho normal (espero, acho) e um dia vou voltar a caber nesse vestido (certo?). A animação com a pesquisa não vai passar, ainda que a pesquisa em si precise ser adiada.
“Estou indo aí”, diz Jill.
“Já falei que estou bem.”
“Rose.” Ela diz meu nome com seriedade, sinceridade. “Estou indo porque preciso ver seu rosto. Eu… fui pega de surpresa. E estou preocupada. Só quero garantir que você tem cem por cento de certeza. Não consigo evitar”, acrescenta.
“Eu entendo”, digo. “Tá. Pode vir.”
Escolho uma caixinha verde para Luke.
Quando ele chega em casa, Jill já foi embora, não totalmente convencida de que estou sendo sincera comigo mesma em relação à gravidez, mas decido que tudo bem e torço para que ela mude de ideia. Estou de pé ao lado da mesa da cozinha, esperando por Luke. Ele entra. Mal deixou a bolsa na cadeira e já estou empurrando a caixa para ele.
“O que é isso?”, ele pergunta, estranhando.
Sinto algo por dentro. Como descrever? É uma sensação de incerteza, de que, de alguma forma, independentemente de qualquer coisa, vai ficar tudo bem. Eu estou bem, Luke está bem, o bebê está bem. “Abre”, digo a ele, sorrindo. “Abre agora. Vai mudar a sua vida. E a minha também. A nossa.”