As nove vidas de Rose Napolitano
Oito
19 DE SETEMBRO DE 2008
ROSE, VIDA 2
Luke está tendo um caso.
Tenho certeza.
É uma punição, não é?
É o que eu recebo por não querer filhos. Por privar meu marido e os pais dele de um filho e de um neto. De fincar o pé, de não me dispor a mudar de ideia. Eu tinha um marido amoroso, uma vida feliz. Agora, por causa das minhas escolhas, meu marido amoroso está apaixonado por outra.
E como eu sei disso?
Bem.
A pergunta certa é: como eu não saberia?
Como qualquer esposa não saberia, quando está acontecendo com ela?
Não que Luke esteja recebendo ligações suspeitas ou algo do tipo. É mais um pressentimento que tenho quando estou com ele. O comportamento recente dele. Não, o modo como olha para mim. Ou melhor, o modo como não olha para mim.
A distância. Há uma distância entre nós, desde aquela briga idiota por causa das vitaminas, que terminou com ele prometendo parar de me pressionar. As coisas melhoraram por um minuto, e então…
Ele está sempre distraído, mas não fazendo algo no apartamento, ou trabalhando, ou vendo e-mails. Luke se perde em pensamentos, onde não posso alcançá-lo. E, quando tento, ele retorna de onde quer que estivesse de um jeito meio exagerado. Há uma alegria forçada, um afeto repentino da parte dele. Um excesso de afeto.
Ele diz coisas bem intensas, como: “Rose, você é a única mulher que eu já amei. Você sabe disso, né?”. Isso depois que eu pergunto algo tão inócuo quanto “Luke, você viu minha camiseta preferida por aí?”, ou “Luke, o que acha de risoto de funghi para o jantar?”.
Culpado. Ele se sente culpado.
É como se um odor permeasse nosso apartamento. Um perfume desagradável, envolvendo o corpo de Luke, seguindo-o, como se ele fosse o Chiqueirinho, o amigo do Charlie Brown. Todos esses indícios amorfos e, bom…
A foto.
Não aquele tipo de foto.
Um tipo diferente. Muito pior. Mais revelador.
Vi de passagem no celular dele. Luke queria me mostrar uma foto que havia tirado de um gato gordo estirado que o fez rir. Ele estava sempre tirando fotos de gatos, o que nos levava sempre a discutir sobre termos ou não um — um prêmio de consolação pelo filho que nunca viria. Eu queria um gato e estava pressionando para que pegássemos um. Eu às vezes brincava, e Luke também, dizendo que um gato certamente preencheria o buraco em nosso casamento sem filhos. Mas isso nunca funcionava, nunca parecia desarmar a granada que era jogada de um lado para o outro em nossas vidas, ameaçando explodir.
Luke passava pelas muitas fotos em seu celular.
E eu olhava por cima de seu ombro.
Ele já estava rindo, garantindo que eu ia morrer de rir também, quando visse o gato.
Meu dedo disparou na direção da tela do celular, tentando segurar uma imagem, parar ali, para poder ver melhor. “Quem é essa?”
“Quem?”
“Essa mulher. Na foto que acabou de passar.”
“Mulher?” Luke tentou passar as fotos, mas meu dedo estava travando a tela. Ele inclinou a cabeça para mim, com as sobrancelhas erguidas. “Não vou conseguir achar se você não deixar.”
“Ah.” Tirei o dedo. A julgar pelo seu tom de voz, Luke estava irritado. “Desculpa”, falei, mas mantive os olhos na tela. Eu não queria deixar a foto passar, não queria que Luke fingisse que não havia nada ali. As fotos passaram depressa demais para que eu as visse claramente. “Mais devagar! Acho que já passou.”
Luke voltou as fotos, daquela vez em ritmo de tartaruga. Eu pensei: Vamos começar a brigar. Eu não queria que isso virasse uma briga. A princípio, foram fotos do trabalho que vi na tela. Uma coletiva de imprensa com o prefeito, fotos de noivado no fim de semana anterior, então uma série de imagens aleatórias. Luke estava sempre tirando fotos na rua, em lojas, sempre que via algo interessante.
Meu dedo disparou de novo. “Essa.”
“Ah, Cheryl?” Luke falou o nome dela com indiferença, como se eu a conhecesse, talvez para transmitir a ideia de que era normal ter uma foto dela no celular. Mas, assim que ele revelou que sabia o nome da mulher, que o nome Cheryl podia sair de sua boca tão facilmente quanto Rose, percebi que tinha se arrependido. “Acho que era esse o nome dela”, acrescentou.
“Que era esse o nome dela? Ela morreu?”
Ele me encarava. “Não, Rose. Mas por que eu saberia, por que me importaria? É uma mulher qualquer.” Luke bateu o dedo na miniatura, e a imagem preencheu a tela. Ele inclinou o aparelho para que eu pudesse ver melhor, como se não tivesse problema algum em me mostrar, como se aquela foto fosse tão inocente quanto todas as outras.
Um buraco se abriu no meu estômago enquanto eu avaliava o rosto da mulher, sua expressão, a postura do corpo. Não foi só a beleza dela que abriu uma caverna dentro de mim, seu cabelo ruivo, comprido e ondulado, sua pele translúcida, marcada pelas sardas que todas as ruivas têm. Era o fato de que ela estava rindo, o modo como ela estava rindo, com a cabeça jogada para trás, o cabelo cascateando além dos ombros, os olhos semicerrados, os lábios vermelhos abertos em um O redondinho, alegre e totalmente à vontade.
Era como a foto preferida que ele tinha de mim.
“Quem é ela?”, perguntei, já me afastando e entrando na cozinha enquanto falava. Eu fazia o meu melhor para parecer despreocupada, abrindo a torneira, passando uma água na louça, começando a encher a máquina. “Acho que você nunca a mencionou antes. Cheryl.” Agora que eu tinha ouvido o nome, queria dizer o tempo todo.
“Eu já falei, é só uma pessoa que vi no parque.” Luke foi até a prateleira onde ficavam as bebidas, pegou uma garrafa de uísque e um copo. Abriu a garrafa e se serviu uma dose. Ele nunca bebia uísque, mas de repente ia beber. “Pensei em usar a foto no site, para ajudar a conseguir mais trabalhos como retratista. Só sei o nome dela porque assinou um termo de liberação de uso de imagem. Não acha que é uma boa foto?”
Eu arrumava e rearrumava os pratos, tigelas e canecas, tentando fazer com que encaixassem melhor na lava-louça. “É uma foto ótima.”
“É, eu também achei”, disse Luke, como se eu tivesse sido a primeira a notar aquilo, e ele estivesse apenas concordando. Então veio na minha direção, com o copo de uísque na mão, quase transbordando. Deu um golinho. “Deixa que eu faço isso.”
Dei um passo para o lado, e ele me entregou o copo. Em seguida, se debruçou sobre a lava-louça, mudou uma tigela de posição, colocou outra onde havia mais espaço, acrescentou sabão e fechou a porta. Ligou a máquina, olhou para mim, estendeu a mão para pegar o uísque e riu.
O copo estava vazio.
Enquanto ele mexia na louça, eu tinha virado.
Olho para o relógio. Luke deve estar no estúdio a essa hora, no intervalo do almoço.
Pego o celular e ligo para ele.
O telefone toca até cair na caixa de mensagens. Outro sinal de que está tendo um caso. Ele costumava atender sempre que eu ligava. Eu preferiria nunca ter visto a porra da foto. Agora, tudo que ele faz parece um sinal de que está me traindo.
“Oi, Luke”, começo a dizer. “Liguei só para dar um oi e porque estou com saudade. Eu estava pensando: quer jantar algo especial hoje à noite? Me liga de volta ou manda uma mensagem dizendo o que quer comer. Sei que está ocupado. Te amo muito!” O tom meloso da minha voz me dá dor de barriga e de cabeça. É açúcar demais em uma única dose.
É por isso que as pessoas piram e contratam investigadores particulares.
Ligo para Jill em seguida.
Ela atende no primeiro toque. “Oi! E aí?”
Pelo menos alguém no mundo ainda quer falar comigo. “Será que você podia vir aqui?”
“Na sua sala ou no apartamento? Achei que fosse trabalhar de casa hoje.”
“Estou. Bem, estava. Mas não estou. Não muito. Não consigo me concentrar. Preciso de você. Por favor.” Me sinto patética dizendo essas coisas, e odeio isso.
Um longo silêncio se faz. “O que aconteceu, Rose?”, pergunta Jill por fim, a voz baixando, meu nome saindo grave e arrastado.
Respiro fundo. Ainda não externei minha preocupação em voz alta, porque isso vai fazer com que seja verdade. Mas digo agora. “Luke está tendo um caso.”
Dessa vez, Jill não me faz esperar. “Já estou chegando”, diz, e desliga o telefone.
Quando abro a porta, Jill me puxa em um abraço.
“Vamos tomar um chá”, diz, ao entrar no apartamento. Vai direto para o armário da cozinha onde guardamos as canecas e põe duas sobre a ilha, depois pega dois saquinhos de chá de camomila e põe um em cada. Levo a chaleira ao fogo, para me ocupar.
Enquanto esperamos a água ferver, Jill diz: “Chá ajuda a acalmar os nervos”.
“Eu não disse que estava nervosa.”
Jill me olha de um jeito que indica que não acredita em mim.
“Tá. Estou apreensiva, ou não teria ligado.”
“Por que acha que Luke está tendo um caso? Encontrou alguma coisa? Um recibo de hotel? Uma mensagem?”
“Não exatamente.”
Jill cruza os braços. Está usando uma blusa azul-marinho que combina com seus olhos. “O que foi, então?”
“Bom.” Tento decidir como descrever o que estou sentindo. “Luke tem agido… diferente. Anda distante. Não sempre, mas às vezes.”
“Maridos ficam distantes. Esposas ficam distantes. Maria fica distante o tempo todo.” Maria é a companheira de Jill. “Isso não significa que estão tendo um caso.”
“Eu sei. Mas…” Faço uma pausa, respiro. “Ele fica distante, e logo em seguida o oposto de distante. Fica carinhoso demais, como se estivesse tentando compensar alguma coisa. Como se estivesse se sentindo culpado. E encontrei uma foto.”
Jill arqueia as sobrancelhas. “Ih.” Ela tira os sapatos, vai até a parede calçar os chinelos e depois volta para a ilha. “Me conta mais sobre essa foto.”
“Sabe aquela foto minha que Luke tirou, em que estou rindo na neve?”
Ela faz que sim.
“Bom, ele estava passando pelas fotos do celular outro dia e percebi que tinha tirado uma foto quase igual, de uma mulher que eu nunca vi. Ele disse que o nome dela é Cheryl.”
“Cheryl! Então não é uma pessoa qualquer.”
“Ele disse que era. Mas acho que falou o nome no automático, sem pensar. Depois tentou dar uma disfarçada.”
A chaleira começa a apitar. Jill enche as duas canecas e me entrega a minha. O saquinho de chá flutua, e eu o empurro para baixo com a colher.
Jill pega a própria caneca com ambas as mãos. O vapor sobe e envolve seu rosto. “Talvez você esteja interpretando mal. Talvez ele tenha tirado a foto porque o fez lembrar de você, e estivesse melancólico. Talvez tenha sido só saudade.”
Faço que não com a cabeça. “Tem outra coisa que me faz achar que ela é importante.” Suspiro. “Você vai me achar maluca.”
“Pode falar.”
“Luke sempre deixou o porta-retrato com a minha foto virado para ele, para poder me ver antes de ir para a cama e ao acordar de manhã.”
Agora Jill tem um ar zombeteiro. “É um sinal de que ele te ama, Rose, não o contrário. E de que ele é um romântico patético.”
Continuo falando. “Outro dia, notei que a foto estava virada para o outro lado, e desvirei. Na manhã seguinte, ela estava virada para o outro lado de novo. Luke deve ter feito isso de propósito. Não queria olhar para a minha foto antes de ir dormir aquela noite. Mexeu nela para não ter que me encarar!”
“Você não pode ter certeza disso. Talvez ele tenha batido nela sem querer e seja só coincidência. Talvez ele esteja entrando na cama de outro jeito.”
“Você está forçando a barra”, retruquei, ainda que quisesse acreditar nela. “É mais provável que ele esteja se sentindo culpado por ter um caso com uma mulher chamada Cheryl.”
Jill puxa o saquinho de chá da caneca, o aperta com a colher e o coloca em um pratinho. “Provas”, diz em seguida. “Se ele estiver mesmo tendo um caso, e eu disse ‘se’, vamos acabar encontrando provas.”
“Vamos?”
“Ah, sim. Vamos começar a investigar agora mesmo. Quando Luke chega?”
“Depois das sete.”
“Perfeito. Vamos ter bastante tempo.” Com a caneca na mão, ela segue para o escritório, onde Luke e eu temos uma escrivaninha cada um.
Respiro fundo e vou atrás dela.
Jill já está revirando as gavetas de Luke. “Onde você acha que ele guardaria algo que não quer que você encontre? Ou que queira manter por perto?”
Por um momento, fico presa em uma espécie de vertigem, como se, com qualquer movimento — para trás, para a frente ou para o lado —, fosse despencar de um penhasco. Vou mesmo fazer isso? Mexer nas coisas do meu marido? Procurar provas de que está tendo um caso?
Sim, decido. Porque talvez encontremos algo definitivo, e aí vou saber que não estou louca. Ou talvez consigamos provar que é tudo coisa da minha cabeça, e aí vou poder deixar para lá.
Pego um livro da mesa de Luke. Folheio. Ponho de volta no lugar. “Não tenho certeza. Acho que vamos ter que olhar tudo.”
Vasculhando as coisas de Luke, pilhas de correspondências, recibos para o imposto de renda, de repente me sinto como uma daquelas mulheres que vão a programas da tarde de TV e revelam todas as coisas desesperadas que fizeram quando suspeitaram que o marido estava tendo um caso. Ao mesmo tempo, baixar a guarda e ceder aos meus piores impulsos é libertador. Começo a rir.
“Por que está rindo?”, pergunta Jill, abrindo uma gaveta e dando uma olhada.
“Por minha causa. Por causa de nós duas. Por causa de tudo isso.” Pego uma pilha de papéis de uma prateleira e dou uma olhada. “Tipo, qual é a diferença entre fazer isso e contratar um detetive particular? Quase nenhuma, né? Só falta a teleobjetiva e a câmera. É meio engraçado”, digo.
“Bom, só vai ser engraçado até acharmos alguma coisa”, Jill responde, e eu paro de rir.
Eu me lembro do momento em que descobri que estava apaixonada por Luke, irremediável e desesperadamente apaixonada; de como parecia que meu coração havia sido sequestrado.
Foi dez anos atrás. Eu estava em um retiro para escrever com minhas amigas da pós, Raya e Denise, que tinham me arrastado com elas para que extraíssemos artigos de nossas teses a fim de nos posicionarmos melhor no mercado de trabalho.
Na verdade, minhas amigas tinham me arrastado para longe de Luke.
Fazia apenas três meses que Luke e eu estávamos saindo, mas, desde nosso segundo jantar, éramos inseparáveis. Íamos andar de bicicleta juntos, íamos caminhar no parque juntos, íamos ao mercado juntos. De alguma forma, isso intensificava tudo, inclusive coisas mundanas como comprar leite e cereal. Tudo que fazíamos parecia significativo, como se estivéssemos tendo um vislumbre do futuro que compartilharíamos, das infinitas tardes de vida doméstica que acabariam se tornando normais, como se as tivéssemos tido desde sempre.
Denise, Raya e eu tínhamos passado a tarde toda tentando trabalhar, sentadas na varanda da casa que havíamos alugado, quando de repente me levantei do sofá, fui até a poltrona onde Denise estava lendo e anunciei: “Não consigo me concentrar em nada!”.
Lembro como Denise ergueu o olhar do livro e sorriu para mim. “Você não consegue se concentrar porque não consegue parar de pensar no Luke”, disse.
“Não é verdade!”, reclamei, mas sorria, porque ela estava certa.
Luke sempre estava lá, em algum lugar da minha mente. Eu o imaginava parado em meio às minhas vias neurais, dando tchauzinho sem parar. Havia momentos em que aquilo me assustava, como se eu pudesse me perder completamente se não tomasse cuidado. Mas, na maior parte do tempo, eu tentava me permitir desfrutar do sentimento, ser levada pela corrente, com a segurança de que, lá no fundo, sempre seria eu mesma.
Naquele exato momento, o telefone tocou dentro da casa, e eu corri para atender. Ouvi Denise e Raya rindo na varanda. Todas sabíamos que era Luke. “Alô?”, atendi, sem fôlego. Era um telefone velho, com fio.
“Oi”, disse Luke.
“É tão bom ouvir sua voz”, falei.
“Estou com saudade”, disse ele.
Senti certa vertigem. “Eu também.”
“Escrevendo muito?”
“Mais ou menos. Bom. Estou meio distraída.”
“Ah, é? Por quê?”, Luke perguntou, mas dava para perceber o sorriso em sua voz.
“Você sabe.”
“Eu sei.”
Ambos sabíamos. Ele não tinha que dizer nada para que eu soubesse também.
“O que anda fazendo?”, perguntei.
“Tentando conseguir trabalho. O de sempre.”
“Vai ficar mais fácil.”
“Vai?”
“Você não pode desistir”, falei. “Um dia, vamos nos lembrar dessa época e rir, porque eu vou estar empregada e você ter mais trabalhos do que consegue dar conta, e não só casamentos, mas trabalhos de que realmente gosta.
“Isso parece bom”, disse ele. “Principalmente porque você disse ‘vamos nos lembrar dessa época’. Falando assim, parece que você acha que vamos ter uma longa vida juntos.”
Atravessei a sala para ficar perto da janela, estendendo o fio do telefone ao máximo. “Eu acho mesmo”, falei. “Você não?”
“Eu também.”
No silêncio que se seguiu, nosso tempo juntos começou a passar pela minha cabeça: como Luke se sentava à mesa da cozinha do minúsculo studio que eu alugava, repassando fotos no computador, enquanto eu trabalhava em artigos que queria publicar; como, às vezes, sem motivo, parávamos o que estávamos fazendo e transávamos com urgência e paixão, como se aquela pudesse ser a última vez, como se um de nós pudesse morrer à noite ou ser assassinado na rua, de modo que precisávamos aproveitar ao máximo; como eu ao mesmo tempo amava e odiava aqueles sentimentos. Como poderia sobreviver sem aquele homem, se o perdesse? Como a sensação de que minha vida não estaria completa sem ele tinha vindo tão rápido? Na maior parte do tempo, eu só amava. Amava Luke.
Eu o amava.
“Ei”, disse Luke. “Cadê você, Rose?”
“Estou aqui. Só estava pensando.”
“Espero que coisas boas.”
Eu sorri. “Sim, coisas boas.”
“Coisas que pode me contar?”
“Coisas que prefiro contar pessoalmente.” Coisas como: eu te amo, Luke.
“Tá.” Ele pareceu decepcionado.
“Logo, logo eu volto.”
“Não tão logo quanto eu gostaria.”
“Você pode viver sem mim por mais alguns dias.”
“Não sei. Posso?”
Nós rimos. Olhei para a varanda para ter certeza de que Raya e Denise não estavam ouvindo. Elas haviam tirado sarro de mim o dia todo por causa de uma conversa melosa com Luke na noite anterior, antes de ir para a cama. “Preciso ir. Tenho que escrever artigos, sair para correr com Denise e Raya, enfim, um monte de coisas.”
Eu me lembro de como Luke ficou quieto. De como ambos ficamos quietos.
Eu te amo, era o que eu não estava dizendo.
Eu também te amo, era o que eu tinha quase certeza de que Luke não estava me dizendo.
Mas isso estava no ar, para nós dois. Eu podia sentir que essas palavras haviam se instalado nas câmaras mais profundas de nosso coração.
Meu amor por Luke continuava aninhado no meu coração. Mas e quanto ao amor dele por mim? Será que alguém o havia desalojado daquele espaço privilegiado em seu corpo, fazendo-o rolar para tão longe que ele nem conseguia mais vê-lo ou senti-lo?
Jill e eu não encontramos nada.
Quero deixar minhas suspeitas para lá, mas não consigo. Sei que ele está me traindo. Sinto isso em cada molécula, assim como sempre soube que a maternidade não é para mim. Como se fosse uma verdade básica.
Ou talvez o problema seja eu. Talvez eu ainda não acredite que Luke tenha realmente deixado de lado o desejo de ter um filho. É que parece inverossímil, depois de uma briga estúpida por causa de vitaminas, o jeito como ele passou de desesperado para ter um bebê para “Desculpa por ter te torturado e quase destruído o nosso relacionamento, Rose, mas vou parar agora”. Aquilo quase me fez perder o chão, e eu não confiava mais nas bases do nosso casamento, cheias de fendas, ribanceiras e terra por ruir.
Será que Luke e eu só adiamos as coisas?
Ou encontramos uma maneira de resolver a questão de vez?
Algo dentro de mim diz que não, não resolvemos nada.
É tudo em que consigo pensar desde que Jill foi embora, dizendo a caminho da porta: “Rose, não há nenhuma prova! Nada! Pare de se preocupar!”.
Mas Cheryl é real. Talvez não haja provas em nosso apartamento, mas tenho a sensação de que ela está aqui de qualquer maneira, passando por nós, como um fantasma no ar. Ela deve ser do tipo que quer um filho. Deve ser obcecada pela ideia, e foi isso que atraiu Luke. Argh.
Pego o celular e passo pela lista de contatos até achar o que procuro.
Thomas.
Aqui está. Sem sobrenome. Só de ver, meu coração já pula.
Meu dedo paira acima da tela, depois a toca.
Começo a digitar.
Sei que faz um tempo, mas ainda quer beber alguma coisa?
O cursor pisca depois do ponto de interrogação, esperando que eu escreva mais ou envie a mensagem. Faço isso? Ouso ir por esse caminho, dar esse próximo passo?
Sim, sim, Rose. Faça isso.
Thomas e eu nos conhecemos em uma conferência. Estávamos em um coquetel, e ele conversava com Devonne e outras pessoas do meu departamento. Vinho era servido em taças grandes, acompanhado de enroladinhos de salsicha, queijo e torradas. Formamos uma rodinha e ficamos bebendo e comendo, conversando sobre nossas pesquisas. Eu era a única mulher, o que não é incomum, porque o número de homens na sociologia é muito superior.
Falei com Thomas a noite toda. Ele me pareceu divertido, inteligente, interessante, atraente. Tentei não pensar muito nessa última parte, mas foi difícil, já que estávamos de frente um para o outro, e ele tinha um rosto muito bonito. Thomas também era uma distração, e eu precisava de uma. Não havia dormido na noite anterior, porque tudo em que conseguia pensar era em como Luke provavelmente estava fazendo sexo em nossa casa com a mulher da foto. Em Cheryl na nossa cama, os dois muito felizes com a minha ausência, fazendo bebês em nossos lindos lençóis brancos.
Por algum motivo, achei que Thomas fosse de Chicago, que provavelmente nunca o veria de novo, então não importava que nossa conversa durasse horas, enquanto todos os outros seguiam seus caminhos, indo a outros coquetéis e nos deixando a sós.
“Foi divertido”, disse ele, quando enfim decidimos nos despedir. Suas palavras foram casuais, mas não o seu tom.
“Foi mesmo”, respondi, incapaz de reprimir o sutil reconhecimento do clima que havia entre nós.
“Devíamos nos encontrar de novo”, disse ele.
Sorri. “No ano que vem?”
Ele riu. “Não. Bom, sim, mas eu estava pensando que podíamos ir a um bar, quando voltarmos para casa.”
“Você não mora em Chicago?”
“Não, dou aula em Manhattan.”
Meu estômago se revirou. Eu não tinha contado a Thomas que era casada. A necessidade de revelar esse fato importante, de mencionar o nome de Luke na conversa, me incomodara a noite toda, mas mesmo assim eu segurara a informação. Talvez ele tivesse notado minha aliança, talvez não. Talvez para ele não importasse se eu era casada. De repente, me vi diante de um precipício, com uma queda infinita a centímetros dos pés, enquanto ele continuava ali, esperando que eu dissesse sim. Sim, Thomas, seria ótimo ver você de novo.
Meu corpo balança um pouco na cozinha de casa, enquanto olho para o nome de Thomas na tela do celular, que brilha.
Toco na tela. Apago a mensagem.
Não consigo. Simplesmente não consigo.
Eu amo Luke.