As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 19 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Dezoito

 

19 DE OUTUBRO DE 2007

ROSE, VIDA 4

 

Luke se vira e sorri para mim, por cima da borda da taça de vinho. Há tanto por trás desse sorriso, tanto por trás da felicidade que vejo em seus olhos. Gosto de saber por que está lá, de ser a única pessoa que sabe o motivo. Gosto que ele tenha voltado a me olhar assim. Não faz muito tempo, achei que nunca mais olharia.

“Posso te servir mais um pouco de frango, Rose?” Chris, um amigo de Luke, já está de pé e debruçado sobre a mesa, com o garfo na mão, pronto para espetar uma das coxas que restam na travessa. “Você sabe que quer. Comeu a primeira rapidinho.”

“Quero, sim”, digo.

A gravidez me deixa faminta.

Viro para Mai, a esposa de Chris. “Seu marido é um ótimo cozinheiro.”

Ela olha para ele, que coloca outra coxa de frango no meu prato. “Ainda bem, ou ninguém comeria nesta casa.” Os dois já estão no segundo filho, e é a primeira vez que os vemos desde que o bebê nasceu. Fomos convidados para jantar na casa deles depois que as crianças dormissem, porque assim não precisariam chamar uma babá.

Quando Chris faz menção de encher minha taça, eu o impeço, tapando-a com a mão.

“Não?” Ele parece surpreso.

“Já está bom pra mim”, digo.

Uma das coisas que eu e Luke combinamos foi que eu poderia tomar uma taça de vinho sem problemas. Tive medo de que ele ficasse obcecado com aquele tipo de coisa, mas até agora ele tem respeitado minha necessidade de fazer minhas próprias escolhas quanto ao que comer e beber, durante a transição da postura antimaternidade para a gravidez repentina.

“Tá bom.” Chris coloca a garrafa na mesa, perto o bastante para que eu possa pegar se mudar de ideia.

Mai olha para mim, mas não diz o que tenho certeza de que está pensando. Espera, você…?

Luke e eu não contamos a ninguém além de nossos pais e Jill. Não contei a nenhum outro amigo, nem Luke contou aos dele. Gosto de ficar suspensa nesse momento em que ainda sou apenas Rose, em que ninguém sabe da gravidez, a menos que eu decida contar. Não estou totalmente animada com a parte em que começamos a contar a nossos amigos, porque todo mundo na nossa vida sabe como resisti a ter um filho, como tinha certeza de que não queria ser mãe. Vai haver muito ceticismo. Sei disso porque foi o que aconteceu com Jill.

Toda quarta-feira, há séculos, Jill e eu ou nos encontramos no apartamento dela ou no meu e tomamos vinho, pedimos comida e conversamos, longe da universidade em que trabalhamos. Foi o vinho — o fato de que eu não estava bebendo muito nos últimos meses, só uma taça — que a fez perceber o que estava acontecendo. Estávamos no apartamento dela, ainda restava um terço da garrafa e Jill tentava me convencer a beber mais.

“Não, sério. Já está bom.” Antes que eu ficasse grávida, Jill e eu bebíamos facilmente pelo menos uma garrafa durante a noite, às vezes uma garrafa e meia. “Tenho aula amanhã cedo”, acrescentei. Toda semana desde que descobrira que estava grávida, eu dava uma desculpa diferente: aula cedo, falta de sono, muito trabalho no dia seguinte. Tudo para evitar o motivo real.

Jill ainda estava segurando a garrafa, inclinada sobre a minha taça, pronta para servir. “Isso nunca te impediu antes”, disse.

Dei de ombros. “Novo ano letivo, novas atitudes.”

Ela deixou a garrafa na mesa. Então se recostou no sofá e virou para mim. “Rose Napolitano, sei que está mentindo para mim. Por quê? Por que não me conta?”

Comecei a empilhar os pratos, para me ocupar.

“Ei”, disse, levando uma mão ao meu braço. “Responde. Por favor.”

Mantive os olhos nos pratos, na mesa de centro, em qualquer lugar que não fosse ela. “Acho que você não vai ficar feliz quando eu te contar.”

Fez-se um momento de silêncio. Então Jill arfou. “Rose. Está brincando comigo?”

“Você já sabe?”

“Grávida?!”

Peguei um chocolatinho que Jill deixava em uma tigela sobre a mesa de centro, desembrulhei, coloquei na boca e joguei a embalagem em cima dos pratos sujos. Assenti, mastiguei e engoli.

“Aquele babaca”, disse ela.

“Não, na verdade é complicado…”

“Você vai abortar? Vai, né? Eu vou com você, claro. Posso ligar para marcar, se você quiser. Sei que uma coisa é se dizer a favor, outra é ir em frente e decidir fazer um aborto.”

Aquele era o motivo pelo qual eu havia tido medo de contar a Jill. Já sabia o que ela ia presumir quanto a como eu estava me sentindo e o que faria a seguir, e que teria que me defender. Não podia culpá-la. Faria o mesmo na situação inversa. Jill só estava sendo a melhor amiga que podia.

“Olha”, falei, pegando suas mãos e olhando em seus olhos. “Não vou fazer um aborto, Jill. Tenho certeza.” Ela abriu a boca para protestar, mas eu a cortei. “Já está decidido. Vou ter o bebê.” Respirei fundo e soltei o ar devagar. “Eu quero. Sei que deve ser difícil acreditar, mas é verdade.”

“Você. Com um bebê.”

“Isso, eu.”

Jill soltou as mãos das minhas e serviu o que restava de vinho na garrafa na própria taça, depois bebeu. “Nossa.”

“Eu sei.”

“Estou com dificuldades aqui, Rose. Não estou conseguindo entender como isso é possível. É por causa do Luke, não é? Ele te deu um ultimato, não foi? Um bebê ou ele?”

“Sim. Não. Bom, a princípio, sim. Por isso decidi tentar, para dar a Luke o que ele queria, para que não fosse embora.”

“Às vezes eu odeio aquele cara.”

“Não odeie Luke.” Suspirei, já exausta de ter que me defender, e defender Luke também. Eu já sabia que teria que fazer aquilo, mas fazer de fato estava sendo mais difícil do que imaginava. “Eu entendo por que você se sente assim. Eu mesma me senti assim em determinados momentos, como sabe. E sei que é muito difícil acreditar, eu mesma mal posso acreditar, mas estou bem com a decisão. Ou tão bem quanto possível. E Luke e eu estamos bem. Muito melhor do que antes.”

Jill bufou. “Claro, porque você deu a Luke o que ele queria.”

“Por favor, não me julgue.”

“Não estou julgando.”

“Está, sim.”

Ela tomou o que restava de vinho na taça. “Eu só… só não sei o que pensar, Rose.”

“Entendo. Mas preciso não me sentir envergonhada por estar grávida. Não quando estiver com você, pelo menos. Você é minha melhor amiga e preciso do seu apoio.”

Jill pareceu horrorizada. “Eu não quis envergonhar você.”

“Eu sei.”

“Você tem vergonha dessa gravidez?”

Fiquei olhando para minhas mãos, para a mancha da xícara de café no estofado do sofá. “Às vezes. Às vezes fico com medo de ter falhado comigo mesma, mas na maior parte do tempo fico animada, de verdade. Feliz. Estou tentando ficar feliz agora.”

“Tá bom”, disse Jill, embora a hesitação persistisse em sua voz.

“Então tá”, eu disse, depois tiramos os pratos, deixamos na pia e fui para casa.

“Como foi a noite com Jill?”, Luke me perguntou quando subi na cama. Estava meio adormecido, virado de costas para mim.

“Contei que estou grávida.”

“Ah, é?” Ele se virou para mim. Seus olhos brilharam no escuro. “Como ela reagiu?”

“Não muito bem. Foi meio difícil.”

“É só dar um tempo. Ela vai acabar mudando de ideia. Ela e todo mundo.”

Sua escolha de palavras me impactou. Ela vai acabar mudando de ideia. Era o que tinham me dito por anos sobre ser mãe. Eles estavam certos, eu mudei de ideia. Mas será que Jill também ia levar anos para se convencer do meu novo eu? Ela e todo mundo na minha vida? Primeiro, eu havia tido que aguentar a pressão para ter um filho, as pessoas me dizendo que eu tinha que fazer aquilo, e eu tentando convencê-las de que tinha o direito de negar a maternidade. Agora, eu teria que suportar as suspeitas quanto à minha mudança de ideia em relação à maternidade; quanto ao fato de que ia, sim, ter um filho. Minha vida ia ser sempre assim?

Rose Napolitano, maldita seja por não ter um filho, e maldita seja se tiver?

Chris e Luke se levantam para tirar a mesa. Quando passa pela minha cadeira, Luke se inclina e sussurra no meu ouvido: “Te amo. Você está linda hoje”.

Fico radiante.

Mai está me olhando. Leva a taça de vinho aos lábios e toma um gole, o que eu invejo um pouco, mas logo passa.

Ela se levanta e se senta ao meu lado, no lugar de Luke, que agora está vazio. “Vocês têm novidades para nos contar?”

Eu me viro e olho para a cozinha. Luke e Chris estão de pé, lado a lado, conversando diante da pia. Dou de ombros para Mai, sem me comprometer. Fico tentada a dizer: Sim, temos. Mas Luke tem respeitado meu desejo de ir devagar, e não quero impedir que tenha a chance de contar primeiro para Chris.

“Hum…”, diz Mai. Depois sorri para mim. “Não se preocupe, Rose. Não vou dizer nada a Chris. Mas, se for o que estou pensando, estou muito feliz por você e Luke. E acho que vai adorar ser mãe. Eu também tive dúvidas, a princípio. É difícil e tudo o mais, mas também pode ser maravilhoso. É a melhor coisa do mundo”, acrescenta.

Pela segunda vez na noite, fico radiante.

Talvez eu esteja errada. Talvez nem todo mundo vá duvidar de mim quando ficar sabendo. Talvez as pessoas reajam como Mai e encarem a situação como algo positivo, fiquem felizes por mim, por nós.

Luke volta da cozinha e apoia as mãos no encosto da minha cadeira. “Do que vocês estão falando?”

“De um caso importante que vai a julgamento”, diz Mai. Ela é promotora federal, e mais cedo tínhamos falado sobre um julgamento de assassinato que ia ter início.

Luke se senta na cadeira que Mai ocupava antes. Ela aperta minha mão debaixo da mesa, e eu aperto a dela. Sua bondade, sua fé, entram em mim. Penso em como ainda estou me ajustando ao novo caminho, em como Luke e eu ainda estamos nos acertando. Mas hoje é um bom dia. Um dos melhores dias. Aproveito tanto quanto posso, fazendo uma reserva para o período de turbulências que virá.