As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 35 de 42

Páginas do PDF

As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e quatro

8 DE ABRIL DE 2015

ROSE, VIDAS 1 E 2

 

“Adorei o seu livro, dra. Napolitano.” Uma jovem que parece uma estudante de pós-graduação me para no corredor do hotel em que está sendo realizada a conferência. Aqui dentro, está claro e quente, em contraste com a neve e o gelo lá fora, no Colorado.

“Obrigada”, digo. Ela tem mais ou menos a minha altura e é bastante estilosa. Tem cabelo preto e usa um vestido vermelho sem manga que deixa à mostra os braços e as panturrilhas musculosos. “Você leu para uma aula?”, pergunto.

“Na verdade, não.” Participantes da conferência passam por nós como peixes numa correnteza, seguindo para um lado e para outro, dirigindo-se às muitas salas em que serão realizadas mesas de discussão e palestras, ou à escada que dá para a feira de livros. “Li porque acho que não quero ter filhos. Li por mim mesma.” Ela diz isso como se fosse uma confissão, a admissão de um crime.

Fico com vontade de me aproximar e abraçá-la, de passar os braços sobre os ombros dela e levá-la até algum lugar onde possamos nos sentar e tomar um café. Quero que ela saiba que não está sozinha, que há mais de nós, mais do que seria de imaginar. “Escrevi este livro para mim mesma”, digo a ela. “E para pessoas como você.”

O projeto surgiu de uma decisão que tomei algum tempo atrás — em parte para sobreviver depois de Luke —: procurar outras mulheres que não tinham filhos e não querem ter, que talvez nunca os tenham desejado e que se mantiveram firmes. Eu queria conhecer outras mulheres que tivessem passado por algo parecido, algo que talvez também lhes tivesse custado um casamento. Descobri que havia muitas de nós. A maioria vivia escondida.

Sou grata ao livro. Ele se provou uma distração muito útil, e sua divulgação tem consumido minha atenção desde que minha mãe morreu. Aproveitei todas as oportunidades possíveis para divulgá-lo, concordei com tudo.

“Como você se chama?”, pergunto à jovem.

Ela volta a levantar os olhos. “Marika.”

“Você não precisa ter vergonha de não querer ter filhos.”

“Eu sei.” Ela transfere o peso de uma perna para a outra, o salto alto afunda no carpete. “Mas é uma dessas coisas que é muito difícil discutir com outras pessoas. Ninguém acredita quando você fala. Ou então acham que há algo errado com você.”

“Entendo perfeitamente. Eu costumava me sentir muito sozinha.” Penso em como é bom ter me recuperado daquela parte da minha vida, estar feliz no trabalho, feliz solteira. Tenho amigos e colegas maravilhosos, meu pai e tia Frankie. “Graças a Deus conheci todas as mulheres que entrevistei para o livro.”

Marika assente. “Deve ter sido legal.”

“E foi.” O corredor fica mais tranquilo, porque a próxima sessão de debates está perto de começar. Vasculho minha bolsa cavernosa, encontrando livros grossos que a fazem pesar, o programa da conferência, minha carteira, então meu porta-cartões de couro azul. Entrego um cartão a ela. “Se eu não te vir mais, me manda um e-mail quando quiser, e podemos conversar melhor. Se eu não tivesse uma reunião agora, diria para a gente ir tomar um café.” Marika pega o cartão. “Foi ótimo conhecer você.”

Vou embora, fechando o porta-cartões, devolvendo-o ao fundo da minha bolsa. Foi um presente de Luke, que ele me deu no jantar em que comemoramos meu primeiro emprego na academia. Luke o embrulhou cuidadosamente em um papel também azul, minha cor preferida, a cor do mar em um dia de sol, e amarrou com uma fita verde, minha segunda cor preferida. Ele escreveu no cartão: Para meu eterno amor, a professora Rose, que está iniciando uma longa e bem-sucedida carreira. Te amo, Luke. Lembro-me disso tão claramente. Enquanto atravesso o corredor, fico surpresa ao notar que a lembrança não me faz estremecer, não dói, não da maneira aguda de antes. Sinto uma espécie de paz, uma paz que eu não sabia que era possível sentir em relação a esse homem que já foi meu marido.

De alguma forma, apesar da dor do divórcio, de Luke ter seguido em frente com outra pessoa e de ter tido um filho, abrimos caminho para uma espécie de amizade.

Foi a morte da minha mãe que promoveu isso.

Mandei uma mensagem para avisá-lo de que ela não tinha mais muito tempo. Achei que devia mandar. Luke a conhecia havia anos, a chamava de mãe e a amava, e ela o amava também. Luke me respondeu quase imediatamente.

Sinto muito, Rose.

Então uma segunda mensagem chegou.

Posso ir me despedir dela?

O pedido me assustou. Eu estava sentada no quarto dela no hospital, lendo um romance de mistério na poltrona em que meu pai costumava dormir. Tinha conseguido convencê-lo a passar algumas horas em casa. Estava preocupada com meu pai: passar o tempo todo ali estava cobrando seu preço. Levei um bom tempo antes de responder à mensagem de Luke. A princípio, não sabia o que dizer. Fazia anos que não nos víamos.

O divórcio é uma coisa tão estranha. Você passa o tempo todo com uma pessoa, mora com ela uma década, e de repente, se não tiveram filhos, não são mais nada um para o outro, ou não têm que ser nada um para o outro se não quiserem.

Mas, depois de tantos dias sentada no quarto de hospital, olhando para minha mãe, prestes a perder aquela pessoa que me amara em cada segundo da minha vida, minha perspectiva começou a mudar. Encarar a morte faz isso com a pessoa. Faz tudo que se faz parecer diferente. Transforma os dramas do passado, toda a raiva que se pode sentir em relação a alguém, em algo pequeno e insignificante.

Por mais brava que eu tivesse ficado com Luke por tanto tempo, e por melhor que fosse não estar mais casada com ele, eu não queria que não fôssemos nada um para o outro. Tínhamos vivido muita coisa juntos. E fiquei tocada com o fato de que ele queria ver minha mãe.

Respondi a mensagem dele.

Pode. Mas vem logo. Ela não tem muito tempo.

Duas horas depois, ele estava batendo à porta. O sol do lado de fora da janela já tinha descido, e o quarto escurecia, exceto pela luz do abajur próximo à cama da minha mãe. Hesitei por um segundo. Senti o pânico acender por um breve momento dentro de mim. Por que eu disse que ele podia vir?

Então me levantei e deixei que ele entrasse.

“Oi, Rose.”

“Oi.”

Ficamos ali, olhando um para o outro. Então Luke me puxou para um abraço. A princípio, foi estranho, como se nenhum de nós tivesse certeza de que era uma boa ideia. Mas então se tornou familiar, uma espécie de conforto. Algo que eu reconhecia, algo que tínhamos feito sem nem pensar por anos, quando estávamos juntos. “Sinto muito pela sua mãe, Rose”, disse no meu ombro.

Nós nos distanciamos.

“Obrigada por ter vindo”, falei. E estava falando sério. Não tinha certeza daquilo momentos antes, mas agora que ele estava ali não tinha dúvida.

Ficamos ao lado da cama da minha mãe.

Ela parecia tão pequena, tão murcha, tão diferente de quem era. Sempre que eu olhava para ela, olhava de verdade, tinha vontade de chorar.

“Sinto falta de comer a lasanha da sua mãe no Natal”, disse Luke.

Sorri de leve. “É?”

“Ah, é. Ninguém faz lasanha como ela.”

Suspirei. “É verdade.”

“Lembra como ela ficou brava quando dissemos que não íamos ter uma mesa de biscoitos italianos no casamento? E que não íamos dar amêndoas confeitadas de lembrancinha?”

Comecei a rir. “Como eu ia esquecer? Ela reagiu como se fôssemos assassinos.”

“Ela pode ser bem cabeça-dura às vezes.”

“Nem me fala.”

Luke e eu ficamos ali por uma hora, compartilhando lembranças da minha mãe, lembranças boas, divertidas, difíceis, rindo das coisas que ela dizia e fazia. O modo como ela se imiscuía na nossa vida, no nosso casamento, no nosso guarda-roupa, com seus suéteres malucos, quer gostássemos ou não. Quanto mais falávamos, mais fácil ficava estar ali, ao lado da cama da minha mãe, como se nossas palavras tivessem o poder de transformá-la de volta na mulher que conhecíamos, devolver-lhe a vida, mesmo que apenas por alguns minutos.

“Fico muito feliz que tenha vindo, Luke”, falei, quando ele se preparava para ir embora.

“Eu tinha que vir. Amava sua mãe.”

“Obrigada por dizer isso.”

“É verdade.” Sua voz ficou embargada quando disse: “Sei que você vai sentir falta dela, Rose. Imagino o inferno pelo qual você e seu pai devem estar passando.”

“As últimas semanas foram horríveis.” Eu olhei para ele, que continuava olhando para minha mãe, de modo que ficou mais fácil dizer o que disse a seguir. “Foi bom ver você. Não sabia que seria ou que poderia ser tão bom ter você aqui.”

Ele se virou para mim. “Foi bom ver você também.”

Olhamos nos olhos um do outro. “Fico feliz que você tenha encontrado felicidade na sua vida, Luke. Que tenha encontrado alguém que queria ter um filho tanto quanto você.”

Houve um momento de silêncio. “Obrigado pelas palavras”, disse ele. “Sei que faz um bom tempo que as coisas não andam boas entre a gente, Rose, mas quero que saiba que estou aqui. De verdade. Se precisar de alguma coisa, ou se só quiser conversar.”

As palavras dele ficaram pairando entre nós. De repente, estávamos à beira do precipício, Luke e eu, sem saber o que encontraríamos se pulássemos, ou se haveria algo ali. Mas a sensação era de que Luke tinha estendido a mão. E eu decidi aceitá-la.

“Tá bom”, falei. “É bom saber.”

Luke se despediu da minha mãe e de mim, e então foi embora.

Alguns dias depois, minha mãe morreu. Mandei uma mensagem avisando. Luke me perguntou se podia ir ao funeral.

Concordei com isso também.

Não nos falamos naquele dia. Mal notei sua presença. Lembro-me de tê-lo visto de relance quando me levantei para falar na igreja. Mas já pensei bastante sobre como a perda da minha mãe, como saber que Luke também sentia aquela perda em sua própria vida, havia estabelecido uma trégua entre nós depois de tanta divisão. Sobre como essa trégua frágil tinha se transformado em algo próximo de uma amizade, ainda que hesitante, que consistia em uma ligação de tempos em tempos.

Acho que minha mãe teria gostado disso.

De saber que, mesmo tendo partido, continua a influenciar as decisões que tomo em meus relacionamentos, a negociar a paz que nunca achei que seria possível entre mim e Luke. Ela ainda se mete na minha vida.

Acho que gosto disso também.

O lugar já está lotado quando chego.

As pessoas circulam, ocupando suas cadeiras, deixando as bolsas a seu lado no chão acarpetado, tirando laptops do estojo. Encontro um lugar vazio e coloco minha bolsa ali antes que outra pessoa pegue.

“Oi, Cynthia”, digo para a mulher à minha esquerda, uma colega da Costa Oeste que só vejo em conferências.

“Oi, Rose. Espero que não seja como no ano passado.”

“Nem me fala.” Viro para a minha direita e deparo com um homem. Ele continua concentrado na tela do laptop enquanto o observo. “É você!”, quase grito. Abaixo a voz para falar: “Thomas, não é?”.

Ele ergue os olhos. Então sorri para mim. “Rose!”

A visão de Thomas causa um certo impacto em mim, fazendo o sangue acelerar nas minhas veias, uma sensação percorrer meu corpo. Algo que não experimento há muito tempo. “Não acredito que está aqui.” Rio. “Que engraçado estarmos no mesmo comitê.”

Não vejo Thomas desde aquele dia em que nos conhecemos no hospital, quando minha mãe estava fazendo quimioterapia, mas não por falta de empenho da parte dele. Ele me mandou mensagens durante algum tempo, e às vezes eu respondia, mas depois minha mãe piorou de vez e não consegui pensar em mais nada. Parei de responder. Aí veio o luto, e as tentativas de seguir em frente, a promoção do livro e todas as viagens.

“Íamos acabar nos encontrando em algum momento”, diz ele.

Puxo minha cadeira e me acomodo. Thomas fecha o laptop. Viramos um para o outro.

“Como você está?”, pergunto. “E seu amigo, Angel?”

“Estou bem. Ele também. Angel se curou do câncer, o que é ótimo.”

“Maravilha. Que bom ouvir isso.”

“E sua mãe?”

Balanço a cabeça. Um nó se forma na minha garganta. Isso ainda acontece, não importa que ela tenha partido há meses, não importa o quanto me esforce para evitar.

“Ah. Sinto muito”, diz Thomas.

Inspiro e expiro, esperando o nó começar a se desfazer para falar. Concentro-me em tirar minhas coisas da bolsa, coloco o bloco de notas na mesa e uma caneta do lado. Quando olho para Thomas, ele é todo paciência. Sinto uma ligação imediata entre nós. “Obrigada. Também sinto muito. Ainda é muito difícil falar sobre ela, embora vá fazer um ano em junho.”

Os olhos de Thomas são diferentes, lindos, e seu olhar parece me penetrar, ir além da dor. “Um ano não é nada”, ele me diz. “Ainda tenho dificuldade de falar sobre meu pai, e faz quase dez anos que ele partiu.”

“Sinto muito por isso”, digo. “Nossa, realmente não dá para dizer nada de positivo para alguém que perdeu um pai ou uma mãe, não é? ‘Sinto muito’ parece tão tonto.”

Thomas e eu damos uma risadinha.

“Você foi tão legal aquele dia no hospital, quando minha mãe estava na quimioterapia”, digo. “Acho que não te disse isso, nas mensagens que trocamos. Mas é verdade. Você foi muito legal.”

“Foi fácil”, disse Thomas. “Sua mãe meio que alegrou nosso dia. Ela fez a gente rir muito.”

“Ela era assim.” Meus olhos voltam a se encher de lágrimas, e passo a mão neles. Inspiro e expiro devagar mais uma vez, para me recompor. Sorrio para Thomas, um pouco constrangida por estar quase chorando. “Desculpa, às vezes não me controlo falando dela.”

“Não faz mal. De verdade. É normal se sentir assim.” Thomas levanta um braço, e por um momento acho que vai colocar a mão sobre a minha ou tocar meu ombro. Mas ele não faz nada disso. “Só estamos num lugar meio esquisito para ter esse tipo de conversa”, diz.

Olho para a sala, para todos os acadêmicos à nossa volta, ocupados digitando em seus laptops, mexendo em papéis, tentando impressionar uns aos outros. “Sim, mas também é bom falar sobre algo que não seja trabalho. Algo real.” Volto a olhar para Thomas. “É muito bom ver você de novo.”

“O que vai fazer esta noite?”, ele pergunta. “Tem planos?”

Thomas está prestes a me convidar para sair.

Sinto uma onda de prazer com essa constatação. Então penso: Minha mãe ficaria muito feliz com isso. “O de sempre”, digo. “Vou dar uma passada em vários coquetéis. E você?”

Antes que ele possa responder, ouço um grito da presidência do comitê, avisando que vamos começar em cinco minutos. As pessoas disputam os últimos lugares.

A tela do celular diante de Thomas na mesa acende, revelando a foto de uma menina. Ela é magra, está sorrindo, e seu cabelo escuro esvoaçante passa da altura dos ombros.

Eu não sabia que Thomas tinha uma filha. Meus olhos procuram sua mão. Ele não usa aliança. Mas talvez eu estivesse errada, talvez ele não estivesse prestes a me chamar para sair. Talvez naquele dia, no hospital, e em todas as mensagens posteriores, Thomas só estivesse tentando ser legal, por causa da minha mãe.

Ele pega o celular e atende. “Está tudo bem, querida?” Há uma pausa. “Tá. Mas vou ter que te ligar mais tarde. Te amo.” Ele põe o celular na mesa com a tela para baixo e vira para mim. Com um sorriso encabulado no rosto.

“Sua filha?”, pergunto.

Ele confirma com a cabeça. “É. Ela é muito fofa, mas sou suspeito para falar. Costumava correr atrás de mim como se eu fosse seu herói, mas ultimamente anda se trancando no quarto. Achei que ainda fosse levar alguns anos para começar com esse tipo de coisa.”

Sorrio. Assinto, como se entendesse, muito embora não entenda. É claro que não.

“Você tem filhos?”

“Não, não tenho. Não sou casada. Não tenho filhos.”

“Eu também não. Não sou casado, quero dizer”, ele explica, e fico feliz. “Minha ex-namorada e eu engravidamos e tentamos ficar juntos por um tempo, mas não era para ser. Mas somos amigos agora, e acho que fazemos um ótimo trabalho como pais, o que é legal. Mas, voltando!” Thomas sorri de novo. Ele sorri com os olhos, com o rosto todo, seu corpo parece radiante. “Eu ia perguntar se você não queria deixar os coquetéis para lá e ir jantar comigo. O que acha?”

“Acho que sim”, digo, sem hesitar. “Com certeza.”

“Ótimo.”

Ficamos os dois sentados ali, sorrindo um para o outro. Então o celular de Thomas vibra. Ele lê a mensagem que chegou e faz uma careta. Uma careta bem bonita. “Minha filha acha que vai me convencer de que é uma boa ideia passar o fim de semana inteiro na casa de uma amiga, só que a mãe dela e eu já dissemos que não. Ela está sempre tentando nos vencer pelo cansaço, e às vezes funciona.” Ele dá de ombros e devolve o celular à mesa.

“Qual é o nome dela?”, pergunto.

Thomas olha para mim e diz, com um sorriso enorme no rosto: “Addie”.