As nove vidas de Rose Napolitano
Quarenta e um
23 DE MAIO DE 2000
ROSE, VIDAS 1-9
Luke está apoiado em um joelho.
Tudo acontece tão rápido que, a princípio, fico confusa.
“O que está acontecendo, Luke?” Fico ali, com os braços ao lado do corpo, os dedos se fechando e se abrindo, inquieta.
Ele está olhando para mim, sorrindo, radiante, sem dizer nada. Perde um pouco o equilíbrio, mas se endireita. Tenta pegar algo no bolso de trás.
Ah. Ah!
Enquanto se atrapalha com a caixinha no bolso do jeans, meu coração acelera, e arrepios percorrem meu corpo, ainda que eu esteja de malha. Meus lábios se entreabrem, e eu me lembro de respirar. Acho que estou sorrindo. Estive esperando por esse momento, antecipando-o, torcendo para que chegasse logo.
Luke tira a caixinha, abre e pega a aliança de noivado. Ele a ergue para mim e começa a falar. A aliança brilha, cintila, treme junto com sua mão. “Rose, você é o amor da minha vida, e sempre será…”
Enquanto ele fala, ouço suas palavras encantadoras, mas também ouço algo mais, uma voz dentro da minha cabeça que tem sua própria opinião quanto ao que está prestes a acontecer. Tento silenciá-la, mas ela é forte, irritante e intrometida demais.
Rose, diz, por que Luke se ajoelhou? É tão tradicional. Você disse a ele um milhão de vezes — não, um bilhão — que não queria um pedido de casamento tradicional, um noivado tradicional, que seriam seguidos por um casamento tradicional. Você disse especificamente que não queria que ninguém ficasse de joelhos e te pedisse em casamento. Brincou com Luke que, se ele fizesse isso, ouviria um grande não em resposta.
“Quero passar o resto dos meus dias só com você…”
As palavras de Luke são tão doces, tão lindas, como posso não amar? Como posso não derreter diante de tal declaração? O que importa se ele está de joelhos, quando eu disse para não fazer isso? O que importa se sou feminista? Feministas também podem receber declarações de amor, não? Qualquer pessoa pode. É uma tradição legal! Por que eu não curtiria? Tenho o direito de curtir. Não tenho?
Mas e se isso for um sinal do que está por vir?
“Rose Napolitano, você me dá a honra de ser minha mulher? Casa comigo?”
E se Luke não me ouvir em outros sentidos também?
Luke parece radiante, e a maior parte de mim retribui isso.
A maior parte.
Há outra Rose dentro de mim, que está preocupada. Eu gostaria que ela calasse a boca e só me deixasse curtir o momento.
Rose…
Cala a BOCA.
Luke aguarda. Ele volta a perder um pouco o equilíbrio.
Estico uma das mãos para segurá-lo.
A outra Rose fica em silêncio.
Sorrio, abro a boca e digo: “Sim”.
Quarenta e dois
12 DE DEZEMBRO DE 2025
ROSE
Thomas me chama do quarto. “Rose, seu telefone está tocando! É o Luke.”
Estou colocando as luzinhas na árvore. Meera, nossa nova gata, que está dentro da caixa de decorações de Natal, fica tentando pegá-las. Sentimos falta de Max, que foi para um lugar melhor. Pego Meera no colo. Ela mia em protesto enquanto a levo para o quarto.
Thomas está sentado na cama, estendendo o celular para mim. Eu o pego e o levo à orelha. “Oi, Luke. Tudo bem?”
“Tudo. Alguma notícia?”
Thomas estende os braços para Meera. Faço bico, mas deixo que a pegue. “Consegui a bolsa!”
“Conseguiu? Que maravilha! Não estou nada surpreso.”
“Obrigada”, digo. Fico tocada que Luke tenha ligado só para me perguntar do trabalho. “E quanto a você? E os prêmios este ano?”
Luke suspira. “Estou tentando não pensar muito a respeito. Se eu fingir que não ligo, talvez ganhe um dos grandes.”
Rio. “Você costuma ganhar.”
“Shhhh. Olha a zica.”
Vou para a sala e depois para a cozinha, passando pela árvore parcialmente decorada. Vejo Addie na mesa da cozinha, debruçada sobre uma tela de celular. “Olha, tenho que ir. Os biscoitos estão no forno e não posso deixar queimar. Alguém devia ter ficado de olho neles, mas se distraiu com o celular.” Addie nem olha quando digo isso. Provavelmente nem me escutou. “Tenho mais delícias de Natal para fazer depois.”
“Para, assim você vai me matar”, diz Luke. “Ainda sinto falta dessa parte da nossa vida. Cheryl não sabe nem ferver água.”
“Não quero saber disso, boas festas, tchau!” Desligo antes que Luke possa falar mais alguma coisa.
O temporizador toca. Nem assim Addie levanta a cabeça. Passo por ela no caminho para o fogão, abro a porta e vejo que os biscoitos estão perfeitamente dourados. Pego a luva e os tiro do forno.
O cheiro é delicioso. Lembra…
Minha mãe.
Por um breve e impactante momento, ela está aqui, comigo, agora. Estamos juntas nesta cozinha, eu ainda pequena, com seis, talvez sete anos, e fazemos biscoitos, estes biscoitos, juntas.
Ultimamente, à noite, na cama, quando estou indo dar aula, ou mesmo caminhando pela cidade, tenho pensado na vida da minha mãe — na vida que ela levava antes de mim. Como era, com o que ela sonhava, se havia duvidado de suas escolhas, de sua escolha de me ter. Esse desejo de tê-la conhecido, de tê-la conhecido de verdade, como a mulher que ela era antes que a maternidade a mudasse, tem crescido, se expandido e florescido dentro de mim. Eu queria tê-la conhecido.
Esse desejo, essa necessidade, foi o que me fez pedir uma nova bolsa, sobre a qual Luke me perguntou. Dessa vez, vou entrevistar mães, mães mais velhas, com filhos crescidos que já saíram de casa. Quero saber sobre o antes e o depois da maternidade para elas. Vou fazer todas as perguntas que gostaria de ter feito à minha mãe, que faria se ela ainda estivesse viva. Quero saber quem elas eram antes dessa mudança enorme em sua existência, e quero saber como veem sua escolha à distância, a partir de suas vidas hoje. Teriam feito algo diferente? Sentem falta de alguma parte de seu antigo eu? Ficam se perguntando quem seriam se tivessem escolhido não ser mães? Gostariam de poder encontrar essa outra mulher, a pessoa que seriam se tivessem escolhido diferente?
Com a espátula na mão, solto os biscoitos um a um do papel-manteiga, transferindo a maioria para uma grade de esfriamento e alguns para um prato. Enquanto faço isso, me pergunto sobre as outras vidas que poderia ter vivido, vidas em que escolhesse não ter filhos, vidas em que os tivesse, ou em que os tentasse ter. De qualquer maneira, sendo a Rose que disse sim, a Rose que disse talvez, a Rose que disse não, de jeito nenhum, ou uma combinação dessas Roses, aqui estou eu, com uma criança, e se ela é ou não minha não importa, eu que decido. Quem tem amor, amizade e uma família tem o bastante para atravessar os períodos difíceis, os dias, meses e anos de perda, o luto inevitável de se estar vivo. Há paz nisso, e uma espécie de felicidade. Isso é tudo que alguém pode esperar, acho, de uma única vida.
Deslizo um prato de biscoitos ainda quentes do forno pela mesa, na direção de Addie. Ela levanta o rosto, assustada. Então sorri. “Quer um?”, pergunto, e sorrio de volta.
AGRADECIMENTOS
Obrigada a Miriam Altshuler, minha agente, grande apoiadora das mulheres (em geral) e desta mulher em particular. É muita sorte ter um “casamento profissional” tão maravilhoso e duradouro, e você ter ficado comigo nos altos e baixos (e houve tantos baixos), sem nunca perder a fé.
A Pam Dorman, por ter se apaixonado pelo meu livro de um dia para o outro, e por ter tornado meus sonhos de escritora realidade de tantas maneiras; por sua sabedoria editorial, sua fé em Rose e em mim, e por ter decidido que algo que escrevi era digno de seu selo editorial — fico honrada e grata, e aprendi muito trabalhando com você. Ter tido meu livro publicado por você é um dos pontos altos da minha vida profissional. Também agradeço a Martha Ashby, da HarperCollins, minha editora no Reino Unido, pelo incentivo, a bondade e a empolgação demonstrados depois de ler o livro, e que a levaram, junto com seus colegas, a produzir um documento que ainda leio quando estou para baixo. Tenho muita sorte de contar com essa dupla dinâmica de mamães editoriais cuidando de mim e de Rose.
Agradeço a todos na Viking e na Penguin que apostaram em Rose. A Jeramie Orton e Marie Michels, por sua paciência e diligência, e principalmente a Leigh Butler e Hal Fessenden, por seu apoio extraordinário, por entenderem este livro e por seus planos de dominação mundial — vocês dois e Pam fizeram do último verão um dos mais empolgantes da minha vida.
Sou muito grata aos editores do mundo todo que se apaixonaram por Rose. Estou muito animada para ser publicada por vocês e emocionada com o fato de terem acreditado neste romance e em mim. Adorei conhecer muitos de vocês, e espero que o diálogo que iniciamos por conta do romance prossiga.
Obrigada a meus queridos amigos Marie Rutkoski, Daphne Grab, Eliot Schrefer e Rene Steinke, que leram rascunhos do livro e me ajudaram a resolver algumas coisas, e a Rebecca Stead, que me manteve firme em um momento importante e me deu ótimos conselhos. A Kylie Sachs, que ainda é minha amiga (como isso é possível, depois de todos esses anos?) e minha confidente em todas as coisas relacionadas a este romance, pequenas ou grandes, raivosas ou felizes. Ao meu pai, que é o melhor do mundo, e ao meu marido, que, enquanto eu escrevia este livro, me perguntava toda noite durante o jantar: “O que aconteceu com Rose Napolitano hoje?”.
Obrigada às mulheres que nunca quiseram ter filhos, e que a sociedade e a cultura talvez tenham feito se sentir estranhas, pequenas e incompletas, como se tivesse que haver algo de errado com elas por não quererem ser mães, talvez desde novas, talvez para sempre — este livro definitivamente foi escrito tendo vocês em mente. Eu enxergo vocês. Espero que tenha feito justiça à sua experiência.
Agradeço às mães de todos os tipos na minha vida — mães de seus próprios filhos, mães literárias, mulheres que me serviram de mãe em diferentes momentos, quando eu precisava. Às mães que virei ainda a conhecer e àquelas que leram este livro. Há muitas maneiras de ser mãe, e muitas delas não envolvem dar à luz um bebê. Não reconhecemos isso o bastante no mundo.
Finalmente, minha mãe: vou encerrar este livro e estes agradecimentos expressando mais uma vez minha gratidão a ela. Já lhe dediquei este romance, mas aqui vou escrever tudo que quero, porque tenho espaço.
Obrigada, mãe, por me ter dado a vida. Eu gostaria de ter dito isso a você enquanto ainda estava consciente o bastante para ouvir e entender. Eu disse isso a você — as mesmíssimas palavras — um dia antes que morresse, quando já não podia me ouvir. Passei os últimos dezesseis anos pensando que você não tinha conseguido me ouvir aquele dia, e em como isso era injusto. Porque você merecia meu agradecimento e minha gratidão eterna. Dar a vida a alguém não é algo pequeno. Ser mãe não é algo pequeno. Mas, muitas vezes, não há agradecimento. Eu gostaria de ter agradecido a você diretamente, especificamente, por esta vida, pela minha vida. Gosto de pensar que, de alguma forma, você me ouviu, que talvez ainda ouça, mesmo na morte. Provavelmente é só uma fantasia, mas às vezes fantasias são tudo que temos, e esta é a minha. Te amo. Obrigada.
NINA SUBIN
DONNA FREITAS nasceu em Rhode Island. Formou-se em filosofia e em espanhol pela Universidade de Georgetown e é ph.D. em religião pela Catholic University. Lecionou na Universidade de Boston e colaborou para The Wall Street Journal e The Washington Post. Já publicou diversos livros de ficção e não ficção.
Copyright © 2021 by Donna Freitas
A Editora Paralela é uma divisão da Editora Schwarcz S.A.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Título original
The Nine Lives of Rose Napolitano
Capa
Lynn Buckley
Foto de capa
Flowers in a Glass Vase, Jan Davidsz de Heem, c. 1660. Fitzwilliam Museum, University of Cambridge, UKBridgeman Images/ Fotoarena
Preparação
Diogo Henriques
Revisão
Jasceline Honorato e Renato Potenza Rodrigues
Versão digital
Rafael Alt
ISBN 978-65-5782-315-6
Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ S.A.
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