As nove vidas de Rose Napolitano
Doze
3 DE MAIO DE 2009
ROSE, VIDA 1
“Hum…”
O bolo é delicioso. Memorável. Como mais um pouco. Estou comendo um bolo memorável, acompanhado de um café delicioso e memorável também. O lugar em que estou é lindo. Espaçoso, com mesas altas e brancas, e banquetas brancas combinando. Uma música tranquila toca nos alto-falantes. O chão é de cimento-claro queimado, os janelões têm uma moldura fina de metal branco. Branco e cinza-claro, cinza-claro e branco. Sereno. Limpo. Relaxante. Novo.
Eu deveria estar participando de uma conferência em Long Island, mas, depois de uma manhã de mesas e palestras entediantes, me peguei indo embora, descendo a rua, passeando pela bela cidadezinha e entrando neste café. Dou uma bela garfada no pão de ló e coloco na boca, deixando que derreta na língua e sentindo a maciez e o açúcar antes de engolir e depois dar um gole no delicioso café Americano que pedi para acompanhar. Uma sensação de paz e bem-estar se espalha a partir do meu estômago para a garganta e o resto do corpo. É uma sensação estranha, que cheguei a me perguntar se voltaria a experimentar. Se voltaria a experimentar sozinha.
Minha mãe prometeu que sim. Jill. Denise e Raya também.
Mas foram as ligações tarde da noite de Frankie, irmã do meu pai, ao longo do último ano, que me ajudaram a deixar o desespero para trás e voltar a ter esperança. Frankie é pintora e mora em Barcelona há quinze anos, com seu companheiro, Xavi. Eles se apaixonaram rápido, e Frankie se apaixonou por Barcelona também. Ela jura que os dois nunca vão se casar, e eles não têm filhos. Frankie fez com que eu me sentisse menos sozinha no mundo, mas nunca tanto quanto depois que Luke foi embora.
Faz um ano e meio que tenho saído com outros caras, ou tentado. Namorei Oliver por um tempo, mas não deu certo. Eu não estava preparada, era pegajosa demais, e ele teve que voltar para Londres. Quando isso aconteceu, fiquei mal de novo. Depois de alguns meses chafurdando na solidão, voltei a sair com outros caras, mas nunca era muito bom. Eu estava voltando para casa certa noite, andando pela cidade depois de um encontro especialmente deprimente com um cara muito egocêntrico chamado Mark, quando decidi ligar para Frankie.
Ela atendeu no primeiro toque.
“Oi!” Dava para perceber seu entusiasmo, mesmo do outro lado do oceano. Frankie pintava até tarde, por isso eu costumava pegá-la acordada, apesar da diferença de fuso. Ela me jurou que não haveria problema mesmo se eu ligasse depois que tivesse ido para a cama, porque deixava o celular no mudo para que nem ela nem Xavi acordassem.
“Que bom que você atendeu”, falei.
“É claro que atendi!”
“Mas é tão tarde aí.”
“Eu durmo tarde. Você sabe disso.”
“Está trabalhando?”
Ela riu. “Estou sempre trabalhando, mas você ligou na hora certa, porque preciso fazer um intervalo. Como estão as coisas?”
Olhei para os dois lados e atravessei a rua. “Sabe como é, tive outro encontro ruim.”
“Sério?”
“Sério.”
“Ah, Rose. Vai melhorar.”
“Vai mesmo?”
“Sim, eu prometo.”
“Vou te cobrar isso depois, Frankie.”
“Tudo bem.”
Diminuí o ritmo para atrasar meu retorno ao apartamento vazio que me aguardava. “Queria te fazer uma pergunta meio intensa.”
“Adoro perguntas intensas. O que foi?”
“Você e Xavi estão felizes de não terem tido filhos?”
Ouvi o barulho de uma cadeira sendo arrastada no estúdio de Frankie. Era minha tia se preparando para uma conversa longa. Eu queria poder visualizá-la melhor. Tinha visto fotos da casa, mas nunca fora visitá-la em Barcelona, apesar dos repetidos convites. Luke e eu chegamos a pensar em ir lá na lua de mel. Ainda bem que não fomos. Eu gostava da ideia de que a cidade que minha tia havia adotado permanecia intocada pelo meu casamento.
“Estamos, Rose. Só que é mais fácil dizer isso agora, passado tanto tempo desde a nossa decisão.”
Virei à esquerda, descendo um quarteirão iluminado pelas vitrines de lojas luxuosas, observando os vestidos elegantes enquanto passava. “Falando assim, parece que vocês não tinham certeza. Sempre achei que tivesse sido uma decisão bem pensada.”
“E foi. Mas isso não significa que não tivemos nossos momentos de dúvida. Não é fácil fazer uma escolha que ninguém mais à sua volta faz. Xavi e eu passamos por tudo isso nos perguntando se iríamos nos arrepender da nossa decisão, se estávamos cometendo um erro. Acho que nenhuma mulher está imune a esses questionamentos.”
Parei diante de um vestido longo coberto de flores cor-de-rosa e senti uma pontada de desejo. Tentei me agarrar a ele tanto quanto pude. O desejo, mesmo brando, tinha se tornado algo raro na minha vida. “Tenho inveja desse seu ‘nós’, Frankie.”
Ela soltou o ar. “Foi sorte Xavi e eu nos sentirmos do mesmo jeito. Sei que deve ser difícil tomar essa decisão sozinha, Rose. Mas você foi muito corajosa.”
Continuei andando. “Não sei se ser corajosa é uma coisa boa. Essa coragem acabou levando ao meu divórcio. À minha solidão. Ao casamento do meu marido…” Parei e me corrigi. “Ao casamento do meu ex-marido com outra mulher, que deve estar prestes a engravidar. Ou talvez já esteja grávida.”
“Rose, uma hora tudo isso vai parecer muito distante.” A voz de Frankie subia cada vez mais, ganhando força. “O que eu ainda não disse é provavelmente o que você mais precisa ouvir: agora que eu e Xavi não temos mais a possibilidade de ter filhos, é um alívio não ter nenhum! Amamos nossa vida. Ter filhos é uma boa escolha para algumas pessoas, provavelmente para a maioria delas, mas não ter filhos é uma escolha igualmente boa, mesmo que todos à sua volta a façam questionar essa decisão. Tenho certeza de que você vai chegar a esse ponto, de que vai sentir o mesmo tipo de alívio que eu. Gostaria de poder te trazer para cá agora mesmo, vupt!”
Sorri um pouco. “Eu também, Frankie.”
“Ah, eu te amo, querida”, disse ela.
Frankie vivia dizendo que me amava, enchendo nossas conversas com seu amor por mim, pela vida, pelo mundo, por Xavi e pelo trabalho. Seu amor chegava a mim do outro lado do oceano, do outro lado da linha, e eu tentava deixar que me engolfasse. Durante as conversas noturnas com minha tia, descobri o quanto gostava de ouvi-la falando sobre o trabalho, descrevendo o que estava fazendo e por quê. Havia sempre uma animação em sua voz quando entrava no assunto, uma paixão que era fácil de detectar, com seu tom de repente passando a uma melodia.
Mas também havia algo que me levava de volta a outra época da minha vida, uma época anterior a Luke, quando eu era independente, quando meus interesses e minhas dúvidas nem sempre giravam em torno dele ou de ter ou não um filho, ou em torno do que significava seguir em frente agora que estávamos divorciados. Às vezes, eu pensava nas conversas com minha tia como uma cauda a que eu podia me agarrar e deixar que me levasse para o futuro, onde descobriria que a velha Rose ainda estava dentro de mim, como uma amiga havia muito perdida. Os comentários de Frankie sobre cor e composição, pinceladas, representação e emoção tinham o poder de persuadir aquela Rose a sair e a voltar para a vida dos outros, lembrando-a de que haveria todo um mundo à espera quando ela estivesse pronta.
Eu costumava gostar de ficar sozinha.
Ser filha única faz isso com a pessoa, faz com que aprenda a brincar sozinha, comer sozinha, sair sozinha. Mas então o amor, morar com alguém, se casar com alguém, de certa forma apaga essa parte da pessoa e permite que flutue para longe. Depois que Luke e eu nos divorciamos, passei a odiar ficar sozinha, a temer, a sofrer com isso, e a me perguntar se um dia voltaria a desfrutar da solidão. Esforcei-me muito para ficar bem. Mas, sempre que acho que estou finalmente chegando lá, alguma coisa surge e me arrasta de volta para a tristeza.
Como meu último pedaço de bolo e observo as pessoas entrando e saindo do café, em grupos, sozinhas, carregando copos altos e saquinhos com guloseimas.
A atendente se aproxima, olhando para as migalhas no meu prato. “Quer mais um pedaço?”
As pontadas de desejo, que costumavam ser tão raras, tão passageiras, têm surgido cada vez mais ultimamente. “Quero.” Eu quero! Vou comer bolo. Bolo para me recuperar do divórcio. Mais e mais bolo!
“Bom pra você”, diz ela, e vai até a bela vitrine onde estão as sobremesas.
Bom pra mim!
Deixo o livro de lado e pego o celular. Ligo e ouço tocar duas vezes.
“Rose!” Minha mãe sempre fica muito feliz quando sou eu que ligo. Em geral, é ela que me liga.
“Oi, mãe.”
“Está tudo bem?” Seu tom de repente parece muito preocupado. Já me acostumei a essa preocupação comigo.
“Sim, tudo bem. Não posso ligar só porque fiquei com vontade?”
“Claro que pode”, diz ela. “Mas em geral não liga.”
A atendente volta e desliza o prato pela mesa, na minha direção. Eu sorrio para ela, que assente. A fatia é duas vezes maior que a anterior. “Talvez eu deva tentar ligar com mais frequência, então.”
“Eu ia gostar.”
“Desculpa por não ligar.”
Há um longo silêncio. “Rose, sua voz está ótima.”
“Você parece tão cética, mãe.”
“Não”, diz ela, rapidamente. E depois: “Bom, faz um tempo que sua voz não parece ótima”.
“Eu estou bem, mãe.” Pego uma bela garfada de bolo, mastigo, engulo, depois pego outra bela garfada e enfio na boca. “Estou comendo um bolo delicioso”, digo a ela, falando de boca cheia.
Minha mãe ri, com leveza. “Bolo faz bem pra alma. E a conferência?”
“Normal. Na verdade, estou perdendo a maior parte.”
“É mesmo? Não é do seu feitio.”
“O tempo está bom. A cidade é bonitinha, fica à beira da água. Tem um monte de restaurantes e cafés fofos. Decidi curtir a viagem. Fiquei com vontade de passear, então fiz isso. Estou fazendo.”
“Rose, você parece tão diferente. Como se tivesse virado a página.”
“Quem sabe”, digo, mas então sinto um nó sombrio no peito, pequeno, mas perceptível, se agitando, pairando, me lembrando de que está dentro de mim, sempre. Então, tão rápido quanto surgiu, ele desaparece. “Talvez seja passageiro”, acrescento.
“Tudo bem”, diz minha mãe. “Aproveite enquanto durar. Antes que você perceba, essa alegria vai vir de novo.”
“Vou aproveitar.” O tom de voz da minha mãe me faz sorrir. O jeito como ela fala comigo, acredita em mim, me encoraja. Agarro-me a isso, confio nisso como poderia confiar em um ser divino. Minha mãe está sempre aqui quando mais preciso dela. “Te amo, mãe. Espero que saiba disso.”
“Também te amo, meu bem. E sei que você me ama. Mas é sempre bom te ouvir dizer isso.”
A praia está deserta.
Com o crepúsculo, o céu passa a cor-de-rosa e laranja. A areia é suave, como tudo nesta cidade: o clima, o calor, o sol, a brisa. Tiro as sandálias e as seguro pelas tiras com um dedo. Elas pendem da minha mão enquanto caminho e paro de vez em quando para olhar uma concha bonita, uma pedra branca e lisa, para a metade quebrada de uma bolacha-do-mar. Ondas leves se formam e se quebram, se formam e se quebram. Encontro um punhado de conchas de madrepérola, algumas mais alaranjadas, outras de um tom mais amarelo. Guardo três no bolso, para levar para casa. São as preferidas da minha mãe. Então me aproximo da água, afundo os dedos na areia molhada e aproveito a brisa ainda fresca da primavera. O aroma no ar indica que o verão está chegando.
Fico ali, olhando a água, por um bom tempo.
Um fardo me deixa. Sinto que ele é tirado dos meus ombros, seu peso diminuindo, ficando cada vez mais leve, até que não está mais lá. Lágrimas fazem meus olhos arderem e começo a chorar, mas não de tristeza.
Não tenho que ser mãe.
A água passa pelos meus pés, fresca e agradável, conforme a maré chega.
Não preciso ter um bebê se não quiser. E não quero. Nunca quis. Nunca.
Graças a Deus.
Graças a Deus Luke foi embora. Graças a Deus ele não está mais comigo. Graças a Deus o homem que estava tentando me forçar a ser alguém que eu nunca quis ser não está mais na minha vida, no meu apartamento, na minha cama toda noite. Ele decidiu que eu não era o bastante para ele. Mas talvez a verdade seja que ele não era o bastante para mim.
A libertação dessa nova realidade desperta dentro de mim. Finalmente, finalmente.
Quando volto a me mexer, quando volto a caminhar pela praia, algo mudou dentro de mim, algo permanente, acho. Espero. Volto para o hotel, para o pequeno bangalô que não fica muito longe da água. Pinto as unhas dos pés.
É verdade, eu hoje estou bem. Bem de um jeito diferente, suave, flexível, quente, como uma bola de massa fresca. Aconchego-me sobre mim mesma e me acomodo em um lugar profundo e confortável.
Pode ser que não dure.
Mas pode ser também que sim.