As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 32 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e um

2 DE MAIO DE 2010

ROSE, VIDA 5

 

Thomas e eu voltamos a nos ver — claro que sim. Fico esperando que Luke descubra a traição. Deixo um rastro de pistas: mensagens de texto, recibos, volto tarde à noite, não atendo o celular, deixo o laptop aberto com e-mails incriminadores na tela, à plena vista. Não importa o que eu faça, Luke não tira os olhos de Addie. Mesmo que eu praticamente use uma placa no corpo dizendo em letras garrafais, Luke, sua esposa está tendo um caso, ele não nota que algo mudou — que eu mudei. Eu gostaria de encontrar a coragem para deixá-lo, mas fico procurando pela Rose corajosa e não a encontro dentro de mim.

“Addie!”, grito.

Viro de costas por trinta segundos e de alguma maneira Addie passou de uma cadeira da cozinha para a mesa e está precariamente equilibrada. Eu a vejo cambalear, tombar para a frente. Quando está prestes a cair, eu a pego, gritando o tempo todo. E se não tivesse conseguido? Ela teria batido a cabeça e acabado com um traumatismo craniano? Ou pior, batido a cabeça e morrido? Aperto o corpinho dela com força, arfando, e ela começa a chorar.

“Está tudo bem, está tudo bem, a mamãe só se assustou”, sussurro em seu ouvido, e ela chora ainda mais. Eu a levo para o sofá e a coloco no colo, seu corpinho curvado enquanto chora. “Está tudo bem”, volto a dizer, e ela enterra a cabeça no meu pescoço. “Mas você não pode subir nas coisas assim, Funga-Funga. É perigoso, e a mamãe te ama demais pra você brincar assim.” A mamãe não suportaria te perder, minha linda.

Quando o choro de Addie se acalma, e meu pânico também, dou beijinhos no topo de sua cabeça macia. A imagem dela caindo não para de passar pela minha cabeça, a mesa parecendo cada vez maior, até ter três metros de altura, depois cinco, e minha Addie escorregando da beirada do penhasco na cozinha. Meu coração bate mais forte e eu a seguro com mais força, quero envolvê-la com meu corpo, fazer com que meu amor seja uma espécie de camada protetora.

Addie relaxa contra mim, com a respiração voltando ao normal.

Já senti esse tipo de amor por Luke. Eu me lembro de como senti isso na nossa lua de mel, essa possessividade, esse medo de que a qualquer momento eu pudesse perdê-lo, de que ele poderia morrer e meu coração ficaria partido para sempre. Estávamos deitados na cama, à tarde. Lembro que os lençóis brancos eram iluminados pelo sol que entrava pelas portas de vidro do nosso quarto. Era o tipo de tarde que só se podia ter numa lua de mel, em que todo dia se repetia o ciclo de acordar, comer, nadar, relaxar, comer de novo, tomar um vinho ou um drinque e se deleitar com a beleza e a liberalidade de um hotel impecável, especificamente pensado para recém-casados, para se desfrutar da companhia um do outro, para se fazer amor, curtir um ao outro e depois fazer amor de novo.

Luke e eu ríamos deitados ali, embora eu não lembre sobre o que conversávamos.

Mas lembro de olhar no rosto dele e pensar que era o mais lindo, o mais perfeito, o mais especial que eu já tinha visto, que ele era a pessoa mais importante de todo o universo, que eu jamais poderia perdê-lo, ou as coisas nunca mais voltariam a ficar bem. A sensação era como um lampejo abrasador, me queimando, gigantesco, deixando cicatrizes, produzindo uma mistura de dor, medo e desespero. Eu me lembro de ter pensado: será que esse é o tipo de amor que os pais dizem que sentem pelos filhos, mas que em vez disso eu sinto por Luke?

Agora que tenho Addie, sei que a resposta é ao mesmo tempo sim e não. Era e não era a mesma coisa. Era a mesma coisa no sentido de que é exatamente o tipo de amor que sinto por Addie, mas não era nem um pouco o mesmo, porque o Grande Amor que vivi na minha lua de mel veio e foi embora, enquanto o que tenho pela minha filha é permanente. Meu amor por Addie é aterrorizante, como um estado perpétuo de vertigem, uma sensação permanente de viver à beira do abismo.

Odeio isso. É exaustivo, o terror constante.

Também amo isso. Não trocaria esse amor por nada no universo. Sou um clichê ambulante, e não me importo. Quem se importa? Quem se importa quando uma pessoa descobre que um amor assim tão grande existe e é dela para sempre, para o bem e para o mal?

Addie se ajeita, vira o rosto para cima e abre os olhos, me encarando daquele jeito que aciona diretamente meu coração. “Oi, filha.”

Ouço a porta se abrir. Luke aparece, virando o canto que dá para a cozinha. Ele então nos vê, Addie e eu, do outro lado do cômodo, sentadas no sofá. Não, ele vê Addie, apenas Addie. Sou só um suporte para nossa filha. Poderia muito bem ser de plástico.

“Oi, Luke”, digo.

“Ah. Oi, Rose”, diz, pronunciando meu nome depois de um tempo. Como algo que pudesse ter esquecido ao sair para fazer compras, como ovos ou leite.

Como se termina um casamento?

É como tentar parar um trem lento, pesado, ameaçador, algo que leva uma eternidade até parar por completo. Seu movimento natural seria seguir em frente, estável, implacável.

Às vezes, acho que seria capaz de deixar Luke. De encontrar em mim a força necessária para largar mão, para dizer a ele: Não te amo mais, não do modo como deveria, não do modo como quero amar e ser amada. Terminar é a coisa certa a fazer, não é? E já não é hora?

Conto a ele sobre Thomas? Ou deixo essa parte de fora?

Contei a meu pai sobre Thomas. Ainda não consigo acreditar que fiz isso, mas fiz. Ele tinha acabado de chegar da oficina, e eu estava esperando por ele, sozinha na casa. Tínhamos combinado um de nossos jantares só nós dois. Minha mãe tinha ido à reunião do clube do livro.

Eu estava sentada na sala da casa onde cresci, com as mãos apoiadas nos joelhos, olhando para um dos porta-retratos numa mesa — dos meus pais, Luke e eu no nosso casamento. Estava tentando entender como era possível ter sido tão feliz com aquele homem e agora me encontrar na situação em que me encontrava, com uma filha que amava mas nunca havia desejado, tendo um caso com outro homem e traindo o marido que antes pensava ser minha alma gêmea. Eu estava chorando.

“Rose? Filha?” Meu pai estava parado à porta. “O que foi?”

Lágrimas rolavam pelas minhas bochechas, até meus lábios, meu queixo. Eu as enxuguei. “Nada. Desculpa. Só estou tendo um dia difícil.”

“O que aconteceu? Conta pra mim.” Ele se aproximou e se sentou comigo no sofá.

Isso me fez chorar ainda mais. Eu não podia contar ao meu pai no que estava realmente pensando. Como uma filha conta ao pai que estava tendo um caso, desde a gravidez, depois de parir e enquanto sua filha crescia? Debaixo do nariz de todo mundo? Como eu podia assumir tamanha enganação, tamanha traição? A única pessoa a quem eu havia contado sobre Thomas era Jill. Todo munda achava que Luke e eu estávamos ótimos. Tínhamos uma filha e estávamos vivendo um sonho!

“Aconteceu alguma coisa com Addie? Ou com Luke?”

Balancei a cabeça, me esforçando para respirar. “Não, não. Está tudo bem com Addie. Luke está bem.”

Meu pai foi até a mesa de canto, pegou uma caixa de lenços e me entregou.

Enxuguei os olhos e as bochechas. “Obrigada, pai.”

“O que aconteceu?”

“Acho que não posso contar.”

Ele me olhou com seriedade, me examinando. “Você pode contar qualquer coisa pro seu pai.”

“Você vai achar que sou uma pessoa horrível. Porque sou uma pessoa horrível.” Comecei a soluçar. “Mamãe ficaria horrorizada.”

Meu pai me abraçou com força. “Pode me contar”, ele sussurrou. “Prometo.”

Eu não conseguia me lembrar da última vez que meu pai havia me abraçado daquele jeito. Talvez aquilo não acontecesse desde o ensino médio, quando eu quebrara o tornozelo durante o treino e não pudera participar da competição estadual. “Estou tão cansada, pai”, disse a ele entre soluços, tentando parar de chorar, tentando respirar, com o ar entrando e saindo, devagar e sempre. Eu me endireitei e meu pai recolheu os braços. Enxuguei os olhos de novo e soltei o ar pela boca. “Não sei se quero continuar casada.” Disse isso de repente, um latido em meio ao silêncio. Baixei os olhos para o carpete e fiquei olhando fixo para os tufos de fibra cinza desgastada. Não queria ver a reação dele.

“Você e Luke estão tendo problemas?”

Balancei a cabeça. Meus olhos continuavam no chão. “Pai, eu amo outra pessoa.” Pronto. Eu havia dito. A única coisa que era ainda pior do que admitir que não queria mais continuar com meu marido. “Sou uma pessoa horrível. Por favor, não me odeie.”

Não sei o que eu esperava do meu pai — raiva, recriminação, decepção, choque. Qualquer outra coisa além do que ele perguntou a seguir.

“Qual é o nome dele?”

“O nome dele?”

“Da pessoa por quem você se apaixonou.”

Ergui o rosto e meus olhos encontraram os do meu pai. “Thomas”, falei, com a voz rouca de tanto chorar.

“Quanto tempo faz?”

“Muito tempo.” Eu sentia a vergonha subindo pela espinha, pelo pescoço. “Alguns anos.”

Meu pai pareceu refletir a respeito. Sua expressão era indecifrável. “Ele é bom para você?”

Pisquei. “Sim.”

“E você quer ficar com ele?”

“Sim.” Havia algo no fato de dizer aquilo para meu pai que finalmente me permitia reconhecer que era verdade. “Tentei parar de vê-lo mais de uma vez, só que nunca deu certo. Eu o amo demais.”

“As pessoas se apaixonam mesmo quando não querem, Rose”, disse meu pai. Depois perguntou: “Luke sabe?”.

Fiz que não com a cabeça.

“Acha que ele desconfia de algo?”

Pensei em todas as pistas que vinha deixando para Luke, de maneira negligente, como uma idiota, pensando que seria mais fácil acabar com meu casamento se ele descobrisse a respeito de Thomas. De repente, fiquei aliviada por ele estar tão envolvido com Addie que parecesse cego a tudo que eu fazia. “Acho que não”, respondi. “Luke anda muito distraído. Só consegue pensar em Addie.”

Meu pai suspirou. “E você não acha que é possível consertar as coisas?”

Neguei com a cabeça. “Acho que cansei de tentar, pai.”

“Certo. Bom.” Ele olhou para mim. Parecia triste. “Então você vai ter que criar coragem e acabar com esse casamento, Rose.”

“Eu sei”, sussurrei.

“Sinto muito que esteja passando por isso, filha. Sinto muito que você e Luke tenham acabado assim.”

“Eu também.”

Meu pai estendeu um braço e pôs uma das mãos no meu joelho. “Fico feliz que tenha me contado. Você sempre pode me contar tudo, Rose”, meu pai prosseguiu. “Sei que você fala mais com sua mãe, mas pode falar comigo também. Estou aqui por você.”

Lágrimas correram pelo meu rosto. Meu pai podia aguentar tudo que eu havia feito de mal, tudo que eu havia feito de vergonhoso, e ainda me amar. “Eu sei que sim. Sei disso”, falei, porque era verdade. Era impossível não saber.

Espero até que Addie esteja com os pais de Luke para contar a ele.

“Ei, você viu o estojo da minha câmera?”, ele me pergunta. “Aquele menor? Não estou encontrando em lugar nenhum. Talvez Addie estivesse brincando com ele e tenha enfiado em algum lugar. Ela adora aquele estojo.”

“Já procurou debaixo da mesinha de canto? Outro dia encontrei uns livros lá que achei que nunca mais fosse ver.”

Luke ri, balançando a cabeça, como se o fato de nossa filha enfiar coisas debaixo dos móveis fosse um grande ato de comédia. Essa Addie! É uma palhaça!

Fico irritada na mesma hora. Coisas mínimas, as menores e mais insignificantes reações dele, já fazem com que me sinta assim. A irritação, em toda a sua força, me recorda do que preciso fazer. Esta noite. Tem que ser esta noite. Agora. Chega de enrolar.

Estou na cozinha, como de costume, preparando um jantar elaborado: a lasanha da minha mãe, que envolve horas de preparação. Faço a massa, a brachola, o molho em que a brachola cozinha. Quanto mais meu casamento se desgasta, mais elaborada fica minha comida. É um modo de preencher o tempo, a distância, o silêncio entre mim e Luke.

Luke está indo para o quarto a fim de continuar sua busca quando digo: “Depois que encontrar o estojo da câmera, eu queria falar com você”.

“Tá bom”, diz ele, sem saber que sua presença começou a me incomodar, sem saber de que tipo de coisa quero falar.

Uma onda de culpa interrompe meu aborrecimento. Começo a acrescentar a farinha de rosca à carne da brachola, mas na pressa acabo colocando demais. “Droga!” Tento tirar a farinha, pressionando as palmas abertas contra a carne para que grude nela. Vou até a torneira e lavo as mãos, deixando-as debaixo da água quente até que comecem a queimar. Então as seco e me sento à mesa da cozinha. Deito a cabeça nos braços.

Pareço estar perdendo uma guerra que nem sabia que estava lutando.

Achei que seria capaz de aceitar o fim do meu casamento com Luke com certa graça, com a sabedoria dos anos que dizem a uma pessoa que casamentos acabam, mesmo os mais longos, mesmo os que começaram com um amor intenso que ambos os envolvidos acreditaram que duraria para sempre. Antes eu pensava que era diferente, mais forte, uma mulher com algo especial, feita de um material resistente aos modos como a vida pode nos atingir. Mas sou como qualquer outra pessoa: cansada, covarde, terrível. Capaz de coisas repreensíveis, de destruir uma vida construída com todo o cuidado com o homem que se tornou meu marido tantos anos atrás, e que agora é o pai da minha filha.

Levanto a cabeça. Sei que não tenho escolha a não ser passar por isso, mas como alguém consegue passar por isso?

Eu me levanto da mesa, da cadeira, e vou até o quarto. Ouço Luke mexendo em tudo, ainda procurando pelo estojo da câmera, agora no fundo do guarda-roupa, tirando coisas de lá. Moletons enrolados que devem ter caído do cabide há tempos. Sacolas com jeans que ele comprou mas nunca usou. Forço as palavras que vão começar a temível conversa a saírem da minha boca. “Luke, preciso ter uma conversa séria com você.”

Ele nem se vira. “O que foi?” Luke tira uma girafa de pelúcia do armário, olha para ela e a põe na mesa de cabeceira, depois volta a revirar a bagunça.

Aguardo. Ele continua procurando. Minha raiva aumenta, as pequenas faíscas dão início a um incêndio. Eu me permito absorver energia daí. “Você não pode parar por um segundo para falar com a sua esposa?” Sua esposa. É algo que tenho feito bastante nos últimos meses, falar de mim mesma na terceira pessoa. Parece que me referindo a mim mesma dessa forma, como a esposa de Luke, falando de mim como se fosse outra pessoa, Luke vai me ver com mais clareza, vai receber minhas palavras de modo diferente.

Ele joga uma camiseta velha e rasgada no chão, depois puxa uma meia sem par, então se endireita e vira. Arqueia as sobrancelhas, mas não diz nada.

“Quero o divórcio.”

Simplesmente solto isso. Deixo as palavras saírem. Essas palavras que vêm cozinhando dentro de mim há séculos. Eu as atiro pelo quarto, e elas caem aos pés do meu marido. É a impaciência no rosto dele que me leva a isso.

Luke cruza os braços, ainda segurando a meia sem par. “Mas e Addie?”

Fecho os olhos e respiro. Então volto a abri-los e começo a falar. “Quero falar sobre nós. Nosso casamento tem a ver com nós dois, Luke. Ou deveria ter. Mas não tem sido assim. Já faz um bom tempo.”

Ele fica em silêncio, me avaliando. Pensando.

Tive tantas fantasias sobre como Luke reagiria quando eu finalmente dissesse isso a ele; que ficaria furioso, gritaria, ficaria em choque, choraria, soluçaria até, imploraria para que tentássemos consertar as coisas. Silêncio e tranquilidade não tinham parecido uma possibilidade.

“Mas e Addie?”, ele repete. “Ela precisa de pai e mãe. Você sabe disso.”

E Addie? E Addie?, quero gritar. Em algum lugar lá no fundo, na melhor parte de mim mesma, há uma Rose que também pensa: Sim, precisamos fazer isso com cuidado, precisamos ter certeza de que vai ficar tudo bem com Addie, Addie é muito mais importante que eu e você, é claro que precisamos levar Addie em conta! Mas Addie não vai acabar sendo mais feliz sem o pai e a mãe infelizes juntos? Mas o que digo é bem diferente.

“Addie é a única coisa com que você se importa?”

Luke me olha como se eu tivesse pegado a maior faca da cozinha e a empunhasse sobre a cabeça de Addie — como se eu fosse Abraão ameaçando mutilar nossa filha. “Addie não é uma coisa”, diz.

“Meu Deus, Luke! Não foi isso que eu quis dizer! Você nem ouve minha pergunta, porque só pensa nela. Parece ter esquecido que há outra pessoa vivendo nesta casa. Alguém que por acaso é sua esposa.”

Sua esposa! Sua esposa!

“Uma esposa que aparentemente não quer mais ser minha esposa”, diz ele, sem emoção na voz.

Respiro, tentando instaurar um estado de calma no meu corpo. Apoio uma das mãos na parede, para me estabilizar. “Não, Luke. Não quero. Precisamos abrir mão deste casamento. Eu preciso. Nem existo mais pra você. Faz séculos. Desde que engravidei.”

“Você só está dizendo isso porque queria que Addie nunca tivesse nascido. Você nem a queria.”

Continuo respirando, lembro que tenho que agradecer o fato de Addie estar na casa dos avós, assim não pode ouvir o que seu pai acabou de dizer e o que eu mesma vou dizer agora.

“Você tem razão, Luke. Eu não queria Addie. Só concordei em engravidar porque não queria perder você, porque queria salvar nosso casamento. Mas acho que nosso casamento já estava acabado naquela época.” Tiro a mão da parede e dou um passo na direção dele. Quero que veja a expressão no meu rosto, a sinceridade nele. “Mas Addie… eu amo a minha filha, e você sabe disso. Sou uma boa mãe. Eu podia não querer um bebê quando ela nasceu, mas agora que tenho Addie não conseguiria imaginar um mundo sem ela. Então nunca mais diga isso, e nunca diga isso para Addie.” Quanto mais palavras deixam o meu corpo, mais forte eu me sinto, como se elas levassem consigo um veneno que vivia dentro de mim. “Estou feliz por termos Addie. Mas essa questão, a questão de ter um filho, acabou comigo, e você sabia que estava acabando comigo, mas continuou insistindo, mesmo assim. Por isso estamos aqui. Temos uma filha linda e um casamento morto.”

Luke descruza os braços. A meia cai sobre seu dedão esquerdo e escorrega para o chão. Ele vem na minha direção, mas desvia para passar pela porta sem tocar no meu corpo. Pega a mala de rodinhas do armário do corredor e a puxa pelo piso de madeira. Então começa a enchê-la.