As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 39 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e oito

18 DE JUNHO DE 2022

ROSE, VIDAS 3, 5 E 6

 

“Addie!”

Estou gritando e acenando. Assim como meu pai, ao meu lado. Addie se vira para nós enquanto atravessa o corredor com os outros formandos do oitavo ano, me dirigindo um olhar de súplica que diz: Sossega, mãe! Mas não consigo sossegar. Ela revira os olhos. Nem mesmo seu comportamento adolescente pode diminuir o prazer de ver minha filha de beca e capelo, subindo no palco com todos os seus amigos.

“Uhu! Uhu!” Bato palmas o mais forte possível, e minhas palmas ardem.

Meu pai se inclina para mim. “Rose, se eu tivesse feito isso quando você era nova, teria passado uma semana inteira sem falar comigo.”

Jill me dá uma cotovelada do outro lado. “Addie definitivamente vai te dar uma bronca mais tarde. É melhor segurar um pouco a onda.”

“Não estou nem aí”, digo aos dois. “Ela vai ter que aguentar a mãe constrangedora.” Olho em volta, para o auditório lotado. Vejo os pais de Luke do outro lado, tomando cuidado para que nossos olhares não se cruzem. Faz muito tempo que não nos falamos. “Além do mais, todos os outros pais estão fazendo a mesma coisa.”

“Bom, isso é verdade.” Depois de um momento, Jill pergunta: “E aí? Luke vai conseguir chegar?”.

Olho de novo para o outro lado do auditório, para a cadeira vazia ao lado dos pais dele. “Espero que sim.” Luke estava voltando de uma viagem de trabalho e se preocupava com a possibilidade de atrasos do voo e do trem, com o trânsito em geral. Ele nem sempre se sai muito bem em suas tentativas de conciliar as responsabilidades do trabalho com a filha que tem comigo e as duas filhas que tem com Cheryl.

“Mas é a formatura de Addie.”

“Eu sei. Eu sei.”

“Talvez ele a surpreenda”, diz meu pai, sempre otimista.

Minha amizade com Luke é, na melhor das hipóteses, imperfeita. Desde que ele teve outra filha, não dá tanta atenção a Addie quanto antes. Mas seguimos em frente, apesar das dificuldades, fazendo o nosso melhor para educar Addie juntos, para garantir que possa contar conosco, e até para que às vezes possamos contar um com o outro. Eu estaria mentindo, no entanto, se dissesse que não sinto certa liberdade com sua ausência, que isso não me libera para ser mãe de Addie como eu quiser. Sei que é egoísta, sei que Addie precisa que o pai esteja presente tanto quanto possível, mas também é verdade. Às vezes fico aliviada com a ausência de Luke.

A banda marcial da escola volta a tocar “Pompa e circunstância”. Os alunos lotam os bancos no palco. Meus olhos estão fixos em Addie, que é a quarta da esquerda para a direita na segunda fileira, ao lado de sua melhor amiga, Eve.

Meu pai balança a cabeça. “Não consigo acreditar que gosto desse corte de cabelo, mas gosto.”

Addie cortou o cabelo bem curto, deve estar com uns cinco centímetros de comprimento. Fui inteiramente contra a ideia, mas deixei que seguisse adiante — e ficou mesmo bom nela. Luke odiou.

A diretora Gonzalez pede que todos se sentem, e obedecemos imediatamente, como se também fôssemos seus alunos.

Jill se inclina para mim. “Não dá para acreditar que estamos na formatura de Addie… Eu me lembro de quando ela era só a nhoquinha.”

Faço que sim com a cabeça. Olho para meu pai. Vejo que seus olhos já lacrimejam. Sei que se eu disser alguma coisa vou começar a chorar, e aí vou realmente estar em apuros com Addie mais tarde, na hora da festa. Se fosse capaz de falar, eu diria a Jill que não consigo imaginar um mundo sem Addie. E pensar que cheguei tão perto de viver nesse mundo. Uma lágrima escorre pela minha bochecha. Eu a enxugo com a mão.

“Thomas vai vir à festa?”, Jill pergunta.

O bolo está no meio da mesa. É de chocolate e sem glacê — Addie não gosta de glacê. Numa fina camada de cobertura de limão, está escrito: Parabéns pela formatura, Addie! Eu o ajeito, para que fique bem centralizado em meio às outras comidas: cookies, pedaços de brownie e cupcakes de um lado, e do outro tigelas de salada, macarrão e as almôndegas preferidas de Addie, além de uma travessa funda cheia da brachola da minha mãe, que passei horas fazendo e que minha filha também adora. “Não.” Troco a posição da salada de espinafre com a de macarrão com brócolis. Não sei bem por quê. “Addie ficaria chateada se ele viesse.”

Jill pega meu braço quando vou mexer em outra tigela, para me impedir. “Está ótimo. Agora chega. A mesa está linda.”

Recolho a mão.

Ela está certa. A mesa está mesmo linda. Mais para o lado, há um guarda-roupa alto encostado na parede — lindo, simples, com um laço rosa-choque enorme em volta e um cartão enfiado na porta. É um presente do avô para marcar a entrada de Addie no ensino médio. Combina com o restante dos móveis que os dois fizeram juntos para o quarto dela. Addie vai adorar.

Jill e eu vamos até a ilha da cozinha. Ela abre uma das garrafas de vinho branco que comprei para os pais que vão vir à festa. Enche duas taças que estão sobre a bancada e me entrega uma. “Achei que as coisas entre Addie e Thomas estavam melhorando.”

Tomo um gole e desfruto do frescor do líquido ao mesmo tempo doce e amargo na garganta. “Estavam. Estão. Está muito melhor do que antes, já que o começo foi um terror, como você sabe. Nos últimos meses eles parecem mais amigos. Eu sabia que isso ia acontecer. Ele é maravilhoso com ela, tem sido tão paciente. Com certeza mais do que eu seria, no lugar dele, tendo que lidar com o filho de outra pessoa.”

Jill ri. “Com certeza.”

Confiro o telefone para ver se Luke mandou mensagem, mas nenhum sinal dele ainda. Suspiro e giro o vinho na taça. “Addie vai ficar arrasada se Luke não vier à festa.”

A campainha e meu telefone tocam ao mesmo tempo.

“Eu atendo a porta”, Jill se oferece.

Pego o celular. “Luke!”

“Estou indo! Chego logo mais!”, disse ele. “Addie me odeia?”

“É claro que não.” Um pouco. “Ela vai ficar feliz quando souber que você vai conseguir vir para a festa.”

“Posso ficar de fotógrafo pessoal dos amigos dela.”

Sorrio. “Addie vai adorar isso.” Vai mesmo.

“Acha que ela vai me perdoar?”

“Claro.” Claro.

“Que bom.”

Ouço Luke buzinando. “Dirija com cuidado!”

Desligamos.

Sua filha precisa de você, penso. Precisa de nós dois.

Sempre vai precisar, não é? Mesmo que ainda não perceba isso, mesmo que o que mais goste de fazer no momento seja revirar os olhos para os pais. Espero que Addie precise da mãe para sempre, porque sua mãe adora isso. Talvez todas as mães adorem.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Eu as enxugo com as costas da mão.

Sei que a minha adorava.