As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 21 de 42

Páginas do PDF

As nove vidas de Rose Napolitano

Vinte

5 DE AGOSTO DE 2008

ROSE, VIDA 5

 

A vista é espetacular.

“Estou tão feliz que tenhamos decidido fazer isso”, digo.

Estou tão feliz que tenha me perdoado. Que tenha voltado pra mim. Olho para Thomas de um jeito possessivo, voraz, como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento. Ele tira a mala do carrinho de bagagens e caminha até as portas de vidro que dão para o mar, então diz: “Este lugar é perfeito”.

“É mesmo.” Estou muito feliz. É uma bênção.

Será que sentimos que algo é uma bênção apenas quando sabemos que a felicidade é passageira? Que não vai durar, não importa o quanto desejamos que dure?

“Adoro estar aqui com você”, digo a Thomas.

Estou radiante. Nunca me sinto melhor do que quando estou traindo meu marido. Do que quando deixo para trás a bebê chorona que Luke tanto quis e me convenceu a ter apesar de todos os alarmes que disparavam dentro de mim, dizendo: Não, Rose, não faça isso, você se conhece bem e sabe que nunca quis ser mãe.

“Li que o restaurante daqui é maravilhoso”, diz Thomas, e me abraça por trás. “Vamos comer alguma coisa?”

Eu me reclino na direção dele, deixo que seu corpo forte sustente o meu, deixo que as ondas igualmente fortes de desejo se espalhem dentro de mim, então dou as costas para o mar agitado e levo Thomas para a cama. “Podemos ir comer depois”, sugiro, rindo, deitando-o nos lençóis brancos e finos, macios e frescos.

“Gostei da ideia”, diz ele.

A verdade é que eu amo Addie. Eu a adoro.

No dia em que ela nasceu, quando vi seu rostinho pela primeira vez, senti aquela onda de amor maternal de que as pessoas falam. Passei por tudo que dizem que se passa — possessividade, medo, necessidade, alegria, instinto de proteção, o desejo de apertá-la quase até sufocá-la, a combinação de emoções que levam a uma espécie de loucura maternal. Em seguida, tive a forte sensação de que nunca perderia aquela bebê de vista. Foi maravilhoso e horrível ao mesmo tempo.

Tudo isso foi rapidamente eclipsado pela realidade esmagadora de que eu agora seria mãe para sempre, de que não era possível devolver Addie. Eu tinha feito aquilo e agora a situação era permanente. A labuta diária, combinada com a eterna falta de sono, às vezes superava o amor, cuja magia era tão fugaz.

A única coisa que tem me mantido sã é Thomas. Depois que ele foi embora aquele dia no café, fiquei me perguntando se voltaria a vê-lo. Duas semanas se passaram sem notícias dele. Então, um e-mail longo e angustiado surgiu na minha caixa de entrada, ao fim do semestre letivo, no qual Thomas dizia que sabia que aquilo era errado, mas queria continuar me vendo, que não conseguia parar de pensar em mim, apesar de tudo. A onda de alívio que senti naquele dia foi quase tão potente quanto o amor que logo sentiria por Addie. Prometi a Thomas que nunca mais mentiria, e não menti. Não tenho mentido desde então.

Voltamos a nos ver, e, quando nos víamos, quando conseguíamos sair para jantar em algum lugar, ou ir comer um docinho e tomar um café, todos imaginavam que ele era o pai do bebê que crescia dentro de mim, me deixando cada vez mais redonda. Deixei que imaginassem. Para começar, não ia corrigi-los e explicar: Não, este não é o pai, só estamos tendo um caso.

Mais do que isso, percebi que gostava daquele segredo que era só nosso, do escândalo, da ideia de que as pessoas ficariam chocadas se soubessem a verdade. Fazia com que eu me sentisse melhor, como se um pouco da pessoa que eu costumava ser antes de me meter na confusão da maternidade continuasse se insinuando dentro de mim. Talvez muito dela, e não um pouco, e aquilo — Thomas e nosso caso — fosse a prova.

“Como está a conferência?”, Luke pergunta.

Estou à janela do quarto, olhando para o mar. Thomas está lá embaixo, no bar do restaurante, esperando por mim. O mar está escuro, a espuma branca se agitando. Uma tempestade deve estar a caminho.

“Ah, o mesmo de sempre. Cheia de homens de tweed falando sobre suas pesquisas incríveis.” Eu tinha ficado boa em mentir. Houve um silêncio do outro lado da linha, uma pausa para me lembrar do que eu deveria ter perguntado a Luke de pronto. Então pergunto, porque me importo, mas também para provar que não esqueci que tenho uma filha em casa. “Como está Addie? Tem comido bem?”

“Addie e eu estamos bem. Mas acho que ela sente sua falta.”

“Deve sentir falta da vaca leiteira.”

“Rose, você precisa falar assim?”

“Por que não? É um bom jeito de descrever as coisas.”

Addie começa a chorar. Posso ouvir seus berros, como se sua boca estivesse colada ao microfone. Por um breve segundo, meu coração se aperta e quero pegá-la no colo. É sempre assim comigo, quando se trata de Addie — resisto, mas na verdade é impossível. Quando estava grávida e a sentia chutando, se mexendo, havia momentos em que ficava maravilhada. Mas, muitas vezes, me ressentia de cada movimento que me lembrava de que ela estava lá.

“Tenho que ir”, diz Luke. “Boa sorte com a apresentação”, acrescenta, sem parecer muito sincero, depois desliga.

Envio uma mensagem para Thomas. Estou pronta. Chego em cinco minutos.

Quanto mais flagrantemente traio Luke, mais me sinto eu mesma. A Rose que eu era antes de ser empurrada para a maternidade luta para respirar, volta aos poucos. Posso senti-la se espalhando, preenchendo meus membros, afastando tudo que tenho de maternal. Pergunto a mim mesma se essa parte maternal vai acabar atravessando minha pele e caindo em uma pilha no chão, para depois alguém da limpeza chegar pela manhã, varrer e jogar no lixo.

Coloco um vestido que me orgulho de ainda servir em mim, considerando que dei à luz faz poucos meses. Então sorrio diante do espelho do banheiro, retoco o batom e desço para ter um jantar maravilhoso com o homem por quem estou apaixonada, o homem que por acaso não é meu marido nem o pai da minha filha. Não me sinto culpada. Deveria tentar me sentir, não deveria?

“No que está trabalhando?”, pergunta Thomas.

Olho para cima, estirada na espreguiçadeira da varanda encantadora da pousada, o ponto mais próximo do mar profundamente azul, que está calmo esta manhã, praticamente um lago depois da tempestade de ontem à noite. Há cadeiras e sofás coloridos por todo o deque, que é largo e comprido. Ao fim dele, está minha espreguiçadeira. No momento em que a vi, quando estávamos chegando com as malas, sabia que ia passar o fim de semana ali, lendo um livro ou escrevendo.

Thomas acabou de tomar banho e está lindo de jeans e malha. Ele se inclina para me beijar, e eu o puxo para a espreguiçadeira, quase derrubando o laptop no chão. “Cuidado”, diz ele.

“Já passamos do ponto em que éramos cuidadosos, não acha? Estamos no modo rebelião total.”

“Se isso é verdade, então gosto de me rebelar”, ele responde. “É a coisa de que mais gosto no mundo.” Thomas dá uma olhada na tela do meu laptop, abrindo-o mais um pouco para conseguir ver direito. “É um texto novo?”

“É. Comecei há algumas semanas. Mas estou só experimentando.”

Thomas coloca o laptop à sua frente e começa a ler.

Eu me recosto nas almofadas. O sol entra por baixo do teto da varanda, esquentando minha pele.

Nos últimos meses, Thomas e eu temos lido os trabalhos um do outro. É algo que me agrada em nosso relacionamento, o modo como podemos compartilhar essa parte de nossa vida. Luke parou de falar de trabalho comigo — tanto do dele quanto do meu — já faz um bom tempo. Às vezes, vou assistir aos jogos de futebol de Thomas, se consigo sair, ou ele me encontra para tomar café com Jill. Finalmente contei a ela sobre ele.

O rosto de Jill permaneceu impassível. Acho que ela nem ficou surpresa. Estava brava com Luke fazia tempo, queria que eu o deixasse. Acho que está torcendo para que finalmente faça isso, por causa de Thomas. Se fosse assim tão fácil…

A mãe de um bebê pode deixar o marido? Quanto tempo depois do parto isso é aceitável? Mas eu estava grávida quando tudo começou, e agora sou uma mãe recente que continua tendo um caso — até que ponto a situação poderia piorar se eu deixasse o pai da criança?

A água ondula ligeiramente, refletindo a luz do sol. Uma mulher sai de um carro, corre até a lojinha da esquina, sai um minuto depois com o jornal e vai embora. Uma menina de rabo de cavalo passa correndo.

Thomas ergue os olhos da tela do computador. “Este ensaio está bem diferente das coisas que você costuma escrever. Parece mais uma memória.”

Ele está de óculos, por isso não consigo ler sua expressão. Será que gostou? Não gostou?

“Talvez seja isso mesmo”, digo. As memórias de tudo que eu pensava sobre a maternidade antes de Addie, as emoções distintas que sinto agora que a tenho, todas as minhas inseguranças, minha raiva e meu ressentimento, emaranhados com meu amor por essa pessoinha que estará para sempre na minha vida. Foi difícil começá-lo, mas, depois que dei esse passo, tudo flui com facilidade. Pego a mão de Thomas, examinando as linhas profundas na palma. “Mas você gostou?”, pergunto. Antes que ele possa responder, começo a divagar. “Imagino que seja uma péssima ideia. Mas pensei que talvez nunca voltasse a trabalhar, depois de Addie. Pelo menos estou fazendo alguma coisa.”

Thomas deixa o laptop de lado na espreguiçadeira. Tira os sapatos e apoia os pés nela, de modo que estamos lado a lado, ambos de frente para o mar. “Gostei, Rose. Achei ótimo.”

Olho para ele. “Sério?”

Thomas faz que sim. “Sério. Queria saber escrever assim.”

“E sobre o que escreveria?”

Thomas fica quieto por um momento, enquanto o sol esquenta nossos corpos deitados, relaxados, curtindo. A ideia de que logo esse momento vai passar, de que vamos precisar retornar à vida normal, me vem à cabeça, mas eu a afasto.

“Acho que escreveria sobre minha família, minha infância nas montanhas. Minha relação com minha irmã. Não sei.” Ele tira os óculos escuros e passa a mão pelos olhos. “Ou talvez sobre por que comecei a pesquisar sobre o vício, o que me levou a isso. Todas as pessoas com quem estudei na escola cujas vidas acabaram sendo tão diferentes da minha.”

“Eu adoraria ler esse livro”, digo a ele.

Thomas se vira e beija meu pescoço. “Bom, eu adoraria ler o seu livro, então estamos quites. O que também significa que você precisa terminar de escrever.”

“É bom voltar a escrever”, admito. “Mesmo que eu não vá fazer nada com isso.”

“Acho que você vai fazer algo, sim”, diz ele.

Eu me aconchego no corpo dele. “Acho que, se eu tentasse publicar, Luke me deixaria.” Só depois de dizer essas palavras é que percebo a verdade que elas contêm.

“Então você tem mesmo que publicar”, diz Thomas, de um jeito que não tem nada de brincadeira.

“Mas aí… Addie… O que Addie vai pensar quando for velha o bastante para ler?”

“Rose.” Ele vira para mim. “Addie vai pensar que tem uma mãe que se esforça para entender o que significa para ela ter uma filha, depois de tanta resistência.”

Suspiro. “É exatamente isso que me preocupa.”

Tentei brincar de casinha por Luke, por Addie. Tentei ser uma pessoa doméstica, principalmente durante os primeiros dias, depois que voltei do hospital. Suportei todo o tempo longe da universidade, das aulas, da minha sala, dos meus colegas. Mas mal posso esperar para voltar, daqui a algumas semanas. Luke está me pressionando para tirar mais um semestre, mas venho dizendo a ele que não — de jeito nenhum. Nunca gostei da ideia de usar parte dos meus dias de licença obsessivamente acumulados para passar mais cinco meses em casa com Addie.

Esse tipo de licença não foi criado para que se possa ter um bebê. Foi criado para que se possa pesquisar, escrever um livro relacionado à pesquisa, aproveitar uma oportunidade de lecionar fora do país. Pesquisadoras sempre tiram licença para se tornar mães e depois têm dificuldade de voltar à academia. Eu nunca quis ser essa pessoa — e não ia me tornar agora.

Posso ter dado à luz e posso ter uma bebê, mas não há como mudar o fato de que sou uma mãe relutante e uma esposa mais relutante ainda.

Com Thomas e como me sinto em relação a ele é diferente.

Não fico nem um pouco relutante.

“Por que você está aqui?”, pergunto de repente a Thomas.

O sol mudou de posição. Ele se desloca uns quinze centímetros e volta a colocar os óculos escuros. “Como assim?”

“Quero dizer, o que está fazendo comigo? Sou casada. Sou mãe. Literalmente acabei de parir.” Depois que digo essas palavras, gostaria de poder enfiá-las de volta na boca. Estou tentando sabotar isso? Sabotar a mim mesma? Não estávamos passando uma tarde tranquila e agradável, descansando numa varanda encantadora?

Thomas se senta. “De onde veio isso?”

“Eu estava pensando em Addie. Em como não a queria, mas a tive, e em como estou tentando ser uma boa mãe e obviamente fracassando. Como mãe e como esposa.”

Thomas fica imóvel por um momento. “Acho que uma pergunta melhor seria: o que você está fazendo aqui comigo, Rose? Considerando tudo que você acabou de dizer.”

Eu me ajeito na espreguiçadeira, para encarar Thomas. “Não consigo parar de te ver. Mal suportei aquelas duas semanas que passamos separados, quando estava grávida.”

“Bom, eu vivo tentando parar de te ver, e não consigo”, afirma Thomas.

O pânico se acende em mim. “Você continua tentando?”

Thomas se afasta de mim, até que nossos corpos não se tocam mais. “Rose, eu disse a mim mesmo que não deveria passar este fim de semana com você. Que sempre que fazemos algo desse tipo as coisas só ficam mais difíceis. Eu disse a mim mesmo para ligar para você e cancelar.”

O pânico se transforma em mágoa. “Você quase cancelou? Considerou mesmo a possibilidade de perder esse fim de semana comigo?” Meu tom de voz sobe, ainda que eu não devesse estar surpresa. Eu o compreendo totalmente. Sou uma mulher casada e tenho uma bebê. O que ele está fazendo comigo? É bonito, divertido, gentil, bem-sucedido. Poderia ter muitas outras mulheres se quisesse, se tentasse.

“Mas não cancelei”, diz ele. “Você está chorando, Rose?”

Levo a mão à bochecha, e meu dedo volta molhado. “Acho que sim.”

“Quer me contar o motivo?”

“O mesmo de sempre.” Penso no dia anterior, em quando chegamos à pousada. Em como, no começo, o tempo que passamos juntos é sempre tão vertiginoso, tão emocionante, na excitação de termos conseguido duas noites juntos, 48 horas consecutivas, apenas Thomas e eu, e ninguém mais. Fico mais atrevida, feliz, sou eu mesma, e parece que vai durar para sempre. Então as horas desaparecem e minha felicidade se dissipa com elas. De repente, agora mesmo, consigo ver: o momento em que Thomas e eu vamos ter que nos despedir de novo, em que vamos ter que voltar cada um para sua casa, cada um para sua vida, e eu terei que ser mãe de novo, esposa de novo, alguém que não sou de novo. E ele vai voltar para seus amigos, sua universidade e seus colegas, para as longas conversas telefônicas que tem todos os dias com a irmã que nunca conheci, com os pais que ele ama tanto e que não têm ideia de que eu existo. Quando a bolha estoura, a separação é tudo que consigo ver.

Thomas fecha meu laptop e guarda na minha bolsa. Depois, estende a mão para mim. “Vamos”, diz.

“Aonde?”, pergunto, mas já sei. Vamos para o quarto, vamos para a cama, vamos fazer amor e depois ficar abraçados. É o que sempre fazemos quando a realidade bate à porta. E ela sempre bate.

Thomas não responde, só me leva lá para cima. Antes de chegarmos ao quarto, antes de abrir a porta e entrar, ele se vira para mim, me encara e diz: “Não vou a lugar nenhum, Rose”.

“Não?”

“Não. Acho que não consigo.”

“Por quê?”

“Porque eu te amo”, diz, simples assim, como se não tivesse nem que pensar a respeito. E talvez não tenha. Talvez não haja volta para nós dois.

“Eu também te amo”, digo a ele, porque não há volta para mim. Disso tenho certeza.

O único outro momento no fim de semana em que choro é quando tenho que ir embora, quando Thomas me deixa mais adiante na rua de casa. Eu o vejo ir embora, voltar à sua vida, uma vida completamente separada da minha. Sei que deveria me sentir péssima pelo que fiz no fim de semana — pelo que fiz a Luke, a Addie —, por toda a enganação. Mas não me sinto. Como posso me sentir péssima por amar tanto alguém? Alguém que me faz recordar quem eu sou de verdade?

Estou puxando a mala pela calçada, ainda a dois quarteirões do prédio, quando as lágrimas vêm. Quando falta só um quarteirão, estou chorando tanto que mal consigo respirar. Fico ali, na esquina, soluçando, enquanto as pessoas passam e encaram a maluca na calçada.

Há uma igreja perto de casa, pequena e linda. Entro nela, de mala e tudo. A luz que se infiltra pelos vitrais é vermelha, laranja, rosa, seus raios atravessando o espaço úmido e escuro, as partículas de poeira brilhando e dançando no ar. A igreja está vazia, a essa hora. Passo com a mala de rodinhas pela fonte de água benta e me sento no último banco. Me permito chorar até que não reste mais nada.

Então, quando finalmente recupero o fôlego, quando o verde, o amarelo e o violeta dos vitrais são iluminados pelo sol que se move, eu me levanto e levo minhas coisas de volta para a luz do dia, para a agitação das ruas da cidade, para o apartamento que compartilho com meu marido e minha filha, Addie. Entro no lugar em que preciso voltar a ser mãe, a única coisa que eu achava que nunca seria, a única coisa que nunca quis ser. No entanto, de alguma forma, aqui estou.