As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 5 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Quatro

22 DE SETEMBRO DE 2004

ROSE, VIDAS 1-9

 

“Rose, preciso falar com você.”

Luke diz isso depois de colocar um sushi de atum na boca, já mastigando e com os palitinhos preparados para pegar outro. É o preferido dele. Hot roll ou simples, com o peixe por fora ou por dentro. Às vezes, Luke só pede isso. “Um apimentado, um normal, outro normal”, diz ele ao garçom. Eu sempre tiro sarro dele por causa disso, e nós rimos. É uma dessas coisas bobas que você acaba amando no outro, só porque ele também é a pessoa que você mais ama no mundo.

Estou tão envolvida com minha própria variedade de sushis — muitos de salmão, alguns de enguia, alguns de olho-de-boi — que não registrei o tom de voz sério de Luke. “Você precisa dividir um pouco do atum comigo”, digo, distraída, apontando para a comida dele com os palitinhos. “Você tem uns vinte aí.”

Luke escolhe um hot roll e coloca no meu prato. “Rose, você ouviu o que eu disse?”

Sorrio. “Hum, ouvi?” Estou relaxada, curtindo o jantar de comemoração. Na semana passada, Luke teve sua primeira foto publicada por jornais de todo o país. Desde então, convites para trabalhos mais importantes têm surgido. “Desculpa, pode falar.”

“Ando pensando bastante em filhos”, diz ele.

Recosto o corpo na cadeira. “Filhos?” Fico chocada, como se a mera menção a tais criaturas equivalesse a avistar um unicórnio em meio aos clientes do restaurante. Inacreditável.

Luke apoia os palitinhos na molheira de shoyo. “Você acha que um dia pode vir a mudar de ideia? A gente talvez pudesse ter algo mais na vida, além de trabalho e amigos, sabe? Achei que talvez a gente pudesse… hum… rediscutir essa questão.”

Ele diz isso de maneira acidentada, com o tipo de prolixidade que, se eu visse no trabalho de um aluno, sinalizaria, pedindo que reescrevesse para deixar mais claro.

A pior parte é que odeio esse tipo de pergunta.

Luke sabe quanto odeio.

Sempre que digo às pessoas que não quero filhos, que Luke e eu não planejamos ter, olham para mim de um jeito estranho. Depois dizem algo condescendente, como que só vou descobrir meu verdadeiro propósito na vida depois de virar mãe. Como se as mulheres fossem, por definição, mães à espera. Como se virar uma mulher adulta fosse sinônimo de virar mãe, uma espécie de condição genética latente que só aparece quando a pessoa chega a uma certa idade. De repente, as mulheres percebem o que sempre esteve ali, apenas sem se manifestar.

Isso me deixa louca.

As pessoas nunca dizem esse tipo de coisa a Luke.

Minhas sobrancelhas se arqueiam, posso senti-las empurrando a testa para cima. “Mudar de ideia quanto a ter filhos?” Minha voz sobe uma oitava. “Você não me conhece?” Rio. Minha brincadeira fica sem resposta. Mais uma vez percebo que Luke está falando sério. “Por quê? Você mudou?”

Ele demora para responder. O bastante para meu estômago se revirar, para eu também pôr os palitinhos de lado e, na pressa, permitir que um escape e caia no chão. Nem me dou o trabalho de me agachar para pegar.

“Bom, ando pensando que talvez eu fosse gostar de ter um bebê”, diz Luke.

Meus lábios se abrem. O ar que entra e sai começa a secar minha língua, meus dentes. “Talvez?”

Ele dá de ombros. “Fico preocupado que a gente fique velho e se arrependa de não ter tido filhos.” Luke fala devagar, pronunciando cada sílaba com cuidado.

O garçom passa e coloca outro conjunto de palitinhos na mesa. Meu corpo esquenta. Não sei o que dizer a Luke. Ou melhor, sei, mas se disser vamos começar a brigar.

Só que, quando vejo a tristeza no rosto do meu marido, estendo a mão sobre a mesa. “Você sabe como me sinto em relação a isso, Luke. Não quero acabar discutindo esta noite.” Olho nos olhos dele. “Te amo tanto.”

“Rose.” Luke suspira tão pesado que acho que vai desabar sobre a mesa. “Também não quero brigar.”

O que eu queria dizer era para deixarmos o assunto de lado. Mas Luke parece ter entendido outra coisa.

“Você não pode só pensar sobre isso? Sobre ter um bebê? Sobre mudar de ideia? Quando a gente namorava e eu disse que não queria ter filhos, acreditava mesmo nisso. Nunca pensei que poderia mudar de ideia. Mas aí Chris teve um”, Luke prossegue, explicando como ver o melhor amigo da faculdade se tornar pai o afetou. “Fora que eu tenho feito sessões de fotos para outros amigos que também estão tendo filhos. Só consigo pensar em como seria ter um bebê com você, Rose. Não seria maravilhoso conhecer nosso filho? Não acha que teríamos um bebê incrível juntos?”

Não, não, não. Porque eu nunca quis isso.

“Você não quer isso também?”

Não. De jeito nenhum. Nunca.

Estou me esforçando muito para ouvir meu marido, para levar em conta seus argumentos explicando por que mudou de ideia. E eles parecem muito razoáveis. Porque são mesmo. Compreendo que uma pessoa acredite em uma coisa aos vinte anos e se dê conta de que quer algo completamente diferente mais adiante na vida.

O problema, claro, é que Luke precisa que eu compreenda seus motivos de uma maneira que me faça voltar atrás em todos os motivos que me dizem para fazer o oposto. O problema é que, para Luke realizar seu sonho recente de ter filhos, preciso me tornar a pessoa que tem esses filhos para ele.

Eu devia saber que essa conversa estava a caminho. Tinha havido sinais antes desta noite. Bastante evidentes. Mas o que eu fiz? Fechei os olhos, claro. Ao mesmo tempo, a mudança em Luke foi gradual. Sutil o bastante para permitir que eu vivesse em negação, e foi isso que fiz. É o que venho fazendo há um tempo. Luke tocou no assunto de filhos indiretamente, mantendo-o a uma distância suficiente de nossa realidade para que eu pudesse decidir ignorá-lo — como fiz. Mas acabei agindo como alguém que decide que, se ignorar o câncer que se espalha pelo corpo, não vai morrer dele.

Eu me lembro de quando Luke e eu passeamos de mãos dadas por Trastevere, em Roma. Precisávamos daquelas férias. Restaurantes com terraços encantadores ao ar livre se espalhavam pelas ruas, os clientes bebendo vinho e comendo pratos de massa deliciosos. Estava quente e úmido, mas eu não me importava. Luke e eu ficávamos nos esbarrando, daquele jeito agradável que acontece com os casais quando estão passeando, sem pressa, aproveitando a tarde.

O apartamento em que estávamos era pequeno e ficava no último andar de um prédio. Era praticamente só terraço, e adoramos aquilo. Fazia alguns anos que estávamos casados, e foi bom ter um descanso do trabalho, não fazer nada além de relaxar ali, com livros e revistas, comendo e bebendo a tarde toda, até estarmos cheios e tontos de satisfação. Um pouco mais cedo naquele dia, eu estava lendo um romance de mistério, estirada na sombra, quando Luke veio se juntar a mim. O beijo que ele me deu levou a outros e depois a sexo. A princípio, ficamos preocupados que alguém nos visse, mas então deixamos de nos importar com aquilo.

Era como se estivéssemos de volta à nossa lua de mel.

“Deveríamos fazer isso mais vezes”, comentei enquanto passeávamos pela rua. Fazia muito tempo que Luke e eu não ficávamos daquele jeito. Eu estava pensando que era exatamente por isso que tínhamos feito aquela viagem: para nos reconectar, para fazer amor no meio do dia se tivéssemos vontade — talvez para que tivéssemos vontade. “Deveríamos fazer isso todas as tardes.”

Os olhos de Luke brilharam. “Os vizinhos podem não gostar.”

“Podemos ser discretos. Fomos discretos!”

“Precisaríamos ser mais discretos”, disse Luke, mas eu sabia que tinha gostado da ideia. Que tinha adorado.

Demos uma olhada num cardápio exposto do lado de fora de um restaurante, seguimos em frente e olhamos outro. Minha barriga já estava roncando à espera do macarrão do fim do dia; minha boca, sedenta pelo vinho que iríamos tomar.

“Olha só”, disse Luke de repente. Ele estava apontando para um grupo de crianças, só meninos, de uns sete ou oito anos, jogando futebol no meio da rua. “As crianças não fazem mais isso nos Estados Unidos. Brincar assim.”

“Acho que não”, concordei.

E não disse mais nada.

Luke parou diante de um banco. “Quer sentar um pouco?”

“Pode ser”, falei, embora na verdade quisesse comer.

Uma leve apreensão havia entrado em minha corrente sanguínea no momento em que Luke começara a falar sobre os meninos jogando futebol. Os pais dele estavam pressionando para que tivéssemos filhos — quanto mais ele tentava fazê-los desistir da ideia, mais pressão eles faziam. Por um tempo, Luke reclamara comigo a respeito, dizendo como eles estavam sendo irritantes, mas então seus relatos daquelas conversas pararam. A princípio, presumi que ele tivesse conseguido se fazer ouvir, que os dois tivessem desistido e finalmente decidido respeitar nossa decisão de não ter filhos — eles sabiam que não queríamos ser pais desde o começo, antes mesmo do nosso casamento.

O que nenhum de nós tinha percebido na época era que os pais de Luke não haviam nos levado a sério. Eles acreditavam que mudaríamos de ideia. Acho que a mãe de Luke, Nancy, imaginava que eu iria acabar querendo um bebê, e tentava me instilar essa necessidade quando os visitávamos. Mas eu fechava a porta, explicando para ela — convictamente, veementemente — que não, aquilo não estava aberto a discussão. Como não cedi, ela e o marido, Joe, passaram a se concentrar no filho.

A princípio, foi um alívio. Achei que seria mesmo melhor se apenas Luke tivesse de ouvir aqueles tratados sobre as alegrias de ter filhos. Mas, depois de um tempo, comecei a me perguntar se todos os argumentos e toda a pressão estavam de fato fazendo com que ele mudasse de ideia.

Luke começou a comentar sobre as crianças à nossa volta, sobre os pais delas, o que faziam, como interagiam. Estava sempre tentando obter comentários meus em resposta. Ele queria falar sobre crianças, educação, sobre como os pais criavam os filhos. Será que estavam felizes com os filhos? Com a maneira como os filhos se comportavam? O que eu achava de tudo isso? Concordava com a maneira como eles falavam com os filhos, como permitiam que agissem?

Quando Luke fazia isso, eu sentia que estava lançando a isca, soltando a linha dentro do meu corpo, do meu cérebro, tentando ver o que poderia arrancar de mim. Eu não gostava de vê-lo cutucando com seu anzol afiado uma posição já definida. Eu torcia para que, se não respondesse, uma hora ele ia se dar conta de que não ia chegar a lugar nenhum. Estava determinada a acreditar que Luke não faria aquilo comigo.

Ficamos sentados naquele banco por um bom tempo, Luke vendo as crianças jogarem futebol, eu observando os adultos nos restaurantes, tomando vinho, comendo macarrão. Eu tentava evitar uma sensação desconfortável dentro de mim, mas então uma mãe passava com o bebê no canguru, depois outra, com uma criança em cada mão. De repente, havia mães e bebês em toda parte. Fechei os olhos.

“Você acha que seria melhor criar um filho aqui ou nos Estados Unidos?”, perguntou Luke. “Em teoria, se tivéssemos um filho.”

Toda vez que ele fazia algo do tipo, eu reagia imediatamente, me fechando por completo; nossa tarde de amor foi apagada e substituída por uma necessidade urgente de me afastar de Luke. Ele não percebia que estava me afastando? Que aquele era o único motivo pelo qual não tínhamos mais tardes de sexo gostoso? Por que ele não notava o quanto aquilo me deixava distante? O que ele estava fazendo comigo, com a gente?

Balancei a cabeça para ele, mas não disse o que de fato pensava. Não quero criar um filho em lugar nenhum, e você sabe disso, porque simplesmente não quero ter filhos e ponto-final.

“Talvez fosse diferente se morássemos no interior”, prosseguiu Luke. “Mais fácil. Se vivêssemos em uma cidade mais parecida com as cidades em que fomos criados.”

Ainda assim, não. “Hum…”

Eu me recusava a responder direito. Luke sabia como eu me sentia a respeito do assunto, não era preciso eu ficar me repetindo. Ou, pelo menos, eu achava que não.

Mas, pelo visto, estava errada.

“Não sei se a fotografia é o bastante para mim”, diz Luke. “Sabe?”

Por fora, confirmo com a cabeça. Mas por dentro, estou balançando-a em negação o tempo todo. Não, não, não. Não, não sei. E: Achei que eu bastasse pra você, Luke.

A expressão de Luke se alivia, se ilumina. Parece que ele volta a respirar. “Fico tão feliz que você entenda, Rose. Que esteja disposta a cogitar a ideia.”

Meus olhos estão arregalados. “Tá, tá”, eu digo, como uma idiota. “Vou pensar a respeito.” Não. Não. Nunca.

“Obrigado”, diz ele, comendo o último sushi. “Obrigado.”

Minha comida permanece intocada. Assinto de novo, levemente. Quase não consigo me mover. Tenho vontade de vomitar.

“Então você acha que tem uma boa chance de conseguir uma bolsa de pesquisa?”, ele pergunta, feliz, mudando de assunto. “Isso é ótimo!”

Procuro as palavras. E acabo encontrando. “Sim. Parece que sim. Seria ótimo.” Pareço um robô.

A conversa continua, truncada da minha parte, Luke tendo de fazer todo o trabalho para sustentá-la. Depois que pagamos a conta e vamos para casa, ele fala sobre o trabalho, sobre uma viagem a Boston que vai fazer no fim da semana, sobre como adora o atum daquele restaurante, sobre como o peixe lá está sempre fresco.

“Rose, estou tão feliz por termos conversado”, diz ele, quando vamos para a cama.

Eu o encaro, e noto o canto da foto na mesa de cabeceira dele, o arco de seu corpo inclinado cortando meu rosto feliz. Luke espera que eu diga algo. Que concorde com ele, imagino. De novo, tudo que consigo fazer é assentir levemente antes de apagar a luz. Meus olhos continuam abertos na escuridão. Me sinto sozinha, mesmo com Luke deitado ao meu lado. Como se o nosso futuro estivesse determinado, como se ele e eu já tivéssemos decepcionado um ao outro e ele já tivesse ido embora.