As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 16 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Quinze

25 DE SETEMBRO DE 2007

ROSE, VIDA 5

 

O restaurante está lotado, há clientes por toda parte, se espalhando pela rua ao atravessar as portas de vidro que dão para a calçada. A tarde que já cede espaço para a noite está perfeita: trata-se de um daqueles dias que não são típicos do verão, nem do outono. Quentes, mas não demais, com brisa, mas não vento, o ar fresco, mas não frio. Exuberantes. O tipo de clima no qual uma pessoa deseja mergulhar, que relaxa todos os seus músculos, alivia a pele. Um clima que faz qualquer um baixar a guarda.

Minha guarda está baixando.

Aonde isso vai parar?

Eu me esgueiro por entre a multidão animada, rindo, flertando, segurando taças de vinho, cantadas indo de um lado para o outro, de mulheres para homens, homens para mulheres, mulheres para mulheres e assim por diante. Infiltram-se em mim enquanto sigo até o bar, até que me sinto ensopada, minhas células absorvendo a luxúria, um pouco fora de forma, talvez um pouco fora de controle.

O bar comprido de mármore, brilhante e largo, está cheio, a não ser por uma única banqueta ao lado de um homem sozinho. Ele tem uma revista aberta diante de si, dobrada de modo que possa ler a página sem ocupar espaço demais. Seus dedos envolvem um copo baixo e largo, contendo um líquido dourado. Bourbon ou rye? A leitura mantém seu pescoço inclinado, expondo um trecho de pele entre o colarinho da camisa e a linha do cabelo.

Vou até ele.

A banqueta está reservada para mim.

Eu me sento sem dizer nada, apenas sorrindo um pouco para comunicar a alegria de estar ali, de ocupar aquele assento em particular. Coloco a bolsa no gancho sob o balcão de mármore e cruzo as pernas, deixando uma coxa sobre a outra, os joelhos expostos sob o vestido verde sem mangas, meu corpo girando na direção dele.

Na direção desse homem que não é Luke, desse homem que não é meu marido.

Thomas.

Uma parte de mim se pergunta se estou sonhando ou alucinando.

Thomas ergue o rosto, olha em meus olhos e retribui meu sorriso.

Não. Não estou alucinando. A sensação no meu peito me pega desprevenida, como se eu tivesse sido atingida por algo poderoso e afiado.

“Você veio”, disse ele, com a voz baixa e constante em meio à conversa alta e às risadas.

Tenho que me inclinar para mais perto para ouvi-lo.

A ideia era essa?

“Eu disse que viria.”

“Eu sei, mas…”

“Mas?”

“Achei que pudesse mudar de ideia.”

“Não. Nunca foi uma possibilidade. Eu ia vir de qualquer jeito.”

Seu sorriso se amplia. “Eu também.”

Estamos ambos sorrindo, como os estudantes de ensino médio que sempre vejo ao pegar o metrô depois da aula. Casais colados a paredes manchadas de água, no meio das plataformas, as bocas sedentas, chupando, lambendo, se beijando com entrega. Sempre me alegro com suas demonstrações desvairadas de afeto, com todo aquele desejo. Isso quase me faz ter orgulho deles. Sinto falta desse tipo de vontade, do tipo que eu e Luke sentíamos no começo, mas que logo se perdeu em meio à vida adulta, à agitação do cotidiano e à necessidade de tomar decisões domésticas como quem ia regar as plantas ou tirar o lixo. Em meio à dúvida quanto a quem ficaria com o bebê, e se haveria um ou não.

“É bom ver você de novo”, digo a Thomas, e começo a me dar conta do que estamos fazendo aqui. Minha animação, a energia em meu corpo com a proximidade de Thomas, está presente em cada palavra, em cada gesto. No bater dos meus cílios e no tom de flerte inconfundível da minha voz. Eu me imagino me inclinando para a frente, chegando mais perto, pressionando meus lábios contra os dele, bem ali no balcão, na frente de todo o restaurante.

Ele está imaginando o mesmo?

O atendente surge diante de mim. “O que deseja beber?”

“Tem sancerre?”, pergunto a ele.

“Tenho, sim.”

“Então uma taça, por favor”, digo.

Nem hesito.

Mas deveria. Teoricamente, eu deveria ficar horrorizada com uma atitude casual diante da catástrofe. Mas hoje à noite me sinto imprudente, estou sendo imprudente, recebendo todas as catástrofes possíveis, a calamidade tão perto e tão longe, parte dela me encarando com um par de olhos cor de avelã, mais para verdes que para âmbar, ao alcance do braço. Ao alcance do meu braço.

E acabo por esticá-lo.

Os dedos roçam um ombro e descem leves pelas costas.

As costas de Thomas. Thomas, que não é Luke.

“É muito bom ver você de novo, Rose”, ele responde, atrasado, como se cada movimento na direção um do outro, na direção de todas as coisas que não deveríamos estar fazendo — nos encontrando, nos sentando juntos num bar, pedindo bebidas, tocando um ao outro com os dedos, as mãos, o corpo —, como se cada um desses pequenos passos exigisse outro cumprimento, outro reconhecimento, uma aprovação bilateral.

O modo como Thomas fala, seu tom, me diz tudo que preciso saber. É claro e receptivo, uma abertura para tudo isso — ele, eu, nós dois juntos nesta noite linda, em um bar encantador —, cheia de promessa, carregando inúmeras possibilidades.

Como eu carrego um bebê.

Estou grávida.

“Acho que vou passar mal”, sussurrei para ninguém, ajoelhada no chão do banheiro, com o estômago revirado, as mãos trêmulas, meu corpo todo tremendo, como se fosse inverno, embora estivéssemos no meio do verão.

Luke e eu estávamos em um chalé à beira-mar que meus pais haviam alugado para o fim de semana, as ondas lá fora rugindo em meio a uma tempestade. Elas espelhavam a sensação na minha barriga, toda aquela água branca efervescendo, girando, borbulhando ao longo da superfície, batendo e voltando, batendo e voltando. Respirei fundo, deixando o ar sair, depois respirei fundo de novo. Os azulejos do banheiro brilhavam, brancos, quase me obrigando a fechar os olhos. Uma pia antiga se erguia do chão perto de mim, majestosa e grande.

Balancei o corpo para a frente e para trás, com as mãos na barriga, quase vomitando, mas não chegando a fazê-lo. Quando ia passar? Logo? Nunca?

Ouvi uma batida leve na porta. “Rose, você está bem?”

Não havia mais ninguém no chalé, além da minha mãe. Luke e meu pai tinham ido visitar um museu de helicópteros, um dos pontos turísticos daquela cidadezinha da Nova Inglaterra. Minha mãe dera a eles uma lista de coisas que precisavam comprar no mercado depois, de modo que ficariam um bom tempo fora.

“Não sei”, respondi debilmente, a respiração tão trêmula quanto minha voz.

“Posso entrar?”

“Pode.”

Apoiei a testa no assento da privada. É impressionante o que uma pessoa faz quando está passando mal — deitar a cabeça no chão sujo, descansar a bochecha na privada. O barômetro de nojo da pessoa fica descontrolado.

“Ah, querida! Você está verde! Comeu alguma coisa que não caiu bem? Será que foram os mariscos que comemos no almoço? Eu disse a seu pai que não devíamos comer num restaurante de beira de estrada.”

A menção a mariscos, o mero som da palavra, dura e feia, fez meu corpo inteiro se rebelar, e posicionei a cabeça sobre a privada. Nada ainda. Voltei atrás, descansando o antebraço e o cotovelo no assento branco e olhando para minha mãe. “Não sei o que foi.”

Ela se abaixou e se sentou de pernas cruzadas no chão. “Não se preocupe. Vai passar. E aposto que logo. Essas coisas nunca duram muito.”

A presença da minha mãe ao meu lado, sua disposição em se sentar no chão do banheiro para me fazer companhia, me trouxe mais consolo do que eu imaginava. É impressionante como um adulto ainda pode precisar da mãe. Uma onda de gratidão se espalhou pelo meu corpo.

“Será que foi a lagosta de ontem à noite?”, minha mãe perguntou a seguir. “Tomara que não. Você sabe como passar mal pode fazer a gente parar de comer uma coisa, e não quero que você pare de comer lagosta. Você sempre gostou tanto! Desde que era pequena. Lembra como adorava cutucar até tirar toda a carne das patinhas? Seu pai e eu ficávamos vendo você passar horas limpando uma a uma. Achávamos tão engraçado.”

“Mãe”, gemi, “chega de falar de comida.”

“Ah, verdade! Desculpa. Bom, vamos ver… o que mais?” Fez-se silêncio, mas eu sabia que minha mãe estava pensando em alguma coisa.

“O que foi, mãe?”

“Hum… Não sei se devo dizer.”

Ergui a cabeça ligeiramente, uma leve inclinação, o bastante para olhar nos olhos dela. “Agora você vai ter que falar. Por favor, mãe. Não aguento o suspense.”

“Talvez você fique brava.”

“Não tenho forças para ficar brava.”

“Você tem que prometer que não vai ficar chateada se eu disser no que estou pensando.”

“Mãe!”

Ela espalmou as duas mãos no chão e se inclinou para a frente, seu queixo chegando a centímetros da borda da privada. “Bom, é que me ocorreu agora que pode ser enjoo. Pode acontecer a qualquer hora do dia. Mas é claro que não pode ser isso, porque você não quer ter filhos, nunca quis. A menos que… você e Luke tenham mudado de ideia e estejam tentando engravidar, mas não contaram pra gente.” Ela voltou a se afastar, como se saísse do caminho caso eu decidisse atacá-la. Sua voz se reduziu a um sussurro. “Entendeu por que eu não queria falar?”

Naquele exato momento, depois de toda a ânsia, me debrucei sobre a privada e vomitei. Minha mãe me segurou firme até eu acabar. Depois me passou papel para limpar a boca. Ficamos sentadas ali, sem falar, enquanto a náusea passava e meu cérebro acelerava, em uma atividade frenética.

Eu podia estar grávida?

Sim, podia.

Merda.

Assim que a sugestão saiu da boca da minha mãe, eu soube que estava grávida. Era incompreensível que aquilo não tivesse me ocorrido durante a hora que eu passara sentada no chão, inclinada sobre a privada. Imagino que eu não estava querendo aquilo, que não tinha aceitado a ideia de que meu corpo poderia sucumbir à gravidez, como se minha resistência mental de alguma forma pudesse desligar algum interruptor no meu sistema reprodutivo; como se fosse tudo uma questão de fé religiosa, e eu fosse ateia no que dizia respeito a gravidez e maternidade. Toda a “abertura” recém-descoberta naquele sentido era uma atuação para Luke. Era eu dando corda para sua necessidade de um bebê e tentando impedir que nosso casamento terminasse.

“Querida? No que está pensando?”

“Que talvez eu esteja”, sussurrei, parando antes de dizer a palavra.

“Estou certa, não é? Você está grávida?”

Eu podia ouvir na voz da minha mãe, além da preocupação, o reconhecimento de que aquele era um terreno complicado e ela precisava tomar cuidado, um pingo de esperança, um traço sutil de maravilhamento e emoção. Eu finalmente ia fazer dela uma avó. A única coisa que ela queria, embora tivesse sido convencida de que jamais iria acontecer.

“Acho que sim”, respondi.

Em defesa à minha mãe, ela reagiu com uma pergunta, em vez de me dar os parabéns. “E como você se sente a respeito?”

Tentei ficar feliz, ligar o modo bebê. Tentei me deixar levar pela onda misteriosa de alegria da maternidade por vir.

Mas o que realmente senti naquele momento…

Foi arrependimento. Medo. Desânimo.

Raiva.

O que eu havia feito?

A palavra “aborto” ia e vinha da minha mente, como uma jangada de esperança.

Mas eu podia nadar até ela? Devia fazer isso?

Se Luke tivesse se mostrado disposto a esquecer por um minuto aquela obsessão por um bebê, o controle do meu calendário menstrual, as observações quanto a tudo que eu colocava na boca desde que tinha começado a tentar… Se tivesse deixado que voltássemos ao normal, se fosse de novo o Luke que eu havia conhecido e por quem havia me apaixonado durante a pós, que ficava feliz em fazer sexo comigo só porque estava fazendo sexo comigo, Rose, e não porque estava fazendo sexo com a possível mãe de seu filho… então talvez tudo parecesse diferente. Talvez eu ficasse mais feliz com a possibilidade de estar grávida.

Ouvi o som da porta da frente se abrindo e fechando, e as vozes abafadas de Luke e do meu pai.

Amassei o papel que tinha na mão esquerda. “Quero que você me prometa que não vai contar nada a ninguém, mãe.”

Ela se inclinou para a frente e beijou minha bochecha. “Eu prometo, querida. Te amo. Vai ficar tudo bem.” Ela me olhou com seriedade e demoradamente. “Está tudo bem.”

“Eu também te amo”, falei.

O atendente me entrega o vinho e pego a taça na mesma hora, para levá-la aos lábios. Tomo um belo gole, sentindo sua acidez deliciosa. Assim que desce pela minha garganta, tomo outro gole. O sabor pungente e pronunciado é perfeito na boca.

“Gostou?”, pergunta Thomas.

“Gostei. Já faz um tempo que não tomo uma taça de vinho”, digo. Desde que descobri que estava grávida, penso, mas não digo isso a ele. Ainda não dá para notar nem um pouco, graças a Deus. Logo, vou passar do período em que ainda posso fazer um aborto. É a primeira coisa em que penso todos os dias quando acordo. Aborto. Devo fazer? Vou fazer? Sei que não vou. Contei a Luke que seguiria em frente com a gravidez e estou seguindo. Mas não disse que seria perfeita.

Tomo outro gole e sorrio para a taça.

Resistência.

Essa é minha resistência, meu foda-se para Luke, que esta noite chega em uma taça bonita, parte da rebelião que venho conduzindo desde o momento em que vi as duas linhas naquela porcaria de teste, desde que me vi nesse lugar da mulher que dizia que não queria ter filhos e descobre que está grávida. Buchuda. Sempre odiei essa palavra ridícula. Deve ter sido um homem que inventou.

Mas só posso culpar a mim mesma, não é? É o que ganho por ter sido covarde, por morrer de medo de que meu casamento acabasse, de que Luke pudesse me deixar por alguma outra mulher disposta a lhe dar um filho. Esse é meu prêmio de consolação, os sinais de positivo e as linhas e os sins em varetas de plástico mergulhadas na urina. As consequências do meu medo de terminar sozinha.

Thomas puxa a banqueta um pouquinho mais para perto.

Isto, bem aqui, Thomas, é outra consequência. Thomas é a parte dois do meu grande foda-se.

Thomas e eu nos conhecemos durante uma palestra sobre a pesquisa dele, com patrocínio do meu departamento. Ele é sociólogo, como eu, em uma universidade do outro lado da cidade. Nossa conexão foi imediata, tanto que conversamos a noite toda no coquetel que se seguiu, até quase todo mundo ter ido embora, inclusive Jill, que também assistira à palestra. Quando Jill disse que era tarde e que estava indo embora, querendo saber se eu ia também, balancei a cabeça e disse que não, que ia ficar um pouco mais, o que a fez arquear as sobrancelhas como quem dizia: O que você está fazendo, Rose?

Naquela noite, eu disse a mim mesma que não estava fazendo nada além de conversar com um novo colega muito interessante, e que aquilo era bom. Mas, conforme a noite avançava e eu ficava mais alerta à proximidade, à voz, aos olhos e a todas as palavras que saíam da boca de Thomas, descobri que estava encrencada. Quando nos despedimos e trocamos números de telefone, uma parte importante de mim não estava preocupada com aquilo.

Agora, Thomas olha para o próprio copo, como se em dúvida.

Sobre o quê? Ser um homem solteiro num bar com uma mulher casada? Será que ele está reavaliando a situação?

Eu me aproximo um pouco dele, até que ficamos tão próximos que nossas coxas se tocam. Nenhum de nós se mexe.

Há uma imprudência em tudo que faço. Meu corpo está sendo tomado pelo bebê, e eu cedo esse espaço, só que ao fazer isso também cedo a outras forças externas, forças que decidi que estão além do meu controle, forças muito mais agradáveis, mais indulgentes, de modo que me entrego. Com voracidade.

Thomas ergue o olhar do copo. Depois de um segundo, olha para mim e sorri.

Ele não vai a lugar nenhum.

Dou uma espiada na revista que ele estava lendo e deixou de lado quando cheguei. “Sobre o que é esse artigo?”, pergunto. Quero saber tudo que Thomas tem para me contar. Tenho sede de tudo, sede dele.

Enquanto Thomas responde, tomo meu vinho. Quando acaba, peço outra taça.

Na tarde em que fiz os testes de gravidez, em que corri até a farmácia para comprar mais, em que virei café gelado e copos de água para fazer xixi repetidamente, Luke estava fora, em uma sessão de fotos. Quando ele voltou para casa, eu estava na cozinha, fazendo o jantar dele.

Tive o trabalho de preparar um banquete em comemoração e estava prestes a servi-lo. Carne do nosso açougue favorito, de primeira, que só comprávamos em ocasiões especiais; batatas trufadas e brócolis com alho na manteiga; champanhe, mais para ele, embora eu pretendesse tomar um golinho quando brindássemos a nosso futuro filho. A carne estava descansando no prato, ainda chiando, pronta para ser fatiada no sentido contrário à fibra, com a faca afiada que eu deixara ao lado. Eu havia cronometrado tudo perfeitamente, para o momento em que Luke passasse pela porta.

Eu devia estar animada com a notícia. Estava tentando me animar.

Tanto que minha cabeça chegava a doer.

“O que é tudo isso?”, perguntou Luke, aproximando-se pelas minhas costas. “Champanhe? Uau. Você comprou champanhe para uma terça à noite?”

Peguei a faca.

“Rose?”

Peguei um garfo com a outra mão, espetei na carne e comecei a fatiar, o sangue vermelho-escuro escorrendo pela louça branca com que convidados bem-intencionados haviam nos presenteado no casamento. Eu não podia falar. Não podia levantar o rosto, não podia olhar para Luke.

Ele tirou a faca da minha mão, depois o garfo, e deixou ambos na bancada. Então pôs as mãos nos meus braços e me virou.

“Por que você está chorando?”

“Não sei”, disse.

Mas eu sabia.

E Luke também.

“Fala”, ele insistiu, a preocupação se insinuando em sua voz, embora fosse incapaz de superar a animação que borbulhava por baixo.

Eu não conseguia falar, não conseguia responder. Queria morrer. Queria voltar atrás e desfazer o que tínhamos feito, o que eu tinha feito, voltar à briga idiota sobre as vitaminas e encerrá-la de outra maneira, deixando Luke, acabando com o casamento. Eu fora tola em achar que um bebê impediria que Luke e eu seguíssemos caminhos diferentes, porque ter um bebê ia nos distanciar do mesmo jeito. E, o que era pior, o que eu não tinha antecipado, mas deveria saber, era que ter um bebê ia me distanciar de mim mesma.

Eu podia vê-la: a Rose que eu realmente era, a verdadeira Rose, lutando para respirar, para encontrar sua voz, lutando por sua própria vida, presa dentro daquela outra Rose, mais recente, que tinha ficado grávida de um homem que nem parecia mais a pessoa com quem havia se casado. Aquela Rose que deixara de lado sua vontade, seus próprios desejos, a escolha que devia ter feito o tempo todo, mas que não fizera por falta de coragem.

Qual Rose ia ganhar?, eu me perguntava.

Enquanto estava ali, enquanto meu marido aguardava que eu respondesse, dissesse alguma coisa, qualquer coisa, me dei conta de que as coisas iam ter acabado daquele jeito de qualquer maneira. Luke só conseguiria o que queria se eu não conseguisse. Sua alegria, seu prazer seriam meu fim. Eu estava dando a Luke o que ele queria, mas fazia aquilo sacrificando a mim mesma, meu tempo, meu corpo. Eu tinha me sacrificado.

Mais lágrimas rolaram.

“Rose”, repetiu Luke.

“Desculpa”, falei, mas não era a ele que meu pedido se dirigia.

Tonta, tonta, tonta. Como eu podia ter sido tão tonta? Como podia ter feito aquilo comigo mesma? Por que tinha concordado? Por que não havia lutado mais por mim mesma, pelo que sabia que era verdade a meu respeito? Agora eu estava presa. Ia ter aquele bebê. A alternativa me marcaria como um monstro, um monstro ainda pior do que eu era antes, quando só não queria engravidar. Agora que estava de fato grávida, se abortasse o bebê — o bebê que Luke e sua família queriam tanto —, ia me tornar um monstro assassino de bebês. E o aborto obviamente seria seguido pelo divórcio.

A presença de Luke e seus braços na minha cintura eram como paredes se fechando sobre mim, como grades de prisão bloqueando meu corpo.

Eu me desvencilhei dele e fui até a mesa que havia posto tão lindamente. “Fiz um teste de gravidez”, contei afinal.

Ele se sentou a minha frente. “Imagino que tenha dado positivo.” Eu podia ouvir o desespero na voz dele, mesmo chorando.

E o odiei por aquilo.

“Sim”, consegui dizer.

Peguei a garrafa de champanhe, que tinha aberto antes de Luke chegar, e me servi de uma taça cheia. Bebi tudo, de uma vez só, como uma universitária virando cerveja. Sentir a efervescência esquentar minha garganta foi a primeira satisfação que tive o dia todo.

Luke me olhava, alarmado. “Rose, você não pode fazer isso.”

“Ah, posso, sim.” Me servi outra taça, enchendo tanto quanto podia sem derramar. “Esta noite, posso fazer o que quiser. Vou deixar para me preocupar amanhã com o que vou ter que parar de fazer para esse bebê ficar bem.”

Ele tentou pegar minha taça, mas eu a tirei de seu alcance, derramando champanhe no chão. A expressão no rosto de Luke — preocupação pelo bebê, claro, já tanta preocupação — aprofundou o ódio que se insinuava em mim. Ele passou a um esplêndido magenta, da cor de vinho tinto suntuoso.

“Amanhã então”, disse Luke, e se levantou para pegar um pouco da carne ao redor da qual havia uma poça de sangue, já endurecendo.

Thomas e eu conversamos no elegante restaurante. Sorrimos um para o outro. Pedimos comida e mais bebidas, nos preparando para a noite.

Eu não poderia estar mais feliz.

Dizem que a maternidade muda a pessoa por completo. Mas se o bebê que cresce em meu ventre realmente tem planos para mim, se ele ou ela pretende se livrar daquela mulher, daquela Rose, acho que isto sou eu reagindo, a verdadeira Rose tentando se salvar. Vou me transformar, claro, mas vou me transformar em uma mulher que trai o marido. Vou me transformar na Rose que se rebela contra tudo nisso. Na antimãe.

Meu primeiro ato oficial antimaternidade se dá no momento em que decido beijar Thomas, enquanto estamos os dois sentados aqui, bebendo, a noite caindo como uma névoa sobre a multidão, um véu de privacidade em meio às velas bruxuleando.

Eu me aproximo, de novo sorrindo, olhando nos olhos de Thomas, com os meus semicerrados, em desafio.

Dessa vez, quando nossos sorrisos se encontram, minha mão vai para sua nuca, meus dedos tocam o trecho de pele exposta sobre o colarinho. Percorro a distância para que nossos lábios se encontrem pela primeira vez.

E sinto um pedaço de mim, da antiga Rose, retornar.