As nove vidas de Rose Napolitano
Seis
Parte II
ENTRAM MAIS ROSES, VIDAS 2 E 3
Seis
15 DE AGOSTO DE 2006
ROSE, VIDA 2
Luke está de pé, no meu lado da cama. Ele nunca vai para o meu lado da cama. Tem um frasco de vitaminas na mão. E o ergue.
Ele o sacode, um chocalho de plástico.
O som é pesado e moroso, porque o frasco está cheio.
“Você prometeu”, diz Luke.
“Às vezes eu esqueço de tomar”, admito. Dou um passo para mais perto dele.
Os ombros de Luke caem. “Rose. Você prometeu.”
“Eu sei.”
“Então por que não está tomando?”
“Eu tomo. Mas não todo dia.”
Luke sacode o frasco de novo. “Está quase cheio.” Ele abre e dá uma olhada dentro.
Vou até a cama e me sento na beirada, uma esposa exausta, com a questão da futura maternidade sempre pairando, sempre no horizonte. Os tacos de madeira no chão refletem a luz. “Acho que só tomo de vez em quando.”
Luke vai até a cama e se senta comigo, fazendo o colchão ceder com seu peso e nos aproximar. “Achei que fôssemos tentar, Rose.”
“Eu disse que ia tomar as vitaminas. Foi tudo que eu disse.”
“Mas achei que isso significasse que você estava aberta à possibilidade de ter um bebê.”
“Eu estava tentando me abrir.”
Luke me encara. Sinto seu olhar, quente no meu rosto já quente.
“Eu estava tentando por você”, deixo mais claro. “Aí parei de tentar.”
“Por que não me contou?”
Eu pisco. Uma mecha de cabelo de Luke se destaca de um jeito que eu sempre adorei. A visão faz meu coração doer. Quero acariciá-la, como também sempre adorei fazer. Mas não faço isso. Não agora. “Fiquei com medo de contar. Sabia que você ficaria chateado. Estava preocupada com o que diria.”
O suspiro de Luke é pesado, longo e algo mais. Compreensivo? Frustrado? Desesperado? O frasco de vitaminas continua em suas mãos. “O que vamos fazer?”, ele pergunta.
“Não sei.”
“Sabe, sim.”
Dessa vez, é fácil detectar o que há na voz de meu marido: raiva, sarcasmo.
“Não seja assim”, eu digo.
“Assim como?”, ele retruca.
De repente, estou dividida. Sou uma mulher, uma esposa, partida em duas. Um lado de mim quer arrancar o frasco das mãos dele e jogar contra a parede com toda a força. O outro quer reparar esse problema que cresce entre nós e é irreparável, esse vão que nem eu nem Luke encontramos uma maneira de cruzar desde que começou a se abrir.
Um lado vai vencer o outro.
Estico o braço e pego a mão de Luke. Posso sentir, no momento em que nos tocamos, no momento em que eu o toco, que a raiva dele diminui.
A esperança, ainda que um fiapo, ressurge entre nós.
“Não fica pensando que vai me convencer”, repeti a Luke pelo que parecia ser a milésima vez. Naquela época, estávamos namorando fazia mais de um ano. “Nunca quis filhos e não vou mudar de ideia.” Eu queria deixar aquilo claro — inconfundível e irrevogavelmente claro.
Estávamos na casa dos pais dele. Lá em cima, no pequeno quarto de visitas, que também servia de escritório. Não era minha primeira vez ali, e sempre que voltávamos minha relação com Luke parecia um pouco mais séria, um pouco mais perto do para sempre. Estávamos prestes a descer para o jantar, que seria divertido e maravilhoso, porque naquela época os pais dele gostavam de mim.
“Também não quero filhos”, disse Luke. Ele também já havia me dito aquilo muitas vezes.
“Mas você tem que ser sincero.”
“Estou sendo sincero!”
“Está mesmo?”
“Estou. Para de duvidar de mim, Rose. É irritante.” Ele parecia aflito. “Fora que a fotografia é importante para mim. Se tivéssemos um filho, talvez eu precisasse fazer outra coisa. Já está difícil o bastante pagar as contas como fotógrafo… você sabe disso.”
“Isso seria inaceitável”, falei. “Você mudar de carreira.”
“Sim, por isso você precisa parar de falar sobre isso. Tem que confiar em mim.”
Estávamos de pé no espaço acarpetado entre a escrivaninha e a bicama. Eu não queria que aquilo evoluísse para uma briga, mas, sempre que tocava no assunto, algo tomava conta de mim, uma onda de raiva que subia pelo meu corpo e se alojava na minha garganta, até que eu a pusesse para fora. “Não é que eu duvide de você, Luke. Mas, depois de tantos anos, sei que ninguém acredita em mim quando digo que não quero ter filhos. É tipo a porra do Papel de parede amarelo. Ninguém acredita no que as mulheres dizem!”
“Rose, não fica irritada…”
“Tem gente que tem a coragem de me dizer que talvez eu ainda não tenha encontrado a pessoa certa, se não quero ter um filho com você! Mas tenho cem por cento de certeza de que não quero ter filhos e de que você é a pessoa certa para mim!”
O rosto de Luke ficou vermelho, daquele jeito que indicava que estava feliz. “Sou a pessoa certa para você”, disse ele. Uma declaração, uma proclamação de pura confiança.
Estávamos ambos tão confiantes.
“É sim”, confirmei. “Você é a única pessoa certa para mim.”
“Isso é tudo que importa”, disse Luke, sorrindo. Radiante.
O que me fez ficar radiante também.
Luke enlaçou minha cintura. Eu olhei para ele. Se eu soubesse a facilidade com que a adoração podia se transformar em ressentimento… Isso teria nos ajudado? Ou teria impedido até mesmo que nos casássemos?
“Te amo tanto”, falei, bem quando a mãe dele nos chamou para o jantar.
Ficamos noivos dois dias depois.
Se. Se.
Se amor fosse tudo que importa.
Tontos. Fomos tão tontos.
Ou só eu fui tonta? Por que Luke acreditaria no que eu dizia que queria quando ninguém mais acreditava? Por que seria a única exceção?
Luke se inclina e coloca o frasco de vitaminas no chão, no espaço entre a cama e a parede. Ele parece esquisito ali, fora do lugar. Solitário. “A culpa é minha”, diz ele.
“Do quê?”
“Eu prometi a você.”
Meus olhos se voltam para o perfil de Luke, sua bochecha, o único olho que consigo ver naquele momento. Você prometeu, Luke. Você prometeu. “O que você prometeu?”, pergunto. Sou uma pessoa terrível por querer que ele diga isso em voz alta? Por querer que se lembre de todas as conversas que tivemos antes de ficarmos noivos?
“Eu prometi que não queria filhos. Que entendia que você não ia mudar de ideia depois que nos casássemos.”
Fico perfeitamente imóvel, esperando, prendendo o fôlego, precisando que Luke diga mais, que siga em frente, que volte ao ponto em que costumávamos estar, o ponto em que nosso casamento começou, quando concordávamos que eu não precisava ser mãe para que nosso relacionamento funcionasse, nem ele precisava ser pai.
“E sei que não foi justo pedir para você mudar de ideia”, prossegue Luke. “Mas fiz isso mesmo assim, e agora isso está acabando com a gente.”
A palavra “acabando” me faz recuar. Dou as costas para Luke, com os olhos baixos, e o frasco solitário entra no meu campo de visão, aquela ilhazinha de plástico, à deriva, vulnerável. Eu poderia esticar o pé e chutá-lo, virá-lo de cabeça para baixo.
“Você acha que estamos acabados?”, pergunto, em um sussurro.
Luke fica em silêncio por um longo tempo. Tempo demais. O bastante para minhas costas começarem a se curvar, vértebra por vértebra, até meus ombros caírem. Luke se vira e estica um braço para o porta-retrato em sua mesa de cabeceira. Ele o pega e se vira, segurando minha foto entre nós.
Será que é uma provocação? Será que é o seu jeito de demonstrar tudo que perdemos? Meu estômago se revira. Será esse o momento em que Luke e eu terminamos, muito embora, ao nos casarmos, vivêssemos dizendo um ao outro que essa era uma das melhores partes do casamento, saber que nunca mais precisaríamos terminar com alguém?
Então Luke diz: “Não. Não acho que estamos acabados”.
Viro para ele, para o perfil que sempre admirei, com a testa se curvando ligeiramente para a inclinação suave do nariz. “Não?”
Ele balança a cabeça. Seus olhos estão fixos em mim, suplicantes. “Desculpa, Rose. Pode me perdoar? Pode ser paciente enquanto tento voltar ao que costumava pensar em relação a filhos?” Seu olhar se volta para minha foto. Ele passa um dedo pela moldura do porta-retrato, com todo amor. “Talvez seja minha vez de mudar de ideia de novo, e não você.”
Enquanto Luke fala, eu assinto. Uma lágrima escorre pela minha bochecha esquerda. “Posso, claro. Posso fazer tudo isso. Posso ser paciente. Eu te amo. Te amo muito.”
Luke se vira para mim. “Também te amo, Rose.”
Ele deixa o porta-retrato de lado e me envolve com os braços. É o abraço mais apertado que damos em muito tempo. O fiozinho de esperança que senti por um momento se alarga, se transformando em um rio.