As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 11 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Dez

10 DE OUTUBRO DE 2008

ROSE, VIDA 2

 

“Mãe?”, eu pergunto.

Minha mãe tira os olhos do livro. Está usando uma malha cor de abóbora, porque é outono e ela sempre se veste conforme as estações do ano e os feriados. Está em meio a seu “relaxamento” diário, que em geral envolve um livro ou o jornal e uma taça de vinho branco sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona da sala. O vinho é quase decorativo. Ela gosta da ideia da taça acompanhando o livro mais do que da bebida em si.

“Sim, querida?”

“Posso te perguntar uma coisa?”

Ela vira a cabeça com agudeza, fixando os olhos castanhos em mim, por cima dos óculos de leitura. Posso ver que despertei seu interesse pela posição de seu rosto, por seu olhar intenso e focado, ainda que tente parecer casual. Ela cruza e descruza as pernas, depois volta a cruzar, então decide se sentar em cima delas. Pega a taça de vinho e se acomoda. “É claro que pode. É para isso que servem as mães!”

Faço que sim com a cabeça, mas, por dentro, me pergunto: É mesmo? É para isso mesmo que servem as mães? Esse é o trabalho delas?

O cheiro de madeira da sala, com o baú de cedro avermelhado e os outros móveis — cortesia do meu pai, o marceneiro —, é familiar e me consola. É o cheiro de casa. Eu me sento no sofá e me preparo para fazer a pergunta, reunindo coragem. “Alguma vez você sentiu que… o papai talvez estivesse querendo te deixar?”, pergunto, depois engulo em seco. “Tipo, se divorciar? Por causa de outra mulher?”

Minha mãe apoia a taça fora do porta-copo, fazendo-a tinir. “Por que está me perguntando isso?”

Ih. O horror e o julgamento em sua voz deveriam me dissuadir de seguir em frente. Mas isso não acontece. “Porque… é que Luke, não sei… Acho que talvez ele possa estar infeliz. Comigo”, acrescento.

“Querida. Ele nunca a deixaria. Nunca poderia amar outra pessoa. Ele ama você.”

“Mas você e o papai nunca tiveram… dificuldades?”

“Claro que sim. Todo casamento passa por problemas. Mas a gente resolve. É o que se deve fazer.”

“Bom, como você e papai resolveram as coisas?”

O cabelo escovado dela balança ligeiramente, pendendo para o queixo conforme ela muda de posição. “Esse não é o ponto, Rose. Você não deveria se preocupar comigo e com seu pai, se você e Luke estão com problemas. Deveria se preocupar com o que pode fazer para deixar seu marido feliz…”

“Mas você acabou de dizer que ele me ama.”

“… e nós duas sabemos o que é, ainda que você não queira falar a respeito. Não acha que chegou a hora de enfrentar essa questão? Quer mesmo perder seu marido por pura teimosia? Faz um bom tempo que você não fala sobre o assunto comigo.”

“Mãe…”

“Um bebê. Você precisa ter um filho, Rose. Como acha que seu pai e eu resolvemos nossos problemas ao longo dos anos? Foi por sua causa. Nós éramos, e ainda somos, totalmente dedicados a você, ao seu bem-estar, ao seu futuro. Você é a cola que nos une.”

Inspiro profundamente, com alguma dificuldade. A vontade de me curvar e colocar a cabeça entre os joelhos é forte. “Mãe, não vou fazer isso. E Luke mudou de ideia. Ou pelo menos foi o que ele disse. Além do mais, essa não é a vida que eu quero, nunca foi. Você sabe disso.”

Minha mãe não para de piscar.

Ah, não. Eu a fiz chorar? “Mãe…”

“Fui uma mãe tão ruim assim?”

Pronto. De alguma maneira, eu sabia que terminaríamos aqui, motivo pelo qual sempre evito o assunto. Desde que Luke e eu nos casamos e minha mãe se deu conta de que o que eu havia dito ao longo de todos aqueles anos sobre não ter filhos era sério, ela não consegue afastar a ideia de que minha resistência à maternidade de alguma forma é uma resistência ao modo como ela me criou.

“Rose, você está atrasada.”

Eu tinha dezesseis anos e havia acabado de entrar pela porta da frente depois de ter saído com Matt, o namorado com quem vivia terminando e voltando durante o ensino médio. Minha mãe estava sentada à mesa da cozinha. Era pouco mais de meia-noite, e tínhamos ficado nos beijando. Meu pai devia estar dormindo. Eu esperava que sim. Odiava quando minha mãe ficava à minha espera. “Tipo, dois minutos.”

“Precisamos falar sobre a ordem das coisas”, disse ela, como se eu já devesse saber o que aquilo significava.

Eu me aproximei, morrendo de medo. Minha mãe tirou os óculos de leitura e os pôs de lado. Virou o livro para baixo, aberto na página onde tinha parado. Na capa, um homem de cabelos compridos abraçava uma mulher seminua. Argh. Eu odiava ter que testemunhar minha mãe lendo romances picantes. Ela tinha uma pilha deles em uma caixa debaixo da cama. Eu sabia disso porque os descobrira aos doze anos, quando comecei a querer saber mais sobre sexo. Por algum motivo, ela lia aquele tipo de livro, mas não os guardava na estante, junto com obras mais aceitáveis, como sua coleção de romances de Jane Austen. Era como se eles simplesmente desaparecessem depois que ela acabava de ler.

Minha mãe deu dois tapinhas na cadeira ao seu lado. “Senta aqui.” Ela afastou a própria cadeira alguns centímetros, deixando-a na diagonal em relação à mesa, depois fez o mesmo com aquela em que eu deveria me sentar.

“Tá, vamos falar sobre a ordem das coisas então.” Olhei feio para ela, para deixar claro que não queria estar ali, à meia-noite, tendo aquela discussão. Eu me sentei e cruzei os braços.

Minha mãe pareceu mais animada quando começou a falar. “Rose, você sabe que seu pai e eu queremos que você tenha uma boa vida, mais fácil do que a que nós dois tivemos.”

Assenti. Conhecia aquela história. Já a tinha ouvido antes, muitas vezes. Apoiei um cotovelo na mesa e uma bochecha na mão, entediada.

“Seu pai não fez faculdade, e eu também não fiz faculdade de verdade.”

“Aham.”

“Seu pai abriu a marcenaria sem qualquer ajuda das nossas famílias, e por anos sobreviveu de bicos, fazendo o que quer que aparecesse, enquanto eu dava aulas na escola, recebendo uma miséria.”

“Eu sei, mãe.” Meu tom era monótono. No entanto, sempre que a ouvia dizendo aquele tipo de coisa, principalmente se envolvia meu pai, eu sentia uma fisgada por dentro. Odiava pensar nele em dificuldades.

“Mas, com você, vai ser diferente”, minha mãe continuou falando. “Você vai para a faculdade. Para uma boa faculdade, uma faculdade de verdade. Vai estudar administração, se formar e conseguir um emprego na área de finanças.”

Minha mãe estava convencida de que, porque eu era boa em matemática, tinha que trabalhar com finanças. Nunca me perguntou se eu queria trabalhar na área.

“E, depois que isso acontecer, vai passar bastante tempo dando duro, fazendo carreira e economizando.” Ela parou de falar e me encarou, como se eu não estivesse escutando.

“Eu ouvi, mãe. Quando vamos chegar à ordem das coisas?”

“Já estamos falando disso.”

“Ah. Achei que você só estava falando de como a minha vida vai ser diferente da vida de vocês.”

“É parte da história.”

“Bom, você pode ser um pouco mais específica? Não estou entendendo direito.” Dei um belo bocejo para enfatizar que ficava cada vez mais tarde e eu estava com sono.

Minha mãe puxou a cadeira para mais perto da minha. “Rose, a ordem das coisas é: primeiro você entra na faculdade, depois se forma, depois consegue um bom emprego, depois se dedica a ele e economiza bastante, depois conhece alguém, depois se apaixona, depois se casa, depois, e só depois, faz sexo e tem filhos.”

Enquanto minha mãe falava, senti uma risada se formando dentro de mim. Mas, no segundo em que ela mencionou sexo e filhos, meus olhos saíram dela e passaram pelo restante da cozinha, pelo velho telefone de disco que estava na parede desde que eu nascera, o rádio e toca-fitas que ficava perto da pia, o móbile de conchinhas que até hoje fica dependurado no meio da janela. “Mãe, por favor, me diz que essa não é a sua versão de uma conversa sobre sexo.”

Ela começou a sacudir a cabeça.

Não? Sim? Eu não sabia dizer.

“Só preciso que você entenda que não quero que se apaixone por algum menino da escola e engravide, ou não vai ter uma vida melhor que nós. Isso não pode acontecer até que você tenha feito muitas outras coisas.”

Meus olhos estavam fixos na fruteira na beirada da ilha da cozinha. Montes de maçãs, bananas e laranjas. Sempre tínhamos muita banana em casa. “Não precisa ficar preocupada, mãe. Não vou engravidar de jeito nenhum.”

“Rose, não diminua a importância do que estou dizendo! Meninas engravidam o tempo todo, mesmo não querendo! E então” — ela estalou os dedos tão alto que até me assustei — “é o fim de todos os sonhos que tinham!”

Meus olhos voltaram para minha mãe. “Bom, o que estou dizendo é que você nunca vai precisar ficar preocupada com a possibilidade de eu engravidar, porque não quero ter filhos. Já decidi. Fim da história.”

Minha mãe recuou na cadeira na mesma hora, como se eu tivesse acabado de confessar um assassinato, ou como se tivesse ameaçado bater nela. “Rose, você não está falando sério!”

“Estou, sim.”

“Mas você é jovem demais para tomar essa decisão!”

“Não sou, não”, falei. Minha mãe ficou em silêncio, observando minha expressão. Eu me endireitei na cadeira. “Mãe, você não pode ter tudo. Não pode decidir que você e o papai querem uma vida diferente para mim, com todas as oportunidades que vocês não tiveram, e aí decidir meu futuro por mim.”

“Mas filhos são uma parte da vida! Toda mulher tem filhos quando tem idade suficiente. Depois de se casar, claro. E depois de ter se firmado na carreira.”

“Isso é o que você acha. Mas você também está sempre me dizendo que as mulheres da minha geração têm a chance de fazer diferente. Por que não em relação a isso também?”

“Mas eu não estava me referindo a filhos, quando falei de fazer diferente!”

Bufei. “Tá bom.”

“Sei que você pensa desse jeito agora, Rose, mas vai mudar de ideia.”

Ela parecia tão segura. Aquilo me deixou brava. “Não vou. Pode acreditar.”

Minha mãe deu risada, como se soubesse mais que eu. Tive vontade de pegar seu livro idiota da mesa e atirá-lo para o outro lado da cozinha. “Você vai mudar de ideia. Um dia vai se virar para mim e dizer: ‘Você estava certa, mãe. Sempre soube o que ia acontecer!’ .”

Eu me levantei da cadeira. “Vou pra cama”, anunciei.

Quase dava para ver o coração da minha mãe batendo acelerado dentro do peito. A expressão em seu rosto sugeria uma espécie de preocupação frenética. Fiquei me perguntando se ela ia me segurar e levar as mãos aos meus ombros, numa tentativa de transferir o desejo da maternidade do seu corpo para o meu. Mas ela apenas pegou o livro de volta, e o momento passou. Minha mãe desviou os olhos. “Boa noite, Rose”, foi tudo que disse.

Fiquei pensando se a tinha magoado. Mesmo quando ficava brava com a minha mãe, eu não queria magoá-la. Assim que segui para o quarto, suas últimas palavras da noite me alcançaram.

“Se você não quer ter filhos, Rose, é melhor parar de ficar rolando no chão a noite toda com Matthew.”

Lágrimas rolam pelo rosto da minha mãe.

Engulo em seco. “Mãe?”

Ela desvia o rosto. “O que foi, Rose?”

Eu a magoei de novo, e odeio isso. Às vezes esqueço que ela não é inatingível.

Os amigos da minha mãe sempre a descreveram como “durona”. E ela é mesmo casca-grossa. Quem não a conhece bem provavelmente não percebe como ela é sensível por dentro, a facilidade com que pode se machucar. Talvez aquilo que eu mais admire nela seja o seu ardor, seu jeito ardoroso de amar. Por isso, ela às vezes é possessiva e autoritária, mas também protetora e determinada. Quando eu tinha dezesseis anos, jamais teria dito a ela que a admirava, ou o quanto a estimava. Eu tampouco sabia na época que minha mãe receberia minha decisão como uma crítica pessoal. Que, ao esconder minha admiração e o quanto desejava ter a aprovação dela, um vale ia se abrir entre nós, cada vez maior.

“Acho que você não se dá conta, talvez porque eu não diga isso o bastante, ou talvez porque nunca tenha dito” — fecho os olhos, talvez para que as palavras saiam mais fácil —, “mas você é uma ótima mãe. Uma mãe maravilhosa. Sempre foi.”

“Fui? Sou?” Ela parece surpresa.

“Sim. E quero agradar você. Sempre quis. Quero que tenha orgulho de mim. Mas tem uma coisa que eu não posso fazer, e preciso que você me escute. Não posso ter um filho.” A casa fica em completo silêncio. “Não quero ter um filho, nunca quis… não tenho isso em mim. E não posso ter um bebê só para agradar ao Luke, por mais que queira fazer isso.” Minha voz vai ficando cada vez mais baixa. Os últimos vestígios da luz do sol brilhando através do carvalho na frente da casa desaparecem. Um cobertor de escuridão cai sobre o jardim, as janelas, os móveis se tornam sombras ao nosso redor.

Ela enxuga o rosto com um lenço. “Mas por quê, Rose? Por que você não quer ter filhos?”

Fico surpresa. É a primeira vez que minha mãe me faz essa pergunta, em vez de simplesmente se colocar contra mim. Mas o que posso dizer a ela? “É difícil explicar.”

“Tente. Por favor.”

Assinto, devagar. “Bom, tem os motivos que você já pode imaginar. Gosto da minha vida como ela está. Minha liberdade, meu trabalho, meus amigos, meu marido.”

“Mas essas coisas não precisam mudar se você tiver um bebê…”

Olho para minha mãe, séria, e ela para de argumentar.

“Desculpa. Estou ouvindo.”

“Não é só isso, mãe. Tem algo muito mais profundo.” Solto o ar. Seus olhos estão arregalados, e ela me observa com toda a atenção. “Todo mundo está sempre falando que as mulheres têm um instinto maternal”, começo a explicar. Minha mãe assente. “Bom, é como se eu não tivesse. Acho que nasci sem ele. Todas as minhas amigas, inclusive Jill, falam do instinto maternal como se soubessem exatamente do que se trata. Mesmo as que decidiram não ter filhos parecem entender esse desejo. Mas eu não. Não tenho isso em mim. Parece que ficou de fora da minha biologia.” Eu paro. É isso. A verdade. Não sei outra maneira de explicar.

“Mas, Rose, talvez você só descubra o seu instinto maternal depois que tiver um filho!”

“Parece uma aposta ousada demais, mãe.”

“Ter um filho é sempre uma aposta”, ela insiste. “É um salto de fé, mesmo quando você está morrendo de vontade de ter um, mesmo quando acha que ser mãe é seu destino.”

Eu me viro para o abajur perto do sofá. “Talvez seja uma aposta de qualquer maneira. Talvez eu esteja apostando que não fui feita para ter filhos, enquanto a maior parte das mulheres aposta que foi.”

“Talvez”, diz ela. “Mas acho que muitas mulheres se sentem como você, Rose. Mais do que você imagina. Mas elas seguem em frente e têm filhos mesmo assim, e depois ficam felizes por terem tomado essa decisão.”

Encolho os joelhos contra o peito. Inclino a cabeça de lado e observo minha mãe. Ela parece estar sendo sincera. “Sei que você quer um neto, mãe. Não é que eu não queira te dar um. Se pudesse, eu daria. Espero que saiba disso. E espero que continue me amando se eu não lhe der, porque acho que a verdade é que provavelmente não vou dar…”

“Ah, Rose, eu…”

“Eu gostaria muito que o mundo fosse diferente”, continuo, interrompendo-a. Sinto lágrimas se acumulando nos meus olhos. “Que as pessoas achassem tão normal uma mulher não querer ter filhos quanto querer. A pressão que eu sinto para ser alguém que não sou às vezes é forte demais. Eu sei que poderia fazer isso, se precisasse. Poderia dar um bebê a Luke. Mas tenho certeza de que não é o que quero. Eu gostaria de não sentir que essas são as escolhas que tenho à minha frente: fazer algo que não desejo para ficar com meu marido ou… deixar que meu casamento chegue ao fim.”

“Rose, meu bem! Sinto muito que tudo isso tenha sido tão difícil para você. E que eu tenha tornado as coisas ainda mais difíceis.” Minha mãe se levanta da poltrona e se senta ao meu lado no sofá. “Eu gostaria de poder voltar no tempo e ter te ouvido melhor. Gostaria de poder fazer algo para consertar isso.”

Essas palavras. Venho esperando para escutar algo assim dela há uma eternidade. “Tenho medo de perder Luke por causa disso, mãe.”

Sinto dedos nas minhas costas, traçando círculos. “Querida”, minha mãe diz, com uma voz tranquilizadora, a que sempre usava quando eu era criança e me chateava, ou quando eu caía e machucava o cotovelo ou ralava o joelho. “Estou aqui. Não importa o que aconteça.” Deixo que suas palavras sejam como um cobertor ao meu redor. “Eu te amo muito, Rose. Vou te amar não importa o que aconteça, prometo. E, se Luke não se der conta da mulher incrível que tem, com ou sem filho, é ele quem perde”, diz, parecendo indignada nessa última parte.

Enquanto ela fala, meu corpo se endireita, e de repente estou sentada com as costas eretas, mergulhada em sua voz, no modo como olha para mim.

“Você é dona de si mesma, Rose, e isso me dá muito orgulho.”

“Você tem orgulho de mim?”

“Ah, meu bem. É claro que sim. Você conquistou tanta coisa. Quem poderia imaginar que seu pai e eu teríamos uma filha doutora? Talvez eu só não diga isso o bastante.” Minha mãe estica o braço, pega um lenço de papel da caixa sobre a mesinha e assoa o nariz, fazendo barulho. Ela seca os olhos e começa a rir, depois dá um gole no vinho branco. “Agora que estou pensando a respeito, acho que é melhor você não ter filhos. Dá muito trabalho. A gente comete erros demais!”

“Mãe.”

“É verdade, Rose. Falhei quando você mais precisou de mim. Sou péssima!”

“Não diga isso. Você não é péssima. É meu porto seguro.”

“Ah, Rose! Está falando sério?”

“É claro.” Começo a chorar, mas rio também. Minha mãe puxa outro lenço da caixa e me entrega.

Ficamos ambas quietas. No silêncio, minha mãe de repente parece tão pequena, tão frágil. Sua malha é ridícula, a calça parece grande demais para ela, as costas de suas mãos têm rugas e veias azuis se destacando. Notar tudo isso me deixa triste e preocupada, como se eu pudesse perdê-la a qualquer minuto. Ela me faz sentir que não estou sozinha. Não enquanto ela caminhar pela terra.

Nesse exato momento, meu pai entra pela porta. “Como estão minhas meninas?” Ele está usando roupas de trabalho, a blusa suja de serragem e aparas de madeira. “Ih”, diz, quando vê as marcas das lágrimas em nossas bochechas.

“Estamos bem”, minha mãe o tranquiliza. “Só estamos tendo um momento.”

“Um bom momento”, eu digo.

“É bom ouvir isso.” Meu pai se inclina para beijar minha mãe, depois dá um beijo na minha bochecha e se endireita. “É preciso aproveitar esses momentos quando eles aparecem.”